Walfrido pouco sabia...

José de Souza Castro, do Tamos com Raiva

O advogado Arnaldo Malheiros Filho apresentou ontem (1º de outubro) ao Procurador-Geral da República, Antônio Fernando de Souza, a defesa prévia do ministro Walfrido dos Mares Guia ao relatório do delegado Luís Flávio Zampronha de Oliveira, da Polícia Federal, que apurou o chamado "valérioduto mineiro". O delegado não havia indiciado o ministro das Relações Institucionais e dificilmente o Procurador-Geral vai denunciá-lo.

Segundo a defesa, Walfrido pouco sabia da campanha de Azeredo e só deu a ele 500 mil reais da Samos, em 2002, por amizade. Nada mais. Não sabia que o dinheiro havia sido depositado numa conta de Marcos Valério. Ignorava como foi contratado e pago o publicitário Duda Mendonça para a campanha de reeleição de Azeredo. Tampouco sabia como seriam arrecadados e distribuídos fundos para a campanha tucana em Minas – apenas rabiscara, como engenheiro e empresário, uma previsão de custos da campanha, durante uma reunião com Azeredo e com assessores do então governador, antes da campanha se iniciar.

Vamos por partes na defesa apresentada:

1. Das 172 páginas do relatório de Zampronha, apenas 10 fazem menção a Walfrido, mesmo assim se apegando unicamente à declaração do candidato a vice-governador, Clésio Andrade, de que o então vice-governador fazia parte do núcleo de poder no governo Eduardo Azeredo, "sendo este praticamente o mesmo núcleo da campanha". Segundo o advogado Malheiros, o "praticamente" diz tudo: saiu Walfrido (do núcleo da campanha) e entrou Clésio Andrade.

2. No primeiro turno, Walfrido fez campanha apenas para se eleger deputado federal. No segundo turno, já eleito, empenhou-se pedindo votos para a eleição de Azeredo, mas não cuidou da parte administrativa e financeira da campanha. Participou de temas administrativos da campanha, mas nunca como coordenador ou responsável por essa área.

3. Por volta de maio de 1998, Walfrido participou de reunião com Azeredo e assessores, quando foram discutidos os custos da campanha, "tendo rascunhado suas projeções, garatujando números representativos do quanto seria necessário para custear o empreendimento". Só isso. Foi convidado para a reunião por ter comandado duas campanha vitoriosas – a de Hélio Garcia em 1990 e a de Azeredo em 1994 – e por saber aritmética (é engenheiro) e calcular riscos (é empresário). Mas não se envolveu no levantamento de fundos e em sua destinação.

4. Antes do início da campanha, Walfrido esteve presente à reunião na qual Duda Mendonça expôs a Eduardo Azeredo e a membro da equipe suas idéias sobre a propaganda eleitoral. A reunião terminou sem uma decisão, ficando o comitê (curiosamente, havia comitê, embora não houvesse ainda campanha eleitoral) aguardando a proposta financeira de Duda. Como Walfrido "já conhecia Duda Mendonça e sua sócia Zilmar Fernandes, a proposta foi encaminhada aos seus cuidados. Sua ’participação ativa’ resumiu-se a encaminhar a carta para o comitê. Não soube se a proposta foi aceita tal como formulada nem se houve negociação de preço e condições. Não acompanhou a execução dos trabalhos. Não tem a menor idéia de se e como foi feito o pagamento pelos serviços prestados. E, francamente, receber e encaminhá-la a quem de direito está muito longe de qualquer tipificação penal que se possa imaginar", diz Malheiros.

5. Sobre o auxílio financeiro a Azeredo: este era candidato ao Senado, em 2002, e procurou Walfrido, pois o candidato estava sendo "protestado ou executado" por Cláudio Mourão – que, por procuração do ex-governador, emitiu uma nota promissória a favor de uma empresa de seu filho –, "por alegada dívida de campanha". Azeredo diz ainda a Walfrido que seu ex-secretário da Fazenda, João Heraldo, que se tornara diretor do Banco Rural, teria disponibilidade de emprestar 500 mil reais, desde que houvesse tomador com cadastro compatível. Walfrido se prontificou a ajudar. Foi procurado no seu local de trabalho, o Grupo Pitágoras, por Azeredo, acompanhado de um assessor e um representante do Rural. Walfrido forneceu os dados cadastrais de sua holding patrimonial, a Samos Participações Ltda, e assinou nota promissória, emitida em nome da Samos e avalizada por Azeredo. Autorizou o banco a depositar o dinheiro numa conta bancária cujo número foi dado pelo assessor de Azeredo. Só muito tempo depois, diz o advogado, Walfrido ficou sabendo que a conta era de Marcos Valério. "Mas se o soubesse então, teria agido da mesma forma, até porque o fez a pedido de Eduardo Azeredo e sabia que Marcos Valério era sócio da SMP&B, empresa que, em 2002, gozava de prestígio no Estado". No fim de 2002, vendo que Azeredo não podia liquidar o empréstimo, Walfrido negociou com o Rural o pagamento antecipado sem juros.

6. A Samos, segundo a PriceWaterHouse, contratada por Walfrido após a divulgação do relatório de Zampronha, teve integralizado seu capital de quase 16 milhões de reais, em dinheiro, nos dias 29 e 30/1/2002, pelos compradores da Biobrás. No dia seguinte, houve a permuta das ações de Walfrido na Biobrás (empresa fundada por ele em sociedade com um irmão e um cunhado) pela totalidade das cotas da Samos (que se chamava antes Borosserra, nome mudado para Samos em 30/4/2002). A receita da Samos se compõe, basicamente, de juros e outros rendimentos financeiros decorrentes da aplicação do dinheiro recebido por Walfrido na venda da Biobrás, em fundos de investimentos bancários. "Se as receitas da empresa são rendimentos sobre dinheiro, elas constituem apenas uma fração dos valores movimentados, pois não?", diz Malheiros, respondendo a um dos questionamentos de Zampronha sobre a movimentação de dinheiro pela empresa de Walfrido.

Nada como um bom advogado para indicar os furos de um inquérito policial, não é mesmo? Na minha opinião, Walfrido se livra desta. Mesmo porque, como Lula, ele pouco sabia dos trambiques da campanha tucana e de Marcos Valério...

Não é isso o que diz seu advogado? 

10.2007

Leia + José de Souza Castro na NovaE:

  A Cidade Administrativa e "o povo que paga"
  Cerveja: bebendo gato por lebre?
  O vôo tardio do tucano
  Aécio de barbas de molho
  Nas mãos de Lula, não do Supremo, o destino de Cesare Battisti
  Centro Administrativo, um elefante em fase de crescimento descontrolado
  O cassino financeiro e o puxão na orelha do FMI
  O inverno da desesperança em Minas
  Da audácia de Obama ao pós-americanismo
  Caso Battisti: o Supremo na berlinda
  Francenildo e o fim do sigilo bancário
  Caça a Marina Silva
  Um elefante incomoda muita gente
  Os espertalhões e a CPI da Petrobras
  Uma viagem, duas notícias
  A despedida e a despedida de Aécio Neves
  Uma briga que não pode acabar assim
  Política mineira, um novo lance
  Dandara, grileiros e o silêncio do governo
  Para punir torturador não é preciso mudar a Lei da Anistia
  Caça a Dilma Rousseff
  Coronelismo no Ministério Público
  Um "socialista" na prefeitura de BH?
  A Votorantim e a destruição em Vazante
  Soltura imediata do jornalista iraquiano, para esquecer logo as sapatadas contra Bush
  Crise mundial tem seu lado bom...
  Obama, Zumbi dos Palmares e o despertar da Consciência Negra
  Man Booker Prize e a crise atual
  O pensamento escravocrata de Aécio e Lacerda
  Por que chora o Fernando Pimentel?
  Novo Jornal: antes do empastelamento, a espionagem
  Candidatos, me enganem que eu gosto!
  À espera do desempastelamento do Novo Jornal
  Empastelamento – Carone prova que Novo Jornal é registrado e tem um responsável
  O empastelamento do Novo Jornal
  Ataque à Coisa Nossa
  Temos enfim a Coisa Nossa?
  Um juiz de araque
  Mais uma vez, a grande ameaça
  Ameaçados pela FOME e pela falta de líderes
  Matar ou morrer?
  O tamanho do porrete encolheu
  Amazônia à venda
  Amigos do Rei
  Um tucano no alvo
  Os canalhas e seus palácios
  Ressurreição: o que nos deveriam ensinar os Evangelhos
  Tentativa de assassinato de um blog
  Uma eterna aprendiz no PT
  Outro caso do setor elétrico
  Usina no rio Madeira, pauleira no contribuinte
  A soneca dos tucanos mineiros
  Estilingada em ninho tucano derruba ministro
  Dono da ilha de Caras na cadeia
  Pobreza tem cura
  Estilingue do PSOL mira um tucano de sorte
  Walfrido pouco sabia...
  Quem deu a Azeredo o dinheiro da Cemig?
  Marcos Valério no ninho tucano

    

    

Fortaleça a imprensa independente do Brasil e a Livre Expressão ao disseminar este artigo para sua rede de relacionamento. Imprima ou envie por e-mail.

Receba no seu e-mail boletim com novos links para novos artigos
 Cadastre-se agora

Mas o que é a Novae?
Novae: uma história de amor ao copyleft

                                



Manifeste-se!

Nome:
E-mail:
Dê sua opinião:
Código:
Digite o código:
 Publicado em: 2007-10-02 por cristina, última modificação em: 2007-10-02 por cristina

 

 

  http://www.novae.inf.br/site/images/selopeq.jpg http://www.novae.inf.br/site/images/assinaturas.gif

NovaE.inf.br é uma revista não comercial,  pluralista na divulgação de idéias e conceitos a respeito de Internet, nova economia, cibercultura, política, cultura, literatura, mídia, comportamento, filosofia e cidadania. Portanto, as opiniões emitidas em colunas e em artigos assinados não correspondem, necessariamente, à opinião dos editores. Conteúdo autorizadoSaiba mais sobre o projeto. Desenvolvido com tecnologia PHP-Nuke, liberado sob licença GNU/GPL.  Para visualizar melhor a NovaE utilize a configuração de tela 1024 x 768