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Marjah, Word War e LTI
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Chico Villela

 A cidade afegã de Marjah, 80.000 habitantes, alvo da maior operação de guerra desde a invasão do país por EUA-OTAN, em 2001, e modelo da ação do novo comando militar aliado celebrada e louvada pela grande mídia mundial, não existe.


O historiador e jornalista Gareth Porter (
veja artigos), especializado em políticas de segurança nacional, com foco na dos EUA, acaba de publicar texto na Inter Press Service com a revelação: a cidade de Marjah não existe.

O nome Marjah refere-se a uma região pequena da província sulista de Helmand, situada na parte sul do vale do rio Helmand, que rega uma área quase desértica do país,  de população predominante pashtun. É um conjunto de núcleos agrícolas e pequenas vilas de agricultores. Não existe uma cidade de Marjah, apenas um conjunto de comunidades rurais esparsas, bastante prósperas se comparadas à pobreza geral do país.

Porter ouviu fontes militares que declinaram declarar seus nomes e confirmaram as informações da inexistência da cidade. Entre outros profissionais ouvidos,  o consultor de irrigação Richard Scott revelou  que trabalhou na região em 2006 pela USAID: “Não há nada que possa ser confundido com algo urbano. É um distrito agrícola”. As vilas se espalham ao longo e ao largo do rio Helmand por cerca de 200 km2. A manipulação da informação foi facilitada pela existência de um pequeno aglomerado de nome Marjah que compreende uma mesquita, um mercado  e algumas lojas, local onde muitos moradores da região comerciam suas produções e adquirem insumos e utilidades.

 

MARJAH e MOSHTARAK

 

A  operação Moshtarak (Juntos)

A operação militar dos aliados em Marjah foi concebida e divulgada como o modelo da “nova guerra” do comandante das forças dos EUA e da OTAN, general Stanley McChrystal, que a impôs ao presidente BHObama. Marjah situa-se em região afegã em que se planta muita papoula, matéria-prima para fabricação de uma cadeia de drogas e aplicações. O Taleban domina em algumas áreas e tem forte presença e apoio da população: 92% dos habitantes da província de Helmand são da etnia pashtun, 40% da população do país e base do Taleban.

A megaoperação, com cerca de alguns milhares de tropas (as citações giram em torno de 15 mil) e entre elas e pela primeira vez contingentes do novo exército afegão, apoio aéreo e armamento pesado, assessores para dezenas de temas e delegados do governo, visava a limpeza (cleaning) da cidade, a expulsão ou morte dos insurgentes e o estabelecimento do poder do governo central com seus organismos. Uma das grandes questões da guerra, para o Pentágono,  é o retorno do Taleban, a áreas das quais foi afastado, após a retirada das tropas invasoras.

 

A primeira operação

Em 26 de março de 2009 uma grande operação, Aabi Toorah,  havia sido realizada na região de Marjah, como noticiou o Defence - News, parte do site do Ministério da Defesa britânico. A matéria traz descrição militar técnica detalhada da operação, retrata os movimentos de tropas e armamentos, e em nenhum momento faz referência a uma cidade: trata-se de uma área rural e de uma operação em campo aberto.

A operação Moshtarak serviria para mostrar que: os invasores podem vencer a guerra; o Taleban pode ser expulso das regiões em que detém controle; o governo afegão pode funcionar em lugares em que mostra rara presença; a população afegã pode confiar nos invasores amigos; enfim, que o general McChrystal (do qual se fala como possível candidato do stablishment a presidente nas próximas eleições) é grande estrategista e pode conduzir a permanente política de guerra dos EUA a bom termo. Como objetivo mais elevado, serviria também para alterar a percepção da população dos EUA e de países aliados sobre o desenrolar da guerra.

Uma das diretrizes centrais era e é a tentativa de evitar mortes de civis, que vêm ocorrendo ininterruptamente desde 2001, com maioria de mulheres e crianças, e que sabidamente indispõem a população contra os aliados e fornecem combatentes ao Taleban, muitos deles pagos para combater. Alguns percalços imediatos abalaram a diretriz, como se pode ver aqui.

Para dar magnitude à nova investida, a imprensa foi chamada a colaborar na divulgação dos pontos de vista das forças de ocupação. A expressão “foi chamada” é eufemisno: a imprensa grande sistematicamente reproduz os pontos de vista dos comandantes militares em sua cobertura de eventos de guerra. Há os repórteres embedded, que acompanham as tropas e vivem com elas, mas suas matérias devem ser aprovadas pelos superiores militares, e assim só podem expressar os pontos de vista e as rígidas diretrizes sobre informação do Pentágono.

 

A falsificação desvendada

Como relata Porter, no dia 2 de fevereiro oficiais da base dos marines na região, em entrevista publicada pela Associated Press, afirmaram esperar combater entre 400 e 1.000 insurgentes na “cidade do sul afegão de 80.000 habitantes”. A Associated Press (AP) vai além: Marjah seria “a maior cidade sob controle do Taleban”, o “ponto central da rede logística e de tráfico de ópio dos militantes”. A AP fornece o número de 125.000 habitantes para a “cidade e vilas anexas”.

A partir daí, o clima de exaltação à operação experimenta consolidação e crescimento, abastecido sempre por informações militares oficiais. O canal ABC News no dia 3 seguinte anuncia que a “cidade de Marjah e seus arredores são densamente povoados, mais urbanos e densos que qualquer outro lugar que os marines tivessem sido capazes de ‘limpar e reter’” (clean and hold). No dia 5 de fevereiro o Guardian londrino falava coisas como “a evacuação de muitos civis da cidade de Marjah e áreas periféricas” e noticiava que milhares de moradores “fugiam da cidade” para a capital da província, Lashkar Gah, e para a segunda maior cidade do país, Kandahar.

Em 9 de fevereiro a revista Time registra a “cidade de 80.000”; no dia 11, é a vez do Washington Post reproduzir a falsificação. No dia 14, um dia após o início da operação Moshtarak, o porta-voz dos marines afirmava que as tropas já estavam “na maior parte da cidade”, e que o inimigo ainda dominava “algumas vizinhanças”. A CNN no dia 15 citava no mesmo artigo a “região de Marjah” (duas vezes) e a “cidade de Marjah” (uma vez), sem qualquer esclarecimento pelo equívoco. Tardiamente, quando a mídia já havia parado de citar a cidade, o The New York Times de 26 de fevereiro ainda falava da “cidade de Marjah, de 80.000 habitantes”.

Uma chamada no seu buscador internet (o Google forneceu 76.300 opções) com os nomes-chave ‘Marjah’ e ‘Moshtarak’ fornecerá milhares de opções, boa parte com mídias e sites e esses números apresentados.  

O Instituto para o Estudo da Guerra, um think tank dos EUA que se apresenta como independente e não lucrativo, composto na maioria por ex-militares de patente e estudiosos acadêmicos afinados com o Pentágono, em 11 de fevereiro, dois dias antes do início das operações, trouxe artigo de Jeffrey Dressler com afirmações e dados que corrigem mas confirmam as falsas informações da imprensa.

“A missão é retomar a cidade de Marjah na província de Helmand, uma fortaleza Taleban e centro da rede de ópio”. Cita 15.000 tropas envolvidas. “A cidade de Marjah situa-se no sul do distrito de Nadi Ali. [...] Marjah está a 25 milhas [40 km] a sudoeste da capital provincial Lashkar Gah. Relatos da imprensa sugerem que Marjah abriga de 50.000 a 80.000 habitantes, mas eles parecem se referir ao distrito inteiro de Nad Ali. A população da própria Marjah e vilas periféricas é certamente menor que 50.000”.

Na segunda semana pós-invasão, o site oficial das forças invasoras apontava que os moradores da “região” recebiam as tropas como uma “nova aurora”. O Times online de 20 de fevereiro reproduzia a voz de um tropa afegã: “Nada vai me dar mais prazer que combater o Taleban” . E acrescentava: “The police will be the first taste of civilian government that Marjah’s 80,000 residents have had in years”. 

A BBC (18/2), que expressa a voz do governo britânico sob o manto de ‘independência’, expõe boa parte das questões. Afirma: “A ofensiva conjunta envolve forças americanas, canadenses, britânicas, dinamarquesas e estonianas”. Mais adiante: “Analistas afirmam que [a operação] coroa a nova abordagem de ‘contrainsurgência’ do comandante general Stanley McChrystal. A população local foi avisada sobre o que viria e, assim, poderia proteger-se e ficar longe da batalha”.

Em termos práticos, os agricultores que não fugiram não devem nem podem sair de suas casas para trabalhar: podem ser confundidos com combatentes talebans. O que se sabe é que os moradores de Marjah estão furiosos com a nova aurora; perdem colheitas e equipamentos, vêem familiares e próximos serem mortos, vivem sob ameaça e terror. Não é possível ficar longe da batalha: a guerra está na porta de casa. E nem sempre adianta seguir as recomendações dos invasores de permanecer em casa, como se pode ver neste relato sobre cinco crianças mortas em sua casa

 De toda a mídia consultada, a única exceção foi o jornal paquistanês Dawn (Aurora), que cita corretamente o "cluster of villages with a population of about 80.000". 

 

Em língua portuguesa

  Apenas mais um exemplo do exterior: o site O Diário, de Angola, sem data visível, registrava: O porta-voz do governador de Helmand, Daud Ahmadi, explicou que as forças internacionais e afegãs capturaram até agora 2500 quilos de explosivos no âmbito da ofensiva ‘Operação Moshtarak’ contra a localidade de Marjah, com 80 mil habitantes e onde se escondem centenas de rebeldes”.

Em 14 de fevereiro o Estadão noticiava, sob o título “Ofensiva da OTAN em Marjah pode levar semanas”:  O general Larry Nicholson [...] afirmou que pode levar semanas para que a ofensiva ]...] tome o forte do grupo fundamentalista Taleban na cidade de Marjah. A cidade havia se tornado fortalezaUma semana depois, 21, a notícia era: “Ofensiva em Marjah pode levar meses, diz OTAN”. A notícia jogava a vitória para o futuro e não falava mais em cidade, só em região. Mas traz dado interessante: “Representando um golpe para a Otan, o primeiro-ministro da Holanda disse hoje que os 1,6 mil soldados holandeses deixarão o Afeganistão provavelmente este ano, em consequência da oposição doméstica à presença das forças do país no Afeganistão”.

Mas o troféu de hilaridade fica, como é de esperar, com a Folha, que trouxe dia 25 de fevereiro (negrito meu) em seu portal: A bandeira do Afeganistão foi hasteada nesta quinta-feira em sinal de vitória contra os talibãs em Marjah, sul do Afeganistão, epicentro da ofensiva 'Mushtarak’”.

É a rendição total da cidade de Marjah, fortaleza (general Larry Nicholson) e epicentro (jornalista Otavio Frias Filho), a Marjah que, como a batalha de Itararé e o detetive Bill Ferrer, nunca existiu. E a Folha, sem o saber, já havia mostrado a contrafação, na segunda foto da  Folha online de 13 de fevereiro, com a legenda: “Afegão observa chegada das tropas internacionais de sua casa, na cidade de Marjah, cenário de ofensiva”.

Não há cidade.

  

WORD WAR

 
Estranhezas e deslizes imperiais

Há algo de aparência inacreditável nessa falsificação pública de uma realidade facilmente decifrável, e a explicação só pode ser buscada  na consideração do jogo atual de forças e prepotências e no papel da informação e da imprensa ocidental com relação ao império. É inaceitável, dada a importância e a envergadura da operação, que nenhuma grande mídia tenha enviado ao menos um repórter à fictícia cidade de Marjah. Mais estranho ainda é que essa mesma grande mídia sequer tenha tido a curiosidade de consultar fontes.

Nem que fosse a corriqueira e popular Wikipedia, para constatar que a capital da semi-desértica província de Helmand (1 milhão 400 mil habitantes, uma das 34 províncias do país de 32 milhões de membros de várias etnias), a cidade de Lashkar Gah,tem 200.000 habitantes, e que as duas outras cidades citadas no capítulo Districts são Sangin, com 14.000 habitantes, e Musa Qala, à qual é atribuído um máximo de 20.000 habitantes.  Sangin e Musa Qala, centros dos distritos de mesmo nome, são as duas únicas cidades chamadas capitais dos distritos. Ainda na Wikipedia, dos 13 distritos da província de Helmand, 4 têm menor população que a atribuída à cidade de Marjah; e 3 deles, Washir, Dishu e Kanashin, abrigam 31.500, 29.000 e 17.500 habitantes. A região de Marjah nem sequer é considerada distrito, pertence ao distrito de Nad e-Ali, o mais populoso.

A mesma Wikipedia, no verbete recente Marja, apesar de se confundir chamando Marja de district, mas inserindo a região no District of Nad e-Ali, informa corretamente a população entre 80 mil e 125 mil habitantes espalhados por área de duas centenas de quilômetros quadrados. O verbete cita os artigos de Gareth Porter e Jeffrey Dressler.

A falsificação tem como pano de fundo a necessidade de apresentar a vitória de Marjah como uma nova face da guerra: eficaz, eficiente, humana, voltada para o desenvolvimento do país, o fortalecimento do governo e a consolidação da democracia, e o país finalmente livre dos combatentes que resistem aos invasores e ameaçam a estabilidade regional e a segurança do império.

O Pentágono e o governo BHObama acham-se empenhados em alterar a percepção sobre a guerra, tanto da parte dos afegãos, quanto, e principalmente, dos cidadãos dos EUA, crescentemente em oposição à sua aventura afegã, em consonância com a maioria dos públicos dos países europeus envolvidos na ocupação.

A produção de informação sobre guerras há muito deixou de ser atribuição da grande imprensa, que se limita a reproduzir de forma acrítica e automática as fontes oficiais e agências e fazer circular fiapos de verdade em meio a montanhas de contrafações organizadas e sujeitas a normas elaboradas por variados especialistas. Extremo cuidado é dedicado ao uso de palavras e suas repercussões emocionais e psicológicas; palavras-chave e conceitos atuais: terrorista e terrorismo, Al Qaeda, direitos humanos, combatente inimigo, suspeito, comunismo, democracia, liberdade, stalinismo, fanatismo, etc. Paz não faz parte de nenhuma lista, nem se fala de paz hoje.

 

País amigo

Aos países amigos jamais se atribuem certas características sempre apresentadas como exclusivas dos inimigos. Não que, por exemplo, a Arábia Saudita não seja uma espantosa  e assassina ditadura de cortes de partes do corpo de vítimas e mutilações variadas, das mais repressivas da história, que chega a requintes de, por exemplo, mulheres não poderem dirigir autos e serem obrigadas a pedir autorização a seus mandantes masculinos até para ir ao médico.

A sua exposição na mídia inexiste com  essas características: a vaga é ocupada sempre e todo o tempo pelos inimigos Irã, Cuba, Mianmar, China, Cuba, Cuba, Cuba,  etc.  A falsificação da informação é acompanhada pela exposição também falseada. Já antigos inimigos que entram em acordo com o império e seus aliados desaparecem: após acordo com os EUA, o enlouquecido ditador líbio Muammar al Khadafi há anos sumiu do noticiário. A exposição excessiva de aspectos do inimigo e a supressão sistemática dos aspectos próprios e dos amigos funciona de forma anestesiante: com a repetição, fixa-se o que se quer.  

 

Cuba e a Folha: Word War em ação

Uma clara amostra desse jogo da mídia, de esconder certas características e ressaltar as que interessam aos seus reais mandantes, vem sendo exposta ao máximo nível de repugnância pela Folha (Estadão também) sobre a questão dos “prisioneiros políticos” cubanos e o comportamento do governo Lula.  Na verdade, a mídia é sócia menor nesse jogo, e  o atual caso cubano é significativo. Desde a visita de Lula precedida pela morte de um dissidente, a Folha insere editoriais, artigos, comentários de colunistas, pequenas notas e reportagens cheias de acusações a Lula e representantes do governo. O objetivo é: atingir Lula e expor a conivência do seu governo com a ditadura cubana e com a “tortura e morte de ‘dissidentes’ em masmorras nas mãos dos carrascos comunistas”.

É sempre preciso ler a grande mídia, disponível na rede em milhares de sites. É preciso ler até mesmo a mídia periférica de tiragem inexpressiva de 300 mil exemplares como a Folha; o país tem 190 milhões de habitantes. A maioria dos “dissidentes”cubanos presos  é composta, ou de criminosos que em qualquer país seria presa, e, em muitos, executada, ou (são 75) de agentes pagos pela CIA para sabotagens e crimes diversos. Esses 75 nos EUA seriam inevitavelmente considerados terroristas e condenados à morte.

Houve processo em 2003, a acusação apresentou documentos fartos da interferência dos serviços de inteligência dos EUA no país. Há uma ditadura hereditária e prisioneiros de consciência em Cuba, e é necessária ação enérgica mundial para abrir as grades. Mas há prisioneiros de consciência em dezenas de países; a única opção possível é uma campanha humanitária mundial. A obsessão com Cuba serve a outros interesses.

Este é o fato omitido sistematicamente: muitos dos ‘dissidentes cubanos’ apresentados pela mídia e pela Folha como prisioneiros de consciência são apenas criminosos comuns ou responsáveis por atos de sabotagem e assassinato. Ingênuo pensar que o bloqueio de 50 anos não tenha sido e seja acompanhado de atos permanentes de destruição, inda mais por se tratar do país que opera a mais letal máquina de guerra e assassinatos da história humana.

O mais conhecido atualmente desses agentes é o criminoso duas vezes condenado por agressão, apresentado como psicólogo e jornalista Guillermo Fariñas, que aliás não é um prisioneiro, vive em sua casa, em mais um de seus jejuns em prol da liberdade. Teve condenação por duas agressões, uma na clínica em que trabalhava, e que afetou severamente o rosto e a saúde de uma mulher. Na prisão, tornou-se um dissidente a serviço; agora, é talvez o único dissidente do mundo que faz protestos profissionais em casa.

 

São todos iguais?

A campanha da imprensa grande nacional, com Folha e Estadão à testa, sobre a pretensa omissão do governo brasileiro com relação à questão cubana é ridícula. Seria até interessante que Lula tomasse a iniciativa de chamar Raul Castro e condenar Cuba pela ditadura de décadas e pela prisão de reais dissidentes políticos, mancha em sua história. Mas junto com isso seria necessário chamar BHObama às falas por sua política (como ele mantém e amplia a política do regime anterior, é agora sua) de tortura sistemática ao redor do mundo, e inclusive na ilha de Cuba. Afinal, por que Lula iria denunciar a tortura de Raul Castro e omitir a de BHObama? Se assim agisse, o governo Lula iria se confundir com a Folha, e isso seria intolerável para ambos.

E há uma diferença fundamental: Raul afirma que em Cuba prende-se, mas não se tortura; há maus tratos, como em qualquer lugar. A afirmação ainda não foi desmentida. BHObama jamais poderá afirmar algo semelhante. O centro de torturas científicas de Guantánamo (Gitmo), localizado na ilha de Cuba, em território cubano apossado pelo governo dos EUA há décadas, fartamente denunciado e documentado (em juízo nos EUA, no Reino Unido, em vários países), é claramente superior aos campos de extermínio alemães em que a tortura era rotina. Os judeus eram exterminados de forma rápida; afinal, eram ‘subhomens’para seus algozes, e havia sempre mais candidatos às vagas.

Já BHObama mantém adultos e jovens presos sem acusação nem culpa formada sob regime de isolamento e tortura há mais de oito anos. E até crianças de creche sabem que a tortura em Guantánamo é científica: há assessores de psicologia, farmacologia, medicina etc., que elaboram teorias já divulgadas sobre os ‘limites de resistência’ física e psicológica dos prisioneiros. As teorias são testadas e refinadas todo dia com os prisioneiros. A política do governo, além do mais, é ineficaz para os fins a que se destina, a coleta de informação, como apontam especialistas do ramo. Adolph Mengele deve estar rindo em algum lugar. O governo brasileiro é omisso: não denuncia maus tratos a presos em Cuba. E a Folha é omissa também ao esconder as torturas dos seus inspiradores ideológicos. Suas forças se espalham mundo afora, em desaparecimentos, torturas e assassinatos.

 

[As prisões de tortura e extermínio dos EUA espalhadas pelo mundo e em navios e bases são um mundo masculino; as mulheres, poucas, que habitam esses territórios insurgentes lá nos seus países são mortas. Uma das mais refinadas técnicas de tortura de Gitmo é prender um homem nu numa caixa pequena e escura em que não tenha a menor capacidade de movimento, e junto com ele na caixa colocar exemplares vivos que lhe sejam pessoalmente repelentes (insetos, baratas, ratos, lagartos, lesmas, taturanas, moscas, vermes... cada pessoa tem os seus) e deixar o rosto e o corpo do homem sujeitos aos seres repelentes, com atenção aos tempos. É bom retirá-lo em um tempo entre o momento em que o homem estaria ‘quebrado’ (a função dessa técnica é ‘quebrar rapidamente’ um homem) e o momento em que, ultrapassado algum  ponto de resistência e horror, ele teria preferido a morte. Impossível não lembrar da sala 101 da masmorra do poder no romance “1984”, de George Orwell, e de suas torturas personalizadas.]

 

A quem serve tudo isso?

Há prisioneiros políticos, há ditaduras que têm de ser denunciadas e combatidas,  há necessidade de cidadãos organizados na condenação. Mas o uso fraudulento e intensivo de um caso particular entre centenas, em dezenas de países, para atingir ilegitimamente o governo de um presidente eleito duas vezes e aprovado, e também sua candidata, é inequivocamente criminal. A direita e seus candidatos estão em desespero, mas mesmo assim é necessário manter-se em patamares mínimos de civilidade e decência.

O que não transparece desse sórdido noticiário tendencioso é a resposta à pergunta básica: além do óbvio objetivo interno de destruição do governo Lula e de sua candidata, a quem aproveita? A que forças serve essa sistemática falsificação? O governo BHObama, a par de sua fraqueza perante o Great Game e seus mandantes e de seus problemas internos, vem empreendendo investidas que o afastam das práticas fascistas do regime Cheney-Bush. A reaproximação tímida, incipiente e dificultosa com Cuba é um avanço, após mais de 50 anos de bloqueio obsessivo e criminoso à economia, à população e à segurança da ilha.

A Folha não responderia, mas a pergunta insiste: a que interesses superiores e a quais forças organizadas aproveita manter clima de histeria, atrapalhar a normalização das relações entre EUA e Cuba e colocar obstáculos à pessoa de Lula como reconhecido futuro coordenador da nova organização latino-americana sem Canadá e EUA? A Folha talvez ignore, mas BHObama sabe que, logo após a posse, recebeu visitas de altos players de serviços de Inteligência e foi informado de que, se insistisse em levar adiante na justiça a responsabilização de autoridades e operadores pelas torturas empreeendidas em todo o mundo por agentes da CIA e militares, que poderiam envolver centenas de autoridades, agentes e oficiais, sua segurança não poderia ser garantida. BHObama desistiu.

BHObama também sabe que na parede da Sala Oval a partir da qual governa, ou tenta governar, já esteve pendurado um retrato de um presidente que não chegou ao fim do mandato, John Fitzgerald Kennedy. Morreu com tiros na cabeça, talvez pelas mãos das mesmas forças que se opunham, entre outras questões, à normalização das relações com Cuba. Kennedy iniciou negociações após a fracassada tentativa de invasão da baía dos Porcos em 1961, por tropas mercenárias treinadas nos EUA e agentes de seus serviços de Inteligência. A crise dos mísseis posterior com a URSS moveu a questão para outros rumos.

A Folha se insere na corrente contrária à normalização democrática das relações entre os países da América Latina e com os EUA, com suas campanhas antiLula, contra Cuba e Venezuela e seus associados. Com o tempo vem firmando posição e se  transformando numa mídia right-wing nacional, porta-voz principal da direita brasileira e internacional no país.

 

O jogo do poder e a mídia

O surrado exemplo da falsificação oceânica de informações sobre o Iraque, anterior à invasão de 2003 pelas tropas de EUA-UK, foi de maior magnitude que este recente caso de Marjah;  no entanto, ecoou durante mais de um ano pela mídia, e foi levado inclusive ao Conselho de Segurança da ONU por um secretário de Estado. O azar de Saddam Hussein, e motor da questão, foi governar um país com mares de petróleo: fosse, ao invés, o maior produtor de alfaces do planeta, morreria velho.

Os principais passos foram, e continuam sendo, a difusão de falsas informações (no caso iraquiano, armas de destruição em massa, aliança Al Qaeda-Saddam, busca da bomba nuclear etc.),  a produção de provas falsificadas para lhes conferir sustentação, e a repetição à exaustão pela mídia, e a censura à exposição  das vozes contrárias. Nada que Joseph Goebbels não tivesse ensinado e praticado.

Para muitos analistas (veja centenas de exemplos aqui), é relevante ressaltar, a  manipulação da informação em plano mundial é uma política de Estado. A informação foi, desde o início do século XX, com os bolcheviques e depois os nazistas e os aliados ocidentais, encarada como arma estratégica, e é hoje um item tão importante quanto o número e a qualidade de equipamentos e de tropas em ação num teatro de guerra.

Assim, Porter, como vários dos analistas dos exemplos acima, chama atenção para o fato de, embora registrada a partir de porta-vozes dos marines e das forças conjuntas da OTAN no Afeganistão, essa cadeia de falsificações do caso Marjah ser fabricada nos altos escalões de tratamento da informação do Pentágono. É tarefa de milhares de profissionais de áreas variadas que as planejam, elaboram e difundem pela grande mídia mundial.

Porter cita o Manual de Campo da Contrainsurgência do Pentágono, que prescreve uma atividade central das ‘operações de informação’ em guerras como a afegã: “estabelecer a narrativa da contrainsurgência”. Conforme consta do Manual, a atividade é feita nos “higher headquarters”, comandos mais altos, e não em campo. O Manual acrescenta ainda que o noticiário da mídia “influencia diretamente a atitude de públicos-chave”, e cita “uma guerra de percepções [...] conduzida continuamente com o uso do noticiário da mídia”. Militares costumam falar claro. Às vezes são traídos por coincidências: na sigla tenebrosa brasileira Doi-Codi, Doi significa Departamento de Operações de Informações.

Não existe mais informação sobre guerras: existe a guerra da informação, a Word War. O caso Marjah desvenda, em pequeno véu, acontecências dessa guerra. A Folha mostra outra faceta da mesma guerra.

 

LTI – LINGUA TERTII IMPERII

 

Victor Klemperer (1881-1960)

O cidadão alemão Victor Klemperer, de ascendência judaica, viveu os 12 anos, 1933-1945, do regime nazista na Alemanha, a maior parte do tempo em Dresden. Como era casado com uma alemã classificada como “ariana de raça pura”, conseguiu sobreviver. Acompanhou a perda crescente de direitos dos judeus sob o nazismo, as mortes sob massacres periódicos, o confisco de propriedades, o confinamento em judenhaus (casa de judeus), a obrigatoriedade do uso da estrela amarela de David sempre aparente nas roupas, a humilhação diária, as cusparadas no rosto e ofensas sem fim em qualquer ambiente, o desaparecimento de amigos e amigas e seus filhos levados para campos de confinamento e depois de extermínio, a proibição de publicar seus trabalhos acadêmicos e até mesmo de retirar livros em bibliotecas, os trabalhos forçados como operário desqualificado, a inexistência política. Não iam mais ao cinema, não podiam ver filmes do Führer, não podiam ter animais de estimação; Klemperer teve de sacrificar seu cachoro e seu canário.

Klemperer era filólogo, dedicado a estudos sobre o Iluminismo e a literatura francesa da época, autor de muitas obras, professor em universidades alemãs, com experiência de trabalhos a convite em várias universidades européias. Com a ascensão de Hitler e do partido nacional-socialista ao poder, rapidamente compreendeu que sua vida nada mais valia, e que o terror se havia instalado sobre a cabeça da família, ele a sua mulher ariana, que jamais o abandonou, apesar das humilhações que sofria por ser uma ‘prostituta de judeu’.  Encarnou, dessa forma, em nome de todos os oprimidos, de ontem e de hoje, a personagem do resistente que, sob o peso constante da possibilidade de ser assassinado a qualquer momento, realiza sua obra com obstinação e coragem.

A obra que Klemperer construiu durante os 12 anos nazistas, para conseguir a necessária resistência psicológica que o afastasse do desespero ou do suicídio, não encontra paralelo em nenhuma análise ou estudo acadêmico. Chamava seu trabalho de vara de equilibrista. Klemperer acordava diariamente no meio da madrugada para registrar o dia a dia pessoal de opressão e humilhações e trabalhar, em segredo, dados e análises sobre os conceitos fundamentais, as práticas e a linguagem do regime nazista.

Afirma: “O efeito mais forte [sobre os alemães] não foi provocado por discursos isolados, nem por artigos ou panfletos, cartazes ou bandeiras. [...] O nazismo se embrenhou na carne e no sangue das massas por meio de palavras, expressões e frases impostas pela repetição, milhares de vezes, e aceitas inconscientemente e mecanicamente”. [...] pobreza de espírito dessa escravidão uniformizada, a principal característica da LTI”.  

Entre seus focos estavam aspectos filológicos, uso de conceitos de fortes efeitos emocionais, considerações sobre a emergência de palavras e o esquecimento de outras, resgates de idéias de raiz germânica para fundamentar as teorias racistas, falsificações permanentes em favor da propaganda das conquistas e dos ideais do regime, redução das possibilidades da linguagem a campos menores e repetíveis, exaltação da brutalidade como valor.

E, acima de tudo, a falsificação como norma, a imensa falsidade do noticiário que, em vez de apresentar fatos, exaltava os retumbantes sucessos do império e transformava fracassos e revezes em sucessos. Um dos exemplos mais expressivos ocorreu quase ao fim da guerra. Klemperer cita o jornal semanal Reich (Império), que lia sempre, dirigido por Goebbels, num relato sobre a aniquilação de uma brigada em batalha contra os russos. A notícia foi transformada em gesto de coragem: convidados aliciadoramente pelos russos para  render-se, a heróica brigada preferiu renovar seu gesto de fé em Hitler e na doutrina nacional-socialista e lutar até o fim.

Tudo isso era temperado por anotações delicadas e límpidas de suas emoções, de encantadora dignidade. Periodicamente, sua mulher, com risco de vida, levava as anotações para a casa de uma amiga ‘insuspeita ao regime’, que também corria risco de vida ao esconder as muitas anotações. Klemperer legou à posteridade, além de seus diários e obra acadêmica vasta, uma obra-prima única no gênero, o livro “LTI – a linguagem do Terceiro Reich”, extraído de seus diários. A sigla LTI refere-se à expressão em latim: Lingua Tertii Imperii.

Qualquer semelhança entre a política de guerras de conquista do império atual e as práticas de guerra do sonho nazista do império de mil anos não é simples coincidência. E muitos aspectos das práticas e políticas da LTI podem ser interessantes para ampliar nossa compreensão sobre fatos atuais.

   

Lebensraum

  Uma das teses centrais adotadas pelo regime nazista era a do espaço vital, o Lebensraum, que justificou aos olhos do país a anexação da Áustria, o Anchluss, celebrada como a volta “ao seio da grande Alemanha”, a ocupação da região dos Sudetos, da Polônia e dos territórios hoje de domínio da República Checa e da Eslováquia, além de outras partes da Europa. Lebensraum era o termo mágico que autorizava o direito do império a ocupar espaços em nome da sua origem ariana, ascendência germânica e superioridade racial.

Para o império de hoje, a concepção nazista é pequena: o lebensraum do império euamericano é o mundo, e seus governos exercem seu ‘direito’ da mesma maneira que os nazistas: submetem povos e regiões sob força militar, como ocorre agora com Iraque e Afeganistão, de forma direta, e com muitos pólos de intervenção em todos os continentes: Indonésia, Filipinas, Paquistão, Coréia do Sul, Japão, países europeus (alguns, como Itália, Alemanha e Dinamarca, dotados de armas nucleares, o que os transforma em países nucleares), ilhas variadas como Guam e Diego Garcia, Haiti, Yemen, Darfur, Taiwan, Oriente Médio, Colômbia, etc. Em vários desses pontos, travam-se batalhas e usam-se mísseis sem que tenha sido declarada guerra: a guerra é um estado permanente, como entre os nazistas. 

Além disso, espalham suas forças militares por mais de 150 países, em mais de 1 mil bases e instalações de variados tamanhos, de pequenos núcleos a verdadeiras cidades de mais de 50 mil habitantes: são 6.000 nos EUA, centenas no Afeganistão-Iraque, dezenas na Alemanha, 37 no Japão, e agora mais 7 na Colômbia. O império nazista era uma força militar de invasão e ocupação. O império euamericano é mais um império de bases, a partir das quais multiplica as intervenções e ocupações e cerca seus inimigos. A maior base do mundo é a de Bondsteel, no Kosovo. A maior embaixada do mundo está no Iraque, e será superada em breve pela nova embaixada no Paquistão. Na verdade, são mais que embaixadas: são centros operacionais de guerra e de atividades de Inteligência.

Essas forças são operadas por seis grandes comandos. Houve rearticulações recentes; em 2002 foi criado o comando Norte, para os três países da América do Norte; pouco após, foi reativado o comando Sul, para a América Latina e o Caribe, e criado o novo comando dedicado à África. Da mesma maneira, as forças nazistas ocupavam militarmente boa parte da Europa e apoiavam governos títeres, como os atuais iraquiano e afegão. Não há diferença essencial nesse campo a não ser a magnitude: a dominação nazista foi fenômeno europeu.

Hitler exigia o direito ao lebensraum e à ocupação de países em nome da superioridade da raça e das tradições ancestrais dos povos germânicos. O império atual vai muito além: na doutrina dos neocons, que o pusilânime BHObama herdou e aplica e amplia sem sequer ter proferido palavra (ao contrário, cavou um falso prêmio nobel da paz), o ‘ataque preventivo’ é justificado pelo direito do império à autodefesa contra qualquer inimigo ou país suspeito.

Certamente, suspeito é uma palavra que poderia ser incorporada à LTI: não existem mais a validade do direito e da justiça e os rituais da democracia; há apenas a ação rápida do poder armado para eliminar a ameaça apontada e definida pelo próprio agressor. O judeu parasita odioso da LTI encontra paralelo perfeito no muçulmano terrorista odioso da linguagem imperial contemporânea.

 

 A realidade superlativa

 A propaganda do regime nazista, sob responsabilidade do mestre de todos Joseph Goebbels, funcionava sob certos parâmetros de elevada eficácia. Klemperer destaca o uso de expressões grandiosas para qualquer evento, como forma de lhe conferir valor. Na risível notícia da Folha sobre a conquista do epicentro Marjah, anotada acima, o mesmo general Larry Nicholson afirma que a cerimônia do hasteamento da bandeira na cidade inexistente significava um “momento histórico, um novo ponto de partida”.  É exatamente uma das expressões prediletas de Goebbels e usada em demasia para qualquer acontecimento: até mesmo a inauguração de uma fábrica pelo Führer constituía um “momento histórico”.

Klemperer dedica o capítulo 30 aos superlativos de uso freqüente na LTI. Sua voz: “Os comunicados do Exército mostram números gigantescos  de inimigos capturados, canhões, aviões e tanques contam-se aos milhares e dezenas de milhares, o número de prisioneiros chega a centenas de milhares. [...] Quando a referência é ao número de inimigos mortos, então se abandona a exatidão dos dados e surgem expressões que mostram a falta de imaginação: inimaginável, incontável.” Uma palavra-chave para tudo era “total”: educação total, guerra total, eliminação total. Outras palavras-chave da LTI eram “eterno”: ‘duração eterna das instituições nazistas’, e “único”, sinônimo de excepcional. Mais ao fim da guerra, surgiu a terrível “solução final” para os judeus e inimigos: as câmaras de gás e os fuzilamentos em massa.

Klemperer comenta que os superlativos são  a forma lingüística mais usada pela LTI”, de tal importância que seu uso foi proibido por decreto para a propaganda comercial e reservado apenas ao poder. As promessas do Pentágono e dos seus correspondentes britânicos de “limpeza total” dos insurgentes nos países invadidos ecoa a mesma linguagem da LTI. Euamericanos usam mais clean, termo afeito ao conceito de limpar, higienizar; britânicos empregam mais clear, clarear, remover obstáculos. Em ambos os casos, o inimigo não é humano: são coisas indesejáveis a serem removidas.

 

 Sem limites

  Klemperer comenta o “caráter grosseiro da mentira”, o que remete diretamente ao caso Marjah. Sua voz: “A doutrina nazista acredita na estupidez das massas, consideradas incapazes de raciocinar. Em setembro de 1941 o boletim do Exército dizia que 200 mil homens estavam cercados em Kiev. Poucos dias depois, nesse mesmo cerco, anunciaram-se 600 mil prisioneiros. Devem ter acrescentado toda a população civil ao número de soldados”. Alguma semelhança com os 80.000 habitantes de Marjah?

Hitler anunciava o “Reich dos 1.000 anos”. Os neocons originais que elaboraram o Projeto para o Novo Século Americano, nesse aspecto da duração, são mais modestos; apenas 100 anos. Na abertura da página, uma definição: “a liderança americana é boa tanto para a América quanto para o mundo” e exige “fortalecimento militar [...]”. Na sua declaração de princípios, listam-se quatro pilares; entre eles: “we need to accept responsibility for America's unique role in preserving and extending an international order friendly to our security, our prosperity, and our principles.”  A direita fala claro e de forma totalitária: “papel único da América em preservar e ampliar a ordem internacional”.  

A megalomania e a arrogância dos nazistas e dos novos fascistas contemporâneos são da mesma cepa. A linguagem também. Nada se esconde por trás do ‘novo século americano’ além de um incontrolável sentimento de superioridade. (veja a série “EUA: rumo ao Estado fascista”: I, II, III e IV.)  Junto com tudo isso, avulta a ausência de limites com o inimigo. Cria-se o clima de vale-tudo: Hitler podia tudo contra o inimigo judeu-comunista; as tropas do império podem tudo contra o grande inimigo omnipresente, o terror, a Al Qaeda, e podem tudo contra o novo 'inimigo interno', sem o qual não há ditaduras.

Nos bombardeios indiscriminados no Iraque e nos atuais nos dois lados da fronteira Afeganistão-Paquistão, que matam maiorias de civis inocentes, as pessoas assassinadas transformam-se na mais legítima LTI do Pentágono: não são seres humanos, famílias, crianças; são “danos colaterais”. Um oficial alemão na corte de Nuremberg já antecipava a LTI atual, ao referir-se a prisioneiros judeus no campo de Belsen prestes a entrar nas câmaras de gás como “peças: Em tal dia tive de lidar com 16 peças”.

 

 Celebração da violência

  A glorificação das tropas era outra constante nazista do noticiário impresso e das transmissões radiofônicas. No site pró-guerraNotícias da guerra ao terror”, a linha é a mesma. Mostra-se, na capa, um soldado armado atirando, e a mensagem:  “Nossos Cidadãos Têm de Saber que Nossas Tropas São Honradas:  Nossas Tropas São Vitoriosas / Nossas Tropas São Valorosas / Nossas Tropas São Generosas”. Exemplos similares podem ser encontrados nos muitos sites pró-guerra disponíveis na rede. É notável a proliferação desses sites, alguns empreendidos por grupos e organizações, e a maioria, plantados, sem sequer nomeação de autoria. Fazem parte da Word War.

 

 Falsificação de alianças

  Nesse mesmo site, noticia-se a viagem a alguns países, entre eles Venezuela, Bolívia e Brasil, do engenheiro Mahmoud Ahmadinejad, presidente eleito do regime teocrático do Irã, sob o título: “Ahmadinejad em giro pelo mundo para incrementar laços islâmico-comunistas”. Esta era uma das constantes da LTI e da propaganda nazista: a falsificação da  vinculação entre o comunismo e o judaísmo, ambos ‘internacionalistas’.  

O regime soviético de Stalin nos anos 1930 era inimigo tanto de Hitler quanto de Roosevelt,  Churchill & aliados, e assim não houve reação à invasão da Rússia pelos nazistas em 1941. O pensamento era estratégico: os dois inimigos se enfraquecem, e depois os liquidamos. Trotski  era chamado sempre de “o judeu Trostki”, o regime soviético era o “bolchevismo judaico”, e até mesmo o capitalismo mundial, que os nazistas contrapunham ao seu regime, era o “capitalismo judaico”. O nome oficial era ‘Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães’. Ironicamente, os velhos comunistas alemães irmanaram-se aos judeus alemães: ambos os grupos não se integraram e foram exterminados pelos nazistas.  

 

Resultados inesperados

No capítulo 29, “Sion”, Klemperer aprofunda-se numa questão inquietante: até que ponto Hitler havia sido influenciado pelas teorias de Theodor Herzl, austríaco criador do movimento sionista? O sionismo, que pretendia união mundial dos judeus e a sua volta ao lar original na Palestina, era largamente ignorado na Alemanha, e só tardiamente o intelectual Klemperer ouviu finalmente falar dele. De posse de dois livros, emprestados por amiga, inicia a leitura e anota: “Senhor, proteja-me dos amigos! Nesses dois volumes encontra-se, com facilidade, material para comprovar muitas coisas que Hitler, Goebbels e Rosenberg [ideólogo do nazismo] afirmam contra os judeus; isso não requer  grande habilidade nem para interpretar nem para distorcer”.

Mais tarde, aprofundou-se também nas imensas diferenças entre Herzl e Hitler: Herzl apenas queria criar uma pátria para os judeus oprimidos do Leste europeu, nunca pensou em exterminar povos, nunca falou em raça ou povo eleito, não é grosseiro e inculto como Hitler. Mas os pontos de interseção são vigorosos. Klemperer: “As coincidências entre ambos – ideológicas, estilísticas, psicológicas, especulativas e políticas – prosseguem e se estimulam mutuamente”.

Para Klemperer, as aproximações entre nazismo e sionismo advêm do fato de ambos os movimentos partirem das mesmas raízes, o romantismo kitsh estreito, limitado, pervertido, sem limites, destruidor. Mas um era perseguidor, e o outro, perseguido. E assim, diz Klemperer, “[Hitler] conseguiu mais adeptos para o sionismo e o Estado judaico do que o próprio Herzl”.

A política de rapina do atual império certamente gera mais inimigos entre, principalmente, os povos muçulmanos que as próprias disposições de suas lideranças e governos. A questão vem dos tempos coloniais. Mais recentemente, o Irã aprofundou sua inimizade com os EUA a partir da intervenção da CIA que derrubou o primeiro-ministro Mohammed Mossadegh e sua nacionalização do petróleo em 1953. Em quase todos os países muçulmanos, com ênfase atual para Iraque, Afeganistão e Paquistão e o território palestino, os euamericanos e suas tropas e as de seus aliados são odiadas. É fácil constatar que a ação do império faz aumentar a cada dia as fileiras dos combatentes inimigos. Tal qual Hitler com o sionismo; os impérios não conseguem aprender com os erros alheios: a arrogância e a ganância não são boas conselheiras.

   

Raça superior

  Uma das mais odiosas faces do nazismo foi o racismo, que justificou aos olhos da população alemã a aniquilação de milhões de judeus alemães e de outras regiões européias. A ascendência ariana era requisito básico para a cidadania e a integração à comunidade. Almejava-se a “pureza da raça”, e as palavras superhomens (“herrenmenschen”) e subhomens (“untermenschen”) ganharam uso comum na LTI.

Mas Klemperer anota  com acuidade, no capítulo 40, ”A raiz alemã”, que o racismo nazista, o arianismo enlouquecido, fazia par com o anti-semitismo, o ódio ao judeu; eram seres gêmeos, um dependia do outro: “Anti-semitismo e doutrina racial tornaram-se sinônimos. E o racismo científico – ou melhor, pseudocientífico – permitia justificar o descomedimento, a conquista, a tirania, a crueldade e o genocídio”. Mas o racismo nazista foi maior que o ódio aos judeus e aos comunistas: atingiu os ciganos, ‘povo inferior’; os homossexuais, incapazes de reproduzir e aperfeiçor a raça; os deficientes físicos, mesmo que fossem arianos, por fugir aos ideais da perfeição que eram atributo da raça ariana, e que foram mortos aos milhares (cita-se 100 mil).

Faz parte da formação e das doutrinas dominantes nas academias militares e bases de instrução dos militares euamericanos hoje a força da idéia da “superioridade americana” e do desprezo pelos “povos inferiores” que devem ser ajudados. O discurso da extrema-direita dos EUA, em rápido processo de reorganização social e política no país, inclui sempre o componente de superioridade racial em todas as suas manifestações. O ódio e o desprezo aos negros e latinos, de larga tradição no país, emparelha-se com perfeição ao ódio aos judeus no nazismo. Em recente acontecimento em que três jovens negros surraram um jovem branco num ônibus, um dos ideólogos da extrema-direita, Glenn Beck, que fala para milhões em TV, pregou a volta da segregação racial em transportes públicos em todo o país.

O depoimento revelador de um veterano da guerra do Iraque neste vídeo, registrado  durante uma reunião da mais atuante associação de veteranos contra a guerra dos EUA, revela com clareza os sentimentos racistas necessários aos soldados combatentes e essenciais ao desenvolvimento das guerras de ocupação. Esse sentimento lhes permite cometer atrocidades e genocídios nas guerras imperiais em andamento e conseguir manter-se intactos. Nem todos, no entanto: boa parte retorna com transtornos físicos e psicológicos de alta gravidade, e suicídios e assassinatos de famílias inteiras apresentam níveis muito acima das médias local e mundial.

   

Purificação

 Klemperer destacava sempre a forma como a LTI se entranhava na linguagem e no pensamento no dia a dia. Uma das idéias mais permanentes presentes nas teorias racistas é a da purificação, da limpeza. As metáforas correspondentes são encontradas em todo o mundo. No início do século XX a corrente eugenista prosperou no mundo e no Brasil com base no tema de pureza de raça, de limpeza do sangue, de isolamento dos seres inferiores, principalmente negros. Descendentes de um estrangeiro integrado na Alemanha tornavam-se alemães após algum tempo, mas um judeu jamais poderia chegar a isso: tratava-se de uma questão de sangue. Essas concepções anticientíficas estão mais vivas do que se pensa. Em termos de herança genética, somos todos cachorros vira-latas humanos há mais  de 20 mil anos.

   

LIMITES DA INTELIGÊNCIA

 

 A ordem unida emanada da reunião da imprensa de direita promovida pelo Instituto Millenium (Folha, Abril, Globo etc.) em São Paulo no início de março é: destruir Lula em textos e imagens de forma sistemática e atingir seu poder de transferir votos. Um dos alvos, como se expôs, é o envolvimento de Lula na questão dos “direitos humanos em Cuba”. Mas as possibilidades são infinitas. Seguem-se dois exemplos recentes da mais elaborada prática da LTI pela Folha.

 A Folha noticiou, na edição em papel de 15 de março de 2010, a publicação, pelo Centro e Pesquisa e Documentação de História Contemporânea , da FGV, da terceira e mais recente versão do “ Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro”. Duas edições anteriores foram publicadas em papel em 1983 e 2001, esta em cinco volumes. A edição digital atual dá direito a acesso gratuito pela internet e traz 6.620 verbetes com biografias de personagens e temas relevantes da política nacional de 1930 a dias próximos aos atuais. Uma obra profissional essencial, atualizada e insubstituível para acadêmicos, estudiosos, pesquisadores, políticos, leitores e eleitores.

A notícia da Folha, em seus 36 cm de coluna de texto, na página A9, só aborda o tema do título: “Mensalão do PT é citado em dicionário da FGV”. O jornalista da sucursal do Rio autor da matéria (omito seu nome em respeito aos seus familiares) tem carreira promissora e garantida pela frente.

O outro exemplo é mais ardiloso, e a autoria, mais ilustre: artigo de fundo na página A3, área de Opinião, edição de 18 de março de 2010, assinado pela presidente da Associação Nacional de Jornais e diretora-superintendente da empresa que edita a Folha. O título é inocente: “Dois jornalistas”. Um deles é o recém-falecido Glauco, celebrado e digno cartunista e artista. O outro é o citado criminoso comum Guillermo Fariñas, agora transformado em “mártir da liberdade de expressão” em Cuba. Lá pelo meio do artigo, a parte esperada: “No entanto, a respeito da grave situação em Cuba, o presidente Lula declarou que as prisões são feitas com base na lei cubana [...]”. Podia-se ter evitado o uso do nome de Glauco para dar seguimento à operação da campanha suja.

A falsificação não é privilégio dos nazistas nem da LTI, que se espalha como tsunami pela imprensa nacional depois de dominar a grande mídia dos EUA. E, ao contrário da inteligência, sujeita a limites, a estupidez é ilimitada, omnipresente e eterna. 

 

 

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*J. Ferrari*
joaoferrari1962@terra.com.br
Inserido em: 2010-04-01 17:51:44

Muito bom artigo.
Entretanto, acho que há um erro no uso da palavra Word, que quer dizer "palavra", no lugar da palavra World, que quer dizer "mundo" ou "mundial". Guerra Mundial, então, seria "World War".
De resto, repito, excelente artigo.
 Publicado em: 2010-03-20 por chico, última modificação em: 2010-03-26 por admin

 

 

     

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