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Um governo de MENTIRA
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Cristina Moreno de Castro, do Tamos com Raiva

O Centro pela Integridade Pública (CIP), uma organização norte-americana sem fins lucrativos e que faz investigações jornalísticas “a fim de tornar o poder institucional mais transparente”, divulgou anteontem um estudo sobre as justificativas de Bush para a invasão do Iraque.

Segundo o Centro, “George W. Bush e sete de seus principais oficiais administrativos, incluindo o Vice-Presidente Dick Cheney, a Conselheira de Segurança Nacional Condoleezza Rice, e o Secretário de Defesa Donald Rumsfeld, fizeram pelo menos 935 declarações falsas nos dois anos seguintes ao 11 de Setembro de 2001, acerca da ameaça à segurança nacional provocada pelo Iraque de Saddam Hussein.” (grifo meu).

Por que falsas declarações? Em 532 ocasiões diferentes, Bush ou seus principais oficiais disseram que o Iraque possuía (ou estava em vias de possuir) armas de destruição em massa, relações com o Al Qaeda, ou ambas as coisas.
Ora, depois de diversas investigações da própria Comissão do 11/9 e depois de quase cinco anos de invasão sangrenta e morte de civis iraquianos, já é sabido (e confirmado pelo próprio Bush) que o Iraque NÃO possui esse tipo de armas e que Saddam encerrou seu programa nuclear em 1991. Nesse caso, se Bush e sua equipe já sabiam disso – o que é o mais provável –, eles iniciaram uma guerra com base em informações mentirosas. Graças a deus existe a História para proporcionar esse tipo de estudo!

Os números registrados pelo Centro são impressionantes e preferi registrá-los num quadro, para facilitar a visualização. É bom reiterar que se tratam de declarações dadas no curto intervalo entre o 11 de setembro de 2001 e o setembro de 2003, seis meses após o início da invasão norte-americana no Iraque:

Falsas declarações do Governo Bush
Governo Bush (set/01 a set/03) George W. Bush (Presidente dos EUA)     Colin Powell (Secretário de Estado) Donald Rumsfeld (Secretário de Defesa) Ari Fleischer (Assessor de Imprensa da Casa Branca) Paul Wolfowitz (Assessor do Secretário de Defesa) Condoleezza Rice (Conselheira de Segurança Nacional) Dick Cheney (Vice-Presidente dos EUA) Scott McClellan (outro Porta-voz da Casa Branca)
Declarações ligando o Iraque ao Al Qaeda ou a armas de destruição em massa.

260

 declarações falsas

254

declarações falsas

109

declarações falsas

109

declarações falsas

85

declarações falsas

56

declarações falsas

48

declarações falsas

14

declarações falsas


Dentre esses funcionários da Casa Branca, apenas Rice se mantém até hoje junto a Bush. Ela ocupa o lugar de Colin Powell.

Esse estudo pode ser mais bem visualizado no sistema de buscas do Centro, por meio deste link. Clicando aqui, é possível ler algumas das declarações mais importantes e decisivas nos momentos estratégicos em que foram emitidas.

Por exemplo: em 28 de setembro de 2002, menos de seis meses antes da “Guerra”, Bush declarou o seguinte, numa estação de rádio: “O regime iraquiano possui armas biológicas e químicas, está reconstruindo as facilidades para produzir mais e, de acordo com o governo britânico, poderia encetar um ataque químico ou biológico em questão de 45 minutos depois de a ordem ser dada. O regime possui vínculo antigo e contínuo com grupos de terroristas e existem terroristas do Al Qaeda dentro do Iraque. Esse regime [de Saddam Hussein] está em busca de sua bomba nuclear e com o material de fissão poderia construir uma em um ano”.

O centro também possui registro em vídeo desse tipo de declarações. E não só ele. Michael Moore, por exemplo, foi um dos que se preocuparam em registrar as aparições de Bush e seus comparsas e, com elas, montar um rico documento, lançado em 2003 como “Fahrenheit 9/11”, vencedor de melhor filme no Cannes 2004.

Hoje, depois de saber que Bush levou milhares à guerra e matou quase 90 mil civis (www.iraqbodycount.org) iraquianos com base em 935 mentiras, resolvi assistir mais uma vez ao documentário de Moore. Para quem ainda não viu, vale traçar, durante duas horas (fora os extras) um paralelo entre a fraude que levou Bush (e não Al Gore) à Casa Branca, o desastre das Torres Gêmeas, as relações íntimas e comerciais entre a família de Bush e de Cheney e a família de Bin Laden (que atrasaram a corrida ao principal suspeito pelo ataque), o aumento da censura e das privações depois do 11/09 (Patriot Act), a imposição do medo e, por fim, satisfatoriamente para Bush, a invasão do Iraque e controle de 75% do lucro das petrolíferas que antes estavam nas mãos de Saddam.

É meio óbvio, vendo de fora. Quer dizer, um país não invade o outro sem um apoio maciço da própria população. Sem que trocentos soldados se alistem e não haja oposição no Congresso e um poder semiditatorial seja entregue ao presidente do país invasor. Como conseguir um apoio quase maciço de um país com mais de 300 milhões de habitantes (e bem espelhado numa mídia pouco crítica naquele início de guerra)? Como se impor, primeiro ao Afeganistão, depois ao Iraque, contando com o apoio inclusive da Inglaterra? Com manipulação do terror.

No documentário de Moore, o deputado e psiquiatra Jim McDermott diz algo que faz pensar: “O povo amedrontado faz qualquer coisa”. Se seu presidente martela em sua cabeça durante meses a fio que existe uma ameaça externa, que você é potencial vítima de terroristas árabes e que tudo é controlado por Saddam Hussein, você pode apoiá-lo, em “legítima defesa”, na promoção de uma invasão de um outro país soberano. É o que Bush percebeu e fez, muito bem feito. No documentário, antes de dar uma tacada numa bola de golfe, Bush diz a plenos pulmões: “We must stop the terror!”. Antes, já havia jurado que “o mundo mudou depois do 11 de setembro, porque não estamos mais seguros”. E ao longo de pelo menos oito meses antes da invasão, esse medo é atribuído ao Iraque, a Saddam, ao Al Qaeda, e às suas terríveis bombas atômicas que não existiram.

O vídeo do Youtube que usei para ilustrar este artigo (disponível no Tamos com Raiva) contém todas as referências ao Iraque, já destrinchadas como FALSAS – na ordem –, ditas por George Bush em um único discurso, de 11 de setembro de 2006. E, como vimos, Bush e seus comparsas fizeram, ao todo, 935 discursos como estes, só até setembro de 2003 (esperemos nova contagem do centro pela Integridade Pública já somando os discursos até 2008...). O gráfico abaixo, presente no estudo do Centro, ilustra bem a abrangência das mentiras:



Agora a pergunta final: se um governo é capaz de iniciar uma guerra com base em mentiras, o que mais ele pode fazer do mesmo jeito? Por exemplo, explodir o World Trade Center? A História, um dia, também há de revelar esse tipo de mentira... 

 

01.2008

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 Publicado em: 2008-01-25 por cristina, última modificação em: 2008-01-25 por cristina

 

 

     

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