Picadinho à la Nobel da paz

A armação, já desvendada, da concessão do Nobel da paz ao comandante-em-chefe das guerras que já mataram mais de 2 milhões de civis envergonha o laureado, desmoraliza o prêmio e afronta a consciência humanitária contemporânea. (15/out/2009).
Chico Villela
Aperitivo: Em 1973, o líder vietnamita Le Duc Tho foi contemplado com o Nobel da Paz, pelo seu papel nas conversações de paz de Paris para o fim da guerra do Vietnã. Junto com ele foi também indicado seu principal interlocutor, o secretário de Estado dos EUA Henry Kissinger, guerreiro frio que soma responsabilidades por alguns milhões de mortos com as políticas que encorajou ao longo de uma vida de serviços ao grande capital. Kissinger foi, por exemplo, o arquiteto do golpe que depôs e matou Salvador Allende no Chile, mais cerca de 3 mil militantes, e colocou e ajudou a manter no poder o abjeto ditador Augusto Pinochet Ugarte.
Kissinger aceitou a honraria de imediato. O sábio Le Duc Tho recusou. Na sua visão, a aceitação equivaleria a colocar no mesmo plano do agressor as muitas centenas de milhares de vítimas dos bombardeios euamericanos, sobre os quais Kissinger teve participação ativa, e ignorar que boa parte do país achava-se em ruínas pela ação da dinamite sueca do criador do prêmio.
Se a intenção dos cinco políticos, um homem e quatro mulheres, indicados pelo Parlamento norueguês (apenas o da paz é apontado pela Noruega; os demais prêmios Nobel são escolhidos por entidades suecas), que concedem o prêmio foi blindar o escolhido contra seus espumantes inimigos republicanos e estimulá-lo a ações conseqüentes na direção da paz, só o tempo dirá se estavam certos. A sua proposta à Rússia de redução dos estoques de armas nucleares deve ter pesado na justificativa da escolha, como reconhece o comitê do prêmio ao declarar: “O Comitê emprestou especial importância à visão de Obama e seu trabalho por um mundo sem armas nucleares” e também por seus “extraordinários esforços para fortalecer a diplomacia internacional e a cooperação entre os povos”. Mas por enquanto BHObama tem mais aproximações com Kissinger do que com Le Duc Tho, como se pode ver na entrada fria.
Entrada fria: No auge do aumento de tropas no Iraque, o “surge”, comandado durante o finado regime pelos generais da dupla fascista Cheney-Bush, somavam-se 186.000 militares nos dois países, Iraque e Afeganistão. Com o envio já consumado de 21.000 militares a mais ao Afeganistão, parte retirada do Iraque, e, agora, com o envio de mais 13.000, não anunciados oficialmente (a notícia veio inicialmente do Washington Post, jornal hoje à direita alinhado com os republicanos adversários do presidente) e encobertos sob a capa de “reforço técnico”, anota-se nos dois países, na ponta do lápis, a presença de 189.000 militares euamericanos.
São 3 mil a mais que no auge do regime, fora as dezenas de milhares dos seus parceiros da Otan, aos quais BHObama vem apelando pelo aumento das tropas. Os aliados preferenciais do Reino Unido já atenderam e vão enviar mais 500 tropas para somar-se às 9.000 já em operação, apesar da oposição crescente da população ao envolvimento na guerra e ao seu atual agente Gordon Brown, sucessor e continuador do criminoso de guerra Tony Blair. Ou seja, a promessa de “retirada” de BHObama foi jogo de campanha e é mentira. Da parte dos EUA, o general Barry McCaffrey, ex-comandante de tropas do país no Afeganistão, declarou recentemente que prevê um mínimo de mais 10 anos de guerra e 600 bilhões de dólares para “reconstrução” do país, no qual ao menos 40% das verbas de “ajuda” escoam pelos ralos da corrupção endêmica e universal.
Deve ser por fatos como estes, recuerdos copiados da era Kissinger, além do abominável aprofundamento da violência da guerra ao Paquistão já ampliada no fim do regime Cheney-Bush, que o primeiro presidente mulato dos EUA (esta, sim, apesar do marketing, uma vitória popular expressiva como a nossa eleição de um operário) foi contemplado com o Nobel-dinamite da paz, a partir de hoje escrito em minúsculas. Como o Congresso acha-se em vias de aprovar verbas para a proposta do Pentágono, órgão governamental, de acelerar a pesquisa de construção e transporte (iniciada sob Cheney-Bush em 2004) de uma nova e devastadora bomba capaz de destruir de uma só vez instalações profundas como as nucleares iranianas, a imagem do prêmio fica cada vez mais parecida com a invenção de Alfred Nobel. E agora, no governo do laureado, o Nobel da paz Kissinger volta acompanhado do sinistro Zbigniew Brzezinski como seus conselheiros especiais e operadores.
Feijão com arroz: O prêmio é quase sempre polêmico. Desta vez, surpreendeu até mesmo o ministro das Relações Exteriores sueco, que glosou a situação ao afirmar que o comitê merece um prêmio especial por ter surpreendido o mundo com sua escolha. Já foi dado a um pouco expressivo ex-político euamericano que sobreviveu com plataforma ambientalista, candidato em eleição roubada por Bush, Al Gore, e ao contestado IPCC, Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (2007), mas também a Martin Luther King (1964). Foi dado justamente a Nelson Mandela, mas também ao presidente racista do regime do apartheid Frederick de Klerk, que o encarcerou por anos (1993).
O melífluo dalai lama tibetano, colaborador bastante conhecido dos governos ocidentais e seus serviços de inteligência, também já foi premiado (1989). O regime teocrático à la Irã que conduzia como supremo mandatário no Tibet antes de ser defenestrado pelos comunistas chineses em 1953 era arcaico e opressivo. Mantinha a maioria do seu povo mergulhada em analfabetismo (só recentemente as taxas de escolaridade chegaram a níveis contemporâneos), e a servidão, versão medieval da escravidão, era a norma da economia basicamente agrícola. A maioria dos proprietários de servos era de dirigentes e notáveis religiosos de mosteiros, e os servos trabalhavam segundo métodos e com instrumentos típicos de séculos ou mesmo milênios atrás.
Hoje, vive em Srinagar, na Índia, e dedica-se a campanhas internacionais contra o governo chinês. O prêmio ao dalai lama ilustra à perfeição alguns dos critérios políticos do Nobel da paz. Mahatma Gandhi, por exemplo, encarnação da não-violência e uma das mais celebradas personalidades da história humana, não foi considerado digno da honraria; afinal, além de não colaborar, contrariou interesses do Ocidente.
Outros ganhadores foram o mediano Jimmy Carter (2002); o palestino Yasser Arafat e os israelenses Yitzhak Rabin e Shimon Peres (1994); o ex-presidente russo da abertura Mikhail Gorbatchov (1990); a meritória organização Médicos sem Fronteiras (1999); o sindicalista e ex-presidente polonês adversário dos comunistas Lech Walesa (1983); Madre Tereza de Calcutá (1979); o cientista criador da bomba de hidrogênio da URSS e dissidente soviético Andrei Sakharov (1975); o criador da revolução verde Norman Borlaug (1970); os ex-presidentes euamericanos Woodrow Wilson (1919) e Theodore Roosevelt (1906). A primeira premiação ocorreu em 1901; durante a Primeira Guerra, 1914-1918, não ocorreu premiação, assim como durante parte da Segunda, entre 1939-1943, e também em anos esparsos.
Entrada quente: Na abertura da newsletter de 13 de outubro do site Information Clearing House, ICH, fala o sargento Camilo Mejia, libertado em fevereiro deste ano após um ano em prisão militar nos EUA por ter-se recusado a voltar ao Iraque para combater:
“Digo para os que me chamaram de covarde que estão errados, e que, sem saberem, estão também certos. Estão errados por pensar que abandonei a guerra pelo medo de ser morto. Admito que havia medo lá, mas lá também havia o medo de matar pessoas inocentes, o medo de me colocar numa situação em que sobreviver significa matar; havia o medo de perder minha alma no processo de salvar meu corpo, o medo de me perder para minha filha, para as pessoas que me amam, para o homem que sempre fui, para o homem que eu queria ser. Eu tinha medo de acordar um dia e perceber que minha humanidade me havia abandonado”.
Os números atuais do ICH são: iraquianos mortos durante a atual ocupação, desde 2003: 1.339.771; número oficial de militares dos EUA mortos no Iraque: 4.667; número oficial de militares aliados mortos no Afeganistão: 1.454. O número de afegãos mortos após a invasão de 2001 é estimado em mais de 1 milhão. As disparidades entre os milhões e os poucos milhares ilustram a política de guerra (ou de paz, a partir de agora) do império: maciços ataques aéreos, a maioria com aviões-robôs; operações em terra contra resistentes e civis com superioridade militar absoluta; destruição das bases econômicas dos países, com as decorrências de mortes por desnutrição, doenças etc. A contaminação com radiação, permanente e eterna, das regiões de guerra ainda não mereceu consideração, nem da grande mídia, nem do comitê do Nobel da paz.
Prato principal: Críticos e analistas à esquerda dos desencontros da gestão BHObama repelem a láurea e desfiam argumentos sólidos contra a decisão do comitê. Andy Worthington, escritor e jornalista independente, resume os principais pontos em seu site: comando de duas guerras com muitas mortes de civis; inoperância na questão da tortura; apoio ao fechamento de Guantánamo mas com a transferência a outras prisões dos presos sem acusação nem processo; indiferença quanto às ilegalidades de outras prisões como a da base afegã de Baghram; não-aplicação dos dispositivos da Convenção de Genebra, como Bush, e sua substituição por procedimentos jurídicos inócuos; etc.
Mas nem todos os críticos da administração ou da velocidade das mudanças prometidas na campanha fazem troça da concessão do Nobel a BHObama. O respeitado professor e ex-analista da CIA Melvin Goodman discorda das posições dos que, tanto à direita (maciçamente) quanto à esquerda (parcialmente) vêm condenando o presidente por seus gestos. Para Goodman, a montanha de falsificações e pesadelos construída pela dupla de criminosos de guerra Cheney-Bush vem sendo desmontada pelo presidente. O uso das agências de inteligência para produzir informes falsos que serviam aos interesses irrevelados do regime anterior foi interrompido.
Para Goodman, BHObama vem recuperando a imagem do país no exterior e contribuindo para a redução ou o fim de aberrações como as prisões secretas, a tortura ou os seqüestros (renditions) com entregas de prisioneiros a países em que se tortura. Mas, até agora, nenhuma prisão foi fechada, nem mesmo Guantánamo. Tudo indica que as ‘renditions’ acham-se suspensas, mas também isso pode ser efeito da situação pendente em que se encontram essas questões perante a justiça e o imbróglio atual dos embates políticos no país.
BHObama liberou quatro memorandos do Departamento de Justiça cheney-bushista que na prática autorizavam a tortura e um relatório de 2004 da CIA que implicam fortemente tanto altos funcionários civis e militares e secretários de Estado quanto agentes da CIA com os crimes de guerra, e com essa medida firmou posição contra seus oponentes. Mas ao mesmo tempo a fascista Lei Patriota de Cheney-Bush continua em vigor, e o FBI e agências de inteligência aprofundam e refinam os mecanismos físicos e eletrônicos de controle dos cidadãos, conforma denuncia e mostra o analista euamericano Tom Burghardt em diversos artigos recentes (artigo em português).
E BHObama também cedeu a pressões e dispensou seu assessor de meio ambiente por ter assinado petição que pede a instalação de comissão de investigação dos falsos atentados de 2001, sem dúvida fato muito mais comprometedor que as questões citadas, por envolver as mais altas autoridades civis e militares do país e atingir no fígado a dupla Cheney-Bush. A acusação é mais que grave: além de todas as mentiras, falsificações e conflitos armados posteriores, os atentados “bandeira falsa” mataram 3 mil cidadãos, e a pena mínima para os culpados obrigatoriamente será a morte. Como o Nobel da paz, também seu homenageado atual é pendular e polêmico.
Pratos secundários: Mas as polêmicas parecem enveredar por meandros mais complicados que a simples opinião entre concordâncias, discordâncias e reparos. Elena Bonner, que mora nos EUA, viúva do laureado cientista Andrei Sakharov (1975), que ao lado do escritor Alexander Solzhenitsin formava à época a mais atuante dupla de dissidentes do regime soviético, faz acusações graves ao comitê. Bonner lembra que as regras do prêmio estabelecem: “admitem-se para estudo as candidaturas apresentadas antes do dia 1º de fevereiro do ano da indicação”.
Ou o comitê aceitou a indicação de BHObama (assumiu em 20 de janeiro) baseado em pouco mais de uma semana de governo, ou violou suas regras, declara Bonner. Em apoio a sua tese, Bonner lembra que seu marido, então já laureado, apresentou em 8 de fevereiro de 1978 como candidato ao Nobel um grupo de defensores de direitos humanos da URSS, o que foi recusado pelo comitê sob alegação de prazo vencido em uma semana. A candidatura BHObama foi proposta em 31 de janeiro, o que cheira a fraude, já que os critérios escritos do Nobel estabelecem que a premiação deve basear-se em fatos do ano anterior (ou anos anteriores) ao da premiação.
A discordância adquire ares de denúncia nos textos do prof. Michel Chossudovsky, criador do site de análise e reflexão www.globalresearch.ca. Em recente artigo vertido ao português no site ativista www.resistir.info, Chossudovsky revela:
“A agenda militar de Obama tem procurado estender a guerra a novas fronteiras. Com uma nova equipe de conselheiros militares e de política externa, a agenda de guerra de Obama tem sido muito mais efectiva em promover a escalada militar do que a formulada pelos NeoCons. Desde o princípio mesmo da presidência Obama, este projecto militar global tem-se tornado cada vez mais generalizado, com o reforço da presença militar dos EUA em todas as principais regiões do mundo e o desenvolvimento de novos sistemas de armas avançadas numa escala sem precedentes”.
Chossudovsky cita: “Tanto a administração Obama como a NATO estão a ameaçar directamente a Rússia, a China e o Irão. Os EUA sob Obama estão a desenvolver um ‘Sistema de Escudo para Primeiro Ataque Global por meio de Mísseis’ (First Strike Global Missile Shield System). Juntamente com armas baseadas no espaço, o Laser Aerotransportado (Airborne Laser) é a próxima fronteira de defesa. Nunca o sonho de Ronald Reagan de camadas de defesa de mísseis – a Guerra das Estrelas, em suma – esteve tão próximo, pelo menos tecnologicamente, de se tornar realidade.
Reagindo a esta consolidação, projecção e aperfeiçoamento do potencial de ataque nuclear global americano, em 11 de Agosto o Comandante-em-Chefe da Força Aérea Russa, o mesmo Alexander Zelin citado anteriormente sobre a ameaça de ataques americanos a partir do espaço sobre o seu país, disse que ‘a Força Aérea Russa está a preparar-se para fazer frente às ameaças resultantes da criação do Comando de Ataque Global (Global Strike Command) na Força Aérea dos EUA’ e que a Rússia está a desenvolver ‘sistemas apropriados para enfrentar as ameaças que possam surgir’. (Rick Rozoff, Showdown with Russia and China: U.S. Advances First Strike Global Missile Shield System , Global Research, August 19, 2009)”.
“A militarização do espaço, novas armas químicas e biológicas avançadas, mísseis refinados guiados por laser, bombas rompedoras de bunkers, sem mencionar o programa de guerra climática da US Air Force (HAARP) baseado em Gokona, Alasca, são parte do ‘arsenal humanitário’ de Obama.”
Sobremesa: A sobremesa continua sob a batuta do chef Michel Chossudovsky, que aponta a existência de negociações entre o governo dos EUA e os responsáveis pelo Nobel. A coincidência de eventos apontada a seguir por Chossudovsky é reveladora:
“Poucas horas após a decisão do comité norueguês do Nobel, Obama reuniu-se com o Conselho de Guerra, ou talvez devêssemos chamá-lo o ‘Conselho da Paz’. Esta reunião fora cuidadosamente programada para coincidir com a do comité norueguês do Nobel.
Esta reunião chave a portas fechadas, na Sala de Situação da Casa Branca, incluiu o vice-presidente Joe Biden, a secretária de Estado Hillary Clinton, o secretário da Defesa Robert Gates e conselheiros políticos e militares chave. O general Stanley McChrystal participou da reunião através de ligação vídeo com Cabul.
O general Stanley McChrystal disse ter apresentado ao Comandante em Chefe ‘várias opções alternativas, incluindo uma injecção máxima de 60 mil tropas extra’. [...] O comité Nobel num certo sentido deu um sinal verde a Obama. A reunião de 9 de Outubro na Sala de Situação era para estabelecer os fundamentos para uma nova escalada do conflito sob a bandeira da contra-insurgência e da construção da democracia.”
Para Chossudovsky, o Nobel para BHObama é um aval à sua política de guerra, e transforma a época em simulacro do ambiente do romance 1984, de George Orwell, com inversão de papéis: a guerra é a paz, o campeão da paz é o comandante-em-chefe da guerra, o bombardeio de civis é feito em nome da democracia e da liberdade.
O leitor aceita um cafezinho? Será servido pelo escritor, ativista e analista político e criador do site www.voltairenet.org, Thierry Meyssan, junto com seu mais recente e indispensável texto sobre bastidores do Nobel da paz 2009. O leitor pode escolher entre duas línguas, francês e espanhol; ainda não há versão em português. (Nota a posteriori, 28 de outubro: saiu o texto em português, veja aqui: http://resistir.info/eua/nobel_via_quenia_p.html) Ilustra um dos papéis subalternos que BHObama assume na política do país e as relações do governo dos EUA com Thorbjorn Jagland, presidente do comitê do Nobel da, agora, sua paz.
Mas deve-se tomar cuidado para que o cafezinho não atrapalhe a digestão.
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Publicado em: 2009-10-15 por chico, última modificação em: 2010-01-20 por admin |