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Amós Oz: a integridade
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Contra o Fanatismo AMÓS OZ
Editora Ediouro
R$ 24,90

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Arnoldo Kraus

Não sei quando nasceu minha aversão pelos políticos. Mas sei quais foram as causas: tirando algumas muito honrosas exceções, a imensa maioria são detestáveis. E não só detestáveis: são tão parecidos entre si que suspeito que Deus, ou a mãe natureza, dialogaram para criar uma determinante genética que condiciona um subgrupo de seres humanos cujo destino é a política. São tão parecidos entre eles, que não duvido que em breve, graças ao avanço no conhecimento do mapa genético, vamos saber que existe um gene, vamos chamá-lo de miserável, que vai determinar as condições pelas quais alguns "humanóides" se transformam em políticos. Quando o gene for publicitado vamos entender por que Putin, Bush, Katzav, Fox e Aznar, mesmo que sejam judeus-católicos-latinos-europeus-mexicanos, são tão parecidos entre si.

Exemplo fresco é o caso do ex -presidente israelense Moshe Katzav, que depois de ter reconhecido que acossou, aproveitando-se do cargo, várias empregadas da presidência, foi exonerado e não irá à prisão. Que pena que o Ministério da Justiça de Israel o tenha perdoado. Corrupção, impunidade, subornos, injustiça e amoralidade são algumas das possíveis razões pelas quais esse detestável personagem não será inquilino da cadeia. É assim mesmo: fala-se de política de merda e de políticos de merda.

Katzav serve como preâmbulo para escrever sobre "outro" israelense: Amós Oz, que recentemente foi galardoado com o afamado Prêmio Príncipe de Astúrias das Letras "pelo brilhantismo da sua literatura, sua contribuição para visualizar os problemas universais do nosso tempo e sua defesa da paz e a luta contra o fanatismo".

Louvado pelo valor excelso dos seus romances, talvez a cara mais importante diante do mundo de Oz - seu sobrenome original era Klausner - é ter fundado, nos anos 70, o movimento pacifista israelense Paz Agora, cujas idéias estão bem expressadas em "Contra o fanatismo" (Editora Siruela, 2003), na qual estão reunidos três ensaios.

"Contra o fanatismo" é um pequeno livro de apenas 15 centímetros de altura e escassas 100 páginas que encerra uma dose imensa de sabedoria, um olhar leigo sobre a filosofia do fanatismo e seus vínculos com a globalização, assim como um repasso da "praxe sem praxe" da maioria dos políticos anencéfalos que dizem governar o mundo. Nesses admiráveis escritos, Oz reflete sobre o triunfo da surdez do fanatismo, vencedor indiscutível no conflito entre palestinos e israelenses. Com razão o escritor israelense cunhou o termo "a síndrome de Jerusalém" para descrever a doença do fanatismo: "Todo o mundo grita, ninguém escuta".

Sua obsessão pelo fanatismo e por pretender iluminar um pouco a surdez implícita nesse "modo de ser" não é gratuita: nasceu em 1939, antes de que fosse criado o Estado de Israel, e viveu a guerra de Independência e os imensos desencontros e ódios que foram gerados desde então. "Confesso que quando criança, em Jerusalém, eu também era um pequeno fanático com o cérebro lavado. Com ares de superioridade moral, chauvinista, surdo e cego a todo discurso que fosse diferente do poderoso discurso sionista dessa época. Eu era um menino que lançava pedras, um menino da ‘intifada’ judia."

Seja pelo precoce suicídio de sua mãe, quando Oz tinha 12 anos, ou porque aprendeu na terra das letras e das idéias, cedo intuiu que o ódio não leva a nada. Deixou as pedras e dedicou-se a escutar, a escrever e a denunciar os políticos. Por isso, apesar de que sua obra literária se estuda nas escolas de Israel, e apesar de que obteve o Prêmio Israel de Literatura 1998, tem sido increpado por políticos e fanáticos israelenses. Tem razão quando denuncia a visão cega dos totalitários, para os quais traidor é "aquele que muda aos olhos daqueles que não podem mudar".

Segundo Oz, a essência do fanatismo "reside no desejo de obrigar os outros a mudar", e, igual que Kant, que dizia que o mal está determinado ontogenicamente, garante que o fanatismo faz parte da natureza humana: "é um gene do mal". Se for aceito que o fanatismo "nasceu" com o homem e que é anterior ao cristianismo, ao Islã e ao judaísmo é preciso concluir com Oz, como recomenda em seu livro, que a literatura, o humor e a imaginação podem mitigar um pouco o peso do fanatismo. Talvez assim seja possível impedir que a falta de sentido, a amoralidade e a política continuem sepultando o ser humano. Sem dúvida, políticos como Katzav são um bom estímulo para a luta e para as obsessões de Oz.

A ata do júri espanhol reconhece sua contribuição para "a revelação certeira das realidades mais urgente e universais do nosso tempo, com especial atenção tanto para a defesa da paz entre os povos como para a denúncia de todas as expressões do fanatismo". A essas qualidades acrescento sua coragem por se arriscar, por denunciar, por não se calar e por buscar a paz.

Arnoldo Kraus, médico e escritor, publica artigos no jornal mexicano La Jornada.

Publicado também na Agencia Carta Maior

                

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*giovani c.f.*
giofigtj@hotmail.com
Inserido em: 2008-09-09 16:45:13

Já admirava Amoz-Oz, pela sua mente aberta judaica e agora seu crítico Arnaud Kraus, também judeu , não menos inteligente e lúcido que Amoz. Lampejo de luz irradiam dessas mentes,por um mundo melhor ,sem os políticos de hoje.


*Carmen Maria Bastos MAtos*
nvbnv
Inserido em: 2007-10-05 00:10:07

Como sempre textos e análises maravilhosas de Arnaud Kraus, fico encantada com sua inteligência e lucidez.
Tenho procurado seu e-mail para escrever-lhe e não acho.
Caso alguém possua, por favor me envie.
Vou ler o livro tb, que diante da sua crítica parece muito bom
Carmen


*andre trindade da silva*
andre_trindad1@hotmail.com
Inserido em: 2007-07-17 12:58:49

Ainda não li o livro, mas pela resenha do Sr, Arnoldo Kraus, já dá p perceber a importância desta pequena, mas gigantesca obra, que pode vir a iluminar o caminho de muita gente, a começar por nós mesmos.
" fanatismo reside no desjo de obrigar o outro a mudar".
Será, que tb, todos nós, não somos fanáticos em determinadas situações e posicionamentos?
Admitir isso, sem dúvida, é o primeiro passo para uma mudnça significativa em busca da integridade humana.
parabéns!

 Publicado em: 2007-07-16 por admin, última modificação em: 2007-07-20 por admin

 

 

     

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