O dia em eu que perguntei: - Parceiro, cê tem artrose?
2016-05-01 12:23:46

Por Marginal

Do alto dos meus privilégios observava de cima o registro dessa imagem. A princípio havia decidido nada fazer, no máximo tiraria uma foto, e depois, escreveria a respeito de como a situação é absurda e opressiva.


Contudo a situação foi ficando cada vez pior, conforme o homem se mexia suas pernas oprimiam ainda mais a moça sentada. Ela estava visivelmente desconfortável, mas o que poderia fazer?

Estava ao lado de um homem, e em nossa sociedade, para uma mulher, isso diz o suficiente. É provável que enfrente a mesma situação todos os dias e em todos os transportes possíveis.

Não tenho dúvidas de que a sua vontade fosse na verdade colocá-lo em seu devido lugar, e até me agradeceu com um sorriso de canto depois. O que fiquei ainda mais constrangido. Durante os poucos minutos que antecederam o acontecimento refleti de que maneira, nós homens, somos educados a ser mal-educados, misóginos, machistas e violentos.

Para a maioria dos homens que conheço o abrir pernas em demasia não passa de um velho hábito e por isso nada podem fazer, pensam eles. Outros justificam que incomoda, como se no meio tivessem, não sei, UMA GELADEIRA?

Há quem faça pelo livre exercício e a garantia que a sociedade lhe fornece em ser: homem. Do tipo que pode e faz uso de seus privilégios com vontade. Então oprimem, abusam, encostam de propósito e se tiverem sorte, sim, pensamos assim, talvez a encostada retribua.

Existe consciência dentro desses que fazem, não são apenas “reflexos involuntários” ou vícios do que foram ensinados a ser, agem muitas vezes de forma premeditada!

Diante de tantas reflexões e monstros que luto contra, e que acompanham a vida de qualquer homem que busca ser muito menos homem, ao menos aquele que estimulam que sejamos, explodi:

- Parceiro! Cê tem artrose ou algum problema? Com essas pernas abertas a moça não consegue nem respirar.

Ele olhou para a minha cara um tanto assustado, envergonhado ou surpreso demais. Mesmo assim, fechou as pernas. Engoliu seco e nada disse. Não o considero covarde e tampouco desejei que a situação fosse maior do que foi e poderia ter sido.

Também não sei dizer se agi da melhor maneira, mas algo precisava ser feito e se a vítima não pode ou ainda não consegue, as rédeas precisam ser tomadas.

Divido essa história muito mais com o intuito de conseguir a atenção dos homens do que para me vangloriar ou criar um movimento de reação: o respeito pelo o outro começa quando respeitamos o seu espaço– e não há qualquer dificuldade em fazê-lo.

Mulheres, minhas sinceras desculpas!

PS: Espero mesmo que um dia não precisemos mais de reações, puxões de orelha ou "textão" cobrando o mínimo de respeito. Sinto-me ridículo!

Originalmente