José de Anchieta: O apóstolo da Colonização
2008-01-29 15:48:27

Mário Maestri*

José de Anchieta nasceu em Tenerife, nas Canárias, em 19 de março de 1534, no seio de uma família de posses, de doze filhos. Seu pai descendia de bascos nobres e sua mãe, de judeus conversos. Aos quatorze anos, foi estudar em Portugal, no prestigioso Colégio das Artes, anexo à Universidade de Coimbra, pois dificilmente poderia fazê-lo na Espanha, devido à ascendência materna degradante. Em 1551, com dezessete anos, entrou para a Companhia de Jesus, fundada no espírito da contra-reforma, havia pouco, em 1539, acompanhado por um irmão.
 

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Manuel da Nóbrega, primeiro provincial dos jesuítas no Brasil, chegara à Bahia com Tomé de Sousa, em 1549. Devido ao seu pedido de mais missionários, mesmo fracos de corpo ou de espírito, partiram com a expedição de Duarte da Costa, segundo governador geral do Brasil, em julho de 1553, o irmão José de Anchieta e seis outros jesuítas. Esperava-se que o clima do Brasil aliviasse as dores do noviço, que sofria de enfermidade osteoarticular.

Em janeiro de 1554, Anchieta participou da fundação do colégio jesuíta em Piratininga, no planalto paulista, embrião da cidade de São Paulo. Anchieta destacou-se, entre seus companheiros, pelo rápido aprendizado do tupi-guarani. Em 1563, acompanhou Nóbrega na viagem a Ubatuba, no Rio de Janeiro, para discutir a paz com a Confederação dos Tamoios.

Durante os meses que viveu na região, enquanto Nóbrega encontrava-se em São Vicente, compôs o célebre poema à Virgem Maria, de 5.732 versos latinos, De Beata Virgine dei Matre Maria – segundo a tradição escrito nas areias da praia, que o mar não apagava enquanto não concluía o verso. Sua legenda conta que, levitando diante dos tamoios, foi denominado de “padre voador” (abará-bebe) ou “homem de asas” (carai-bebe). A alcunha pode dever-se à velocidade com que Anchieta caminha.

Em 1559, Anchieta e Nóbrega teriam aconselhado o governador-geral Mem de Sá a condenar à morte o alfaiate e missionário calvinista Jean Jacques Le Balleur, que desertara, ameaçado de morte, da França Antártica, por pregar sua fé em São Vicente. Após longa prisão, em 20 de janeiro de 1567, no Rio de Janeiro, negando-se o carrasco a executar Le Balleur, José de Anchieta o teria estrangulado, com as próprias mãos, ato que constituiu, por longo tempo, entrave a sua beatificação. Biógrafos de José de Anchieta negam esse acontecimento.

Em 1566, José de Anchieta foi ordenado sacerdote, na Bahia. Em 1569, fundou a povoação de Reritiba, no Espírito Santo e, de 1570 a 1573, dirigiu o colégio dos jesuítas, no Rio de Janeiro. De 1577 a 1587, foi provincial da Companhia de Jesus no Brasil. Abandonou o cargo, por doença, retirando-se para a povoação que fundara, de onde foi chamado para dirigir o Colégio de Vitória do Espírito Santo, até 1595. Retornando a Reritiba, ali morreu, em 1597.

Anchieta escreveu ensaios, missivas, poesias, teatro. Em homenagem à expansão do colonialismo luso-cristão no litoral, redigiu, em latim, o poema apologético Os feitos de Mem de Sá, sobre os primeiros anos daquele governador no Brasil, impresso em 1563, em Coimbra. No poema, cantou o massacre e a submissão, a ferro e fogo, dos nativos do litoral, e a derrota dos franceses da Guanabara, em março de 1560, fatos apresentados como obras da vontade e da intervenção divina. Os feitos de Mem de Sá teria sido o primeiro poema impresso escrito no Brasil.

Entre a obra de José de Anchieta destaca-se a Arte de gramática da língua mais usada na costa do Brasil. Escrita a pedido de Manuel da Nóbrega, e concluída em 1555-6, ela foi publicada, em 1595, também em Coimbra, por Antonio de Mariz. Essa gramática da “língua geral” – “abanheenga” – usada, na compreensão de Anchieta, pelos tupi-guaranis do litoral, tornou-se obra de referência para os missionários interessados em aprender aquele idioma.

Apenas morria, iniciava-se importante produção apologética sobre a vida e obra de Anchieta, em geral da pena de jesuítas. Entre os mais destacados estudiosos recentes de Anchieta encontram-se os jesuítas Hélio A. Viotti, autor de Anchieta: o apóstolo do Brasil; Murillo Moutinho, responsável pela Bibliografia para o IV Centenário da Morte do Beato José de Anchieta: 1597-1997 e Armando Cardoso, autor de Vida do padre Anchieta. José de Anchieta, conhecido como “apóstolo do Brasil”, foi beatificado pelo papa Woytila em 1980, após movimento iniciado havia quatro séculos.


* Mário Maestri, 59, é professor do Curso de História e do PPGH da UPF. E-mail: maestri@via-rs.com.br É autor de O senhores do litoral: conquista portuguesa e agonia tupinambá no litoral brasileiro. 2 ed. Revista e ampliada. [Porto Alegre: EdiUFRGS, 1995]. 

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