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BHObama e a lata de vermes
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Chico Villela 

 

Após longa viagem de trabalho, retomo a coluna com intenção de colocar em dia as análises e reflexões. Assusta a constatação da rapidez e da profundidade com que as forças que empalmam hoje o poder nos EUA contribuem para comprometer os cenários de paz e de colaboração entre os países. Nada inédito para quem sabia sobre os reais formadores, apoiadores e financiadores da candidatura BHObama, mas, de qualquer modo, a deterioração é abismal e acelerada. Os textos que se seguirão abordarão, entre outros temas, os esquadrões da morte do regime Cheney-Bush e suas implicações para o atual governo; os acontecimentos recentes na província autônoma de Xinjiang, na China; a guinada na política euamericana para o continente com o apoio e o patrocínio ao golpe em Honduras; os recentes movimentos mundiais em torno do petróleo & gás, de largas repercussões para o futuro, e o papel da China; a cúpula recente Rússia-EUA e seus desdobramentos.

 Este texto aborda o principal problema político interno atual do país. O governo BHObama debate-se em turbilhões de dificuldades para compor e tentar harmonizar as forças que querem levar à frente o desvendamento das aberrações da era Cheney-Bush e as que atuam no acobertamento das ações inconstitucionais e criminosas; os riscos para o governo são de comprometer-se também em ações semelhantes e expor à luz fatos e dados que podem abalar o aparelho do Estado, seus serviços de inteligência e as reputações de políticos e militares. A pedra de toque atual, que ultrapassou em evidência a questão da tortura (outro campo em que as mãos de BHObama estão solidamente amarradas entre poderosas forças opostas e interesses estratégicos e políticos) é a denúncia da existência de uma operação organizada de extermínio com comandos para assassinar dissidentes mundo afora montado pelo vice Cheney, com óbvia aprovação do seu chefe, à margem das leis internacionais e fora de olhares e informações do Congresso. O grupo era supervisionado diretamente pelo vice Cheney a partir do seu gabinete, e as ações não eram informadas nem ao secretário da Defesa nem ao comandante geral das forças armadas.

 A revelação da existência dos comandos de extermínio foi feita em depoimento recente ao Comitê de Inteligência da Câmara por ninguém menos que Leon Panetta, atual chefe da CIA, que, segundo afirma, dissolveu a iniciativa do regime Cheney-Bush. Fato revelador: o chefe da CIA, tanto quanto o governo BHObama, só souberam da existência do grupo de extermínio quatro meses depois de Panetta ter assumido a direção da agência. O governo jamais se referenciou a leis internacionais violadas diariamente em todo o mundo por suas tropas e serviços de inteligência, seja no regime Cheney-Bush, seja no atual. Mas o grande nó é que a omissão ao Congresso de operação de tal envergadura abala os pilares da República e rompe o sistema de ‘checks and balances’ (equilíbrio entre os três poderes) de forma unilateral; os ‘checks and balances’ são um dos dogmas mais sagrados da democracia euamericana. Ou seja, a existência desses grupos no regime Cheney-Bush torna letra morta a Constituição. Trata-se de abalo sísmico de grau máximo na escala de escândalos do regime que desbordam para o centro do atual governo.

 Mas outros laços, dois dentre eles situados na proa dos acontecimentos, agravam este nó fundamental. O laço mais constrangedor para BHObama, e que o envolve a fundo na turbulência, é o fato de o general que exerceu durante anos o comando desses grupos de assassinos impunes livres de perguntas e “checks” ser Stanley McChrystal, que hoje comanda as tropas euamericanas e aliadas e programas semelhantes no imbroglio AfPak, eufemisno pentagonal para o genocídio afegão, que, há meses, expandiu-se ao Paquistão. A política do comandante anterior David McKiernan favorecia também a aproximação com as lideranças tribais (com métodos que iam desde a distribuição de dinheiro a comprimidos de Viagra para velhos líderes tribais e bíblias traduzidas) para tentar afastar a influência do Taleban e outros núcleos de combatentes; a de McChrystal, calcada na sua experiência em operações de contrainsurgência, concentra-se em combates e na eliminação de colaboradores reais e “potenciais” dos inimigos.

 Qualquer movimento do governo BHObama na direção de audiências no Congresso e inquéritos conduzidos por procuradores independentes sobre os assassinatos, exigidos por um número cada vez maior de cidadãos e congressistas, atingirá de imediato seu regente, o assassino frio que agora organiza esquadrões para eliminar “targets”, alvos, da “AlQaeda e do Taleban”, segundo se apregoa. O general McChrystal foi nomeado por BHObama num gesto raro na história militar do país: de surpresa, BHObama destituiu por sugestão do Pentágono o comandante em exercício David McKiernan em plena guerra, e que vinha, até então, ao mesmo tempo comandando as ações e também tecendo alertas, ao enfatizar que a guerra não seria vencida apenas com meios militares. O aumento de tropas (mais que duplicaram) e a presença de McChrystal no comando sugerem que a tortura e os assassinatos vão ganhar mais espaços.

 O analista Tom Engelhardt, em texto recente, após revelar a ação de McChrystal no Iraque, onde comandava um grupo secreto que operava um centro próprio de tortura e eliminação de dissidentes, lista seis características da nova fase da guerra AfPak: (1) expansão das tropas e da construção de imensas bases no país; (2) expansão da guerra secreta da CIA com aviões-robôs (drones) sempre responsáveis por milhares de mortes de civis; (3) expansão do mesmo gênero de ataques pela força aérea; (4) aumento da interferência política pelo enfraquecimento ou a deposição do presidente Hamid Karzai e sua substituição pelo neocon remanescente do regime Cheney-Bush, Zalmay Khalilzad, o que reforça a presença de velhos operadores militares e políticos na cena de BHObama; (5) ampliação da guerra no Paquistão; (6) aumento do já espantoso número de mortes civis.

 O outro laço do nó talvez seja mais fundamental que o próprio nó atado. Seria ingênuo imaginar que os assassinos organizados à margem do Pentágono e das estruturas formais da CIA e seus mercenários contratados se ativessem, como estudantes obedientes, à doutrina que permite matar, sim, mas apenas os líderes do “inimigo” Al Qaeda (cujo currículo, até agora, mostra um armário repleto de fantasmas que colaboram bastante com a CIA, o MI6 britânico e eventuais ações de serviços de inteligência alemães, franceses, etc.). Como ressalta o pesquisador e ativista Tom Burghardt em texto recente, “[...] há algo suspeito aí. Afinal, não era objetivo da ‘guerra global ao terror’ capturar ou matar quadros da Al Qaeda? O que pode haver de secreto ou controverso sobre isso?”.

 Sabe-se pela oscilante lista governamental de movimentos terroristas, por exemplo, que o conceito de “inimigo” varia com os serviços que esses grupos prestem à causa do império. Se atuam contra, são considerados “inimigos combatentes” a serem eliminados; se atuam a favor, passam a ser aliados e “combatentes amigos da liberdade”. Os grupos terroristas Jundallah, baseado no Baluchistão paquistanês, e PJAK, composto por curdos, são apoiados e armados pelos EUA porque lutam contra o Irã, país “inimigo”. Seria mais ingênuo ainda pensar que os interesses do império, acobertados em segredos e a mais cabal, prepotente e inconstitucional impunidade, deixariam de estender o braço armado do extermínio para “inimigos” mais próximos do que fantasmas hipotéticos como Osama Bin Laden e o mullah Omar.

 Burghardt levanta uma ponta do véu que esconde o alcance e a extensão desses fatos. A história tenebrosa reúne todos os ingredientes de um imenso escândalo: guerra biológica, segredos guardados sobre os quais qualquer revelação implica morte, pesquisas de armas genéticas que só atingem determinadas populações ou segmentos, e alguns dos nomes entre os mais destacados das pesquisas do antraz e da ‘biological warfare’. Na abertura do seu texto, Burghardt afirma: “Revelações de que a Agência Central de Inteligência empreendeu um programa mundial de assassinatos, e escondeu sua existência do Congresso e do povo euamericanos por oito anos, carrega a implicação de que aqueles esquadrões da morte tenham sido empregados contra oponentes políticos”.

 O antraz, ‘anthrax’, esteve em evidência logo após os atentados às torres gêmeas em 2001, quando passaram a circular nos EUA envelopes com esporos do pó branco, enviado seletivamente a congressistas e ilustres, e que causaram algumas mortes e contribuíram para o prolongamento do clima de terror e o apoio público às medidas fascistas do regime Cheney-Bysh. Após anos de inquérito e dezenas de milhares de entrevistas e investigações, em 2008 o FBI apontou o nome do cientista Bruce Edwards Ivins como o único responsável pela ação terrorista. Ivins teria cometido ‘suicídio’ com analgésicos na iminência da sua prisão. Não foram ouvidas as opiniões nem do Papai Noel nem da Carochinha.

 Até hoje, os dados e fatos do inquérito são guardados como segredo de Estado. Explica-se: a cepa do anthrax usada para os atentados foi desenvolvida no instituto de pesquisas médicas de doenças infecciosas do Pentágono em Fort Detrick, estado de Maryland, nos EUA, onde trabalhava Ivins. Outros cientistas da área, como Benito Que e Don Wiley, haviam sido antes encontrados mortos também em circunstâncias estranhas. Ambos trabalhavam em pesquisas de DNA que poderiam levar à produção de armas biológicas destinadas a parcelas geneticamente identificadas da população.

 O cientista britânico David Kellly teve destino paralelo. Kelly era considerado a maior autoridade em anthrax do mundo e expert em armas biológicas, e havia chefiado o setor de microbiologia de Porton Down, braço secreto do governo do Reino Unido dedicado a pesquisas de armas químicas e biológicas, e também operado como inspetor de armas no Iraque pela ONU. Havia dado apoio ao regime Cheney-Bush na identificação da cepa do anthrax usada nos atentados. Kelly desagradou aos governos dos EUA e do Reino Unido ao desmentir ao jornal britânico The Observer as informações que haviam sido oferecidas pelo então secretário de Estado Colin Powell perante o Conselho de Segurança da ONU sobre as instalações iraquianas de laboratórios móveis de produção de armas biológicas e químicas. Kelly: “Elas não são laboratórios móveis de armas biológicas de guerra. Não se conseguiria usá-las para produzir armas biológicas. Eles nem sequer pretendem isso. Elas são exatamente aquilo que os iraquianos dizem que são: instalações de produção de gás para encher balões”.

 Apesar dessas posições, Kelly tinha profundo conhecimento das operações de inteligência que pretendiam produzir informações falsas sobre as armas iraquianas de destruição em massa e abrir caminho para a invasão. Seu papel ameaçava a estabilidade do governo do criminoso de guerra Tony Blair. Ao embaixador britânico David Broucher, em Genebra, que lhe perguntara o que iria acontecer-lhe se a invasão do Iraque fosse consumada, Kelly respondeu: “Provavelmente serei encontrado morto em um bosque”. Depois de ter sido maltratado por parlamentares em audiência em que afirmou que “há muitos atores ocultos jogando jogos”, Burghardt anota: “Dois dias depois de seu depoimento ao Parlamento, ele foi” [encontrado morto em um bosque].

 Segundo informações dos jornalistas investigativos Bob Coen e Eric Nadler, no livro Dead Silence: Fear and Terror on the Anthrax Trail, a morte de Kelly liga-se a um mundo secreto de pesquisas clandestinas de armas biológicas. Entre estas pesquisas estaria a do cardiologista Wouter Basson, da África do Sul, chefe do programa de armas biológicas e químicas nos tempos do apartheid racista, que desenvolvia inclusive pesquisas de bioarmas genéticas letais apenas para certas parcelas de populações negras. Basson havia insinuado em audiência que o acusou de responsável por execuções extrajudiciais de dissidentes do regime racista, da qual saiu inocentado, que havia colaborado com programas dos EUA e do Reino Unido. Para Coen e Nadler, Kelly havia encontrado evidências da existência de um mercado negro de bioarmas e conexões entre esse mercado, a equipe de Basson e as equipes de Porton Down britânicas.

Um grupo de médicos de vários países vem acenando com um pedido de reabertura do caso Kelly, baseados nas limitações do inquérito, na convicção da inexistência de suicídio e no desfile de muitas evidências que apóiam essa tese. O mundo da pesquisa, fabricação, estocagem e uso de armas biológicas, em especial as geneticamente seletivas, é um dos segredos mais bem guardados dos serviços de inteligência e corporações militares em todo o mundo. David Kelly era uma ameaça real a esse mundo de sombras. Burghardt encerra seu texto: “Pode ser que as tergiversações da administração Obama em explorar este e outros programas da era Bush por meio de audiências parlamentares ou de um promoror especial tenham muito a ver com o medo de abrir a proverbial lata de vermes. Ninguém nunca sabe aonde uma investigação dessas pode levar”.

 

 

Pós-escrito: Talvez o leitor tenha ficado com a impressão de que o Congresso esperneia e reclama, neste texto, mas nada disso é novo. Os esquadrões e comandos são recorrentes no pós Segunda Guerra. E sempre operaram em conversas com o Congresso, melhor, com o que se chama lá de “A Gangue dos Oito”, chairmans de comissões sensíveis a ponto de serem informados de temas secretos. A lista de alvos sobreviventes é famosa e enorme; alguns não sobreviveram, Allende, por exemplo, morto num golpe armado pela CIA a partir do núcleo de extrema-direita das forças armadas chilenas, encarnado na sinistra figura de Pinochet. Juscelino e Jango tiveram mortes altamente supeitas.

E Panetta afirmou que a partir daquele dia o grupo de comandos assassinos não mais seria operacional. Mas, se há muitos grupos, nas suas bases, dissimulados em embaixadas como de adidos e conselheiros militares, muitos soldados de um Estado militar fascista... O primeiro império de bases militares da história, um sucesso que superou finalmente o modelo colonial expirado. E que mantém guerras, escaramuças, ações encobertas assassinas, financiamento e treinamento de grupos ‘terroristas’, intervenções e derrubada de governos, invasões de países, participação direta em milhões de mortes em todo o mundo, e agora no Iraque e no Afeganistão os mortos já se contam nos dígitos de milhões.

Na mídia grande da terra de BHObama, Panetta acabou com tudo isso. Até parece...

 

 

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 Publicado em: 2009-07-24 por chico, última modificação em: 2009-07-29 por chico

 

 

     

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