Parto natural, a nova fábrica de modismos do capitalismo
2015-08-18 12:45:43

Por Gislene Bosnich

Importante não cair em ciladas e colocar a vida em risco

Sou leiga, mas não sou estúpida. Não sei se vou abrir um diálogo ou fechar portas, mas minha indignação e certo pavor estão refletidos neste texto. Com pitadas de ironia que, penso, não interfiram no desenvolvimento de compreensão da minha opinião. Concordar ou não decididamente não é um problema, mas os destaques.




O materialismo histórico e dialético ensina a analisar todos os elementos que compõem determinada situação e não apenas aqueles que obedecem aos desejos que queremos que se realizem (Isto quem faz, aliás, é o tipo ideal weberiano, que joga fora o que contradiz a tese). Ou seja, o materialismo histórico e dialético ensina a olhar a totalidade. Não apenas os famosos prós e contras, mas, sobretudo, teses, antíteses e sínteses. Tudo em movimento; que é mais difícil. Mas a vida não é fácil – também por isso.

Passei mais de 25 anos ouvindo bobagens sobre o parto oriundo de cesárea ser um caça níquel. Que os médicos praticantes desta “metodologia” de vir ao mundo, vilões dos mais injustos, organizavam todo o arsenal para extorquir dinheiro de pobres criaturas que sequer tinham chance de parir seus filhos de maneira natural (em casa)/normal (no hospital), ou seja, daquela maneira que parece esquecida, mas não pode ser, responsável por levar milhares de mulheres à morte, algumas junto com seus filhos, durante a: pré-História, a Idade Antiga, a Média, a Moderna e até bem pouco tempo ainda no século XX, na nossa longa e trágica Idade Contemporânea.

E de certa maneira passei parte deste tempo acreditando que isto era real, esquecendo-me eu mesmas destas mortes e dos avanços que criamos para nascer com o máximo de segurança e tranqüilidade - para todos: mamães e bebês. Acreditando que os médicos obstetras e anestesistas eram máfias organizadas de bisturi e equipe cirúrgica para profanar as barrigas de futuras mamães ansiosas sem que se desse o tempo necessário para a vinda ao mundo.

Tudo muito poético visto pelos homens, ou por incautos que não tiveram filhos (eu me incluo) ou não os tiveram desta maneira (Pois muitas mães que tiveram partos naturais não fizeram a opção pela segunda vez). Incautos inclusive da área da saúde, que corretamente defendem o estudo das células-troncos para tratar doenças, mas acreditam num auto-flagelo inútil da mulher que não traz vantagem nenhuma a ninguém, muito menos ao bebê.

Um dos principais argumentos e um dos mais risíveis é que a relação constituída entre a mãe e o bebê num parto natural é mais profunda. Desde quando passamos a desconsiderar toda a trajetória histórico-social da relação pais-filhos e a depositamos em algumas horas num processo estritamente orgânico/biológico? Neste mesmo raciocínio fraco, por associação, a figura paterna seria completamente desprovida desta comunhão com os filhos. É realmente surreal como argumentos falaciosos são utilizados por pessoas: sérias, honestas e inteligentes.

Hoje (agosto/2015), consultando sites noticiosos, descobre-se que ter um bebê num hospital custa R$ 1300, se for de maneira normal. E R$ 1500,00 por cesárea, segundo matéria da Folha de São Paulo, que também indica que estes valores estão bem abaixo do praticado mesmo nos hospitais mais simples. Porém, seguem a proporcionalidade de valores. Onde está a máquina de fazer dinheiro? Mas não encontrei os valores de partos naturais feitos em casa. Parecem ser sigilosos. Talvez porque não sejam acessíveis. E são bem maiores que os de cesariana ou mesmo parto normal, mesmo considerando a estadia no hospital, anestesista e o pagamento de outros profissionais.

Pesquisando um pouco pelas matérias sobre o assunto vê-se também que as Casas de Parto costumam ter uma triagem para receber gestantes sem risco; indicativo que não é só o querer da mãe que determina o tipo de parto ou a “vontade do bebê”. (Onde pode chegar a permissividade da classe média em relação aos desejos de seus filhos!!!)

Aos poucos, meu entendimento foi mudando. Partos, muitos, que demoraram a serem feitos por cesariana levaram uma quantidade enormes de bebês a terem falta de oxigenação... e o resultado prático disto são os crescentes índices de  paralisia cerebral. E o aumento cada vez maior de pessoas com deficiência decorrente desta demora para nascer, para fazerem o parto. Dado pouco lembrado por defensores do parto natural.

Por princípio democrático, assim como defendo o direito ao aborto é óbvio que tenho que defender o direito a que a mulher e/ou casal escolham livremente como querem ter seu filho. Seria, no mínimo, uma contradição da minha parte não fazê-lo. Mas defender a liberdade de se fazer algo não significa fazer este algo. Ou escrito de outra forma, vale mencionar a célebre frase de Voltaire: “Posso não concordar com nenhuma das palavras que você disser, mas defenderei até a morte o direito de você dizê-las”.

Que mulher pode fazer um parto natural (aquele realizado em casa)?

  • Se o histórico familiar (a mãe e/ou avó) da candidata é de parto natural ou pelo menos normal (aquele realizado dentro do hospital);
  • Se você é uma mulher com vida tranqüila, ou seja, convive mais com a calmaria que com o stress calmaria, e possui práticas contínuas de exercícios;
  • Se o seu corpo - sim a estrutura do seu corpo não é um mito criado pelos médicos vilões da cesárea, ela interfere; pode não ser predominante, mas interfere - tem compatibilidade com o tamanho do bebê (é mais improvável que bebês próximos aos quatro quilos nasçam destes partos naturais ou normais);

Parabéns. Você é uma candidata nata a fazer um parto natural.

Porém, se você não responde positivamente a maioria destes itens, fique tranqüila também. A medicina avançou, e mesmo com a luta de classes visando o lucro, a cesariana faz chegarem ao mundo crianças felizes e em paz num custo pagável. Ou pelo Sistema Único de Saúde (SUS).  Houve evolução, ou seja, conquistou-se uma forma mais aprazível de fazer os bebês chegarem à vida sem que suas mães e eles próprios corram risco. A maneira mais adequada e segura até agora.

O bebê do casal não vai se traumatizar porque não nasceu naturalmente. Mamães e papais devem permanecer tranquilos, pois o que é importa é o amor, a saúde, o apoio, o colo, o abraço durante os próximos anos, décadas.

Atenção 1: E se o parto natural não ocorrer? Há sempre um argumento que pode ser utilizado, aliás, ele foi construído historicamente: A culpa é da mãe!!! Ela fez algo errado durante todas estas horas de respiração cadenciada e “fez força na hora errada”.

Não é simples? É o plano perfeito. Nunca houve um diagnóstico errado sobre aquela mulher não ter chance de ter um parto natural... foi ela quem errou na hora “h”.

Extrai este breve trecho para ilustrar o que estou tentando dizer:  

                        “FORÇAS RESISTENTES AO NASCIMENTO

Quando a mulher força o nascimento antes do organismo eliminar a sua resistência natural, a criança corre o risco de nascer com problemas como machucados na cabeça, e até mesmo sofrer hemorragia cerebral. Mas a verdade é que a mulher sábia e bem informada sempre sabe o que fazer e a hora de fazer. Seguir instintos!”

É lógico que temos instinto, mas a maior parte dele foi embora junto com a formação da nossa Humanidade. Há 200 mil anos quando o Homo Sapiens sapiens se desenvolveu, houve um afastamento em relação aos demais animais e o desenvolvimento paulatino da capacidade cognitiva e dos sentimentos (solidariedade, compaixão, amor, senso de justiça etc). Não é possível que tudo, no final, possa se resumir a um instinto e a condição ou não de ser sábia.

Atenção 2: Dor existe de todas as maneiras. Cuidado com quem diz que só em cesariana se sente dor. Inclusive não é apenas na hora do parto natural. Há uma extensão da dor provocada pelas horas do trabalho de parto.

O outro lado nada poético que desaparece na visão dos emotivos pré-históricos:

  • Porém, acontece que do outro lado do balcão de chegada dos bebês encontram-se os auspiciosos médicos e profissionais dedicados ao parto natural. Com um diferencial. A prática do parto natural não é para ser forçada já que assim coloca em risco a saúde da mulher, futura mamãe, e do bebê; o que os vilões da cesárea não fazem em princípio.

O parto natural é para ser natural e não forçosamente “natural”. Principalmente, porque se os elementos fundantes (descritos muitos brevemente anteriormente) do parto natural não existem, as chances são mínimas. E se ainda por cima estes profissionais tão naturalistas e repleto de princípios valorosos não avisam a futura mamãe/papai (e aí mamães-mamães/papais-papais) de que não é prudente tentar o parto natural já que não há muita chance dele ocorrer, tudo pode ficar ainda mais complicado. E a alegria pode se transmutar rapidamente;

  • Também imaginei que a relação destes profissionais do parto natural fosse mais amistosa, mais acolhedora. Ledo engano. A relação não é tão significativa quanto se imagina. Ainda mais em tempos de whatsapp. Tudo bem, pode ser impressionismo da minha parte e uma experiência mal sucedida;
  • Até aí a escolha pode suscitar dúvida ainda, mas há um ponto em que se fala pouco. O parto natural não é para mulher trabalhadora – que costuma não ter vida tranqüila - nem é alternativo financeiramente.
  • O parto natural implica muita dor, durante muito tempo e não traz nenhum benefício ao bebê. (Embora haja até matérias que dizem que o parto natural diminui a incidência de depressão pós-parto. Sim, considerando que o seu bebê não morra de infecção generalizada que pode ser provocada pelo tempo excessivo de tempo pós estouro da bolsa). Pois esta foi minha pergunta durante as horas em que estive assistindo a uma tentativa de parto natural que não se concretizou, embora duas das três condições a serem consideradas estivessem plenamente dadas: uma mulher tranqüila, com práticas saudáveis, mas sem o histórico de parto sequer normal.

Para você que como eu não sabe/sabia quantos profissionais estão envolvidos num parto natural (em casa), todos bem pagos, vamos lá: Doula, profissional que orienta o casal sobre o parto natural e durante a gravidez embasa atividades físicas pré e durante o trabalho de parto, monitorando de quanto em quanto tempo acontecem as contrações da mãe e qual dilatação vai se desenvolvendo durante o período. Há casais que contratem apenas este profissional, que não é da área da saúde necessariamente, pois têm confiança de que o parto natural ocorrerá.

Há os casais precavidos que contratam a Doula e outros profissionais médicos, como obstetra que é, em tese, o médico profissional que tem melhor condição de dizer se a dilatação está avançando no ritmo comum e esperado para quem vai ter o parto natural, de fato, ou não; e a pediatra. Seriam, então, três profissionais, no mínimo envolvidos no parto.

E os mais precavidos que, geralmente, via convênio, preparam também um hospital para o caso do parto natural não ocorrer.

Em casa, não pode haver aplicação de absolutamente nenhuma anestesia nem qualquer outro medicamento por meio intravenoso... fiquei sabendo.  São exercícios, piscina infantil com água quente onde a mulher passa muito tempo para relaxar – o que demanda um lugar significativamente espaçoso, arejado, com piso regular. Convém destacar que a água é trocada muitas vezes (o que implica na atualidade para quem está na região Sudeste e no Estado de São Paulo uma preocupação a mais. Mas isto é conjuntural, espera-se), porém, esta água vai acumulando poeira oriunda do ar e dos pés da futura mamãe, que entra e sai da piscina à medida que são exigidos exercícios para auxiliar no trabalho de parto. Não é bonito de ver. E decididamente não inspira nenhuma confiança higiênica. E esta água em contato com a parede uterina dilatada também está em contato com o bebê. Poeira, água suja, bebê. Não é difícil perceber que aquele improvável risco de contaminação já deixou de ser improvável.

Se você consultar sites sobre quanto tempo depois da bolsa estourar é seguro a criança nascer vai encontrar como resposta: 48 horas. Não sei o que pode acontecer se alguém pagar para ver. Infecção e morte do bebê e mãe são casos que começam a serem registrados neste tipo de tentativa de parto. Neste ponto, há muita controvérsia, pois, é verdade no hospital existem infecções, mas em casa com o alongamento das horas a infecção é tão presente quanto. O que se pode discutir é a resistência de bactérias. Lógico, no hospital elas são ainda mais severas. Mas não se pode esquecer que em 72 horas a maioria das mulheres está em alta hospitalar. Enquanto que no caso de se aguardar as 48 horas pós estouro da bolsa mas acabar se indo para o hospital este prazo será estendido, assim como a permanência no hospital.

Os absurdos são muitos, pois a segurança - num prazo tão estendido - já não existe mais. Na maioria das mulheres que realmente tem condição de parir naturalmente o prazo do parto não ultrapassa 10, 12 horas após o estouro da bolsa. E muitas têm os bebês em até quatro horas.

Qual o papel da mídia neste novo modismo?

De três anos para cá o debate sobre os benefícios do parto natural passaram a ocupar parte da extensão pauta relacionada ao tema gravidez. Convenientemente, pouco se menciona sobre a modalidade não ser para todas as mulheres, assim como talvez a cesariana não seja.

Teorias sobre a capacidade de concentração do bebê sofrer déficit quando o parto é por cesárea e outras teses que beiram a demonização da prática são muito corriqueiras nas matérias disponíveis, mas não vi a mesma preocupação quanto ao tempo de tentativa de parto natural causar danos cerebrais ao bebê por problemas de falta de oxigenação ou mesmo outros decorrentes de infecção.

O que está por trás da conduta do governo em passar a demonizar a cesárea e a santificar o parto normal e da mídia a dar vazão ao parto natural com certeza tem implicações financeiras. Alguma assessoria de imprensa poderosa?

Felizmente saí da condição de defensora da cesárea para a de ativista.

P.S. – A manutenção do trema é só uma indignação pela adoção de um acordo entre os lusofalantes que não é seguido por Portugal. Então, manter o trema seria errado por quê?