O império de mitos 5: A fabricação do terror
2016-10-06 23:17:29

Chico Villela

‘A mão que afaga é a mesma que apedreja’
Augusto dos Anjos

Os atos ‘false flag’ (bandeira falsa) são adotados há centenas de anos para a realização de atentados terroristas e a imputação da culpa ao inimigo ou inimigos. Os Estados realizam, ou permitem a realização de, atos ‘false flag’ contra seus próprios povos, a exemplo dos atentados às torres gêmeas e ao Pentágono de setembro de 2001, e tantos outros.

Por exemplo, após explodirem parte de um trem, em 1931, os japoneses imputaram o ataque à China e invadiram a Manchúria chinesa. Até as crianças de creche sabem que o incêndio do Parlamento alemão, o Reichstag, em 1933, foi obra dos nazistas, que o atribuíram aos comunistas. O ato terrorista desencadeou uma onda de prisões, censura, torturas e assassinatos e abriu o caminho para a ascensão de Adolf Hitler ao poder. E ataques mortais ao povo alemão, de iniciativa da Gestapo e atribuídos aos poloneses, justificaram a invasão da Polônia pelas forças nazistas em 1939, abrindo a trilha da II Grande Guerra.

Após o término da II GG, em 1945, forças organizadas da Otan, com apoio da CIA e do Pentágono, de agências de inteligências de vários países europeus e de mercenários de aluguel, organizaram atentados entre 1950 e 1980 na Europa – França, Itália, Alemanha, Dinamarca etc. -, sempre inculpando os partidos comunistas e de esquerda. A gigantesca e durável operação, conhecida hoje e fartamente documentada como ‘Operação Gladio’, assassinou alguns milhares de europeus. Foi o emprego do mais severo terrorismo contra os povos da Europa a partir de seus próprios governos e forças militares.

Lá vem Osama bin Laden – No final da década de 1970, a Rússia invadiu o Afeganistão, a pedido do governo marxista afegão. Em pouco tempo, um conluio entre EUA (CIA, inteligência, treinamento e armamento), Paquistão (território para operações e colaboração do ISI – agência paq de inteligência) e Arábia Saudita ($$$) propiciou a constituição de um exército de mercenários sob o comando de Osama bin Laden, muçulmano tradicionalista, membro da família mais rica saudita, os Laden, fora a família real. Segundo consta, o trono de Saud já vinha financiando a aventura da construção da indústria nuclear paquistanesa.

Ali consolidou-se, nos combates contra os russos e os governos marxistas, uma organização militarizada batizada pelo chefe bin Laden de Al Qaeda – A Base. Hoje, a Al Qaeda é listada pelo Ocidente como organização terrorista. Foi criada pelo império para os combates no Afeganistão, no contexto da Guerra Fria, mas em pouco tempo desgarrou-se do império e gerou muitos filhotes1. Mas a Al Qaeda continuou prestando serviços ao império.

A guerra sem fim – No Iraque em 2003, após depor o governo sunita de Saddam Hussein e instalar caos e aniquilação no país, os militares estadunidenses, da Otan e mercenários “legais” dos EUA (foram mais de 100 mil no auge da invasão, mais que as tropas invasoras) trabalharam juntos com organizações terroristas contra as forças opostas à invasão. Por volta de 2006, após perceber o erro de ter dissolvido as forças armadas iraquianas, os invasores organizaram milícias sunitas de militares desempregados contra seus inimigos.

O que transparece, após o fracasso do Iraque, é que as forças armadas imperiais colocam cada vez menos tropas suas no solo de outros países. Usam, para suas ações de destruição, criação de caos e ‘trocas de regimes’ (regime change), forças organizadas locais de formato terrorista, a maioria financiada, armada e treinada pelos poderes imperiais e seus associados. Muitos combatem em nome de uma fé, de preceitos variáveis, conforme correntes religiosas, mas invariavelmente rígidos, e tendentes a regimes fascistas. Mas os discursos contra o terror continuam, tanto quanto as referências a democracia, direitos humanos, proteção a populações, liberdade, socorro humanitário e outros conceitos úteis e vazios.

O golpe de Deir Ezzor – A diplomacia russa ignora os clamores imperiais de que haja “grupos moderados” entre os mercenários que atuam no cenário sírio. O grupo mais forte e armado atualmente entre os que combatem o governo sírio, a soldo do império pago pela Arábia Saudita e Qatar, é conhecido como Jabhat al-Nusra. O Qatar anda empenhado em campanha para mudar o nome e a classificação da organização terrorista, de al-Nusra para Jabhat Fatah al-Sham, entidade fantasma que vem sendo apresentada como ‘moderada’ e sem ligações com a mãe Al Qaeda pelo canal de TV Al Jazeera, do governo catari, que veiculou longa entrevista com o “comandante” da al-Nusra. É o grau mais alto até hoje público de falsificação e torpeza da parte de um Estado. O crescimento e a consolidação da al-Nusra como o mais forte grupo anti-Assad decorre da adesão de variados grupos, nutridos pelo império, que se somam aos seus combatentes, subordinam-se ao seu comando e entregam as armas fornecidas pelo império à al-Nusra.

A Rússia não quer conversa mole: bombardeia a al-Nusra e o último filhote da Al Qaeda, o infame Daesh ou Isis ou EI – Exército Islâmico. O EI nasceu no Iraque com colaboração de ex-oficiais iraquianos de inteligência alijados do poder pelo império. As duas organizações terroristas agem em coordenação com o Pentágono e os serviços de inteligência estadunidenses, ingleses e franceses, nem sempre, mas sempre.

Daí se originou o bombardeio do Pentágono a uma base militar síria antiga e conhecida em Deir Ezzor, também aeroporto, que matou uns 90 e feriu mais de 100. O ataque inédito coloca o governo imperial sob suspeição, por razões cristalinas. Uma semana antes, o queixudo e tosco John Kerry, secretário de Estado, e seu correspondente russo, o erudito e brilhante Sergey Lavrov, haviam finalmente concertado um cessar-fogo. Nunca aceito pelas organizações terroristas, claro, e muito menos pelos membros do governo estadunidense John Brennan, chefe da CIA, e Ash Carter, secretário de Defesa e chefe do Pentágono. Uma razão militar é que os invasores passariam a coordenar ataques aéreos com a Rússia e, assim, os russos seriam informados dos métodos e táticas de ataque dos adversários, o que seria inconcebível para o Pentágono.

Cria-se uma situação de alta ambigüidade: dois dos mais altos membros do governo BHObama reagem contra um acordo internacional celebrado por um dos mais altos membros do governo BHObama. Se há uma definição para o termo ‘lame duck’, o chamado ‘pato manco’, aplicado a governos gringos em fim de mandato, BHObama encarna o animal à perfeição. O ataque matou na fonte a possível pacificação. E colocou na pauta política internacional a questão inacreditável: afinal, quem é que manda mesmo no governo representante do sistema ancestral de poder imperial (a partir da fórmula do ex-presidente Eisenhower do ‘complexo industrial – militar) no seu formato atual: complexo financeiro - industrial de guerra – militar – de inteligência – midiático.

A guerra interna – Se não há comando, todo mundo manda. A contenda entre a CIA e as forças militares abrigadas sob a sigla “forças especiais” já vem tendo história e, mais um momento inacreditável, batalhas reais entre grupos. Foi sob o mando dos membros do Estado Profundo e principais arquitetos do nó político-militar que asfixia o império, Dick Cheney e Donald Rumsfeld (que mandaram no governo do idiota Bush filhote), que a crise entre as forças de inteligência – leia-se CIA principalmente – e as forças de intervenção militar chamadas ‘especiais’ tornou-se questão do Estado imperial.

Esta contenda já vinha sendo desenrolada, por exemplo, nas batalhas em torno de Aleppo, antes a maior e mais rica cidade síria fora Damasco. Na crucial batalha de Aleppo, dois dos grupos terroristas do chamado Exército Sírio Livre acham-se em combate, um treinado e armado pela CIA, e outro treinado e armado pelas forças especiais pentagonais. Ou seja, em Aleppo a CIA está em choque frontal com o Pentágono. John Brennan, notório fascista, que foi chefe do importante posto da CIA na Arábia Saudita, tem uma obsessão: depor ou assassinar Assad. É impossível falar-se em controle em situações assim. Quem detém controle são os grupos e, atrás deles, seus financiadores.

Desculpe, madame! – O Pentágono “desculpou-se” pelo ataque, alegando engano. Mentira. O ataque durou cerca de 1 hora, planejado. A conhecida base síria de Deir Ezzor estava sob ataques do Exército Islâmico. Após o bombardeio, os mercenários do EI precipitaram-se sobre os restos da base. Os aviões imperiais e os analistas e conselheiros observadores nada viram, claro. A base e o aeroporto localizam-se próximos à cidade de Raqqa, que serve como capital regional do EI.

Nenhuma grande mídia do mundo noticiou a reação russa após o massacre de Deir Ezzor. Foi como se a Rússia tivesse perdido a iniciativa. Com três poderosos mísseis Caliber, partidos de navio russo no Mediterrâneo, a Rússia destruiu uma “sala de operações” próxima a Aleppo, em território controlado por forças aliadas aos invasores. A ‘sala’ era operada por pessoal de inteligência e forças especiais dos EUA, junto com agentes de Israel, Turquia, Reino Unido, Qatar e Arábia Saudita. Abasteciam os grupos anti-Assad com informações estratégicas2. A ‘sala’ era conhecida pelos russos, que a toleravam.

Nem o governo russo nem o imperial deram qualquer sinal do acontecido: afinal, a sala era ilegal, coisa de invasores, e não interessa aos russos alardear seu feito. Mais de 20 agentes morreram. A destruição da ‘sala’ repõe a Rússia na posição de principal apoio ao governo sírio e contra os mercenários recrutados, treinados, armados e pagos pela coalizão anti-Assad. E cria mais um degrau na escadaria, construída pelos EUA-Otan e vassalos árabes e orientais, de acesso à guerra ampliada na Síria e à terceira guerra mundial, que inclui no mínimo Rússia, China e Irã. Digna de nota é a clareza do recado russo: vocês mataram nossos aliados, e nós matamos vocês.

Acuado pelas forças sírias, do Hezbollah libanês, iranianas, iraquianas e russas, o EI vem se deslocando para o norte e o centro da África, além de presente, p. ex., no Afeganistão. Atualmente o império acha-se às voltas com o “combate” ao EI na Líbia3. Mas não na Síria.

Novos planos – Se Hillary Clinton anseia por depor Assad, tudo indica que o império, conforme aponta Mike Whitney, está deixando de lado o plano A (depor Assad e trocá-lo por um fantoche dócil) e passando ao plano B (dividir o país e criar um Estado sunita para instalar-se na região norte, com bases e tropas).

As propostas imperiais para a deposição de Assad andam difíceis. Uma das idéias geniais do queixudo e tosco Kerry é uma zona livre de vôos, a chamada ‘no fly zone’, mas de forma especial: a Rússia e a Síria mantêm seus aviões no solo. Mas o império e seus associados e vassalos podem voar à vontade, auxiliar seus asseclas, combater seus adversários. Uma gracinha digna dos arrogantes britânicos, que propõem nas negociações de saída da União Européia a livre circulação de cidadãos britânicos pela UE, mas limitam esta mesma livre circulação para os cidadãos de 25 países da UE.

O objetivo central, além das botas imperiais fincadas em mais um solo petroleiro, é permitir a passagem de um gasoduto do Qatar para a Turquia, de onde o gás será exportado para a Europa, para afastar os russos de parte do fornecimento de gás aos dependentes países europeus. Faz sentido: em 2011, Assad disse não à proposta do gasoduto catari, alegando que iria prejudicar seus amigos e protetores russos. No dia seguinte, como se diz no Brasil, a CIA começou a organizar os grupos de mercenários anti-Assad, com dinheiro da Arábia Saudita e do Qatar. A energia move o mundo e as guerras imperiais.

Finale – O general imperial Thomas Power, nos anos da Guerra Fria URSS – EUA, declarou: ‘A idéia global é matar os bastardos. No fim da guerra, se sobrarem dois americanos e um russo, nós ganhamos’. William Blum, agudo analista e irreverente crítico das mazelas político-militares do Império, observou: ‘lembre-se que, neste caso, seria bom sobrar um homem e uma mulher’.

Notas

1. As alianças da CIA e da Al Qaeda contra os inimigos marxistas no Afeganistão obrigaram a acordos com os ‘warlords’, senhores da guerra, que comandam exércitos de milhares de combatentes. Na verdade, os ‘warlords’ são ‘druglords’, senhores da droga. O Afeganistão é o maior produtor mundial de ópio (95%), ou seja, de heroína. Sob o governo Taliban (1996-2001), também tradicionalistas islâmicos que deram abrigo a Osama bin Laden, a produção de ópio chegou quase a zero. Após a invasão do Afeganistão pelas forças ocidentais, os EUA mais seus poodles de luxo otânicos, em 2001, pela sua negativa a entregar aos gringos Osama bin Laden sem provas da autoria dos atentados de setembro de 2001, a produção retomou os patamares de antes. Também tentou-se imputar os atentados ao Iraque, num amontoado de falsificações e mentiras que terminaram por ‘justificar’ a invasão do Iraque em 2003. Estava assim declarada a “Guerra Total ao Terror”, que até hoje justifica a política genocida, assassina e de rapina de energia e riquezas no Oriente Médio, norte da África, Ásia Central e mundo afora. Os impérios se assemelham ao longo da História.

Ao lado da falsa ‘guerra ao terror’ anda a falsa ‘guerra às drogas’, que será assunto de outro artigo.

2. A informação do ataque russo à sala de operações partiu de Michel Chossudovsky, criador a principal operador do relevante site canadense globalresearch.ca.

3. A principal autora da destruição da Líbia e do assassinato de Muammar Kaddafi foi Hillary Clinton, então secretária de Estado. A transformação da Líbia em não-Estado, dominado por grupos terroristas, foi parte de um vasto programa de aniquilação de Estados e apossamento das riquezas, principalmente em energia. Afeganistão, Iraque, Síria, futuramente Irã, e outros menos votados, como Somália, Yemen, etc. O programa foi delineado pelos neoconservadores na sua proposta para um novo século americano, muito antes do filhote Bush assumir. O plano se mantém impávido, e os personagens também, compondo parte destacada do governo BHObama ou de organizações de seus apoiadores, a exemplo da talvez futura presidente.

Para entender o porquê da destruição da Líbia deve-se olhar para o líder Kaddafi e suas propostas socialistas para a região e o norte da África. As propostas estavam registradas no famoso livrinho verde de Kaddafi. Era um ditador, como a maioria, mas seu país tinha medicina de altíssimo nível gratuita, e educação idem, até mesmo para bolsistas no exterior, financiados pelo governo líbio. Além do mais, o país tem muito petróleo, para infelicidade de Kaddafi. Tivesse imensas plantações de alface, talvez estivesse vivo até hoje.

Mas o que mais incomodou o império foram os planos de Kaddafi de implantar uma moeda única para todo o norte da África e a operação de um mercado comum para os norte-africanos, o que alijaria o USdólar. A partir daí, já considerado inimigo declarado do império, a Líbia foi ilegalmente bombardeada pela Otan (o império ficou nas sombras), de forma extremamente covarde. A Líbia tinha o maior índice de desenvolvimento humano entre todos os países africanos, África do Sul incluída. Kaddafi comandava o maior empreendimento de distribuição de água do mundo (parte do país é desértica), coisa de 42 bilhões de dólares. Não existem mais as obras. Até universidades líbias foram bombardeadas.

Entrevistada por ocasião da morte bárbara de Kaddafi, Hillary Clinton parafraseou o romano Julio Cesar (Veni, vidi, vinci) e disse: Nós viemos, nós vimos, ele morreu. A frase foi acompanhada por uma gargalhada. Assassinos são seres bastante estranhos.

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