BHObama e a farsa das "retiradas" de Iraque e Afeganistão
2010-11-24 09:40:28

 

 

 [Chico Villela]

Folha de S. Paulo, porta-voz da extrema-direita no Brasil, manchete da página A12, de 16/11: “EUA traçam sua retirada do Afeganistão”.

A mídia grande ecoa em uníssono as boas intenções de BHObama. O texto da correspondente da Folha em Washington abriga trechos como: “A intenção é deixar o país pronto para arcar com a responsabilidade por sua segurança em 2014, data sugerida pelo presidente afegão, Hamid Karzai, à Otan. [...] A chave do plano de Obama é aumentar as forças afegãs de cerca de 240 mil para 350 mil até 2013. [...] Agora, a Casa Branca se empenha em propagandear que o final da transição só será (sic) em 2014 e que os EUA continuarão auxiliando as forças afegãs para além do prazo.”

 

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A Folha voltou à carga três dias depois, em 19/11, na página A17, ao titular noticiário de agências: “Cúpula da Otan discute retirada do Afeganistão até 2014”. Abre: “Definir um prazo para a retirada de tropas do Afeganistão será o assunto principal da cúpula da Otan que começa hoje em Lisboa [...] diversos aliados anunciam que deixarão uma guerra que, após nove anos, é cada vez mais impopular”.

Dois dias após, em 21/11, mais “retirada” no caderno Mundo com notícias de agências: “Otan aprova iniciar retirada do Afeganistão em 2011”. A foto grande mostra BHObama cumprimentando Hamid Karzai, ambos com ar constrangido. No texto, após as explicações de praxe, de início da retirada dos 140 mil militares em 2011 e transferência do mando em 2014, mais revelações sobre a “retirada”: “Membros da Otan disseram que tropas residuais deverão se ater a missões de apoio logístico e treinamento das forças afegãs. Já um alto membro do governo americano (sic) defendeu, sob anonimato, que a Otan deveria continuar envolvida em operações de combate, se necessário”.

A mídia grande omite as iniciativas frustradas de BHObama, como a promessa de campanha do fechamento do infame centro de ‘tortura científica’ de Guantánamo. E celebra a “retirada” do Afeganistão, a ser iniciada, conforme promessa também de campanha, em  meados de 2011. Mas todos os líderes militares já deixaram claro, e impuseram sua opinião ao pusilânime presidente, que a data marca apenas o início da “retirada”. Os EUA também estão em “retirada” do Iraque. Para quem quer saber o estado do país após sete anos de invasão, e informar-se sobre o grau de selvageria de todos os governos invasores, com destaque para EUA, Reino Unido e Austrália, basta acessar este relatório exposto na recente conferência da ONU sobre direitos humanos de Genebra, que focou os Estados Unidos.

Mas há mais cenas determinantes no palco do falso espetáculo democrático do presidente derrotado nas recentes eleições, a exemplo destas três: (1) as embaixadas-fortalezas gigantes em operação e construção; (2) a presença militar armada e as articulações para sua permanência; e (3) o imenso mar de bases ao redor e no interior das regiões do Oriente Médio e da Ásia central e do sul, não por acaso formadoras de um torniquete militar em torno da China e, somadas às frotas, em torno da imensa região da Eurásia . O panorama é temperado com a recente anunciação, por um sorridente BHObama, da “parceria estratégica” dos EUA com a Índia, lance novo político e geoestratégico no xadrez quase bicentenário do Great Game. Há mais de dez anos a Índia já é parceira estratégica de Israel.

 

Great Game - A expressão Great Game, atribuída  ao escritor britânico Rudyard Kipling, foi difundida pelo britânico sir Halford Mackinder, o criador, por volta do início do século XX, da disciplina acadêmica Geopolítica e planejador teórico da ocupação da região da Ásia Central por tropas de seu país. Mesmo com o  pleno domínio dos mares, incomodava os britânicos a soberania parcial russa sobre o imenso continente eurasiano. Mackinder considerava que o domínio do centro da imensa massa de terra eurasiana era condição essencial para o domínio mundial. E seus incontáveis recursos aumentavam seu poder de atração, com destaque para o petróleo e metais preciosos. Os estrategistas militares e civis ocidentais nunca superaram essa concepção.

Os britânicos enviaram pela primeira vez, nos anos 1839-1842, 25 mil tropas para conquistar o Afeganistão. Em retirada após constatar o insucesso flagrante, foram emboscados sistematicamente. Morreram quase todos os enviados e muitos civis e suas famílias de ambos os lados, por volta de 40 mil pessoas; os sobreviventes militares britânicos contavam-se como ovos numa pequena cesta.

O curioso é o derramar da História, que só se repetiria como farsa ou tragédia. Plantados na  Índia e ameaçados, por informação falsa, de que os inimigos russos planejavam invasão, os  britânicos tentaram ocupar o território inóspito em que se aloja o hoje Afeganistão. Com base na falsa informação de que a Al Qaeda de Osama Bin Laden havia fabricado os atentados às torres gêmeas e ao Pentágono (a história mais mal contada da História contemporânea), tropas dos EUA, com apoio da Otan, invadiram o país em 2001.

Um dos títulos atribuídos com justiça ao Afeganistão é “túmulo de impérios” (empire’s graveyard). O primeiro a ser derrotado foi o de Alexandre, o Grande, em 323 a.C., pelos líderes tribais habitantes de montanhas no quase topo do mundo. Com certeza, o título mantém-se ainda em vigor; basta ver o papel das tropas dos EUA-Otan: vietnamizam a guerra com assassinatos crescentes de civis como forma de tentar bloquear a adesão também crescente da população ao Taleban. 

 

(1) Embaixadas-fortalezas

 

O governo dos EUA empreende no momento a construção/ampliação de três embaixadas: Baghdad, Iraque; Cabul, Afeganistão; e Islamabad, Paquistão. Em texto bastante pessoal, Tom Engelhardt comenta com candura as propostas. São (serão em breve) as três maiores embaixadas do mundo, e têm custo total estimado em mais de US$ 2.000.000.000 (em palavras: dois bilhões de dólares). Só por eufemismo esses três mastodontes podem ser chamados de embaixadas: são embaixadas-fortalezas, com sistemas de defesa antimísseis em Baghdad (as outras também terão); geração de luz, tratamento de água e saneamento próprios; presença de centenas de militares e agentes de Inteligência além do pessoal civil; equipamentos de última geração, bunkers e instalações subterrâneas fora do alcance de mísseis de penetração e bombas de alta potência. Abrigam ainda áreas de lazer, quadras, restaurantes, espaços de esporte e recreação.  E casas, na área ou próximas, para a segurança dos ilustres.

Cabul – Um contrato de US$ 511 milhões atende à ampliação da embaixada dos EUA em Cabul. Segundo declarações do [ex]embaixador Karl Eikenberry à Associated Press, “a maior do mundo, com mais de 1.100 civis bravos e dedicados [...] de 16 agências que trabalham junto com seus similares militares em 30 províncias”. A quantia é parte de pacote maior, de 790 milhões de dólares, que prevê a expansão de consulados nas cidades de Mazar-i-Sharif e Herat.  (O montante é 10 vezes maior que o destinado por BHObama ao Programa de Energia do país.) Para Eikenberry, tudo isso significa “uma indicação, uma ação, um atestado que pode ser tomado como compromisso de longo prazo do governo dos Estados Unidos com o governo do Afeganistão”. Eikenberry é uma voz firme nem sempre em concordância com o governo, como mostram os seus despachos revelados entre os papéis do Diário da Guerra Afegã, do coletivo Wikileaks.

A construção de escritórios, casas e instalações para o pessoal só deverá terminar em 2014, exatamente a data em que BHObama e seus generais prevêem o final da “retirada” do pessoal militar, mas também a permanência de “conselheiros e assessores de treinamento” militares. E muitas verbas, já que o orçamento afegão não habilita o governo a arcar com nem um décimo do custo de armamento e operação das forças militares e policiais previstas. Tudo isso transforma em quimera a pretensa “retirada” dos invasores.

Baghdad – Antes do anúncio das embaixadas-fortalezas de Cabul e Islamabad, a de Baghdad já se achava pronta e em funcionamento, e ainda é a maior do mundo. Ocupa área de 42 quilômetros quadrados no centro de Baghdad (algo como um retângulo de 6 km x 7 km), cercada por muros altos e resistentes. O preço orçado, 590 milhões de dólares, terminou em 740 milhões, como ocorre com toda grande obra pelo mundo afora (Serra e seu fiel escudeiro Paulo Preto sabem disso, com suas super-obras e  seu anel rodoviário). O custo operacional anual da embaixada-fortaleza é estimado em US$ 1,5 bilhão. Após serem tornados públicos os dados, o governo BHObama obrigou a empresa BDY, autora do projeto, a bloquear desenhos e detalhes da embaixada-fortaleza em seu site.

IslamabadNa mesma direção, entrou em construção a nova embaixada-fortaleza de Islamabad, no Paquistão, ao custo previsto de 736 milhões de dólares. As obras incluem moradias para os funcionários civis e militares, com vasta ampliação dos espaços de operação. Consulados nas cidades de Peshawar e Lahore também serão instalados; o hotel cinco estrelas que os EUA negociavam comprar em Peshawar para sua sede foi destruído pelo Taleban. O total orçado para o Paquistão é de 806 milhões de dólares.

Alega-se que as embaixadas-fortalezas são essenciais para abrigar  o aumento do pessoal civil ordenado pelo presidente e apoiado pela secretária de Estado Clinton. As embaixadas atuais são chamadas de “superpovoadas, dilapidadas e inseguras”. A questão é que o chamado pessoal civil opera sob planos basicamente militares, como mostram as rodovias construídas no Afeganistão, que atendem com prioridade às necessidades dos invasores. É voz corrente entre altos oficiais e funcionários que as embaixadas-fortalezas anunciam “longo comprometimento” dos EUA na região.

Jonathan Blyth, do órgão do Departamento de Estado que gere as construções no exterior, deixa claro o objetivo desses investimentos no Paquistão: “Pelo forte comprometimento dos EUA no país do Paquistão, precisamos da plataforma necessária para realizar nossa missão diplomática”. [...] A embaixada necessita de melhorias e expansão frente às exigências de nossa missão futura”.

Antigas concepções vigentes - O Great Game continua, após a queda da URSS e as invasões de Afeganistão e Iraque, agora sob o comando do decadente império do norte. E a “pacificação” da região é tarefa primordial, por constituir a quase-ficção Al Qaeda “ameaça à segurança nacional dos EUA”. Da sua parte, talvez tenham razão: afinal, são odiados em todo o mundo. Todas as construções das embaixadas-fortalezas são planejadas para resistir a impactos de mísseis e artilharia pesada. Seus altos funcionários civis e militares só se locomovem sob escolta armada ou em helicópteros, moram em bunkers cercados de mercenários de empresas particulares encarregadas da sua segurança, e jamais se atreveriam a sair à rua a passeio: não viveriam muito. Mais da metade da população dos países invadidos e do Paquistão exige a saída dos invasores. E parcelas cada vez maiores das populações dos países invasores também exigem a sua retirada de uma guerra suja e indigna como poucas na História.

Tom Engelhardt cita en passant dois dos conceitos que conduzem o pensamento estratégico contemporâneo dos planejadores imperiais: o “Grande Oriente Médio” e o “arco de instabilidade,” ou “arco de crises”. O conceito de “arco de crises” prescreve que a melhor maneira de conquistar regiões é desestabilizar e dividir os governos constituídos. Na região eurasiana, a iniciativa é facilitada pela existência de centenas de etnias, muitas não contempladas durante o processo de formação dos Estados nacionais nos últimos dois séculos.

O Irã é alvo fácil: os baluches, por exemplo, ocupam metade do Paquistão e o sul do Irã: nada mais fácil que fomentar oposição armada entre os baluches (que se declaram discriminados e prejudicados) contra os dois governos. Além dos baluches, há os azeris, que têm um país, o Azerbaijão, rico em petróleo, mas vivem em maior número no norte do Irã do que em seu próprio país. Os 30 milhões de curdos são a etnia mais numerosa sem Estado do mundo (distribuem-se por Turquia, Irã, Iraque, Síria e Armênia); movimentos terroristas curdos são armados e financiados pelos EUA para combater o exército e o governo iranianos.

O “Grande Oriente Médio”,  também chamado “Novo Oriente Médio” pela ex-secretária de Estado de Cheney-Bush, Condoleeza Rice, prevê o fim de países ou o seu desmembramento e a formação de novos países, que nascerão nos braços de seus financiadores, as forças e os capitais ocidentais, comandados pelo império. No mapa publicado em 2002 por fontes do Pentágono e do Reino Unido pode-se ver uma proposta de redivisão territorial do Oriente Médio e de parte da Ásia Central. Nesse contexto geral, dominado pelo controle das fontes de energia e riquezas variadas e de territórios estratégicos vitais, além da imposição militar de soluções favoráveis a alguns países ocidentais, falar-se em “retirada” é ofensa grave ao discernimento político e manipulação grosseira do pensamento dos cidadãos.

Acresce que a crise nos EUA mantém-se impávida e consome as últimas energias de um Estado endividado e uma população que decai de nível socioeconômico e mergulha em cenários de fome e pobreza (uma em cada sete famílias depende de vales-alimentação para comer). Aberrações aparecem em pequenos noticiários escondidos em páginas internas: o preço final de um galão de gasolina entregue às forças invasoras no Afeganistão é de 400 dólares; um galão tem menos de 4 litros. Tom Engelhardt resume com brilho a situação: “Embaixadas da grandeza de pirâmides continuam sendo construídas; bases militares de assombrar a imaginação continuam em construção; e em nenhum lugar, nem mesmo no Iraque, crê-se que Washington acha-se comprometido em desmanchar suas tendas, abandonar seus monumentos de bilhões de dólares e voltar para casa”. Em nenhum lugar, menos na redação da Folha e de seus parceiros de extrema-direita pelo mundo.

 

(2) A presença militar armada e a permanência

 

A proposta secreta de BHObama - Há dois meses, em 23 de setembro, um enviado do presidente dos EUA reuniu-se com comandantes militares e políticos em Baghdad para expor uma proposta oficial secreta. Segundo o historiador e jornalista investigativo Gareth Porter, que ouviu um agente de Inteligência iraquiano e militares participantes da reunião, o enviado, Puneet Talwar, é assistente especial do presidente e diretor sênior do Conselho de Segurança Nacional para os Estados do Golfo, Irã e Iraque. A proposta englobava a manutenção de 15 mil tropas de combate no país, mas sob a cobertura da força de segurança do Departamento de Estado, para não comprometer a credibilidade da medida do presidente de encerrar a presença no país em 2011, em obediência aos tratados assinados entre os governos dos dois países.

Essa força responde pela segurança dos civis que operam no país e pelos quatro consulados de Kirkuk, Erbil e Mosul, em território curdo, e Basra, na porção sul xiita do Iraque. A força é formada por mercenários de empresas particulares, que mantêm contratos com o Pentágono e muitas vezes realizam ‘trabalhos sujos’ nos quais as tropas oficiais não podem se envolver publicamente, como vem acontecendo no Paquistão. Este é um aspecto determinante das novas configurações do poderio militar do Pentágono: cada vez mais, terceiriza-se a guerra, e contratantes particulares operam fornecimento de milhares de itens, de aviões a uniformes, conduzem instalações, constroem, participam de combates e assumem tarefas antes reservadas a militares de carreira.

A iniciativa do governo BHObama traduz-se numa ação político-militar fora de qualquer padrão ético. Enquanto colhe os louros políticos pela pretensa “retirada” das tropas do Iraque (tratado assinado por Cheney-Bush em 2008, com data final de 31 de dezembro de 2011), BHObama joga nos bastidores com a manutenção de tropas combatentes no país e da tutela dos reequipados e reformados exército e polícia iraquianos.

A iniciativa segue-se a outra medida, mero jogo de cena, mas com resultados concretos: muitas brigadas remanescentes no país foram rebatizadas como “de assistência e assessoria”. Ou seja, são de combate, mas, para o público em geral e os leitores de publicações e telespectadores como os do GAFE e outros porta-vozes da extrema-direita no mundo, são “conselheiras” e “responsáveis por treinamento”. Conforme Porter, “seis brigadas de combate completamente equipadas permanecem no Iraque hoje, ao contrário da posição oficial da administração de que apenas tropas não combatentes permanecem lá”. Vale lembrar que o Iraque não tem força aérea, e que o controle aéreo civil e militar no país é função dos militares dos EUA. Quanto ao Afeganistão, a situação é idêntica: este artigo recente expõe declarações de comandantes sobre o que significa "retirada": algo que não existe nem existirá. 

O New York Times em 13 de setembro passado publicou detalhes de batalhas na província de Diyala: “Durante os dois dias de combate, as tropas americanas estavam armadas com morteiros, metralhadoras e rifles. Helicópteros Apache e Kiowa atacaram insurgentes com canhões e fogo automático, e [aviões] F-16 despejaram bombas de 500 libras”. Nenhuma semelhança com “militares conselheiros” e “supervisores de treinamento”.

As forças clandestinas - Segundo as fontes de Porter, os números na reunião oscilaram entre 15 mil e 28 mil tropas, e Talwar concordou com a sugestão de 15 mil tropas, o que perfaz entre três e quatro brigadas reais. O trecho a seguir de Porter (negrito meu) deixa tudo muito às claras: “Os iraquianos perguntaram se as 15 mil tropas regulares de combate poderiam ser aumentadas com as Forças de Operações Especiais (SOF). Talwar respondeu que a deposição adicional das tropas do SOF após o fim de 2010 seria possível, já que os EUA jamais reconheceram publicamente a presença de unidades da SOF no Iraque. Mas Chalmers Johnson havia mostrado a origem da sua ação no Iraque já em 2003, neste artigo no site de Tom Engelhardt. E documentos até agora liberados pelo site WiliLeaks mostram que essas forças operam junto com as forças armadas paquistanesas no Paquistão e no Afeganistão.

[As SOF, com cerca de 55 mil agentes, agem à margem de qualquer norma ou lei, dos EUA ou dos países, e até mesmo dos comandos militares regulares, e só realiza operações clandestinas. Têm autorização para matar, eliminar, seqüestrar, destruir. Eram a menina-dos-olhos do facínora Donald Rumsfeld, ex-secretário da Defesa de Cheney-Bush (JSOC) . São ideais para eliminar também adversários políticos de mandantes no poder, e nisso reside muito do seu potencial de barganha.]

A voz dos assassinos - A Fox News, canal de TV de direita de apoio aos republicanos e ao movimento de extrema-direita Tea Party (modelo de campanha e de ação política permanente da Folha de S. Paulo), revelou em 2009 o envio pelo Pentágono, em sigilo, de 1 mil agentes da SOF ao Afeganistão, para auxiliar os boinas-verdes a “limpar” as aldeias de combatentes e simpatizantes do Taleban. Esse texto da Fox News, um tipo de “manifestação interna” da parte de mídia engajada, pode revelar às vezes tanto quanto análises de profundidade. Por exemplo, diz a Fox, em trechos selecionados de tradução livre (negritos meus):

“O movimento vem com o general Stanley McChrystal, um operador especial que conduziu caçadas humanas bem-sucedidas no Iraque de terroristas da Al Qaeda / Os boinas-verdes, o mesmo grupo que liderou a deposição em 2001 do Taleban do poder, agora basicamente trabalha fora das bases de apoio de batalha,  com freqüência independente das forças convencionais / Reeder lidera o novo comando das forças combinadas de operações especiais, um mix da mais aberta boinas-verdes e comandos dos marines, e a super-secreta Força Delta e os SEALs da Marinha, que conduzem caçadas humanas / O lado encoberto trabalha em forças-tarefa identificadas apenas por um número secreto de três dígitos. São auxiliados pelos Rangers e uma Força-Tarefa Conjunta Inter-agências composta pela CIA, Agência Nacional de Segurança, FBI e outras unidades de Inteligência / total por volta de 5 mil”. As Folhas ao redor do mundo falam em “retirada”.

Equações e variáveis - As variáveis da equação iraquiana impedem que os EUA cumpram suas promessas vácuas de “retirada”, típicas de campanha. Os curdos ao norte, sentados em bilhões de barris de petróleo, foram tornados quase independentes pelos invasores, para desgosto da vizinha e então aliada Turquia, que combate guerrilhas curdas e hoje trilha caminhos próprios. Tropas dos EUA  ocupam a região iraquiana dos curdos, e três dos quatro consulados no país alojam-se lá. Cogita-se de deixar parte das tropas para “colaboração e assessoria” com o governo curdo local. Xiitas e sunitas enfrentam-se com regularidade. O Irã tem papel central na futura improvável paz no Iraque, mas é xiita. Os ricos países do Golfo Pérsico, armados à exaustão, aguardam os acontecimentos. Rússia e Síria observam; Israel é a eterna ameaça, apoiada também pelos EUA. Nesse cenário, é impossível que haja “retirada”; afinal, o Great Game ocorre por lá desde o século XIX. E a subserviente ONU sempre se acha à disposição para transformar tropas invasoras em “pacificadoras”.

A equação afegã é bastante mais complexa, e talvez por isso ainda seja sujeita a grandes lances geopolíticos como a recente parceria estratégica EUA - Índia. O Paquistão nuclear tem um inimigo central: a Índia nuclear, e uma questão básica: a Cachemira, em que tropas dos dois países periodicamente terçam armas, após três guerras gerais desde a criação do Paquistão em 1947. O apoio de partes da Inteligência paquistanesa ao Taleban é histórico, e tem por alvo central e básico a eliminação da influência da Índia no futuro do Afeganistão. A Índia também tem problemas antigos com a China, parceira do Paquistão, e há tempos é parceira privilegiada dos EUA e de seu aliado Israel. A região paquistanesa dos baluches abriga o imenso porto de Gwadar, no qual a China vem investindo bilhões de dólares.

O anúncio de BHObama, de “parceria estratégica”, surge num momento em que os EUA acham-se encurralados na crise, sem opções, como se viu no recente encontro do G-20 em Seul, chamado por alguns críticos irônicos de ‘G-19 a 1’. Mais que um apoio sólido e firme, a Índia nesse momento surge como bote salva-vidas que auxilia na questão magna do momento do império, o beco sem saída além do uso da força no Great Game. A China amplia sem cessar seus elos com a maioria dos países, num jogo pacífico e compensador; o Irã arma-se e aguarda; a Turquia afasta-se do Ocidente e caminha sem imperativos de apoio automático pela primeira vez após aderir à Otan; a velha Rússia articula e observa; a Europa debate-se entre líderes ridículos, como Sarkozy e Berlusconi, crises agudas e desencontros que ameaçam sua precária unidade.

 

(3) O imenso mar de bases

 

Impérios operam conquistas e rapinas de formas variadas. Gengis Khan sempre propunha a rendição aos adversários. Aceita, tornar-se-iam vassalos, mas ficariam em paz. Recusada, o grande Khan arrasava as cidades, assaltava as riquezas, mas sempre engrossava seu poderoso exército com belas moças para os soldados e para si e profissionais variados. Khan evitava matar carpinteiros, ferreiros, construtores de armas e edifícios, cozinheiros, artífices, cavaleiros exímios, etc. O império inglês estabelecia guetos para seus pares e oprimia com violência os povos vistos como inferiores, assumindo papel de administrador. Dispunha de tropas e navios. Mas as bases dos EUA, fechadas e verdadeiro microcosmo do país, com toda a vantagem e a bobagem originais, inclusive fast food e raps anódinos, nada têm a dever aos guetos ingleses.

O império atual em declínio optou por tornar-se, na fórmula perfeita do professor, ex-oficial da Marinha dos EUA e analista político e militar Chalmers Johnson, um império de bases. Não há números exatos nem mesmo nos orçamentos do Pentágono e das diversas agências. Documentos oficiais aproximam-se de 850 no exterior (a China não tem nenhuma), mas os teatros de guerra não são computados: só no Afeganistão existem cerca de 400 bases euamericanas, entre elas a gigantesca Baghram, com mais de 30 mil pessoas e centro de torturas conhecido pela dureza e pelas mortes freqüentes. Os números não são bem conhecidos no Iraque, mas contam-se com certeza algumas centenas,entre elas meia dúzia de superbases.  No território dos EUA contam-se ao menos 6.000 bases, entre elas a de Fort Hood, a maior de todas, com mais de 60 mil pessoas, e centenas que constituem a fonte de renda de pequenas e médias comunidades.

No Japão há 38 apenas na ilha de Okinawa (cuja ocupação é paga pelos japoneses desde o fim da Segunda Guerra), e, na Alemanha, 237, resquício da Segunda Guerra, da Guerra Fria com a URSS e da divisão alemã. Para o analista e jornalista premiado Nick Turse, manter essas bases hoje equivale aos Correios dos EUA ainda disporem de rebanhos de cavalos e de diligências para o serviço. Mas muitas são equipadas com ogivas nucleares.

Região do Great Game - A presença de bases na região do “Novo Oriente Médio” e da Ásia Central tem aumentado. Para Turse, “Mesmo que os EUA sejam forçados a retirar todas as suas tropas do Iraque, suas pegadas militares no Oriente Médio ainda seriam relevantes o suficiente para repelir oponentes de uma presença americana armada na região e ser um dreno para os contribuintes que continuam a financiar o ‘império de bases’ da América. Como tem ocorrido em anos recentes, documentos militares dos EUA indicam que a expansão e melhoria das bases andam na ordem do dia para as pouco mencionadas bases em nações em torno do Iraque”.

Turse lista algumas dessas bases. Tanto quanto com as embaixadas-fortalezas, chamar de ‘bases’ algumas instalações é minimizar suas dimensões e seu significado. A base de Camp Arifjan, no vizinho Kuwait (invadido em 1991 por Saddam Hussein e “libertado” por Bush pai), abriga 15 mil pessoas e tem todas as características de uma cidade: residências e áreas de trabalho, lazeres, restaurantes, comércio e serviços etc. Conforme contratos, vai ser ampliada com construções blindadas para estocar “armamentos e itens sensíveis”.

“Além de Camp Arifjan, instalações militares no Kuwait incluem os Camps de Buehring e Virgínia, a base naval do Kuwait, que deverá em breve realizar até mesmo reparos de navios; a base aérea Ali Al Salem, e a área de treinamento Udairi, na fronteira com o Iraque”. Há ainda o centro de distribuição da Agência de Logísticas de Defesa, que abastece as bases e instalações da região, em países como Qatar, Bahrein, Omã e Emirados Árabes Unidos. A Arábia Saudita acaba de realizar a maior compra de armamentos euamericanos da História, algo em torno de 60 bilhões de dólares para os próximos 20 anos, e os EUA empreendem no momento uma ‘guerra clandestina’ no Yemen, ilegal e não declarada (nem pelo governo nem pelo Congresso, autoridade para tanto segundo a Constituição dos EUA), com apoio da Arábia Saudita.

Barhein tem obras militares no valor de 580 milhões de dólares no porto de Mina Salman. O Qatar construiu, em 1996, mesmo sem contar com força aérea, a base aérea de Al Udeid, de 1 bilhão de dólares, para atrair as forças militares dos EUA. Em 2003, os EUA moveram o centro regional de combates aéreos da Arábia Saudita para o Qatar, que ainda se comprometeu a gastar mais 400 milhões de dólares para poder contar com a ‘proteção’ do Pentágono. Como são dinastias muitas vezes sanguinárias, os EUA gozam de preferências como esta em troca de fornecer garantias contra golpes, ataques etc. A partir de Al Udeid, opera-se o sistema aéreo  das atividades na região, até mesmo nos territórios iraquiano e afegão; a base tornou-se centro regional de controle aéreo.

A Jordânia tem sido contemplada com afagos similares. Entre outros investimentos, um centro de treinamento militar e de contraterrorismo de 200 milhões de dólares, operado pelo governo aliado jordaniano, recebeu 70 milhões do Pentágono. Na inauguração, as palavras do general Petraeus (negritos meus), que chefiava o Comando Central (que inclui as áreas do Great Game) e agora comanda as forças do Afeganistão, são reveladoras. “[...] um centro de excelência, não apenas para o desenvolvimento e o refinamento doutrinários de tecnologia, táticas e procedimentos, mas também para fortalecimento da rede de segurança regional que se forma nessa área”. Na Jordânia, constroem-se imensos centros de operações subterrâneos, em verdade cidades-bunkers, com escritórios, áreas de moradia, bares e cafés, armazéns etc.

 

(4) Vozes sensatas

 

Chalmers Johnson, em texto de 2009 em que imagina o desmantelamento do império de bases e realiza projeções e propostas, fala sobre as embaixadas-fortalezas que compõem o cenário das “retiradas” do governo euamericano. Após afirmar que não são destinadas a concessões de vistos e encaminhamento de interesses diplomáticos e comerciais, registra: “Ao invés, essas autodenominadas embaixadas são atualmente guetos murados, semelhantes a fortalezas medievais, onde espiões, soldados e oficiais de Inteligência, e diplomatas euamericanos tentam manter vigilância em populações hostis numa região em guerra. Pode-se predizer com certeza que irão abrigar um grande contingente de marines e incluir helipontos para rápidas retiradas”. Aqui, finalmente, a palavra retirada ganha sua mais legítima acepção. Para Johnson, é preciso abandonar o sistema de bases e retirar-se da maioria dos países, assumindo com o mundo o papel de qualquer país conseqüente: relações diplomáticas e comerciais, diálogo político e outras sabedorias perdidas pelos líderes mundiais da força bruta há mais de um século.

Hugh Gusterson é antropólogo e sociólogo, especializado em cultura nuclear, segurança internacional e antropologia da ciência. Situa questões complexas com simplicidade. Afirma em texto no Boletim dos Cientistas Atômicos que, segundo dados oficiais, as bases no exterior custam cerca de 100 bilhões anuais. E cita a questão da base de Vieques, em Porto Rico, fechada após séries de protestos da população. Para Gusterson, durante metade do ano a base usava bombas em exercícios militares. Ao ser fechada, deixou paisagem arrasada, contaminação com urânio empobrecido, metais pesados, solventes e ácidos. As taxas de câncer em Vieques eram então 30% maiores que no país. Aí, sim, está uma razão, entre outras geopolíticas, estratégicas, éticas e ambientais, para que se diga ao império: retirada, sim, mas geral e completa, de todo o mundo.

Outra voz sensata é de Bruce Cameron, que apresenta algumas saídas para BHObama, embora outras sejam problemáticas; todas, subordinadas à negação da política de assassinatos e combates de contra-insurgência herdada intacta do regime Cheney-Bush, inclusive com seus agentes mantidos no poder pelo presidente (secretário de Defesa Robert Gates, comandantes militares, conselheiros de segurança etc.), numa atitude míope e que lhe pode ser politicamente fatal. Para Cameron: (i) BHObama poderia aceitar que o povo pashtun, que vive há milênios na área que abrange partes do Afeganistão e do Paquistão e forma o Taleban, crie seu Estado onde vive. Outro país seria constituído pelas outras etnias presentes: uzbeques, hazaras, turcmenos, tadjiques, etc. (ii) Também seria possível manter organizações terroristas à margem do país. (iii) Numa atitude democrática, diálogos poderiam ser abertos com partes do Taleban inclinadas à paz e à colaboração.

Qualquer que seja a solução ou  a busca do caminho, agências humanitárias alertam para que os civis sejam preservados. Algumas das sugestões encaminhadas por 29 agências de ativistas civis à Otan na recente reunião em Portugal expõem: (i) Ashley Jackson, da Oxfam no Afeganistão, afirma que abusos por parte das forças de segurança do país, como extorsão, tortura e assassinatos de civis, têm de ser assumidos como responsabilidade da Otan em seu treinamento dessas forças. O que se vê é a omissão dos invasores perante os crimes. (ii) Nader Nadery, representante da Comissão Afegã Independente de Direitos Humanos, declara que o sinal de alerta já deveria ter soado há muito, perante os abusos das forças de segurança e milícias, e que é preciso agir agora. (iii) Outro alerta à Otan refere-se à necessidade de abandonar a formação de milícias armadas nas aldeias, nomeadas como “iniciativas de defesa comunitária”: o recrutamento é feito sem critério, o treinamento é mínimo, seus membros respondem apenas a eventuais comandantes locais, e sua ação vem causando aumento da instabilidade. (iv) Ataques aéreos sempre foram os responsáveis pela maior parte das mortes de civis, e seu incremento recente ameaça a volta das estatísticas elevadas de mortes, reduzidas por recente abandono desse meio de combate.

 

Mas a realidade é que o velho “complexo industrial-militar” denunciado pelo ex-presidente Dwight Eisenhower nos anos 1950 tem rumo e vento próprios e não tem sequer tempo para parar e ouvir vozes sensatas. Hoje, é um complexo financeiro-industrial-informático-terceirizado-militar. A guerra não é mais a maneira de abrir eras de grandes negócios e conquistas: hoje, para os falcões, os negocistas e o governo dos EUA, que se confundem rigorosamente, a guerra é o grande negócio. A própria economia do país depende cada vez mais dos negócios da guerra. Nesse panorama, resta a demagogia e a empulhação das “retiradas”. E, para BHObama, sobra apenas a perspectiva de perecer como personagem menor, sem força política nem caráter, e que será, tudo indica que inevitavelmente, substituído por um republicano conservador e favorável ao aumento das guerras e das bases. A depender da Folha, uma republicana de extrema-direita, sua musa Sarah Palin. Para alegria de certa mídia grande de extrema-direita mundial.

 

 

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