Quanto vale um Potosí?


Mineiros e turistas dividem espaço em algumas minas de Potosí. (Foto: Amanda Tito)
 

Seja através do turismo ou do extrativismo, cidade boliviana continua dependendo das minas, mas já não possui a mesma riqueza de antigamente

Por Vitor Taveira
Jornalista formado pela Universidade Federal do Espírito Santo. Participa a partir neste mês de julho de 2009 da Ruta Inka (www.rutainka.net), que percorrerá lugares históricos das culturas indígenas na Colômbia e Equador. O objetivo é formar jovens que possam representar e difundir as culturas ancestrais da América do Sul em seus países. A NovaE vai publicar em um canal especial esta jornada.

Entre os séculos 16 e 17 Potosí foi uma das mais importantes e vivas cidades do mundo, com população maior que a de Paris ou Nova Iorque. Isso porque em 1545 foram descobertas imensas jazidas de prata no Cerro Rico, a montanha-guardiã da cidade.

O ciclo da prata gerou grande fluxo populacional e riqueza econômica e cultural, a ponto de a expressão “vale um Potosí” ser usada para designar coisas muito valiosas ou de valor incalculável. Foram construídas belas igrejas, monumentos, edifícios históricos, e diversas obras importantes foram produzidas por artistas que ali se instalaram. Infelizmente, nem tudo continua como antes: igrejas saqueadas, prédios coloniais mal-cuidados e, principalmente, pobreza são parte da paisagem potosina nos dias de hoje. Ainda assim, as estreitas ruas da Potosí moderna exalam um misto de charme e decadência coloniais, consequência da voracidade do capitalismo mercantil, resumido na citação de Eduardo Galeano no clássico As Veias Abertas da América Latina, que a define como “a cidade que mais deu ao mundo e que menos tem.”


Nas minas de Potosí

Ainda que pareça exagero, ficou conhecida outra frase, que diz que com a prata retirada das minas potosinas seria possível construir uma ponte ligando Potosí a Madri, capital da colônia. Hoje ainda há extração de prata em menor quantidade, além de chumbo, estanho e zinco.

Conta a lenda que o primeiro a chegar ao local foi o inca Huayna Cápac, suspeitando da riqueza mineral do Cerro Rico. Porém, lá escutou uma explosão vinda de dentro da montanha (daí o nome inicial Potojsí, que significa algo como explosão na língua quéchua) e uma voz que dizia que a riqueza dali não era para ele, e sim para outros que vinham de muito longe. Esses outros seriam os espanhóis que, em 1545, começaram a explorar as minas depois que um índio descobriu prata por acaso, ao fazer uma fogueira para proteger-se do frio quando teve que dormir no Cerro Rico.

 

 Praça principal de Potosí mostra herança da cultura indígena e da arquitetura colonial. (Foto: Amanda Tito)

A partir daí, a exploração colonial foi intensa, fazendo de Potosí uma importante cidade na economia mundial, da prata um produto destacado para a economia da metrópole, e dos índios mão de obra escrava abundante. Mesmo depois da independência do país e da decadência da produção de prata, a situação pouco mudou. Apesar dos altos preços dos minerais nas épocas das guerras mundiais, os favorecidos foram os grandes empresários, destacadamente os três “barões do estanho”: Patiño, Aramayo e Hochschild.

Em 1952 instaurou-se a revolução nacionalista, que estatizou as minas com apoio dos mineiros. O controle seguiu até 1985, quando, diante da crise mundial e dos preços baixos dos minerais, o governo decidiu demitir milhares de trabalhadores, que tiveram que ir ganhar a vida como agricultores em outros países ou regiões bolivianas, ou como comerciantes nas grandes cidades. Diante da situação, começou a ganhar força a organização de mineiros em cooperativas, o que persiste até hoje no Cerro Rico, onde funcionam 27 cooperativas que controlam 182 minas.

Atualmente, estima-se que entre 6 e 7 mil pessoas trabalhem nas minas de Potosí, mas esse número pode aumentar ou diminuir, dependendo da demanda e do preço internacional dos minerais. A maioria dos trabalhadores é de jovens entre 20 e 25 anos, que veem a mineração como um trabalho temporário. Eles não possuem contrato de trabalho, e recebem o equivalente a 15-25 reais por dia de trabalho. Geralmente a jornada de trabalho é de 6 ou 7 horas, de segunda a sábado. Os mineiros mais antigos fazem parte de cooperativas e possuem direitos trabalhistas.

O trabalho é duro, e muito da tecnologia utilizada parece a mesma de séculos atrás. Cerca de quarenta mineiros morrem anualmente por acidentes de trabalho nas minas do Cerro Rico, por motivos como desmoronamentos, gases tóxicos, quedas em buracos ou explosões.


Turismo nas minas

Como uma fênix que renasce das próprias cinzas, Potosí consegue atrair novamente o olhar de estrangeiros para suas minas. A principal atração para os gringos que decidem estender sua viagem até a cidade é um tour que visita as cooperativas mineiras do Cerro Rico. Por cerca de 20 reais é possível conhecer por dentro a montanha que tanta riqueza deu ao mundo. O passeio dura 4 horas, com direito a guia e equipamento apropriado (roupas, botas, capacete e lanterna) para enfrentar a sujeira e a escuridão dos estreitos túneis que levam à extração dos minerais.

O tour começa com uma visita ao Mercado Mineiro, onde se encontra todo tipo de aparato útil para enfrentar a dureza do trabalho nas minas, desde dinamites e lanternas até cigarros e folhas de coca. Os visitantes compram “presentinhos” para os trabalhadores que encontram pelo caminho: refrigerantes, biscoitos, folhas de coca, álcool potável ou o piltulcho - cigarro típico composto de tabaco, coca, canela e anis.

Depois os turistas entram nas minas, onde podem conhecer melhor a história do local e o sistema de trabalho através de informações fornecidas pelo guia e conversas com mineiros em atividade.

A cultura dos operários dessa atividade também pode ser percebida, especialmente através da figura do Tío, presente em praticamente todas as minas do lugar. Trata-se de um diabo que se tornou uma espécie de padroeiro dos mineiros. Inicialmente, a imagem foi colocada pelos colonizadores com intenção de fazer com que os trabalhadores se sentissem vigiados, porém a tentativa não durou muito. Com o tempo, o Tío virou uma espécie de deus das minas, já que na cosmovisão andina um deus não é bom ou mau – sua força está no poder de dar ou tirar. Por isso, toda primeira e última sexta-feira do mês os mineiros fazem oferendas com álcool, cigarro e coca para agradecer ou pedir ao Tío.


 

Tío, espécie de deus dos mineiros. (Foto: Amanda Tito)



Das minas ao turismo

Há cerca de 20 anos, quando começava a exploração turística das minas, alguns mineiros foram convidados por uma agência para serem guias. Um deles era Freddy Mamani Quintanilla, que desde pequeno ajudava seu pai nas minas durante os fins de semana. Depois de terminar o colégio, ele foi trabalhar nas minas, onde ficou por quatro anos até que surgisse o convite.

Parecia um trabalho muito mais fácil e menos sacrificante, e assim Quintanilla trabalhou cerca de 10 anos como guia turístico. Mas segundo ele, “havia muito egoísmo e controle e uma certa desconfiança por parte das agências de turismo”. Por isso, em 1998 ele abriu seu próprio negócio, que hoje oferece tours em inglês e espanhol, guiados por ex-mineiros e estudantes de turismo da cidade.

As visitas às minas beneficiam setores da economia local, como hotéis, restaurantes e serviços de transporte. Além disso, as cooperativas mineiras recebem, pelo direito de entrada nos seus locais de trabalho, o equivalente a 15% do valor pago pelos turistas. Perguntado se os trabalhadores não se sentem incomodados com a presença de visitantes fotografando-os constantemente, o ex-mineiro diz que alguns sim, mas que “a maioria se sente feliz, já que recebe presentinhos e sabe que as visitas arrecadam fundos que podem ajudar a melhorar as condições de trabalho.”

Quintanilla ressalta a força da indústria do turismo e a importância de oferecer um serviço de qualidade para fortalecer a economia da cidade e do país. Se as riquezas minerais do lugar certamente um dia irão acabar, o turismo, por outro lado, tem potencial inesgotável.

 


Fortaleça a imprensa independente do Brasil e a Livre Expressão ao disseminar este artigo para sua rede de relacionamento. Imprima ou envie por e-mail.

Receba no seu e-mail boletim com novos links para novos artigos
 Cadastre-se agora

Mas o que é a Novae?
Novae: uma história de amor ao copyleft

                                



Manifeste-se!

Nome:
E-mail:
Dê sua opinião:
Código:
Digite o código:


*Frei Fernancio*
fernancyo@gmail.com
Inserido em: 2009-07-04 10:40:19

Esta materia trata das veias abertas da America latina. Continua exploração de minerios. No Brasil assisiti algo parecido com o ferro de Carajas, que vi ter um trem de 3000 km para levar nosso ferro a preço de banana, retorna em maquinarios carissimos. Continua a derramar na america latina um arsenal de armas, um mercado caro. Enquanto o ferro continua sair como em potosi. Até quando Carajás?
 Publicado em: 2009-07-02 por admin, última modificação em: 2009-07-02 por admin

 

 

  http://www.novae.inf.br/site/images/selopeq.jpg http://www.novae.inf.br/site/images/assinaturas.gif

NovaE.inf.br é uma revista não comercial,  pluralista na divulgação de idéias e conceitos a respeito de Internet, nova economia, cibercultura, política, cultura, literatura, mídia, comportamento, filosofia e cidadania. Portanto, as opiniões emitidas em colunas e em artigos assinados não correspondem, necessariamente, à opinião dos editores. Conteúdo autorizadoSaiba mais sobre o projeto. Desenvolvido com tecnologia PHP-Nuke, liberado sob licença GNU/GPL.  Para visualizar melhor a NovaE utilize a configuração de tela 1024 x 768