Prece-poema para o Soldado Americano
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Cristina Moreno de Castro, do Tamos com raiva

Contrariando todos os meus princípios práticos, resolvi fugir dos temas que vêm nos afetando mais diretamente e invadem as manchetes dos principais jornais do país. Um poema que li esta semana me inspirou a trocar os Calheiros, brigadeiros, cansados e injustiçados pelo bom e velho tema deste Tamos com Raiva: a invasão do Iraque pelos Estados Unidos e o caos que resultou disso. O poema foi escrito em março de 2003 (do nosso calendário), por Juan Grecco y Morales, traduzido direto do sefardita pelo poeta mineiro Andityas Soares de Moura.

Os EUA acabavam de lançar suas primeiras bombas, que destruiriam famílias inteiras de civis, sob o pretexto de estarem combatendo o terrorismo mundial, encarnado, sob alguns aspectos, na figura de Saddam Hussein. Quatro anos depois, confirmamos a lógica econômica por trás do ataque político: as petrolíferas norte-americanas ficaram com três quartos do lucro dos poços de petróleo iraquianas, em acordo firmado para os próximos 30 anos (!). Lucro que vem aumentando abusivamente desde que o país da Shell e da Texaco supostamente ’quebrou’ o cartel promovido por Saddam: em março de 2003, o barril de petróleo custava 30,4 dólares. Hoje, custa cerca de US$ 70.

O lucro exorbitante parece justificar, aos olhos do governo de Bush, a morte de cerca de 70 mil civis (Iraq Body Count), mesmo que a guerra seja cara para os cofres norte-americanos (os cálculos variam, mas estima-se que o país gaste cerca de 300 milhões de dólares por dia!).

Apesar de a notícias terem esfriado muito, essa guerra desigual está longe de terminar. Quase metade das mortes ocorreram só no último ano de guerra. O chefe das forças americanas no Iraque disse que a invasão é ’missão de longo prazo’, e ainda pode demorar vários anos. E ainda este mês, o número de soldados norte-americanos no Iraque atingiu um recorde de 162 mil. É a estes que direciono minha prece, em uníssono raivoso com um árabe:

’Que as areias penetrem
em tuas botas e sejam como
os escorpiões vermelhos de
minha choça camponesa.

(...) Que ao reencontrar tua
mulher na tenda de seda
a memória dos estupros
que cometeste
congele tua virilidade.

Que os historiadores abandonem
a fala de notários para descrever-te
e adotem adjetivos selvagens
com um riso mordaz no
canto da boca.

Que ao mastigar o grão de
milho cozido por tua mãe
tu sintas o gosto do mamilo
que cortaste de Karin.

(...) Que teu sangue se
transmude em petróleo.
E que ele te seja pesado.

Que o profeta tenha
piedade de tua alma,
pois teu corpo será o pasto
dos meus bisnetos.

(...) Que não possas beber água e
nem amar, nem ouvir som de
cítara, nay, ud ou qanoun.
E nem lembrar o rosto
de tua primeira paixão.

(...) Que todos tenham medo
de ti e por isso
queiram matar-te.

Que os espectros das crianças
que assassinaste sejam teus
únicos companheiros na
noite sem fim da velhice.

Que tudo isso te aconteça
porque me fizeste esquecer
a gentileza de cantar minha
gazela -- habiba -- para
dizer-te, sereno e singelo:
-- Basta.

Que tudo isso te aconteça
até que possas renascer
homem e dizer sem soluço
aos mais altos generais
do Ocidente e do Oriente:
-- Não luto, não luto e
não luto.” *

Não, a culpa não é só do governo norte-americano. Existem soldados por trás de cada morte. Eu ainda acredito em pequenas revoluções, que partam de um sentimento individual de justiça.


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* Cortei alguns trechos do poema, para que ele ficasse mais impactante. Mas cada estrofe tem a mesma carga de rancor impiedoso das estrofes acima.