Por onde anda o “Tourist Guy”?

A mais divertida lenda urbana erguida sobre os escombros do World Trade Center.

André Azevedo da Fonseca

No final de 2001, milhares de designers anônimos espalhados pelo planeta se deliciaram pela Internet fazendo graça com um personagem improvável, cuja popularidade crescente o transformou no mito mais anárquico das sucessivas ondas conspiratórias que envolveram os ataques ao World Trade Center. Naquela época, entre um spam vagabundo e outro, eis que passou a pipocar pelos e-mails uma imagem, evidentemente falsa, de um turista que supostamente havia sido fotografado há poucos segundos do atentado. Lá estava o sujeito, com a maior cara de pateta, olhando inocente para a câmera, enquanto atrás dele o avião aproximava-se do alvo! Uma comédia.

Nas semanas posteriores, essa piada percorreria em todo o planeta através de correios eletrônicos, de sites e da imprensa mundial. O turista desconhecido tornou-se um dos caras mais famosos do mundo. Os jornais suspeitaram que o sujeito era brasileiro, um tal de Roberto Penteado, de Campinas, que chegou a ser convidado para fazer uma propaganda da Volkswagen. Mas depois descobriu-se que, na verdade, o turista era um húngaro, chamado Peter.
Mas isso era o que menos importava: a piada estava apenas começando. A foto ficou tão popular que, em pouco tempo, designers voluntários de todos os lugares passaram a fazer novas montagens cada vez mais hilárias, que imediatamente circulavam por e-mails em todo o planeta. Foi uma das primeiras epidemias criativas do ciberespaço no século 21.

A princípio, todo tipo de objeto passou a substituir o avião no ataque terrorista. O monstro de marshmallow, carros, balões, mulheres obsesas e o diabo! Mas a coisa ficaria ainda mais engraçada quando o “tourist guy”, ou o “tourist of death” – como ficou conhecido – passou a aparecer em fotografias que retratavam catástrofes, guerras e conspirações da história da humanidade. Lá estava ele na dramática explosão do Concorde em julho 2000; no atentado ao destróier USS Cole em outubro de 2000; no naufrágio do Titanic em abril de 1912; no incêndio do Zeppelin em 1937, no assassinado do presidente Kennedy em 1963... o sujeito era o anjo exterminador, o mensageiro do caos, o embaixador da desgraça, o maior enigma das histórias de conspiração da humanidade!

Mas o cara mais famoso do mundo ficaria ainda mais popular. E eis que, nas enxurradas diárias de spam, o sujeito torna-se na maior celebridade cinematográfica de todos os tempos. Dezenas de e-mails chegavam diariamente mostrando que ele estava presente em praticamente todos os filmes americanos de todas as épocas: Blade, ET, Matrix, Instinto Selvagem, Batman & Robin.... Era ele, era ele, o tempo todo!

Não há dúvidas: o Tourist Guy foi o sujeito mais popular do início do século 21. Restam algumas perguntas: será que ele estava envolvido nos ataques aos trens na Espanha? Será que participou da captura de Saddam Hussein? Do ataque de Israel ao Líbano? Da destruição de Nova Orleans pelo furacão Katrina? Do ataque do PCC em São Paulo? Do dossiê? E o mais importante: que desastre ou conspiração estará tramando agora?

André Azevedo é jornalista e historiador. Professor do curso de Comunicação Social da Universidade de Uberaba (Uniube)

        

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 Publicado em: 2006-11-17 por admin, última modificação em: 2006-11-17 por admin

 

 

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