À Janela
2012-03-08 17:24:53



"Eu acho que o mundo está muito louco. Tem muita violência. Mas ser mulher hoje é melhor do que era antes. Antes, você vivia para servir o esposo. Hoje, somos mais independentes" (Rosenilde).

Foto: Luciano Silva, 03.2012, Caldas Novas, Goiás.

Programação de ensaios
da série "Brasileiríssimas":


1.À Janela;
2. As mulheres e os esportes;
3. As mulheres e o mundo dos negócios;
4. As mulheres e a literatura;
5.As mulheres e a Ciência;
6. As mulheres e as leis;
7. As mulheres, a riqueza e a pobreza;
8.As mulheres e a moda;
9.As mulheres e a televisão;
10. As mulheres e o cinema;
11. As mulheres e a política;
12. As mulheres e a sexualidade; 
13. Nas praças, nas fábricas, nas avenidas e nas praias.
 

Ivy Judensnaider

Rosenilde M. é uma morena miúda e seus cabelos são negros e lisos. O corpo é feito de generosas curvas e o rosto, delicado, revela olhos castanhos e traços bem definidos. Pequena e graciosa, ela lembra uma dessas bonecas tão características do folclore mineiro: chamadas de Namoradeiras, reproduzem belas mulheres que, colocadas às janelas das residências, fitam os passantes com seu sorriso sereno e misterioso, suas cores deslumbrantes, os seios insinuados nos decotes, as mãos apoiando os rostos em posição de tranquila espera e contemplação. Namoradeiras, elas aguardam a chegada de um grande amor, de alguma novidade ou apenas esperam a passagem do tempo. Namoradeiras, encantam os que passam, invertendo a aparente lógica: não são elas que observam o mundo a acontecer e a se transformar, mas é o mundo que interrompe seus passos para observá-las, examiná-las e por elas se apaixonarem. Longe de apenas comporem a paisagem na condição de meros e caprichosos enfeites de madeira, barro, gesso ou resina, elas transformam os transeuntes em namoradeiros, convidando-os à descoberta de seus sonhos, suas lutas, suas alegrias e suas tristezas. Nas janelas das casas, dos apartamentos, das cabanas, dos casebres e das mansões, das palafitas e dos barracos nas favelas, ficamos nós, mulheres do Brasil, múltiplas, diversas, encantadoras, ricas em Histórias e passado, esperançosas na História e no futuro. 

Numa dessas janelas, vemos Rosenilde. Ela tem 38 anos e é natural de Vitória do Mearim, localidade do Estado nordestino do Maranhão, o segundo pior do país em termos de desenvolvimento humano, logo após Alagoas. O pai era carpinteiro: um acidente de trabalho e a falta de assistência médica o levaram à morte, dez dias depois do nascimento da filha. No Maranhão, Rosenilde era balconista de uma loja num shopping center. Com os irmãos e na companhia da mãe, que era proprietária de uma pequena loja de miudezas, Rosenilde migrou, há quinze anos, para a cidade brasileira mais rica e mais populosa do país: viemos para São Paulo em busca de melhores condições de vida. 

Casou-se há um ano e seu marido é técnico em Eletrônica. Moram numa casa alugada e ganham, juntos, três salários mínimos por mês (que correspondem, aproximadamente, a U$ 1235). Alguns meses antes de casar, engravidou. Fiquei nervosa porque ainda não era o momento certo. Não tínhamos casa e estávamos namorando há pouco tempo. Abortei naturalmente. Senti como se tivesse perdido uma parte de mim mesma. Fiquei muito triste porque já tinha me acostumado com a ideia de ser mãe, ela conta. Terá outros filhos, planeja: para o meu filho, quero que ele tenha vida melhor do que a minha, que tenha uma boa educação. Enquanto esse filho não vem, ela acorda todos os dias às seis e meia da manhã, pega o trem e depois o metrô até o trabalho. Não gosta da grosseria do povo nos veículos de transporte público, da multidão espremida e do empurra-empurra que a deixa cansada. Gosta de ver, no caminho, o cartório diante do qual se juntam casais se preparando para casar. Para o futuro, sonha em ter um emprego melhor, uma vida estruturada e tranquila, uma casa própria: quero o melhor para mim e para meus filhos.

Rosenilde é uma de nós, uma entre as 97 milhões de mulheres que representam 51% da população brasileira. Somos uma nação de mulheres e ela é uma entre as 83 milhões de mulheres que vivem em regiões urbanas, nas cidades lotadas e não planejadas que crescem para os lados e para cima, alimentando o caos e a especulação imobiliária.

Rosenilde é uma entre as 41 milhões de mulheres que residem na região sudeste do país, aquela formada pelos estados mais ricos e industrializados (Minas Gerais, Espírito Santo, Rio de Janeiro e São Paulo) e nos quais, em contraste, sofre-se mais com os índices de desemprego e de violência. Em São Paulo, depois de um longo período de procura e de espera, Rosenilde foi trabalhar como empregada doméstica em casa de família, função que exerce até hoje. Ela conquistou o direito de ter seu registro profissional, e isso a torna parte de um grupo privilegiado: de cada cem mulheres com mais de dezesseis anos que atuam como empregadas domésticas, 73 trabalham sem carteira assinada e, portanto, não podem contar com os benefícios da Previdência Social. Ela também faz parte do grupo que apresenta escolaridade superior à média nacional das empregadas domésticas, que corresponde a seis anos de estudo: no Maranhão, estudou até o final do segundo grau; em São Paulo, procurou continuar os estudos e agora está prestes a se tornar técnica em Enfermagem. 

Das 34 milhões de mulheres pardas com dez anos ou mais, ela é uma entre as 18 milhões que possuem rendimento e, dentre elas, uma entre as quatro milhões que recebem de um a dois salários mínimos por mês. Em dupla desvantagem estatística, Rosenilde tem que ultrapassar os obstáculos que sua condição lhe impõe: mulher, ela recebe, em média, 28% a menos em termos salariais do que os homens. Parda, ela consegue conquistar apenas metade do rendimento das pessoas brancas. 

Nas janelas, observamos e somos observadas, Rosenilde M. e todas nós, representantes da imensa mescla das várias etnias que povoaram e construíram o Brasil. Em outra janela, podemos ver algumas de nós, índias, que aqui estavam quando no século XVI a Europa nos descobriu e que Pero Vaz de Caminha, escrivão e fidalgo, descreveria para o Rei de Portugal como “bem gentis, com cabelos muito pretos, compridos pelas espáduas, e suas vergonhas tão altas, tão cerradinhas e tão limpas das cabeleiras que, de as muito bem olharmos, não tínhamos nenhuma vergonha”. Tupiniquins, potiguaras, tabajaras, tupinambás ou das tribos dos tamoios e dos caetés, fomos escravizadas, apartadas dos nossos filhos, dos nossos maridos e de nossas aldeias, e levadas a trabalhar nas roças dos primeiros colonizadores. Dizem antigos livros de história que éramos preguiçosas, indolentes e incapazes de aprender qualquer serviço; sabemos, hoje, que nossa substituição pela mão de obra escrava negra obedeceu tão somente às regras de um mundo no qual as transações comerciais entre países ditavam as regras do jogo e onde a necessidade de trabalhadores para a agricultura superava, e em muito, nossa disponibilidade numérica.

Nas janelas também estamos nós, as negras capturadas em diversos pontos do continente africano e trazidas em imensos e sujos navios capitaneados por espanhóis e ingleses. Desses vergonhosos navios, e de nós, negras, o brasileiro e poeta Castro Alves escreveria ser aquele um sonho dantesco em que buscávamos, nuas e espantadas, amamentar nossas magras crianças, misturando-nos aos homens em gritos, apavorados. Dos navios, seríamos levadas para as fazendas de cana-de-açúcar do litoral pernambucano e baiano que produziam, àquela época, o açúcar tão desejado pelas metrópoles europeias. Nos engenhos do nordeste trabalharíamos e nas insalubres senzalas viveríamos, aprendendo novos costumes e disseminando velhas tradições africanas. Também para cá, no novo continente, estranho e desconhecido, após longa jornada oceano adentro, viríamos nós, as portuguesas, em busca da fortuna. O mesmo faríamos nós, as francesas e as holandesas, raras brancas num mundo habitado por bugras, negras ou índias. Não trabalharíamos nas plantações, mas viveríamos nas casas grandes: nós, as esposas e filhas dos senhores de terras, ocupadas com a administração dos imensos casarões que abrigavam nossos filhos, os filhos dos senhores de nossas vidas e de nossos destinos.

Nós, brancas, negras e mulatas, acompanharíamos depois os homens aventureiros nas longas e perigosas viagens ao interior do país em busca de índios e, posteriormente, de metais preciosos; expandiríamos as fronteiras do país, seguindo os cursos de rios e ultrapassando os limites territoriais acordados entre Portugal e Espanha. Descobertos os veios de ouro, iríamos para Minas Gerais, Mato Grosso e Goías e, desses lugares, veríamos o metal ser enviado para Portugal ou ser usado em pagamento pelas mercadorias inglesas das quais tanto necessitávamos: pequena parte dele acabaria ficando aqui, ornando as igrejas nas quais ainda hoje rezamos e que encantam todos os turistas. Nas janelas de Ouro Preto, antiga Vila Rica, inspiraríamos e acompanharíamos os homens que lutariam contra o domínio português, embaladas pelos ideais republicanos e pelos ventos das revoluções francesa e americana: protegendo as fortunas de nossos maridos dos fiscais da Coroa Portuguesa, escondendo os revoltosos nos porões de nossas casas ou servindo de modelo para versos românticos e árcades, nos juntaríamos àqueles que buscavam tornar o Brasil independente de Portugal.

As janelas também nos permitem ver a chegada de outras de nós, portuguesas, em companhia da Família Real que, no começo do século XIX, em 1808, fugia da expansão napoleônica na Europa. Aqui, nos espantaríamos com um país cujos costumes eram totalmente distintos daqueles das cortes europeias: as frutas exóticas, os animais diferentes, o calor, a falta de luxo, as acomodações simplórias, o povo rude e sem cultura, os negros em vantagem numérica, tudo contribuía para a nossa surpresa e o nosso desconforto. Nossa vida mudaria, a partir dali: o deslocamento do centro do poder, de Portugal para o Brasil, exigiria aqui a criação de uma estrutura administrativa capaz de dar conta das necessidades de governo. A população urbana aumentaria sensivelmente, a cidade do Rio de Janeiro – que já havia substituído Salvador como capital do país – seria reformada e novas residências seriam construídas. Também viriam para cá os músicos, os poetas, os artistas e os geógrafos que acompanhavam a nobreza portuguesa.

Nós, mulheres, se brancas ou pertencentes à elite local, assimilaríamos alguns dos costumes europeus e passaríamos a comprar luvas, perfumes, sapatos, meias, chapéus e roupas leves e decotadas, todos esses objetos de um desejo até então desconhecido. Teríamos também, finalmente, uma imprensa, escolas de ensino superior, bibliotecas, um laboratório astronômico e um Jardim Botânico. Essas mudanças transformariam nossas vidas, mesmo após o retorno da Família Real para Portugal, duas décadas depois: a permanência do Príncipe Regente em território brasileiro e os posteriores conflitos entre o que se entendia serem os interesses do país e o que a metrópole para nós desejava, acabariam por gerar as condições de nossa independência. Teríamos, porém, que esperar mais setenta anos para o fim da monarquia e para a instituição da República.

Nós, negras, também esperaríamos sete décadas pela libertação dos escravos. Primeiro, libertariam nossos ventres, tornando nossos filhos livres. Depois, libertariam nossos velhos. Por último, quase ao findarem os anos Novecentos, estaríamos enfim livres da escravidão. A partir dali, seríamos responsáveis pelo nosso sustento, teríamos que encontrar abrigo e trabalho; a partir dali, disputaríamos espaço nas lavouras de café com outras de nós, imigrantes da Itália e, posteriormente, do Japão. Nós, italianas e japonesas, traríamos de nossos países a experiência com a agricultura e a disposição de começar vida nova num país que ainda não sabia como lidar com o trabalhador assalariado: nas plantações de café localizadas em São Paulo, Paraná e Rio Grande do Sul cultivaríamos o produto responsável, àquele momento, por 50% das exportações realizadas pelo Brasil. Algumas dentre nós depois se tornariam as mães, esposas ou filhas dos donos de terra que, por meio da riqueza gerada pela cafeicultura, conquistariam influência política e trânsito nos círculos do poder. Algumas dentre nós, imigrantes ou não, se tornariam as mães, esposas ou filhas dos primeiros empresários e industriais do país.

Nas janelas também podemos ver outras de nós, alemãs, que para a região sul do país se dirigiriam, povoando os estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná: nós trabalharíamos nas lavouras de café e, depois, nas criações de gado. Junto às famílias açorianas, participaríamos também das guerras que nossos maridos, pais e filhos lutariam contra os espanhóis, buscando a defesa de nossas terras e a sobrevivência na região platina do Brasil. Da mesma forma, exigiríamos autonomia e uma distribuição mais justa da riqueza que produzíamos e que, em grande parte, era sequestrada pelo governo central do país. 

É possível ver também as mulheres seringueiras que, na floresta amazônica, extrairiam o látex necessário para o fabrico da borracha. Nós, mulheres amazônicas, vindas do nordeste e de várias outras partes do país, contribuiríamos para o desenvolvimento da região, transformada pela edificação de prédios suntuosos e pela riqueza gerada pelo produto utilizado nas indústrias americanas. Não que nós, seringueiras, com isso alcançássemos fortuna: apenas sangrávamos as árvores, retirando delas a seiva, cuidando para não matar a natureza que nos sustentava e ainda nos sustenta. Mesmo depois, anos depois, com a concorrência do látex asiático e com a produção da borracha sintética, ainda continuaríamos a cortar as árvores, procurando, porém, defende-las da ganância dos donos dos seringais, dos madeireiros e dos exploradores das florestas.

São tantas as janelas das quais podemos ver e nos ver... Como descrevê-las, a nós e as janelas nas quais nos expomos e pelas quais podemos ser vistas? Como descrever cada uma de nós, cada gesto, cada olhar, cada penteado, cada enfeite a adornar orelhas e colos, cada andar, cada movimento das mãos, cada sonho, cada desejo, cada prazer, cada punhado de terra conquistado e explorado, cada prato de comida colocado à mesa? Como revelar a riqueza de tamanha amálgama de culturas? Sabedoras que somos da nossa condição de agentes ativas da construção da nossa história e da história do nosso povo, buscamos a compreensão do mundo que nos cerca e sinalizamos quem somos nós, parte de uma nação que passou a se construir apenas no século XX, nas primeiras décadas: antes apenas um amontoado de gentes de várias etnias, passamos a nos perceber como conjunto de pessoas compartilhando as mesmas lições do passado, pensando e planejamento o mesmo futuro; antes apenas apêndice econômico das grandes metrópoles, agora fazendo ouvir nossa voz e fazendo do traçado do nosso mapa parte integrante dessa imensa aldeia global. 

Nas janelas estamos nós, brasileiras, e as que a nós se juntaram ao longo desses últimos cem anos, as polonesas, as russas, as chilenas, as argentinas, as bolivianas, as coreanas e tantas outras. Se pudéssemos sobrevoar os mais de oito milhões de quilômetros quadrados do território nacional e os mais de oito mil quilômetros de costa marítima e se, ao mesmo tempo, pudéssemos escancarar todas as janelas da História, veríamos um Brasil que, a partir dos anos 1930, seguiria rumo à industrialização de forma irreversível. Veríamos nós, mulheres, aumentando o contingente da população nas grandes cidades, atuando no comércio, nas oficinas e indústrias. Também observaríamos um país que, decidido a se reinventar como nação capaz de ir além da mera exportação de produtos primários, buscaria organizar sua infraestrutura, construindo hidrelétricas e siderúrgicas, criando Ministérios e agências reguladoras, instituindo leis de proteção ao trabalho, abrindo bancos e instituições financeiras, protegendo a exploração do petróleo disponível no território nacional.

Essas janelas revelariam uma nação jovem que, em meados da década de 1950, tentava crescer cinquenta anos em cinco, ao mesmo tempo em construía uma identidade própria, valorizando a Bossa Nova – estilo que se pretendia elitizado e vinculado às classes urbanas –, ao mesmo tempo em que disseminava a ideia de modernidade e forjava a expressão artística e política de uma burguesia verdadeiramente nacional. Esse seria um país que investiria em transportes e fontes energéticas, buscando atrair o capital estrangeiro que instalaria aqui as primeiras indústrias automobilísticas; também seria o país que estimularia a interiorização do desenvolvimento por meio da invenção de Brasília, capital arrojada em termos arquitetônicos e que seria construída – a partir de um esforço descomunal e logisticamente improvável – no imenso vazio que caracterizava a região centro-oeste.

Essas janelas nos mostrariam algumas de nós em marcha a favor de Deus e da democracia, nos primeiros anos da década de 1960, assustadas com o “perigo vermelho” que o novo governo, tendendo mais à esquerda, parecia querer imprimir ao país. Essas marchas acabariam por sustentar o golpe militar que nos imobilizaria por mais de vinte anos num regime ditatorial; outras de nós, em oposição, se envolveriam com a luta armada e com os movimentos revolucionários: acabaríamos presas, torturadas ou exiladas. De qualquer forma, durante o “milagre brasileiro”, período em que o Brasil cresceria a taxas espantosas, e nos anos seguintes, desenvolvimentistas e marcados pelo nacionalismo e centralismo econômico, estaríamos todas nós sob a égide de um governo que, apoiado na tecnoburocracia e no endividamento externo, buscava viabilizar o projeto de uma nação forte, moderna e industrializada.

Só voltaríamos a eleger nosso presidente em 1989: o Brasil, afundado na dívida externa e sofrendo um processo de hiperinflação descontrolada, retornaria às mãos dos civis em função do desgaste dos governos militares e da pressão popular: anos terríveis aqueles de inflação, em que víamos nossos salários sendo corroídos diariamente pela perda de valor da moeda, em que vagávamos pelos supermercados buscando melhores preços, em que aprendíamos a converter moedas e a lidar com os inúmeros indexadores utilizados pelo governo... Ainda passaríamos por um processo de impeachment, em que o presidente seria afastado do cargo, e teríamos que aguardar meados da década para então, finalmente, entramos no século XXI com a economia organizada, a inflação debelada e os sonhos de construção de um país justo enfim restabelecidos.

Se pudéssemos sobrevoar esse imenso país, se pudéssemos abrir todas as janelas desse Brasil que hoje desponta como país emergente e cujas estatísticas parecem indicar a diminuição da pobreza e da desigualdade social, veríamos algumas de nós produzindo soja, trigo, café, laranja e cana-de-açúcar. Outras de nós estariam prestando serviços nos mais diversos setores da economia terciária ou atuando na produção pecuária e na extração de minérios; outras, nas modernas indústrias alimentícias, automobilísticas e químicas. Ver-nos-íamos assumindo cargos no governo, defendendo nossas bandeiras e nos movimentando na direção de uma vida com qualidade e com dignidade. Às janelas, estaríamos nós fazendo Ciência, jogando futebol, nadando nas piscinas ou executando delicados e complexos movimentos de ginástica, escrevendo jornais, livros e novelas, dirigindo filmes, interpretando personagens, criando moda ou desfilando pelas passarelas, compondo músicas, administrando empresas, legislando, comandando grandes impérios, alimentando nossos filhos, buscando expressar nossa feminilidade e defender nosso gênero.

Todas nós, brasileiras, nas praças, nas fábricas, nas avenidas e nas praias. Com cabelos castanhos, loiros, ruivos ou negros, com os olhos das mais variadas tonalidades, com as peles das mais infinitas cores, com habilidades diversas e dificuldades distintas, todas nós, mulheres que aqui residem, trabalham e lutam. Muito além das justiceiras de Olinda, das “gostosas” de Santarém, das “venenosas” de Sampa, das “periguetes” idealizadas pelo machismo conservador, raso e simplista, eis quem somos nós. Milhões de mulheres, brasileiríssimas.







Este espaço é mediado, sua mensagem será liberada após a leitura da NovaE

Nome:
E-mail(Não será publicado):
Manifeste-se:
Código:
Digite o código: