A Espanha Medieval e o Pensamento Filosófico Judaico
2006-12-14 12:56:20

Ivy Judensnaider, do Arscientia
 
A Filosofia Medieval e a Filosofia Judaica Medieval
 
A questão das causas finais da existência humana vem ocupando um papel de grande importância na discussão filosófica e religiosa, da Antiguidade até os nossos dias. Inúmeras questões, na ruptura entre os dois sistemas (o mítico e o racional), passaram a ser objeto de estudo tanto da Religião quanto da Filosofia. Se hoje, aos nossos olhos, causa estranheza a relação entre Ciência e Religião (Razão e Fé), tal não ocorria nos séculos anteriores à ruptura entre essas duas linhas do pensamento. “Quando no mundo atual se fala em filosofia religiosa, o primeiro pensamento é dirigido ao problema do relacionamento entre a religião positiva, revelada, e as ciências, argumentando-se que as duas não têm nada em comum, ou quase nada, por colocarem se em camadas diferentes do conhecimento humano. A filosofia medieval não conhece esta problemática. A sua pergunta é se as ‘verdades reveladas são capazes de ser alcançadas igualmente pela razão’” (2)
 
O homem escolástico é aquele que organiza o sistema cosmológico (aristotélico, neoplatônico ou pitagórico), confrontando-o com a Fé, na busca de uma explicação racional.  A filosofia medieval irá procurar não a explicação dos fatos, mas a provisão de argumentos racionais.
 
 

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No caso da religião judaica, ela passa a refletir sobre si mesma quando se vê na companhia de outras formas de pensar (helenista e islâmica), especialmente no período ibérico da Idade de Ouro. Assim, se a filosofia medieval é resultado do encontro da filosofia grega com as religiões monoteístas, a filosofia judaica medieval na Espanha encontra suas raízes nas inter-relações com a filosofia árabe. “Esta filosofia árabe, resultante do encontro do Islã monoteísta com o helenismo, e depois com Aristóteles e o neoplatonismo, forma a base da filosofia judaica” (3).  Os filósofos judeus medievais, e particularmente os espanhóis, tratarão de problemas lógico-metafísicos no contexto da visão religiosa em que se apóiam.
 
A Espanha Medieval e o Pensamento Filosófico Judaico Medieval Espanhol
 
É marcante a importância do estudo da Espanha Medieval entre os séculos VIII e XII, pois é nesse período que surgem inúmeros filósofos e pensadores religiosos judeus. Apesar do reconhecimento dessa situação sui-generis, e dos desenvolvimentos que a ela se seguiram (especialmente no tocante à influência do pensamento de pensadores judeus na formulação da obra de São Thomas de Aquino e outros), a visão “clássica” historiográfica vem se limitando ao estudo da cristandade ocidental representada única e exclusivamente pelo “ocidente cristão”, formado pelo Sacro Império Romano-Germânico e onde o imperador detinha o poder temporal, e o Papa o poder espiritual. A história da Europa vem sendo contada, assim, a partir dessa região (Alemanha, França e Itália), ficando os outros países como periféricos. Essa visão centro-européia permitia a “limpeza” histórica do cristianismo, esquecendo-se do Mediterrâneo na vã intenção de forjar um inexistente ideal de cristandade medieval unida. Se a Espanha havia se tornado um ponto de encontro entre diferentes religiões e culturas, tornara-se um caso de escândalo e contaminação: o espanhol era o mau cristão, mistura de judeu, cristão e mouro.
 
Após a morte de Maomé, a expansão árabe chegou à Espanha (século VIII), lá encontrando seus limites: a Espanha passou a ser chamada Al-Andaluz, ou Andaluzia. Enquanto o restante da Europa era devastado pelos bárbaros, na Espanha a civilização greco-romana foi preservada.
 
Ao tomarem conhecimento das obras de Aristóteles e da cultura helênica por meio de textos em grego ou árabe, as famílias judias de tradutores fariam a versão para o hebraico e, a partir desse, os monges fariam posteriores traduções para o latim. O convívio com outras religiões auxiliou no desenvolvimento de um pensamento filosófico judaico nesse período bastante original, especialmente estruturado para responder a três desafios: 1) fazer a apologia, quando necessária a defesa da filosofia judaica perante outras manifestações religiosas; 2) sistematizar o pensamento judaico; 3) defender a filosofia judaica “central” quando de cisões no corpo da comunidade judaica.
 
A filosofia judaica partiu para a explicação aristotélica e racionalista da sua forma de pensar, ou neoplatônica, em termos e temáticas bastante particulares e, nesse contexto, diferenciaram-se três escolas: a primeira, racionalista, que tem em Maimônedes o seu maior representante (sendo a tendência de procurar racionalmente o conhecimento divino o seu traço “aristotélico” mais importante, embora sejam visíveis as influências do neoplatonismo no seu pensamento, especialmente quando ele se expressa em relação à unidade pura de Deus); a segunda, de crítica ao intelectualismo filosófico, da qual fará parte Yehuda Ha-Levi; a terceira, ascética-espiritual, da qual fará parte Ibn Gabirol, embora nele possam ser identificados traços de não-ortodoxia neoplatônica.
 
Esse período, do século VIII ao XI, foi de intensa riqueza cultural para os judeus. A comunidade sefaradita era a mais rica e populosa fora da Babilônia. Córdoba, no século X, tinha perto de quinhentos mil habitantes, inúmeros palácios, universidades e bibliotecas. O ideal sefaradita era o homem que combinava fé nas leis e preceitos judaicos com o interesse pela filosofia e pelas ciências naturais. Observava-se a religião, mas os costumes eram cosmopolitas. Estudava-se a Tora, mas o conhecimento grego era buscado. A tradição era judaica, mas a cultura somava o não judaico.


 

No século XI, o Califa que administrava a região da Andaluzia foi derrubado, assumindo uma outra dinastia, mais fanática e intolerante. A vitória dos almôadas em 1146 (muçulmanos extremamente radicais) deu por terminada a Época de Ouro da Espanha medieval, com a fuga dos judeus para a África e o norte cristão da Espanha.
 
Maimônedes: a filosofia judaica medieval, da Espanha ao Egito
 
Maimônedes (cujo nome árabe era Abu Imram Musa ben Maimun Ibn Abdala, e o nome judaico Rabi Moses ben Maimon) ou Rambam, como era conhecido, nasceu em Córdoba, em 1135, quando esta cidade era densamente povoada e um centro cultural de vital importância. Seu pai era matemático, astrônomo e talmudista e, provavelmente, passou para ele esses conhecimentos. Quando o sul da Espanha foi invadido pelos almôadas, Maimônedes fugiu para Fez (Marrocos) e, posteriormente, dirigiu-se à Palestina e Egito. Resolveu seguir a medicina já com mais idade (1166), após a morte do irmão que o sustentava. Em 1176 iniciou a redação do Guia dos Perplexos, sua maior obra, que demorou quinze anos para ficar pronta. Considerada extremamente complexa, era sugerida sua leitura apenas para pessoas em idade madura, a partir dos vinte e cinco anos. Em 1187, tornou-se médico do Sultão Saladin e faleceu, em 1204.
Além de vários tratados religiosos, Maimônedes escreveu sobre medicina (preventiva, curativa e de auxílio aos inválidos), propagando as idéias de Galeno e criticando algumas de Hipócrates. São de sua autoria, também, os Treze Princípios que definem a Revelação Divina.
 
O Guia dos Perplexos  trata da perplexidade do encontro entre a formação filosófica e científica e a formação religiosa. Algumas das principais idéias tratadas por Maimônedes são as seguintes: a) os atributos de Deus são a ele designados, não fazendo parte de sua essência (com a nossa linguagem, por analogia, atribuímos a ele características de forma indevida, já que seus atributos são tão superiores que não podem ser julgados ou qualificados); b) da mesma forma que a anterior, agimos em relação aos atributos antropomórficos de Deus: na realidade, eles são metafóricos (descrevem o ato e não o agente) ou atributos de ação; c) a existência não é um atributo essencial das coisas existentes; para Maimônedes, a existência acrescenta à essência o mero fato de existir. Ainda, como a existência vem “de fora”, não pode se aplicar a Deus, porque sua existência não é “causada”. “Ele não existe como todas as coisas existem.(...) O que estamos dizendo é simplesmente a negação: Deus não é inexistente” (4).
O ser divino era o ser “eterno, imutável, imperecível, sempre idêntico a si mesmo, perfeito, imaterial, conhecido apenas pelo intelecto, que o conhece como separado do nosso mundo, superior à tudo que existe, e que é o ser por excelência” (5) . Esse ser divino, chamado de Primeiro Motor Imóvel, não age diretamente sobre as coisas, apenas atraindo-as. As coisas, quando mudam, o fazem para alcançar a perfeição do Primeiro Motor e o devir, assim sendo, é eterno.
 
Essa idéia de Primeiro Motor será utilizada por Maimônedes ao falar de Deus: ser que necessariamente existe em relação a si mesmo, que existe sem causa e não é composto, não é força nem corpo. Se existe uma harmonia nas forças que compõem o Cosmo, “todo o Universo aponta para uma única causa, que lhe dá origem e se ocupa dele” (6).
 
Ao utilizar os conceitos aristotélicos como reforçadores da idéia de eternidade, superioridade e unicidade divina, Maimônedes vai dizer que a ação depende apenas da vontade de quem age, que a vontade do que não é corpóreo não é influenciada por fatores externos e não é passível de sofrer mudança: “só incomoda quem clama que tudo existe em virtude de uma necessidade mecânica e não pela vontade de quem o criou. Esta visão não coaduna com a ordem do universo e não há prova ou argumento suficiente que avance nesse sentido” (7).
 
Maimônedes também discute o problema do mundo ter sido criado ou não ter tido um início, levando em conta apenas os argumentos e opiniões daqueles que acreditam que Deus existe: “não vejo propósito em expor os pontos de vista dessas seitas [que não acreditam na existência de Deus], dado que a existência de Deus está definitivamente provada e torna-se inútil discutir pontos de vista que se baseiam em proposições que negam provas evidentes” (8).  Para Maimônedes, “o tempo é conseqüência do movimento e o movimento é uma contingência de um fator motor: o elemento que move e que dá origem ao fator tempo, foi criado do nada, não tendo existido anteriormente” (9). 
 
Algumas Considerações Finais
 
 O estudo da obra de alguns filósofos judeus da Ibéria aborda questões de vital importância nas investigações relativas às histórias da Filosofia, Religião, Lógica e Ciência. Ainda, nos permite vislumbrar a riqueza e o debate acalorado existente no medievo, quando Fé e Religião não se encontravam dissociadas e, juntas, davam forma e conteúdo para o conhecimento existente.
 
A ciência medieval, impregnada que estava de pensamento religioso, surge desses escritos, apontando-nos trilhas para obras de filósofos cientistas e religiosos posteriores (judeus e não judeus). As suas discussões a respeito de conceitos pitágóricos, aristotélicos e platônicos – particularmente no tocante à eternidade do universo, existência de Deus, criação e harmonia do cosmos e dos corpos celestes – nos revelam a possibilidade da influência das culturas árabes e islâmicas na formulação do seu conhecimento, bem como a integração desses saberes com a religião judaica e a ciência do período.
 
“Nenhuma comunidade judaica chegou a ter um interesse ativo na ciência tão profundo como o dos judeus da Espanha e de Portugal. A ciência repercutiu profundamente nas suas realizações culturais. As atitudes para com a ciência assumidas por pensadores que formularam a perspectiva judaica sobre as coisas – filosofias do judaísmo, se preferirem – fixaram a estrutura para discussões subseqüentes, até para os nossos dias” (10).  Mais do que pertencer à área específica da história do povo judeu, essa investigação nos permite vislumbrar a História da Ciência sob um ponto de vista que reflete a influência do pensamento religioso na construção do que hoje entendemos como científico e racional. Ainda, “quando ampliamos nosso horizonte ao olharmos nosso passado, descobrimos que fontes da ciência e da religião sobrepõem-se nas grandes transformações sociais que originaram o mundo moderno” (11).
 
Notas:
[1] Texto extraído da Monografia apresentada no curso de História da Lógica, no programa de pós-graduação em História da Ciência da PUC – SP, sob orientação do Prof. Dr. José Luiz Goldfarb.
[2] F. Pinkuss, Tipos de Pensamento Judaico , p. 35.
[3] S. Scolnicov, Essência e Existência, p. 2
[4] S. Scolnicov, op. cit., p. 71; o autor também explica a inadequação de atribuirmos unidade a Deus, já que ele só poderia ser um se houvesse, igualmente, a possibilidade dele ser vários.
[5] M. Chauí, op. cit., pág. 218.
[6] Maimônedes, Guia dos Perplexos., pág. 137
[7] Maimônedes, op. cit., pág. 154.
[8] Maimônedes, op. cit., pág. 142.
[9] Maimônedes, op. cit., pág. 138.
[10] Y. T. Langermann, “A Ciência Judaica na Ibéria Medieval”, in A. W. Novinsky & D. Kuperman, orgs., Ibéria-Judaica: Roteiros da Memória, pág. 102. Neste trabalho, o autor reflete sobre as práticas científicas judaicas do período: a medicina (em função do valor teológico advindo da sabedoria divina revelada no funcionamento do corpo humano), a astrologia e astronomia (conhecimento dos corpos celestes, fundamentais para a compreensão do esquema cosmológico), a farmacologia, a matemática e a preparação de enciclopédias. Também nos fala sobre a intensa atividade literária hispano-judaica, que retirava da ciência os seus conteúdos e referências.
[11] J. L. Goldfarb, “Ciência e Religião: Inovações Matemáticas”, in J. L. Goldfarb & M. H. M. Ferraz, orgs., Anais do VII Seminário Nacional de História da Ciência e da Tecnologia, pág. 197, nos fala sobre a importância do estudo das manifestações religiosas (em particular, das semitas – judaica e islâmica) quando da investigação da astronomia e sua conseqüente aproximação com a matemática através da observação dos corpos celestes, elaboração dos calendários e a realização de censos.
 
BIBLIOGRAFIA
CHAUÍ, M., Convite à Filosofia. São Paulo, Ática, 2002.
GOLDFARB, J. L. “Ciência e Religião: Inovações Matemáticas”. In: José Luiz Goldfarb & Márcia M. H. Ferraz, orgs. Anais do VII Seminário Nacional de História da Ciência e da Tecnologia. São Paulo, Imprensa Oficial/Edusp/Ed. Unesp, 2000.
LANGERMANN, Y. T. “Torah and Science: Five Approaches from Medieval Spain”. In: José Luiz Goldfarb & Márcia M. H. Ferraz, orgs. Anais do VII Seminário Nacional de História da Ciência e da Tecnologia. São Paulo, Imprensa Oficial/Edusp/Ed. Unesp, 2000.
___________________. “A Ciência Judaica na Ibéria Medieval”. In: Anita W. Novinsky & Diane Kuperman, orgs. Ibéria-Judaica: Roteiros da Memória. São Paulo, Expressão e Cultura/EDUSP, 1996.
MAIMÔNEDES, Guia dos Perplexos. São Paulo, Sefer, 2003.
PINKUSS, F., Tipos de Pensamento Judaico. São Paulo, Centro de Estudos Judaicos da FFLCH/USP, 1975.
SCOLNICOV, S., Essência e Existência. São Paulo, Associação Universitária de Cultura Judaica, 1994.
 
Publicado originalmente no Arscientia
 
Ivy Judensnaider - É economista e mestra em História da Ciência e Tecnologia pela PUC/SP. Trabalha como professora universitária e é escritora. ivy.naider@gmail.com
São Paulo - SP
 
 

    







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*juliane silva dos santos*
Inserido em: 2008-05-27 20:15:53

adoreiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii


*Simone Barreto*
Inserido em: 2008-03-14 18:27:36

A mensagem dita pelo sabio filosofo Maimonedes, relete:
"Quantas vezes dar", e mais importante que quanto", estou estudado Serviço Social, e vou avaliar esse texto, obrigado aguardo resposta.