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Chico Villela
O Brasil foi o último país ocidental a extinguir - por decreto - a escravidão. Como os recém-libertos não tinham instrução, dinheiro, identidades sociais, acesso à Justiça, ou seja, não eram cidadãos, tornaram-se párias sem teto, bens e empregos. Assim, o país ganhou um exército de trabalhadores desqualificados, que até hoje se mantém; basta olhar a situação das milhões de empregadas domésticas. Em razão desse comportamento típico de cegueira, anota-se a predominância de descendentes de negros entre os milhões de pobres ou miseráveis. Finge-se que o problema foi resolvido com a lei assinada pela princesa.
(Parênteses: tivesse o governo à época distribuído terras, que havia de sobra, aos escravos, cuja única sabedoria de dimensão econômica era o amanho da terra e dos seus frutos, teríamos hoje uma situação mais forte de produção familiar no campo, uma classe média mais numerosa, e menos injustiça social e cidades mais estáveis, sem periferias de tanta pobreza e crime.)
Líder do quê?
O Brasil, no ritmo em que anda, vai ser o último país a reconhecer também como direito humano o consumo de drogas. A Corte Suprema da Argentina, em recente decisão histórica em caso de três jovens presos com cigarros de maconha, anunciou que o consumo individual é questão de “foro íntimo”, e que ninguém pode ser preso por portar ou consumir cigarros de maconha. A Colômbia é outro modelo: em plena guerra civil, na qual a presença de traficantes fornece recursos para os dois lados, as tropas regulares e os guerrilheiros, acaba de aprovar lei que libera o consumo de maconha.
Mas país nenhum avançou tanto na América Latina quanto o México. Mergulhado em eterna guerra contra grandes traficantes em que já morreram mais de 7 mil pessoas, entre elas o comandante da área oficial de combate às drogas, o Parlamento mexicano aprovou lei que libera o consumo de maconha, cocaína, ácido lisérgico, heroína, etc. As porções liberadas são tipicamente individuais: 500 miligramas de cocaína, 5 gramas de ópio preparado para fumar, 25 miligramas de heroína, 5 gramas de maconha, entre outras drogas. A aprovação veio na onda dos fracassos em que mergulhou a chamada ‘Guerra às Drogas’ mexicana, inspirada e forçada pelo abominável Bush filhote. O Exército desmoralizou-se pela inoperância frente ao poderio armado dos traficantes, a polícia foi envolvida mais ainda até a medula com o grande tráfico e sua corrupção associada. Ou seja, a liberação veio em decorrência de fracassos de métodos chamados “tradicionais”, e também em nome da depuração da corrupção policial.
Já são dezenas os países e partes de países que vêm descriminando as drogas típicas de consumo individual. E não se constatou, em nenhum país ou região, aumento ou redução do consumo em decorrência da liberação. (O álcool é liberado no país, e existem milhões de abstêmios.) O que se sabe de certo é que a pior e mais ineficaz política é o combate armado, como acabou por descobrir o México: só faz subir os preços.
Lembrando bem
Outros aspectos escapam aos debates. Um deles é a visão das drogas ao longo da história. O uso de maconha como produto de consumo individual e parte de cerimônias rituais, algumas religiosas, é mundial e milenar. No século XIX e inícios do século XX o uso de cocaína era livre, e até mesmo remédios como os populares tônicos revigorantes continham pequenas doses de cocaína. Cheiradores ilustres foram Sigmund Freud e o escritor Arthur Conan Doyle, criador de Sherlock Holmes e seu fiel escudeiro Watson. As bandejas com carreiras de coca eram tão comuns em festas chics quanto as de salgadinhos. (Uma lista de usuários famosos de drogas acha-se aqui: http://www.erowid.org/culture/characters/characters_drug_use.shtml)
E pouco se divulga que o fabricante do Elixir Mariani, sucesso de vendas nos inícios do século XX na Europa, usou durante anos, como peça de publicidade, uma carta do papa Leão XIII repleta de elogios ao elixir, tomado todo dia no Vaticano. O Mariani continha cocaína. Farmácias, aqui e no exterior, mantinham estoques de cocaína pura para aviar receitas prescritas por médicos.
A grande questão
Talvez o aspecto mais notável, e ao mesmo tempo mais zelosamente ocultado pela grande mídia, seja a aliança íntima entre os serviços de inteligência de alguns países, os chamados “movimentos terroristas” e as drogas. O caso mais evidente (e, claro, menos focado pela grande mídia) é o do Afeganistão. Lá, a droga (ópio, heroína) sempre manteve exércitos particulares dos ‘warlords’, donos do tráfico e da guerra. Até 2001, em seu curto governo, o Taleban havia conseguido praticamente extinguir a produção da matéria-prima papoula. Após a invasão da dupla de criminosos de guerra Cheney-Bush e seu cãozinho-de-estimação Toninho Blair, e da deposição do radical e odioso governo Taleban, a produção voltou com força, e hoje o país responde novamente por mais de 90% da produção mundial. Obra da CIA e do MI6. Afinal, o dinheiro da maior parte das operações encobertas desses serviços vem do tráfico.
Nas guerras da América Central, nas décadas de 1970-80, com Honduras em primeiro plano, a droga financiou anos de treinamento e armamento de ‘contras’. A CIA chegou a operar fazendas e aviões para levar a droga aos consumidores euamericanos. Honduras foi o centro de treinamento, e até mesmo abrigou na presidência um general chefe das forças armadas e, simultaneamente, do tráfico. (A situação hoje não é muito diferente, e é por isso, entre outras razões conhecidas, que um Manuel Zelaya mostrou-se ‘impalatável’ ao governo dos EUA.)
A “independência” de Kosovo foi fabricada a partir do dinheiro das drogas e com seus comandantes: hoje, o país é um dos mais expressivos modelos de “Estado” construído com dinheiro e homens do tráfico, os atuais chefes de governo, pela CIA-MI6 e a OTAN, organização hoje a serviço do decadente império euamericano. Nas campanhas da ex-Iugoslávia, forças do líder Osama Bin Laden participaram com base nesses financiamentos, e o falecido Osama foi recebido como herói mais de uma vez por “governos” da região como o da Bósnia. Comandantes da OTAN os visitam, são recebidos com honras, e, assim, exibem ao mundo as suas similaridades.
São águas do mesmo pote
A descriminação das drogas contraria essas realidades e tendências, e esta é uma das mais sólidas razões do adiamento indefinido de medidas de coragem como as do México e da Argentina, além do único fundamento da falsa política de guerra às drogas da dupla Cheney-Bush, à qual o comandado-em-chefe BHObama dá continuidade. Não é por acaso a presença de tropas dos EUA também na Colômbia, grande produtor de cocaína. Milhares morrem dos dois lados, a situação de guerra civil é permanente, as tropas invasoras armam até os dentes o exército colombiano, mas a produção de cocaína não se reduz nunca.
(Veja a opinião da ONU sobre esse tema aqui: http://www.unodc.org/brazil/pt/pressrelease_20080619.html)
O significante é o preço: no livro CocaCoke, os jornalistas investigativos Alain Delpirou e Alain Labrusse calculam sobre o aumento do preço da coca: contado a partir da produção da folha, e sua venda em sacos, até o papelote vendido nas esquinas das grandes cidades mundo afora, a valorização é de 60 mil vezes. (Ou seja, uma tonelada de folhas que custe, vá lá, 1 dólar termina no nariz do consumidor ao preço de 60 mil dólares.) Com esses recursos, mantém-se cadeia gigantesca de ocupados e financiam-se contra-revoluções, golpes, subornos, movimentos ‘terroristas’, Estados-fantoches, ilegalidades sem fim. E mantêm-se também contas bilionárias, segundo os autores citados, em bancos (suíços, ingleses, euamericanos, italianos, japoneses, brasileiros; a lista é longa). Não existe separação entre dinheiros lícitos e ilícitos, nem entre bancos ‘honestos’ e ‘criminosos’; aliás, já houve algum dia?
A imagem no espelho nacional
Os fatos nos conduzem a constatações mais gerais, que relativizam argumentos em prol da descriminação, embora não os invalidem, pois são solidamente éticos. Na publicação especial da revista Caros Amigos “PCC”, de maio de 2006, o repórter investigativo João de Barros esclarece que os “patrões” do tráfico nunca têm mais de dois ou três “gerentes”, que, eventualmente, colocariam a cara a tapa, defendidos sempre por advogados de renome. Barros reproduz entrevista com o delegado Cosmo Stikovicz Filho, então membro do departamento dedicado a drogas, Denarc, da Secretaria de Segurança paulista. Suas palavras:
“Esses patrões agem de maneira idêntica aos chefões mafiosos dos filmes: só dão as ordens. Nunca são presos porque têm funcionários para tudo. Nem mexem com a droga. São pessoas de alta posição social, circulam de BMW e Mercedes-Benz, freqüentam os melhores restaurantes, as festas mais badaladas e são personalidades acima de qualquer suspeita. Quando seus nomes vêm à tona, não há prova que os incriminem. Se eu dissesse o nome de algum desses suspeitos, você cairia para trás. No entanto, se falasse, seria processado por crime contra a honra.” [...]
"possuem negócios legais de médio ou grande porte, capazes de lhes conferir poder econômico – fazendas, hotéis, restaurantes finos, bingos e até aeroclubes – , têm atividades políticas ou boas relações com pessoas que exercem cargos públicos eletivos ou não, e poder nos meios de comunicação. Há muitas histórias sobre eles, mas sua atividade criminosa concreta é pouco conhecida e quase nunca provada”.
A pressão dos grandes fabricantes de medicamentos vem colocando à disposição da população drogas poderosas compráveis com a mais completa facilidade e a mais tranqüilizadora aprovação social, científica e governamental. Mas, como o álcool, são drogas “lícitas” (embora alterem o funcionamento físico-químico do cérebro de jeito drástico), e produzem gordos lucros para seus respeitáveis fabricantes, que, como lembrou o delegado Stikovicz, circulam de carros chiques e aparecem nas colunas sociais – e nas reuniões anuais da elite (mafiosa) econômica (falida) e financeira (hoje no máximo histórico da sua concentração em poucas mãos) de Davos.
Caminhos do Brasil
E lá vai o Brasil varrendo, como fazia ao vivo um ex-ministro de FHC, a sujeira para baixo do tapete, mostrando só o “crime” (pobres traficantes de morros do Rio como modelo nacional) e justificando a maioria dos crimes da polícia que tornam o Brasil um dos campeões mundiais de assassinatos de jovens “suspeitos”: sempre pobres, entre 15 e 30 anos, pretos ou pardos, ou seja, os párias eternos. Com essa realidade o governo Lula não mexe, exatamente como os outros governos. Nosso presidente recebe condecorações, prêmios, agradecimentos e homenagens no exterior, elogios do pusilânime BHObama, afagos de rainhas. (Muitos, sim, embora mais merecidos por pessoas como o ministro das relações exteriores Celso Amorim ou o ex-secretário geral Samuel Pinheiro Guimarães.)
Afinal, a questão da droga é, apenas, a mesma questão do poder mundial. Mas o Brasil deitado em berço esplêndido ainda é pequeno nessa sala de visitas. Não percebeu que sua vocação pacifista única e poderosa exige urgente reformulação das suas leis descosturadas e anticidadãs sobre a ficção ‘drogas’. O que faria do país, mais ainda do que já é, o território do abraço étnico mundial, da democrática reunião de povos, tendências e correntes em seio de grande mãe.
A nossa pátria mãe gentil.
Em tempo: Já havia postado o texto, mas ainda há tempo de comentar a notícia da edição eletrônica de hoje (13/12) do Guardian, do Reino Unido: o português Antônio Maria Costa, titular do órgão da ONU dedicado a drogas e crime, revela que instituições financeiras lavaram cerca de 352 bilhões de dólares de dinheiro de tráfico de drogas e crime, e assim foram ajudadas a se safar das dificuldades trazidas pela crise. Leia aqui: http://www.guardian.co.uk/global/2009/dec/13/drug-money-banks-saved-un-cfief-claims
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Publicado em: 2009-12-12 por chico, última modificação em: 2010-01-22 por admin |