O rabino Sobel e o Brasil
Jaime Pinsky, publicado na Adital
Conheci o rabino Sobel na época do enterro de Vladimir Herzog, o Vlado. Assassinado pelo regime militar depois de barbaramente torturado, o corpo do jornalista foi entregue à família com a informação de que teria se suicidado. Uma foto do suposto auto-enforcamento foi entregue à imprensa. A farsa, como em tantos outros casos, era evidente. Mas aqui havia um detalhe. Como judeu Vlado deveria ser enterrado em um cemitério judaico, e a tradição prescrevia um local separado para suicidas, por terem atentado contra sua própria vida. O então jovem rabino da CIP (Congregação Israelita Paulista), chegado havia pouco dos Estados Unidos, calculou e correu o risco. Determinou que o corpo não seria enterrado junto aos suicidas, pois suicida não era. O enterro foi dramático: inconformismo da mãe, esposa e filhos, algumas falas corajosas, fotógrafos e cineastas (sic) do governo registrando a presença dos "subversivos" à cerimônia. Havia medo, mas a atitude daquele rabino deu coragem às dezenas de colegas e amigos do jornalista assassinado que se comprimiam em volta do caixão e que acompanharam, chorosos, mas conscientes do seu papel, a descida do corpo para dentro da cova no Cemitério Israelita do Butantã.
Todos, na sociedade e no governo, viram que o país já não suportava mais a intolerância política. Aquelas mesmas pessoas e mais milhares de outras acorreram ao serviço religioso ecumênico que seria realizado alguns dias depois na Catedral da Sé, sob a responsabilidade de D. Paulo Evaristo Arns e o rabino Sobel, entre outros. O Brasil não seria mais o mesmo.
Atingido pelos acontecimentos o rabino, então com pouco mais de 30 anos, soubera se portar como um liberal americano de boa estirpe, e como um líder religioso corajoso, tolerante e pleno de compaixão.
Ao longo de toda a sua permanência no Brasil Sobel continuou na mesma linha. Preocupado mais com a essência das coisas religiosas do que com sua aparência, ele sempre apostou no diálogo inter-religioso e tem sido um dos seus mentores, com atuação que não se circunscreveu às nossas fronteiras. Também na política internacional sua posição tem sido de diálogo, inclusive no que se refere a um estado nacional para os palestinos, em coexistência com Israel. Óbvio? Nem tanto, para alguém que se tornou o mais importante líder religioso judaico e precisa conviver com setores mais ortodoxos e menos abertos. De resto, pretensos líderes comunitários, com mais dinheiro do que talento, sentiam-se ofuscados pelo rabino "pop" e, por muitas vezes, tentaram destituí-lo de suas funções. Até a semana passada, sem sucesso.
E agora que estamos na Páscoa Judaica, o Pessach, deve-se lembrar que, para além, para bem além da figura pessoal (rosto grande, nariz forte, solidéu cor de vinho encimando cabelos cortados com estilo característico, sotaque forte) o rabino Sobel tem representado para a comunidade judaica e para a sociedade toda uma travessia: a passagem do judaísmo de gueto, da mentalidade paranóica, para um judaísmo mais universal, que se preocupa com o povo judeu no mundo e não com o mundo contra o povo judeu. Quando criança, meus pais me contavam que "pogrom" era palavra de origem russa que significava perseguição contra os judeus, oprimidos na Europa Oriental. Ao ver a polícia do então interventor Adhemar de Barros jogar seus cavalos contra os operários da "Sorocabana" corri assustado para casa para contar a meus pais sobre o "pogrom" que estava acontecendo perto de casa. Pouco interessava que os "judeus" não fossem judeus. Esta passagem, do tribal para o universal, Sobel realizou.
Não escrevo estas linhas como judeu religioso, que não sou, como não sou membro da comunidade que o contratou. Escrevo como historiador, incomodado com a falta de compaixão contra um homem que, provavelmente, está com problemas e precisa de ajuda neste momento, ele que ajudou tanta gente. Afinal, ele nunca cometeu abuso sexual, ou assaltou os cofres públicos...
Enquanto outros buscavam pecados em todos os gestos humanos, Sobel sempre buscou compreendê-los. Sem dúvida, O Brasil ficaria menor sem ele.
* Historidor, doutor e livre-docente pela USP e professor titular da Unicamp
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*Aldo Luiz* aldoluiz47@hotmail.com Inserido em: 2007-05-14 09:45:23
Eulália
Antes tarde que nunca, permita-me fazer minhas, suas palavras. Apenas gostariade lembrar que você esqueceu de citar a espada que ela traz na mão para usar naqueles que descordem de seus veredictos.
*Marlene* mappereira@itelefonica.com.br Inserido em: 2007-04-14 18:48:23
Concordo com sua opinião. O mundo precisa de mais discernimento. Não podemos apenas classificar... há atitudes e atitudes. Precisamos ajudar-nos mutuamente e não apenas julgar e condenar atos isolados, mas entender em que contextos foram praticados.
*Erik* naoparenapista@bol.com.br Inserido em: 2007-04-13 11:29:50
Quer dizer então que rabino roubar pode? Me desculpe, sr. Jaime,no alto de sua torre, enclausurado em sua masmorra universitária, no ar condicionado da universidade pública, mas roubar é crime, independente de quem o cometa. Sobel é judeu, pacífico, importante para os direitos humanos, porém é ladrão, roubou, furtou e nem moisés perdoaria.
Queime no inferno rabino Sobel, assim com milhões de brasileiros queimam nas prisões por terem simplesmente furtado pão, ou manteiga... E sem esse pequenos grandes brasileiros? O Brasil ficaria maior?
*Rodrigo* ferbaa@gmail.com Inserido em: 2007-04-12 16:39:26
O rico que rouba é cleptomaníaco, está doente e precisa de ajuda. O pobre é bandido e vai preso "até o julgamento".
Francamente, concordo com Eulalia, a Justiça está deprimente.
*Eulalia * eulalia.stucchi@uol.com.br Inserido em: 2007-04-12 15:48:20
Senhor mediador, seja realmente justo e deixe minha mensagem ser lida por outras pessoas.
Não é o fato de ele estar com problemas que vai redimi-lo do crime que cometeu.Nem o histórico honrado de sua vida, pois todo ser humano nasce com a ficha criminal limpa. Ora, todos os bandidos e ladrões do universo também têm problemas. Só que a maioria não tem dinheiro pra comprar remédios caríssimos e que lhe respaldam as ações. Basta querer encontrá-los(os problemas dos ladrões) e teríamos a justificativa perfeita para absolvê-los de seus crimes. Tenho dó do ser humano que macula uma vida ilibada e gloriosa por 4 gravatas, mas, se redími-lo terei de fazer o mesmo aos milhões de ladrões que existem ou , então, não há justiça no mundo. A justiça foi feita? Ele pagou 3 mil e não sei quantos dólares de fiança e o "fulaninho" que roubou a galinha do vizinho apodrece na cadeia porque não pôde pagar? Isso não é justiça! Estamos à merce dos que pensam que estão fazendo justiça. Não é à toa que ela (a justiça) é representada por um a dona cega segurando uma balança. Tem sempre dois lados. Agora, a balança tá pendendo pro outro lado e como a dona é cega, não pode ver o desequilibrio que há. quem vai pular pro lado de lá pra tentar equilibrar a balança, hein?
Muito obrigada!
*JORGE LIRA REZALA* jrezala@terra.com.br Inserido em: 2007-04-12 15:32:47
Como é bom ver alguém sair em defesa de outrem, quando tudo parece ir contra àquele ...
*Dalmo Rufino* darsant@cidadeinternet.com.br Inserido em: 2007-04-12 15:26:51
"... Afinal, ele nunca cometeu abuso sexual, ou assaltou os cofres públicos..." (sexto parágrafo). O texto está muito bem escrito, mas, essa parte final do texto, para quem lê, que faz alusão aos padres pedófilos e aos políticos (posso estar enganado), poderia ter sido desprezada pelo ilustre historiador, para não parecer uma justificativa de um crime menor em contrapartida com um maior.
*ricardo porto* ricardoporto.miranda@gmail.com Inserido em: 2007-04-11 16:02:09
Taí. Gostei da lucidez do Jaime.
O Brasil com certeza fica menor com o recolhimento do Sobel. A crise não é do rabino, não é dos judeus, é pessoal, do ser humano que ele é e que merece, é certo, todo nosso apoio e compreensão. E ponto pro Vaticano que o convidou a participar de um evento internacional ecumênico, reconhecendo sua relevância histórica em favor do entendimento e da paz.
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