As “belas, recatadas e do lar” da história do cinema
2016-04-20 12:36:09

 

Sylvia Kristel. Maria Schneider. Marilyn Monroe. Victoria Abril. Dezenas de mulheres em filmes de Fellini, musas de Almodóvar. Uma história da tradicional família mundial

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Sou suspeito. Como fã de cinema italiano, diria que nenhum cineasta terá retratado tão bem as mulheres “belas, recatadas e do lar” como Federico Fellini. (A expressão foi consagrada pela revista Veja de uma forma que se propunha a ser séria, ao falar de Marcela Temer, mas foi ironicamente revertida em seu sentido original pelos internautas. A enumeração, por sinal, remete a um clássico do cinema italiano, os “Feios, Sujos e Malvados” de Ettore Scola.)

O vídeo acima exibe Saraghina, a personagem de Eddra Gale dançando rumba em um dos filmes mais importantes do cinema, o “Oito e Meio” de Fellini. Mas o cineasta – que se fartaria de fazer caricaturas no Congresso brasileiro – apresenta também Volpina (Josiane Tanzilli) e a a moça da tabacaria (Maria Antonietta Beluzzi) em “Amarcord”, ou um verdadeiro desfile de recatadas em “Cidade das Mulheres”. (Fellini estava à frente do seu tempo, ao eleger uma prostituta como protagonista nos anos 50, em “Noites de Cabíria”.)

O cinema italiano valeria uma coletânea específica. Por exemplo, com Ornella Muti em certos filmes de Marco Ferreri. Com Sophia Loren, talvez em “Um Dia Muito Especial”, de Scola. (Nesse caso, de fato recatadíssima. Ma non troppo.) Mais recentemente com a espanhola Penélope Cruz no “Não se Mova”, de Sergio Castellitto. Com Bernardo Bertolucci escandalizando em “Último Tango em Paris”. Ou, mais precisamente, a francesa Maria Schneider:

Mas vou me conter. E migrar para o cinema francês, ali do lado. Bom, quem seria mais bela (e recatada) que a holandesa Sylvia Kristel? Lembro-me da música de Pierre Bachelet para a série que marcou época, em um clima que só podia ser explicado pela revolução dos costumes do Maio de 1968: “Melodia de amor que cantava o coração de Emmanuelle…”

Mas antes de exemplos mais explícitos temos toda a tradição das femme fatale. (Presentes também nos quadrinhos. Valentina. Elektra. Mulher-Gato.) Da França aos Estados Unidos. Brigitte Bardot. Catherine Deneuve. Lana Turner. Bo Derek.

Cinema americano. Bom, são tantas. Quem melhor sintetizaria a condição de bela e recatada mulher do lar? Rita Hayworth? “Nunca houve uma mulher como Gilda”. Marilyn Monroe? Mas vou ser mais contemporâneo – ou quase – e homenagear Thelma e Louise (Susan Sarandon e Genna Davis). Pelo, digamos, puritanismo:

Ok, ok. Vocês venceram. Não dá para fazer uma coletânea como esta sem uma imagem de Norma Jeane Mortenson (1926-1962). Marilyn, Marilyn:

E como esquecer de Lena Olin em “Insustentável Leveza do Ser”? (Passa-se na Tchecolosváquia, mas o filme é americano, com Daniel Day-Lewis e a francesa Juliette Binoche. Uma mulher de sorte.)

Cinema espanhol. Pedro Almodóvar tinha características de extrema discrição, como sabemos. Com personagens particularmente contidos, prontos para algum cerimonial no Palácio do Planalto. Aqui, Victoria Abril em “Ata-me”:

victoriaabril

Finalmente, o cinema brasileiro. De Virgínia Lane a Sonia Braga, de Norma Bengell a Leila Diniz. Mas aqui não tem para ninguém, não é mesmo? Relembremos da dama das damas, a grande vedete Dolores Gonçalves Costa (1907-2008). Também conhecida como Dercy Gonçalves:

Observo que não coloquei datas nos filmes. Ah, mas quem precisa de datas? Essas mulheres serão sempre eternas, eternamente caseiras, belas e recatadas. Merecem capas toda semana nas revistas de todo o Brasil.

(Abaixo podemos ver Volpina, a discreta personagem de Fellini em “Amarcord”. No fim do vídeo podemos ver um poeta em ação. Como Michel Temer e a revista Veja, um poeta!)