Impressões do Vietnã
2007-10-15 14:28:03

Cândido Grzybowski*

O Vietnã é um país distante e diferente. Ao mesmo tempo, é um país emblemático que faz parte, de algum modo, da história de muitos(as). A geração de 1968 viveu a Guerra do Vietnã (1959–1973) de forma intensa. Notícias traziam os horrores que aconteciam na guerra na qual os Estados Unidos (EUA) usaram toda a sua máquina destrutiva, mas perderam diante da determinação do povo vietnamita. Os protestos pelo fim da guerra e os movimentos pela paz se irradiaram dos EUA para o mundo todo. Não dava para ficar indiferente.

No fundo, sempre alimentei o desejo de ver de perto tão estranho país, seu povo, sua história. A oportunidade surgiu com a reunião do “Board of Trustees” da ActionAid International (AAI), da qual sou membro independente. A AAI está há 15 anos no Vietnã. Foi uma viagem curta. Como a reunião foi em Hanói, sede da AAI–Vietnã, acabei ficando por ali, com uma breve visita de campo. Um dia, talvez, ainda volte e consiga ver também o Sul, a Ho Chi Minh City (antiga Saigon) e as províncias em volta, onde a guerra foi mais intensa e os EUA usaram o famigerado desfolhante laranja nas florestas para controlar a movimentação dos vietcongues.

A primeira impressão de Hanói, nas margens do Rio Vermelho, é de uma cidade invadida por motos. Com 3,5 milhões de habitantes, Hanói deve ter uma moto para cada duas pessoas. É impressionante, fruto mais visível da adoção da economia de mercado e das taxas chinesas de crescimento. Os carros, aliás carrões, todos novos, são poucos ainda. As motos ocupam todos os lugares e carregam de tudo. Famílias inteiras numa moto só. Muitas mulheres – basicamente elas – com máscaras de proteção contra a poluição. Felizmente, tudo anda a 30 km/h, talvez 40Km/h, com muita buzina. Bicicletas ainda existem, mas são raras, das pessoas mais velhas e pobres.

Regras de trânsito não existem, mas algo organiza tudo. Para atravessar uma rua, você fecha os olhos, de preferência, e deixa as motos desviarem de você. Experiência incrível! Outra coisa que chama a atenção são as casas, estreitas e altas, parecem sobreposição de cômodos. O efeito é muito bonito. Vale a pena andar pelo centro, com seus lagos e prédios lembrando o período de domínio francês, junto com monumentais prédios públicos. A parte velha, com suas ruas estreitas e todo tipo de comércio bem-especializado, é exuberância de vida. E que povo simpático! A gente não entende nada, mas que sorriso encantador e quanta gentileza!

Estive no extremo Norte do Vietnã, na Província de Lai Chau, na fronteira com China e Laos, onde a AAI–Vietnã desenvolve um programa. Fica ao lado de Diem Bien Phu, onde franceses foram finalmente derrotados em 1954. As minorias étnicas – são 55 no Vietnã – são predominantes, com suas próprias línguas e modos de vestir. Os Quines, etnia dominante e base da identidade lingüística e cultural, são só 11% por ali. Mas a estrutura política local – os Comitês do Povo – estão em suas mãos, sem muitos problemas visíveis, ao menos.

Vivem aí minorias Laos, Mongs, Birms. Visitei o distrito de Dong, um vale em meio às enormes montanhas da fronteira Norte. Os morros estão devastados, pelados, resquícios da dominação francesa, que extraiu madeira das florestas nativas e plantou a seringa. As águas ainda são abundantes, mas devem ter sido bem mais. Nos vales, planta-se arroz, milho e mandioca, além de legumes, base da alimentação. Trata-se de uma economia basicamente de subsistência. A população vive em vilas comunitárias, por etnia, conforme a sua tradição, em casas de madeira, normalmente altas, com búfalos, porcos e galinhas. As novas casas já começam a ser de alvenaria. E muitas motos, pelo menos uma em cada casa. Os prédios são equipamentos públicos, em especial escolas.

Fui recebido pelas autoridades locais e visitei comunidades, suas escolas, as classes de alfabetização de adultos(as), centros comunitários, com boa presença de mulheres, e áreas de desenvolvimento de projetos-piloto, para aumento da produtividade agrícola, atividades essas com as quais AAI está envolvida. Vi pobreza, mas, no geral, parece que as pessoas vivem de forma decente. Há visível desigualdade de gênero. Aliás, moradores me contaram que nem vale a pena mandar mulheres para a escola, o que explica o fato de 90% de analfabetos(as) serem mulheres. Existe, também, tráfico (e até rapto) de mulheres por chineses. Os lotes e a produção são individuais, ainda bastante tradicionais. A terra é pública e distribuída para atender todas as famílias. Como por toda parte, o sorriso e o encanto das pessoas é admirável.

Fui da trem de Hanói a Lao Cai, seguindo as margens do Rio Vermelho. Depois, subi a serra de carro, passando por paisagens deslumbrantes. Numa encosta alta está encravada Sapa, hoje o principal ponto turístico da região. É uma bela cidade da época da colonização francesa. Ali, vislumbramos os campos amarelados de arroz em terraços. A estrada depois de Sapa está passando por grandes obras para a criação de um corredor para a região Sudoeste da China até os portos do Vietnã. Aliás, o capitalismo em sua forma selvagem é bem visível, mesmo o Partido Comunista mantendo controle firme.

Desde 1986, o Vietnã adotou a economia de mercado e fez uma grande liberalização econômica, apesar de um terço da economia ainda depender das empresas estatais. O capital estrangeiro, particularmente dos países da região, avança a passos livres e largos. O crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) e das exportações é comemorado, mas a desigualdade já começa a ser notada. De um país faminto após a guerra (1974) e a reunificação (1976), o Vietnã passou a exportar arroz, café, petróleo.

Com população de mais de 80 milhões, território 30 vezes menor que o do Brasil, o Vietnã surpreende de muitos modos. Ao longo dos séculos, o povo lutou bravamente para manter a sua unidade e integridade. Visitei o Museu da Revolução, que lembra a história da luta contra a ocupação francesa até a vitória sobre os EUA, para captar o sentido de tanta força. Há algo que escapa.

O fato é que, hoje, os EUA são referência para jovens, especialmente a música, os filmes, o jeito de vestir, a vontade de ganhar dinheiro. O Vietnã aderiu à Organização Mundial do Comércio (OMC) e já assinou acordos de livre-comércio com Japão e EUA. Parece muito contraditório, ao menos aponta caminho diverso da heróica luta. Para onde vai? Que será amanhã? Andando nas manhãs pelo jardim do hotel onde estive – sede do Comitê Central do Partido Comunista em Hanói –, pensei em tudo isso e não tenho respostas. Só guardo as doces lembranças de um povo incrível.

*Sociólogo, diretor do Ibase 
    





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