O American way of life e a Casa Grande
2007-10-20 01:25:45

Fernando Soares Campos

Às vezes a gente chega a pensar que algumas pessoas estão delirando ao escreverem certas coisas, achamos que se trata de paranóicos, adeptos da teoria da conspiração permanente. Acontece que há muitos anos se propala pelos quatro cantos do mundo a "democracia dos EUA" de tal forma que, em determinados momentos, acabamos por duvidar de notas como esta:  

Nos Estados Unidos, mais de 100 mil opositores estão proibidos de viajar de avião

A editora ecologista de Vermont, Chelsea Green Publishing Company publicou, em 5 de setembro de 2007, um panfleto da feminista Naomi Wolf, que denuncia a repressão política existente nos Estados Unidos. Intitulado The End of America: A Letter of Warning to a Young Patriot (O fim da América: carta de alerta para um jovem patriota), o texto se apresenta sob o formato de um chamado à cidadania, ao estilo da tradição revolucionária estadunidense de Thomas Paine.
 

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Naomi Wolf observa que a administração Bush impede a livre circulação de dissidentes dentro e fora dos Estados Unidos. Uma agência criada logo após os atentados de 11 de setembro de 2001, a Transportation Security Administration (TSA), mantém fichados mais de 100 mil opositores à política de George W. Bush e os submete a abusivos controles de segurança, a ponto de os impedir ou proibir de utilizar vôos de companhias aéreas dentro e fora dos Estados Unidos. A existência desse fichário foi descoberta em março de 2004, quando os agentes da TSA impediram cinco vezes que o senador Edward Kennedy embarcasse num avião. Desde então, os dissidentes provenientes de qualquer meio (representantes locais eleitos, membros de diversas associações e organizações, catedráticos, etc.) estão sendo vítimas dessa privação de liberdade individual.

http://www.voltairenet.org/article152126.html

Também li outra matéria tratando de viagens de norte-americanos a Cuba:

Washington, 28 jul (EFE).- Um grupo de jovens ativistas americanos cruzou neste sábado a fronteira entre Canadá e Estados Unidos, voltando de uma viagem a Cuba para desafiar a proibição de visitar a ilha feita pelo embargo de Washington contra o país caribenho. De acordo com o site do jornal “The Buffalo News”, cerca de 80 ativistas do grupo “Brigada Venceremos” cruzou sem problemas a fronteira entre as Cataratas do Niágara, no Canadá, e Buffalo, no estado de Nova York (EUA). Uma advogada que colabora com o grupo, Molly Doherty, afirmou que, quando os ativistas reconhecem que estiveram em Cuba, são permitidos a entrar. Mas, depois, muitos recebem uma carta oficial informando que devem pagar uma multa de US$ 7.500 ou mais.

http://rizzolot.wordpress.com/2007/07/29/ativistas-americanos-desafiam-casa-branca-vao-a-cuba-e-voltam-aos-eua/

Vamos imaginar que esses fatos estivessem ocorrendo na Venezuela de Hugo Chávez. Ou mesmo na Bolívia de Evo Morales. Quanto espaço você acha que a banda podre da mídia brasileira a serviço dos golpistas abriria para tratar do assunto? Isso mesmo, muitas páginas de jornal e revista, muito espaço virtual, algumas matérias de rádio e TV e milhares de papos de botequim. Se já tratam Chávez como ditador, imaginemos como seria tratado se proibisse venezuelanos de viajar a outros países ou dentro da própria Venezuela.

Já me perguntaram se sou a favor de que o governo Lula venha a se espelhar no “chavismo”. Acho a pergunta um exagero, mesmo porque ainda é muito cedo para se falar em “chavismo”, uma suposta doutrina política que surge como marca registrada de Hugo Chávez. A Revolução Bolivariana ainda dá seus primeiros passos; ainda existe muita coisa a ser lapidada. Apesar de que lapidar deve ser uma constante em qualquer revolução, do contrário não poderia ser chamada de revolução. Aqueles que formulam a tal pergunta geralmente afirmam que a Revolução Cubana é um fracasso. Isto geralmente é asseverado por pessoas que só conhecem o regime e sistema cubano através da propaganda disseminada por Washington via Hollywood e grande imprensa dos EUA, com os efeitos de reprodução mundo afora.

Se a Revolução Cubana fosse um fracasso, os imperialistas nem se incomodariam com uma ilha como Cuba. Acho que até prefeririam que se mantivesse como exemplo um sistema fracassado, seria uma espécie de "vitrine do fracasso". Podemos comparar com o caso de um coronel latifundiário que quer comprar o sitiozinho de um pobre camponês que resiste em vender seu pedacinho de terra para que ele, o coronel, o anexe à sua mega propriedade. Entre os muitos que já venderam suas terras ao coronel, existem uns poucos que se deram bem, e, para estes, o coronel diria: "Estão vendo aí? Vocês que me venderam suas terrinhas estão felizes, mas, olhem lá, aquele infeliz está sofrendo, é teimoso". E continuaria comprando outras terras ao redor do seu latifúndio. O infeliz serviria de "mau exemplo".

Porém a verdade é que muitos daqueles que venderam suas terras ao latifundiário agora moram em favelas nos grandes centros urbanos. Deixaram de se submeter ao "império" do coronel e hoje são vítimas dos gerentes das bocas de fumo e dos "Capitães Nascimentos".

Quanto ao pobre camponês resistente, este vive, a duras penas, melhor que os favelados que se desfizeram dos seus sítios, e o coronel, para exibi-lo como um pobre infeliz, compara sua casinha simples com Casa Grande; compara o carro de boi ou carroça do sitiante com os seus carrões e, com isso, tenta convencer os que estão vacilando entre vender ou continuar vivendo daquilo que suas terras produzem, dizendo: "Olha lá como ele é infeliz”.

O coronel continua tentando se apossar do sitiozinho cujo dono resiste bravamente à venda de suas terras, de onde tira o seu sustento, cria seus filhos sob orientação dignas de ser o verdadeiro exemplo. Para forçar o camponês a vender seu lote de terra, o coronel provoca vários embaraços a este sitiante teimoso, chegando mesmo a proibir o acesso às suas terras através de estradas que passem pelo grande latifúndio. Informa a seus fornecedores de ração e adubo que, se venderem ao camponês “cabeçudo”, deixará de comprar o produto de suas empresas distribuidoras. Proíbe seus empregados de participar de festas no sitiozinho ao lado. Manda arrombar a cerca de sua fazenda e deixa o gado comer as plantações do sitiante “turrão”; enfim, faz qualquer coisa para que o “infeliz” venda suas terras e desapareça, vá morar numa favela como já fizeram tantos outros pequenos sitiantes.

Propaganda e deslumbramento


Muitos daqueles que venderam seus sítios se deslumbram com a Casa Grande, sonham em ter uma fazenda daquelas, viver daquela maneira faustosa; seus filhos até vibraram com a idéia de vender as terrinhas e ir morar numa cidade grande, pois já ouviram muita propaganda sobre as facilidades que encontrariam: escolas, hospitais, lazer, água encanada, luz, rádio, televisão, geladeira e até carro, milhares de carros; são tantos carros que, para eles, na cidade, todo mundo deve ter um. (Se alguém acha que estou exagerando, saiba que esse tipo de argumento ainda é usado nesses casos.)

Há 50 anos, os EUA continuam tentando se apossar de Cuba, um “sitiozinho” ao lado do seu “latifúndio”. A propaganda dos ianques se espalha mundo afora alertando aqueles que já vivem usufruindo as benesses do capitalismo: “Estão vendo aí? Vocês que me venderam suas terrinhas estão felizes, mas, olhem lá, aquele infeliz está sofrendo, é teimoso".

Os EUA já provocaram vários embaraços a Cuba, chegando mesmo a proibir o acesso às terras cubanas através das vias que passam pelo “grande latifúndio da América”. Até já informaram aos seus fornecedores de matéria prima e produtos agrícolas que, se venderem ao povo teimoso, deixarão de comprar os produtos de suas empresas distribuidoras ou produtoras. Já proibiram seus próprios cidadãos de fazer turismo na ilhota. Já permitiram que o seu “gado” ultrapassasse a fronteira e tentasse comer as plantações do “sitiante teimoso”; enfim, fazem qualquer coisa para que os “infelizes” entreguem suas terras, querem ganhar pelo cansaço. Mas não descartam mais uma investida de peso e, se preciso for, soltam novamente seu “gado” nas terras cubanas.

O coronel faz propaganda de seu estilo de vida, de como vive na Casa Grande, alimentando naqueles pobres “infelizes” a esperança de que um dia viriam a ter o que ele próprio possui. Faz muita gente acreditar que seus filhos estudarão nas grandes cidades e se tornarão doutores. Mas o coronel não mostra aos possíveis incautos a verdadeira vida que aqueles que venderam suas terrinhas estão passando.

Os EUA têm Hollywood, a fábrica de sonhos, a propaganda do “american way of life”. Fazem grande parte da turma do quintal acreditar que, entregando-se ao seu domínio, vendendo-se aos seus interesses, teriam chances de viver à sua maneira, na opulência, na fartura, no “Paraíso”.

Repeteco: Se a Revolução Cubana fosse um fracasso, os imperialistas nem se incomodariam com uma ilha como Cuba. Até acho que prefeririam que aquele país se mantivesse como exemplo de um sistema fracassado. Seria uma espécie de "vitrine do fracasso", imagem que vendem, há cinco décadas, ao "resto do mundo".
    

                                                                                







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*marconi*
Inserido em: 2007-11-30 08:25:29

Prezado Leonel

Parabens pelo texto! Sua analogia serve para combater está idéia perversa de demonizar os que lutam pelos desposuidos e de bajular os fortes.Como escreveu o companheiro José Carlos Januario eu tb vou mandar o teu texto para que leia minha filha.
um abraco
Marconi


*Marcos*
Inserido em: 2007-11-30 01:13:02

Chavismo é copia literal do velho Peronismo da primeira fase. È só perguntar a qualquer Argentino da velha guarda com mais de setenta anos de idade que ele respoderá. Onde isso vai desaguar eu realmente não sei mas a história dá suas pistas. Quem sabe estamos todos sentados falando tranquilos sobre a vida no Café Schwarzenberg.



*jose carlos januario*
Inserido em: 2007-11-20 12:01:43

MEU CAMARADA TEXTO MUITO BOM JA INDIQUEI PARA MINHAS FILHAS E MEUS CAMARADAS DO GRUPO SERVIDOR NA LUTA.


*Júlio César Montenegro*
Inserido em: 2007-11-18 00:27:32

Fernando, sua fábula acontece cada vez mais em praias e outros terrenos cobiçados por mega empreendimentos turísticos que vão compraxficiando os vizinhos, despossuindos e suas poucas terras, geralmente com a ajuda de prefeituras ambiciosas e cartorios safados. É o american way of life empesteando o mundo. Sob aplauso e inveja dos que acreditam na ilha da fantasia e que criam uma Cuba tão medonha quanto suas (deles) fantasias. São eles que espalham pesadelos. Como as ditaduras financiadas e apoiadas pelo mundo (como a de 64 no Brasil, 73 no Chile); guerras por petróleo; e ameaças guerreiras ou financeiras aos mais renitentes. Com os baticuns dos batedores de Bush na mídia golpista, é raro podermos ter acesso a raciocinios como o seu.


*Fernando Soares Campos*
Inserido em: 2007-10-25 10:41:09

Prezado Leonel Santos, este texto também está publicado na edição desta semana do Observatório da Imprensa. Lá, o leitor Paulo Bandarra, médico, o classificou de "texto infantil”, chegando mesmo a citar “o coronel e o lobisomem”.

Acabei de responder ao doutor Bandarra:

Caro Paulo Bandarra, desde quando seria demeritório escrever um texto cujo gênero beirasse o gênero infantil, ou o mesmo que um texto assim classificado venha a ser aceito pela editoria de um site da importância do Observatório da Imprensa? Qual o mal lançar mão de analogias como “o coronel e o lobisomem” para expor pensamentos? Quanto à infantilidade do ser humano, várias são as idades de um único indivíduo. Você diz que “...nos hotéis, resorts, shoppings, supermercados, etc... nenhum cubano pode ir!”. Acho que nesses locais, como aqui, deve existir pelo menos trabalhador cubano, inclusive nas administrações. Recentemente encerrei outro “texto infantil” dizendo para as crianças de todas as idades: “Se as populações pobres e miseráveis dos países capitalistas pudessem se hospedar nos melhores hotéis dos seus países, comer nos melhores restaurantes e beber nos melhores bares, eu diria que em Cuba há um apartheid social, pois lá existem hotéis, restaurantes e bares somente para turistas estrangeiros deixar seus mojitos-dólares, onde o pobre cubano não freqüenta. Enquanto isso, daqui de onde estou escrevendo, avisto uma das maiores favelas do mundo. Lá vive cerca de meio milhão de pessoas. Raras são as que poderiam pagar, hoje à noite, um quartinho numa pensão fuleira no Centro do Rio, para uma noite de deliciosa luxúria com uma nega chamada Teresa."

O texto que citei na resposta ao doutor Bandarra intitula-se “Pé em cima, pé embaixo e uma pensão fuleira com uma nega chamada Teresa” e pode ser lido aqui mesmo na NovaE

http://www.novae.inf.br/site/modules.php?name=Conteudo&pid=810

Abraços.



*leonel santos*
Inserido em: 2007-10-24 19:52:58

Exelente texto,ótima analogia.Porque não comparam Cuba com países semelhantes histórica e geograficamente como Haiti,Honduras,El Salvador e outras pérolas do "mundo livre"?
Quanto tempo o Brasil,por exemplo, suportaria um embargo como o que Cuba esta submetido há decadas ou as ameaçãs de invasão,atentados e terrorismo?Por muito menos as grandes potências foram à guerra,lembram?