Vade retro, Preconceito!
Cristina Moreno de Castro, do Tamos com Raiva
No último dia 14, um artigo publicado por Charlotte Hunt-Grubbe no jornal britânico The Sunday Times escandalizou a sociedade com as opiniões do biólogo e ganhador do Prêmio Nobel James Watson. Ele diz que está pessimista em relação ao futuro da África porque "todas as nossas políticas sociais se baseiam no fato de que a inteligência deles é igual a nossa – enquanto todos os testes dizem que não".
Acrescenta que seria bom se todos fossem iguais, mas "as pessoas que têm que lidar com empregados negros descobrem que isso não é verdade". Diz que não se pode discriminar com base na cor, porque "existem muitos negros que são muito talentosos, mas não os promova se eles não forem bem sucedidos nas primeiras etapas".
Por fim, conclui a linha de raciocínio: "Não há razão firme para crer que as capacidades intelectuais de pessoas geograficamente separadas evoluam de maneira idêntica. Nosso desejo de considerar poderes iguais de raciocínio como uma herança universal da humanidade não vai se prestar a isso".
Watson ganhou o Nobel por ter descoberto a estrutura do DNA e perdeu o respeito da sociedade científica por dizer bobagens como esta e por defender bizarrices, como o aborto "se a mãe souber que o filho vai nascer homossexual".
No último domingo, reportagem de Silvana de Freitas, da Folha de S. Paulo, tornou pública a postura machista do juiz de Sete Lagoas (MG) Edílson Rumbelsperger Rodrigues em decisões sobre casos de agressão contra mulheres. Por considerar a Lei Maria da Penha (Lei 11.340/2006) inconstitucional (com base em "julgamento histórico, filosófico e até mesmo religioso"), o juiz negou, por repetidas vezes, a vigência da lei em sua comarca, que abrange oito municípios e cerca de 250 mil habitantes. Até agosto, mais de 20 casos foram parar no Tribunal de Justiça de Minas Gerais para julgamento de recurso.
Entre as aberrações ditas por Rodrigues em uma de suas sentenças, há as seguintes pérolas: "A desgraça humana começou no Éden: por causa da mulher, todos nós sabemos, mas também em virtude da ingenuidade, da tolice e da fragilidade emocional do homem"; "O mundo é masculino! A idéia que temos de Deus é masculina! Jesus foi homem!"; "A vingar esse conjunto de regras diabólicas, a família estará em perigo, como inclusive já está: desfacelada, os filhos sem regras, porque sem pais; o homem subjugado"; e "Esta Lei Maria da Penha - como posta ou editada - é portanto de uma heresia manifesta. Herética porque é antiética; herética porque fere a lógica de Deus; herética porque é inconstitucional e por tudo isso flagrantemente injusta".
Nesta quarta-feira, o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral Filho (PMDB), defendeu a política pública do aborto por alguns motivos já defendidos por gente como o ministro da Saúde José Gomes Temporão: porque cerca de um milhão de mulheres procuram a rede pública para tratar de problemas decorrentes de abortos malfeitos; porque as mulheres de classe alta conseguem abortar de maneira segura enquanto as mais pobres apelam para métodos perigosos; porque é uma questão de política pública oferecer esta opção a uma mulher que não tem estrutura para colocar um filho no mundo.
Até aí, tudo bem: são questões que há muito precisam ser discutidas de um ponto de vista menos religioso. O grande erro de Cabral é associar as crianças das favelas com a violência. É dizer que "[gravidez indesejada] tem tudo a ver com violência. Você pega o número de filhos por mãe na Lagoa Rodrigo de Freitas, Tijuca, Méier e Copacabana, é padrão sueco. Agora, pega na Rocinha. É padrão Zâmbia, Gabão. Isso é uma fábrica de produzir marginal". Há muito já se sabe que violência não é uma conseqüência direta de pobreza. Até porque, regiões paupérrimas e com altíssimas taxas de fertilidade do Nordeste brasileiro são muito menos violentas que as favelas cariocas. Toda e qualquer ilação nesse sentido é mero preconceito.
Aliás, o que esses três episódios têm em comum? O preconceito. Que uso, principalmente, com o quarto significado dado pelo Dicionário Aurélio: "Suspeita, intolerância, ódio irracional ou aversão a outras raças, credos, religiões, etc". Temos aí três exemplos cabais de preconceito contra os negros, contra as mulheres e contra os pobres. E o pior: transmitidos em menos de dez dias.
Há outra semelhança entre esses casos que aumenta sua gravidade: os três pensamentos partiram de autoridades – um cientista, um juiz e um governador. Imagino que esses pensamentos estejam enraizados em grande parte da nossa sociedade, mas, vindos de três figuras públicas, tornam-se muito mais perigosos, porque elas formam opiniões. O que um partidário do Ku Klux Klan (organização que, pasmem, existe até hoje!) acharia se lesse que um dos descobridores da estrutura do DNA garante que, "cientificamente", os negros são menos inteligentes que os brancos? E o que aquele beberrão da esquina pode fazer com sua mulher em casa, se um juiz de direito lhe garante que o mundo é masculino e uma lei de proteção às mulheres é herética? E com que medo os filhinhos-de-papai não olharão, de cima para baixo, os mendigos das esquinas, se seu governador lhes garante que aqueles são os causadores de todas as balas perdidas e assassinatos de nossa guerrinha civil particular?
Todas essas formas de preconceito descritas acima me horrorizam. Mas uma delas me atinge diretamente. O juiz Edílson Rumbelsperger Rodrigues afetou a vida de mais de vinte esposas agredidas por maridos e que, provavelmente a duras penas, decidiram recorrer ao apoio da Justiça e receberam em troca uma sentença perversa que as tacha de "heréticas" por não obedecerem aos seus homens. Abusando de seu poder de juiz, ele ignorou uma lei, sancionada em agosto do ano passado, que representou uma conquista histórica para as mulheres.
Durante grande parte de sua sentença que veio a público, datada de 12 de fevereiro de 2007, Edílson Rodrigues se coloca arbitrariamente no lugar da mulher, assumindo o que ele considera ser mais feminino, mais condizente com o papel das mulheres no mundo e suas aspirações, a partir do que ele julga ser filosofia e ética. Faz-me rir! O dia que um cara desses entender de mulher, talvez metade dos nossos problemas no mundo terminem.
E o pior é que o preconceito dele está tão inculcado, que ele não consegue se retratar; apenas repete as mesmas coisas em entrevistas aos jornais. Diz o juiz à Folha: "No fundo, estou defendendo a mulher. Vocês mulheres são usadas em discurso de campanha e num feminismo que não faz vocês felizes". (Sabe até o que faz as mulheres felizes!).
Em entrevista ao jornal O Tempo, ele consegue se superar: "Acho que a mulher gosta de ser amada, se realizar como mulher. A mulher gosta de se realizar como profissional? Gosta. Ela quer isso para si? Quer. É bom que ela queira? É bom que ela queira. Mas fundamentalmente a mulher quer se sentir realizada como mulher. Ainda que ser realizada como mulher passa por uma realização profissional. Mas essa não é a natureza da mulher". (Ele julga que a realização profissional vai de encontro à natureza feminina! Mulher nasceu pra "ser amada", e só. Seja lá o que isso signifique na ideologia superior desse indivíduo).
No mesmo jornal, e com a mesma deturpação: "Se você quer se realizar profissionalmente, realize. Mas eu como homem digo para você mulher, que o mais importante para você não é isso. O mais importante é se realizar como mulher, como um ser feminino. Posso me realizar muito com uma mulher que eu desejo muito, vou me sentir realizado como homem, mas o que vai me realizar mais como homem é trabalhar. Sair de casa, dar sustento à minha família, isso é o que me realiza mais. Mas, se eu tivesse a mulher que desejo, mas não tivesse condições de dar ao meu filho, minha família, minha esposa o conforto que eles merecem, essa mulher não ia me completar. Eu seria um homem absolutamente infeliz. Agora vamos falar da mulher. Se a mulher se realizar como profissional, se sentirá feliz, evidentemente. Mas o ideal é que você se sinta realizada como mulher, como ser feminino, e como profissional. Mas, na minha opinião, se você for uma mulher extremamente bem-sucedida na sua profissão, mas for infeliz enquanto mulher, não vai adiantar."
Perguntado se defende a submissão feminina, esse juiz de direito, que decide pela vida social de 250 mil moradores de sua comarca, responde: "Acho que a mulher tinha que voltar àquela submissão de antigamente, mas o homem não permitindo que ela seja como ele foi no passado. Ela seria essa mulher que se entrega por inteiro ao homem que ama, que ela escolheu para ela. Mas só que esse homem não vai cometer o mesmo erro do passado. Para não acontecer o que está acontecendo hoje, se aquela mulher do passado vier tirar a bota do homem, ele vai dizer: ‘Não meu amor, não vou deixar você fazer isso, não vou permitir uma humilhação dessa porque eu te amo’. Se o homem simbolicamente tivesse agido dessa maneira lá atrás, as mulheres não estariam querendo ser tão independentes como hoje. Reconhecemos esse erro e daí? Vem a Lei Maria da Penha e está fazendo o contrário. Eu reconheço que a culpa é do homem que não valorizou essa mulher dócil e fiel a ele, que se doou por inteiro àquele homem. Ele agora está sofrendo e daí? Ela vai cometer os mesmos erros deles do passado?"
Esse é o senhor de 52 anos – e 17 de magistratura – que tem o poder de assinar uma sentença. Com esta mentalidade medieval. E que diz estes disparates em sua sentença (trechos):
"Se, segundo a própria Constituição Federal, é Deus que nos rege – e graças a Deus por isto – Jesus está então no centro destes pilares, posto que, pelo mínimo, nove entre dez brasileiros o têm como Filho Daquele que nos rege. Se isto é verdade, o Evangelho Dele também o é. E se Seu Evangelho – que por via de conseqüência também nos rege – está inserido num Livro que lhe ratifica a autoridade, todo esse Livro é, no mínimo, digno de credibilidade – filosófica, religiosa, ética e hoje inclusive histórica". (É preciso lembrar que o Evangelho foi escrito por homens, e que todos eles viveram sob uma legislação de uma sociedade pré-medieval?)
"Deus então, irado, vaticinou, para ambos. E para a mulher, disse: ’(...) o teu desejo será para o teu marido e ele te dominará’" (Será que esse senhor toma decisões jurídicas com base em parábolas?)
O mais absurdo:
"Enfim! Todas estas razões históricas, filosóficas e psicossociais, ao invés (sic) de nos conduzir ao equilíbrio, ao contrário vêm para culminar nesta lei absurda, que a confusão, certamente está rindo à toa! Porque a vingar este conjunto normativo de regras diabólicas, a família estará em perigo, como inclusive já está: desfacelada, os filhos sem regras – porque sem pais; o homem subjugado; sem preconceito, como vimos, não significa sem ética – a adoção por homossexuais e o ‘casamento’ deles, como mais um exemplo. Tudo em nome de uma igualdade cujo conceito tem sido prostituído em nome de uma ‘sociedade igualitária’".
O sujeito consegue unir pseudoconceitos de filosofia, psicologia social e História para culminar em sua justificativa para um preconceito desmedido. Pior, ignorando a lei!
"É portanto por tudo isso que de nossa parte concluímos que do ponto de vista ético, moral, filosófico, religioso e até histórico a chamada ‘Lei Maria da Penha’ é um monstrengo tinhoso."
Na nota divulgada por Rodrigues para se explicar ele consegue piorar ainda mais sua situação. Diz o magistrado: "Suponhamos uma situação de absoluto e intransponível impasse entre o marido e a esposa sobre determinada e relevante questão doméstica – um e outro não abrem mão de sua posição e não se entendem. Qual das posições deverá prevalecer até que, civilizadamente, a Justiça decida? De minha parte não tenho dúvida alguma que deverá prevalecer a decisão do marido. E vou mais longe: creio que não será do agrado da esposa que fosse o inverso, porque, repito, a mulher não suporta o homem emocionalmente frágil, pois é exatamente por ele que ela quer se sentir protegida – e o deve ser – e não se sentiria assim se fosse o inverso!"
Quer dizer, a mulher deve acatar a decisão do marido porque, do contrário, ela não seria suficientemente mulher, no entender desse juiz.
Leiam na íntegra a sentença de Edílson Rodrigues. E se perguntem, como eu venho me perguntando há dez dias, como é possível que alguém tão preconceituoso tenha o poder de decidir o futuro de 250 mil pessoas sob sua jurisdição. Cabe a nós questionarmos até mesmo o concurso público que não filtra certos pensamentos da nossa Justiça.
Eu sempre disse que acredito em pequenas revoluções – acredito que pequenos gestos e idéias podem repercutir poderosamente, para o bem ou para o mal. Cabe a nós fazermos nossa parte para frear repercussões tão maléficas para nossa liberdade, igualdade e civilidade.
* Leia o artigo do The Sunday Times com a entrevista do James Watson. * Leia a sentença de Edílson Rodrigues na íntegra. * Leia a carta de esclarecimento do juiz. * Veja a entrevista que Rodrigues deu ao jornal mineiro O Tempo. * Conheça a Lei Maria da Penha.
10.2007
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*Fernando Soares Campos* fernando.56.campos@gmail.com Inserido em: 2007-10-27 05:13:47
Primeiro eles vêm com a teoria do “feto gay”; em seguida, viriam: “feto bandido”, “feto dependente químico”, “feto alto índice de afrodescendência”, “feto alta taxa de nazi” (bom, acho que este teria licença para viver) e tantos outros.
Seria a “tão sonhada” eugenia nazista.
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Cabral e tanta gente precisam entender que a pobreza não gera violência, o que gera viol6encia é a opressão sobre as populações pobres e miseráveis, encurraladas nas senzalas... quer dizer, em aglomerados humanos favelados. O que gera violência de verdade é transformar o sonho em pesadelo: o pai que já não pode sonhar com um futuro melhor para os seus filhos; um filho que já não tem esperança de uma vida mais digna; uma mãe desesperada diante de um fogão apagado e panelas vazias, sem ao menos saber quando os filhos vão saciar a fome; os jovens que são assassinados porque vazaram a lona do circo...
Cabral e os seus precisam entender que aquilo que gera violência é a própria violência, Cabral e tanta gente precisam entender que a violência é autofágica.
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Quanto ao dr. Watson, quando ele diz...
"todas as nossas políticas sociais se baseiam no fato de que a inteligência deles é igual a nossa – enquanto todos os testes dizem que não"
...na verdade queria dizer:
"todas as nossas políticas sociais se baseiam no fato de que O PÊNIS deles é igual ao nosso – enquanto todos os testes dizem que não".
Sim, pois me lembro bem que, nos anos 1990, os neocolonialistas mandaram o primeiro lote de camisinha para países africanos como parte de um programa de prevenção à aids; porém, em determinados lugares, as camisinhas não serviram, até mesmo as de tamanho “GG” para os brancos eram pequenas para os africanos. Foram devolvidas. Acho que isso causou um ódio que dura até hoje e se revela em declarações como a do dr. Watson, que deve ter uma assim, ó, “destamainho”.
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