Fluxos
Os seres humanos precisam de matéria. Nossos corpos precisam sobreviver e nossas mãos ecoam nos átomos a vontade da mente de transformar a natureza, para fins úteis ou de expressão.
Para tudo isso ocorrer, precisamos da linguagem, através da qual analisamos, registramos e compartilhamos informações, que, ao fluir, nos emocionam, criam a dinâmica cultural e permitem-nos agir coletivamente de forma integrada.
Percebendo isso, posso dizer que o mundo humano funciona a partir de dois fluxos - um Fluxo de Matéria e um Fluxo de Informação - e que construímos para cada comunidade estruturas tecnológicas que comportam e tornam acessíveis estes fluxos para cada indivíduo. Estruturas progressivamente poderosas - rápidas, fáceis de usar, ricas em possibilidades de uso e livres.
Sistemas de trânsito e de comunicação. Em torno de ambos as sociedades florescem. E a tendência histórica é de que estes sistemas sejam aperfeiçoados pela técnica a ponto de tempo e espaço não mais limitarem nenhum ser humano. Onde quer que ele esteja, estará conectado aos Fluxos, e poderá acessar qualquer outro ser humano de forma instantânea - física ou mentalmente.
No caminho da integração dos seres humanos como um organismo vivo, algum tipo de teletransporte ainda está para acontecer. Talvez o Fluxo de Matéria nunca aconteça de forma instantânea. Talvez a gente se mate antes disso. Pensando melhor, talvez este suicídio dependa do outro Fluxo. Se nossas mentes estivessem reunidas em um espaço comum, onde todos fossem semelhantes em espécie, as pessoas começariam a amar umas às outras? Entenderíamos de uma vez por todas porque a sobrevivência deste animal chamado homem depende de colaboração e integração, ao contrário de competição e isolamento? Não há como especular, mas eu gosto de acreditar nisso.
Criaram o computador e aumentaram a nossa capacidade mental de lidar com as informações. Ligaram todos em rede e aumentaram nossa capacidade de conversar, de compartilhar essas informações de forma instantânea.
Eu me pergunto: será que criamos o protótipo ideal para o Fluxo de Informação? Hum... bem... certamente ele ainda vai evoluir muito, tanto tecnicamente quanto democraticamente, mas... sim, este é o início da coisa. Estamos nos hiperlinkando através da Internet. Informações e corações acessíveis de forma rápida e livre, cada dia mais, até que tudo esteja reunido neste Fluxo.
As implicações serão muitas, mas não quero dissertar sobre elas. Não agora, não aqui. Mas é importante dizer que este é um fenômeno sem volta. Mesmo que privatizem backbones, mesmo que cerquem servidores e legislem contra, será uma luta contra a liberdade. Uma liberdade sem autoridade, que anarquicamente já difundiu metodologias e padrões, o que permitirá a criação de novas estruturas, desta vez livres.
Para quem já vive no Fluxo, fica um chamado: vamos trabalhar para que a Internet seja sempre livre.
Para quem ainda não abriu seu coração para este pedaço de humanidade hiperlinkada, um abraço e a certeza de que estou torcendo para você entrar na dança.
Daniel Pádua - Co-fundador da Stratta (www.stratta.com.br), Daniel projeta serviços online e colabora com publicações online sobre Internet. Possui o blog The Flux (www.dpadua.f2s.com), onde reflete sobre as conclusões de suas pesquisas sobre comunicação.
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08.2003
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Publicado em: 2009-11-20 por admin, última modificação em: 2009-11-20 por admin |