Lá vão os canalhas de novo
2010-01-25 17:24:23

[Chico Villela]

O país mais pobre do Ocidente já foi o mais rico da América.

Só uma visita a sua história conseguiria resgatar sua posição pioneira. Pouco após a Revolução Francesa, em 1804, o Haiti declarou-se independente dos colonizadores franceses. Em 1791, o líder negro Toussaint  L’Ouverture havia chefiado uma revolução de escravos que iniciou a extinção da escravidão no país, chamado então de Pérola das Antilhas. Mas os demais países, e mesmo os chefes latino-americanos das revoluções de independência, deram as costas ao país, com medo do contágio de sua revolução de escravos. O ‘pai da pátria’ Thomas Jefferson, por exemplo, tinha um belo discurso sobre a questão, mas era, ele mesmo, proprietário de escravos.

 

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Assaltado até 1947 pela França, o Haiti foi sujeito a uma ditadura das mais assassinas de que se tem notíca na história humana, a de Duvalier, o Papa Doc. Depois dele veio o filho, Baby Doc. Ficaram 30 anos, pilharam toda a assistência mundial fornecida ao país. Foram apoiados pelos Estados Unidos da América, como ‘aliados contra o comunismo’. Mataram algumas dezenas de milhares de cidadãos (fala-se em 60 mil) com sua polícia sinistra, os Tonton Macoute. O padre Jean Bertrand Aristide, com tintas de esquerda, reeleito presidente, foi deposto em 2004 num golpe interno por ex-militares com apoio e orientação da CIA.

http://www.smirkingchimp.com/thread/26150 Aqui o leitor pode ler alguns dos detalhes da operação do governo euamericano para depor Aristide. No relato do repórter investigativo David Swanson, os EUA deram um golpe e retiraram Aristide do país. Isso ocorreu em 2004. O presidente chamava-se Richard ‘Dick’ Cheney; ao seu lado sempre aparecia um primata superior, mas ignorante de política internacional, chamado George Bush.

O terremoto praticamente concentrado sobre a capital de 3 milhões de habitantes, 80% na miséria, vai desdobrar-se em outras piores conseqüências. A carência de tudo já vem transformando um precário equilíbrio social em aberta lei de selva: luta-se por comida, bens vendáveis,  qualquer coisa. Epidemias são realidade palpável. Saques já ocorrem.

Perante esse quadro, o cara da Casa Branca (a expressão é dele para nosso digno presidente, e por isso adoto-a para ele) organiza uma “ajuda humanitária” cujo carro-chefe, coordenado pelo Pentágono e pelo seu militar Comando Sul, e anunciado oficialmente, compõe-se de base de 9 mil tropas. Fazem parte, conforme o prof. e ensaísta Michel Chossudovsky (dispensa-se tradução):

The amphibious assault ship USS Bataan (LHD 5) and amphibious dock landing ships USS Fort McHenry (LSD 43) and USS Carter Hall (LSD 50).

A 2,000-member Marine Amphibious Unit from the 22nd Marine Expeditionary Unit and soldiers from the U.S. Army’s 82nd Airborne division. 900 soldiers are slated to arrive in Haiti by January 15th.

Aircraft carrier, USS Carl Vinson and its complement of supporting ships. (arrived in Port au Prince on January 15, 2010): USS Carl Vinson CVN 70

The hospital ship USNS Comfort

Several U.S. Coast Guard vessels and helicopters

USS Carl Vinson

The three amphibious ships will join aircraft carrier USS Carl Vinson, guided-missile cruiser USS Normandy and guided-missile frigate USS Underwood.

 


USS Normandy

O Itamaraty já ensaia protestos pela ocupação militar do cenário da tragédia, e exige que toda e qualquer ajuda seja administrada pela ONU, sob cuja tutela se encontra a presença militar brasileira no país. O chanceler Amorim reclama do fato de agentes dos EUA já terem assumido unilateralmente o controle do aeroporto da capital. Que passa agora a fazer parte dos paranóicos controles aplicados no país de origem (afinal, a fictícia Al Qaeda poderia aproveitar-se da situação…). O Estadão, edição internet de 17 de janeiro, informa (negrito meu):

“Não foi só o Brasil que reclamou. Dois aviões do Programa de Alimentação Mundial da ONU tentaram pousar no aeroporto e foram desviados. Os EUA estão priorizando o pouso de seus aviões com tropas e equipamentos e de aeronaves para retirar americanos e outros estrangeiros do país”.

O jornal francês Libération, no mesmo dia, informa que o secretário de Estado para a Cooperação, Alain Joyandet, protestou contra Washington após um avião francês que transportava um hospital de campanha ter sido impedido de pousar na capital haitiana. Até mesmo um avião da Cruz Vermelha teve seu pouso vetado e foi obrigado a pousar em Santo Domingo, capital da vizinha República Dominicana.

O papa acaba de receber as credenciais do embaixador de Cuba perante a Santa Sé. Veja aqui: http://resistir.info/cuba/discurso_papa.html

Em sua saudação ao novo embaixador, declarou:

“Cuba, que continua a oferecer a numerosos países sua colaboração em áreas vitais como a alfabetização e a saúde, favorece assim a cooperação e solidariedade internacionais, sem que estas estejam subordinadas a mais interesses que a própria ajuda às populações necessitadas.”

Mas esta lição não encontra ouvidos entre os criminosos de guerra e assassinos profissionais de povos que se revezam no poder nos Estados Unidos da América. O governo euamericano enxerga  apenas a chance de realizar uma gigantesca operação de relações públicas para mostrar ao mundo e à América Latina sua “nova” política de reaproximação.

Já a secretária Hillary Clinton posou ao lado do presidente e sugeriu a instituição do toque militar de recolher para ‘facilitar’ os trabalhos. Pena que não explicou para onde iriam se recolher as centenas de milhares de pessoas e famílias que estão vivendo na rua, em barracas e tocas improvisadas. Na mesma ocasião, ms. Clinton também sugeriu a edição de decreto para estabelecer lei marcial e conferir mais poderes ao presidente e aos Estados Unidos, ignorando e passando por cima do mandato da ONU e das tropas brasileiras no Haiti. Aspas para suas palavras:

O decreto daria ao governo um enorme reforço de autoridade, que na prática eles delegariam para nós.Não se pode acusar a secretária-falcão de falta de clareza. Já o general-comandante das tropas no Haiti (já existem mais de 4 mil soldados há longo tempo estacionados no país) declarou que estas e as novas tropas ficariam no país “o tempo que for necessário”. No Iraque, devem ficar 50 mil soldados em gigantescas bases já construídas. Trata-se da ocupação de um país por tropas de outro país.

Para a tragédia, soluções militares. Que tal eliminar as pessoas e acabar de vez com o problema? Soldados armados não faltarão para as execuções. Os corpos seriam cremados; a gasolina ficaria na conta do governo haitiano.

(Chico Villela)

Adendos: http://www.informationclearinghouse.info/article24416.htm- O analista político e repórter investigativo Greg Palast relata a sua visão sobre a predominância, para o Pentágono e o governo de BHObama, da ênfase militar e de segurança antes e acima da ajuda humanitária. E revela fatos como os da demora na ação (igual ao pós-furacão Katrina em New Orleans, em que o governo mandou a tropa de mercenários Blackwater para proteger as propriedades antes da ajuda humanitária) e do navio Carl Vinson, com 2.000 marines, mísseis, helicópteros e nenhum equipamento ou mantimentos para os haitianos.

http://www.smirkingchimp.com/thread/26142 Um pouco da história das relações entre EUA e Haiti: para o autor, os EUA devem bilhões.

http://www.consortiumnews.com/2010/011310.html Mais história, por Robert Parry, um dos mais relevantes repórteres investigativos da atualidade.

http://www.countercurrents.org/lantier180110.htm Aqui o leitor encontra outro texto que esclarece a posição militar do governo BHObama sobre o Haiti, com absoluto desprezo a respeito dos cidadãos.

http://www.alternet.org/blogs/workplace/145235/has_disaster_profiteering_already_begun_in_haiti

 

Neste texto o ativista Jeremy Scahill mostra que empresas que operam no Iraque e no Afeganistão, entre elas algumas empresas de mercenários, o mesmo que assassinos de aluguel, já se oferecem para operações no Haiti. Capitalistas não perdem tempo. Ao final deste texto, Scahill cita opinião do site da Heritage Foundation, think tank conservador que expõe alguns pontos sobre a política dos EUA no Haiti. Na verdade, é uma proposta de colonização, à revelia dos interesses haitianos.

Lei marcialhttp://www.countercurrents.org/eley190110.htm O governo do presidente René Préval decretou lei marcial na segunda, dia 18. O exercício das prerrogativas será entregue às tropas dos EUA. O Afeganistão americano pode estar em instalação. Lula deveria retirar as tropas brasileiras do país e manter apenas as forças de ajuda humanitária. Na verdade, jamais deveria ter enviado tropas a um país cujo governo legítimo foi deposto num golpe orquestrado pelos EUA e abençoado pela ONU. Agora que as tropas euamericanas ocupam finalmente o país, sem disfarces, é hora de nossas tropas, comprometidas com a paz, saírem de cena. Mas duvido que esse gesto de realismo político seja possível. Lula não é tão vanguarda assim.

http://resistir.info/chossudovsky/haiti_15jan10.html A relação citada de navios e equipamentos militares do prof. Chossudovsky está neste artigo em português. O Bataan (http://www.voltairenet.org/article163614.html) é um navio-prisão há mais de dez anos: o que estará fazendo nessa missão “humanitária”?

http://www.wsws.org/articles/2010/jan2010/hait-j22.shtml Neste texto o analista Bill van Auken situa hoje, 22/1, o aumento das mortes de vítimas do terremoto aos milhares e a ocupação militar do Haiti por 16 mil tropas, 4 mil a mais que as 12 mil iniciais, que o governo BHObama desviou do destino afegão para a ocupação do país. Para Auken, a ênfase é a segurança, e não a salvação das vítimas. O médico e professor sênior da Harvard Un. Paul Farmer, enviado pela ONU, do grupo Parceiros da Saúde, que há 20 anos trabalha no Haiti, afirma no site do ‘Partners in Health’ que cerca de 20 mil pessoas morrem ao dia de falta de cuidados médicos, gangrenas etc., e que as amputações são feitas sem anestesia. Mas esses fatos estão acirrando os ânimos da população contra os invasores. Além disso, preparou-se a base de Guantánamo para receber 1 mil haitianos que queiram fugir do país, que serão repatriados.

Lá vão os canalhas de novo!