Sobre Batman vs Superman: o que une Coxinhas e Petralhas no cinema?
2016-04-08 16:35:38

Por André Azevedo da Fonseca

No contexto da crise política, fui ver Batman vs Superman. Antes de começar a sessão, me distraí observando o comportamento, os tipos e os papos de alguns grupos de espectadores e, por um momento, fui tomado pelo que me pareceu um insight.

 

O cinema, pensei, tem sido uma dessas zonas pacíficas que unem partidários de qualquer extremo. Petralhas e coxinhas entram em comunhão na sala escura, sobem as escadas confiantes de que aqueles desconhecidos compartilham as suas referências culturais e sentam-se nas poltronas para cultuar os mesmos símbolos e as mesmas narrativas. Durante a projeção eles vibram com as mesmas histórias, torcem para os mesmos personagens e, quando as luzes se acendem, é nítida a cumplicidade amistosa daquela pequena comunidade que vivenciou uma experiência em comum e, por alguns momentos, firmou inevitáveis vínculos de identidade.

Então imaginei que esse filme em particular, cujo roteiro deveria explorar justamente o antagonismo entre dois heróis, poderia oferecer algumas pistas para identificar valores em comum ou mesmo alguns sonhos compartilhados entre os espectadores politicamente opostos. Quem sabe a análise deste blockbuster, na perspectiva dos Estudos Culturais, não poderia indicar um denominador comum para favorecer alguma sintonia na hora de conversar sobre política?

No decorrer do filme, vi que o roteiro tinha outros elementos ainda mais interessantes para provocar debates sobre um conjunto de temas fundamentais que têm nos deixado perplexos, tais como a aflição social que legitima práticas criminosas de fazer “justiça” com as próprias mãos; as relações entre mídia e política na construção da imagem do herói e do inimigo; e também os interesses corporativos que iludem a sociedade e jogam os cidadãos uns contra os outros para confundi-los e obter ganhos políticos e econômicos com a confusão.

Além disso, não sei se foi mera projeção pessoal, mas o roteiro parecia indicar uma discussão sobre a necessidade de as forças antagônicas se ouvirem para que pudessem disputar suas visões de mundo através de política, em vez de preferir simplesmente exterminar o outro.

Mas com os descaminhos do filme, particularmente desgovernado a partir do decepcionante apelo ao sentimentalismo melodramático no ápice da luta entre os dois heróis, e considerando também a aceitação indiferente da plateia, observada principalmente nos comentários das pessoas nos corredores no fim da sessão, perdi um pouco a esperança.

Me parece que ninguém saiu transformado. O que ressoou na imaginação dos espectadores foi a reiteração do discurso do bem contra o mal, da noção do vilão como um sujeito anormal, doentio, fora de si  – ou, pior ainda, como um incomunicável monstro alienígena a ser aniquilado – e do herói como o seu oposto: um sujeito humanizado, vulnerável e sempre bem intencionado, ainda que às vezes equivocado, mas cujos desvios éticos são consentidos em nome da salvação de sua sociedade. Ou seja, o vilão não é gente como a gente. O vilão é o outro.

Aqueles temas enunciados na trama foram simplesmente deixados para trás, sem resposta. Na prática, nem precisavam estar lá. O que houve na resolução do conflito foi apenas um catalizador sentimenltal para que heróis e vilões fossem finalmente reconhecidos, demarcados e voltassem a ocupar os seus velhos papeis.

Essa conclusão desmascarou a minha constrangedora esperança de que um filme dessa natureza pudesse oferecer algo mais do que isso. A questão não é desconsiderar a possibilidade desse tipo de filme abrir discussões importantes sobre temas do nosso tempo. Há anos os Estudos Culturais extraem questões sociais relevantes desses produtos da cultura de massa. Além disso, os próprios filmes têm se preocupado em inserir problemas mais complexos em suas tramas. Basta de lembrar de X-Men, por exemplo, que discute tolerância e diversidade; Homem Aranha, que explora as crises de amadurecimento do herói adolescente; além dos desenhos animados da Pixar, que costumam abordar temas complexos da formação da personalidade.

Mas tenho dúvidas se o estado de espírito do público consumidor de blockbusters está aberto e disposto a essa reflexão, ou mesmo se a própria indústria cinematográfica e a imprensa cultural têm interesse nisso. Basta ver que a ampla maioria das notícias fala sobre a bilheteria, dissemina fofocas sobre os atores e explora inúmeros outros elementos, menos os temas propostos pelo filme. Não por mera coincidência, foi precisamente o que ouvi nos comentários: “o filme é fraco”, “a sala nem estava cheia”, “tinha que ter mais destruição”, “o Lex lutor estava insano”.

Entrei no carro, passei o ticket do estacionamento e, dirigindo para casa e pensando no meu insight, suspeitei que a única coisa que realmente unia coxinhas e petralhas no cinema, aquilo que inspirava comunhão e cumplicidade, aquilo que parecia sugerir vínculos de identidade, que os faziam torcer e vibrar, era apenas o próprio culto ao maniqueísmo, era o gosto pela dicotomia que separa o mundo em bons e maus, cuja polaridade varia apenas em função de suas próprias projeções. Ou seja: o herói de um é o vilão de outro, e vice-versa.

Há algum resquício de mitologia nesse filme, mas não há síntese, não há superação, não há transcendência, apesar do uso frequente dos símbolos da morte, da ressureição e da redenção. As transformações que modificam o caráter do herói na narrativa parecem não afetar o caráter dos espectadores. Se o cinema é um culto quase sagrado, com seus rituais, heróis, deuses e liturgias, trata-se de um culto fraco, fugaz, mais socializador do que transcendente, como a igreja de domingo. A imersão é muito superficial para provocar qualquer transformação.

Por isso, respondendo à minha própria pergunta, eu diria que, infelizmente, não há no filme um denominador comum capaz de estreitar vínculos e favorecer uma sintonia entre antagonistas políticos.  Ao contrário, apesar de algumas promessas, o filme apenas reforça a disposição em dividir o mundo entre heróis e vilões, deuses e demônios, nós e eles, enfim, coxinhas e petralhas. Talvez porque isso seja a sua fonte de sua receita: o público ainda paga para ver dualismos. Como em um espelho, o único elemento que une os antagonistas é a consciência de que estão em lados opostos, ainda que ambos tenham a convicção de que o contrário é o outro.

Publicado originalmente: André Azevedo Fonseca