Encruzilhadas de BHObama

EUA: RUMO AO ESTADO FASCISTA (IV)
Chico Villela
Tivesse ficado amigo de verdade de Lula, BHObama teria pedido conselhos sobre seus impasses e encruzilhadas. Lula, já sabido de segundo mandato e de tudo o que poderia ter feito e não fez, talvez recomendasse ao seu colega de governo chamar o Mestre Tranca Ruas das Sete Encruzilhadas e dedicar-lhe um despacho com velas, galinha, cachaça, farinha e charutos (podem ser cubanos). Por mais estranho que pudesse parecer aos pragmáticos do Norte, o tratamento seguramente seria mais eficaz que as tentativas da gestão BHObama de conciliar suas promessas vácuas, de uma campanha fundeada em slogans de efeito, com as realidades de um país em mergulho livre no abismo da decadência social, econômica, financeira, ambiental, política e ética, e com as contradições surgidas a partir da composição imposta pelos verdadeiros poderes dos EUA ao seu governo, ao estilo balaio de gatos amigos mas nem tanto.
PÓLOS DE PODER
Criador do site político multilíngüe www.voltairenet.org, o ativista e analista Thierry Meyssan, em entrevista a uma TV russa, detalhou os quatro principais grupos que disputam poder no governo BHObama. Meyssan, que em breve lançará livro com análise do atual governo, e que vive no Líbano em razão de sua vida na França ter sido impossibilitada por decisão dos EUA de eliminá-lo, em acordo com altos funcionários do governo Sarkozy, identifica:
Grupo 1: o pólo Defesa, reunido ao redor de Brent Scowcroft, generais opositores a Rumsfeld à época, e Robert Gates, o todopoderoso ex e atual secretário da Defesa. Sugerem sair do Iraque, pôr fim à privatização das forças armadas, insistir no Afeganistão, negociar com iranianos e sírios, isolar e paralisar Rússia e China. Encaram a crise financeira como causa de inevitável redução do orçamento militar, mas sem deixar de serem os mais fortes.
Grupo 2: Os Departamentos do Tesouro e do Comércio, em torno dos secretários Tim Geithner e Paul Volcker, protegidos dos Rockefeller e de grupos financeiros proeminentes dos EUA e Reino Unido, inclusive a Casa Real. Seu objetivo primordial é salvar os banksters de Wall Street e da City londrina. Para eles, a crise é ao mesmo tempo causa de queda de rendimentos e também ocasião para fortalecer a concentração de capital, com a compra de empresas e bancos, e aprofundar a globalização. Ao contrário do Grupo 1, sugerem aproximação com a China, maior credora dos EUA, para evitar a formação de um eixo em que a China teria papel de condução e de absorção de matérias-primas essenciais.
Grupo 3: o pólo Departamento de Estado, em torno de Hillary Clinton, cristã fundamentalista membro da seita secreta Fellowship Foundation, abrigo de sionistas e neocons. Sugerem apoio incondicional a Israel, com busca de um novo papel ao país que tenha alguma utilidade estratégica. A criação de uma ‘Comunidade de Democracias’ eliminaria a influência da ONU e seria militarmente apoiada pela Otan. Uma das suas missões atuais foi sabotar a recente Conferência de Durban sobre racismo, que, ao invés de celebrar a “única democracia” do Oriente Médio, Israel, ganhou sentido oposto, carregada pelo inflamado discurso de Ahmadinejad de condenação ao racismo sionista. Vêem a crise como oportunidade para acabar com os rivais e acumular e concentrar riquezas.
Grupo 4: o Conselho de Segurança Nacional, sob a sombra da influência do estrategista Zbigniew Brzezinski, ex-professor de BHObama em Columbia e criador da Trilateral. É dirigido pelo general James Jones, ex-chefe da OTAN [autor de declaração de que, a cada dia, o abominável Henry Kissinger lhe dita a agenda]. Indicam que “a crise financeira é uma crise da estratégia do império” de endividamento em guerras intermináveis, e que a guerra não será a solução [como na crise de 1929-1939]. Sugerem esforços em três direções: (a) desestabilizar as economias competidoras e forçar o ingresso de capitais nos EUA e no Reino Unido. [Uma amostra foi vista na reunião recente do G20 em Londres, em que se fortaleceu a tendência de bloqueio aos paraísos fiscais de todo o mundo, com exceção dos paraísos dos EUA – Delaware - e de ilhas do Reino Unido, que passariam a concentrar os capitais, a maioria sujos como os de drogas e corrupção]; (b) manter a fachada de poder militar com a guerra no Afeganistão e destruir as alianças nascentes entre Rússia, China, Irã e Síria, com alvo na Organização de Cooperação de Xangai; e (c) trocar as guerras caras no terreno por ações encobertas, as ‘covert operations’, para permitir ao Pentágono que se reorganize.
ENCRUZILHADAS INTERNAS
Salvação do sistema financeiro
Uma encruzilhada são as transferências de recursos públicos do Tesouro para banqueiros e financistas em nome da “sobrevivência e recuperação”, com a injeção de trilhões de dólares nos seus caixas e solução aos chamados ativos tóxicos com garantia do governo. Ou seja, mantém-se a transferência, brutal e inédita, iniciada pelo anterior secretário do Tesouro Henry Paulson, de trilhões de dólares dos recursos públicos para poucas mãos privadas. A conta será paga por futuras gerações, ainda não se sabe como. Os ativos tóxicos, sem valor, foram empacotados em papéis heterodoxos por esses mesmos agentes financeiros durante as diversas bolhas artificiais (pontocom, hipotecas etc.) que criaram para maximizar à estratosfera seus lucros, com a conivência e a colaboração do Federal ‘Greenspan’ Reserve.
Permanece o sistema perverso de desregulamentação financeira que desembocou na crise. O governo BHObama, cujos setores financeiros acham-se nas mãos dos agentes do grande capital, como a velha raposa Larry Summers, principal conselheiro econômico, ou o menino-prodígio do New York Federal Reserve Tim Geithner, secretário do Tesouro, não tem encontrado opções fora das armadilhas dos financistas que controlam boa parte das decisões governamentais. Não é simples a mudança de práticas mais que seculares. Muito menos por um presidente que foi formado e eleito com recursos e apoio de mídia desses mesmos financistas.
E muito menos ainda num país que renunciou à sua capacidade industrial, exportou fábricas e tecnologias para outros países e assumiu a presunção de paraíso dos financistas montados numa moeda então paradisíaca, numa política deliberada e conduzida por vários governos, desde o início da década de 1970, a mando do mundo financeiro. A ilusão de substituir a produção de riquezas industrial, agropecuária, de infra-estrutura e de bens diversos e de raiz pelos rendimentos de especulação financeira agrava a situação geral, em que o mundo financeiro desaba e se socorre no Estado e nos recursos públicos, e resta à sociedade empobrecimento e ruína, já que as fontes reais de riqueza acham-se sucateadas.
(Antes de estourar de vez a crise, segundo relatou o The New York Times na edição de 28 / abril / 2009, em junho de 2008, o então secretário do Tesouro Henry Paulson reuniu financistas e operadores e perguntou sobre o que deveria ser feito para enfrentar a grande crise que se anunciava. Geithner sugeriu que o Congresso desse poderes ao presidente para que o governo assumisse as dívidas dos bancos. Sua sugestão foi aparteada e ignorada como aventura política inviável. Meses depois, o governo passava à sua atual política, exatamente a fórmula de Geithner. É uma encruzilhada de boa dimensão, e a disposição dos nomes no tabuleiro financeiro governamental desafia até mesmo o Mestre Tranca Ruas.)
Até agora, afora a concentração de capital ainda maior dos banksters, foram inúteis para o encaminhamento de soluções à crise as medidas de reorientação da economia, reduzidas às tentativas de fazer voltar as bolhas de crédito & dívida numa situação em que nem governo nem população têm mais condições de endividamento. Ou salvam-se os bancos, ou a economia, e BHObama foi eleito com o caminho já traçado de servir aos poderes financeiros. Duvida-se de que o Estado consiga fazer as duas coisas ao mesmo tempo.
Uma saudável reação tem sido a emissão de moedas próprias por condados e cidades (até agora, 12): esses títulos substituem o dólar e valem e são aceitos apenas nos domínios restritos das municipalidades. É uma volta às origens em que várias moedas conviviam em harmonia, antes que, em 1913, fosse criado o Federal Reserve (Fed), núcleo que congrega os grandes bancos particulares (na fundação, sete) e que assumiu as funções de banco central, com a conivência de parlamentares e do governo. A partir daí, o Fed passou a emitir moeda e controlar as taxas de juros e de inflação, em nome dos seus proprietários, praticamente os mesmos desde a fundação, num papel híbrido em que também opera com fundos públicos.
No plano externo, os esforços de Wall Street e da City londrina (ou seja, do governo BHObama e dos governantes e financistas orquestrados pela Casa Real britânica) têm como alvos a reativação do poder do FMI sob seu comando e a manutenção do dólar como moeda de referência (com os aplausos do Brasil, cujo presidente declarou-se “orgulhoso” de emprestar dinheiro ao FMI). A mais forte reação a essa movimentação até agora partiu da China, cujo primeiro-ministro tornou públicos seus temores sobre a capacidade dos EUA de honrar seus títulos do Tesouro. Tudo indica que a fórmula preferencial dos poderes financeiros seja a constituição de um "governo mundial", uma "moeda mundial geral", uma "governança mundial", ancorada no capital do eixo Wall Street-City. Qualquer tentativa de adoção de uma moeda única deve ser encarada como parte do projeto bankster angloamericano oposto a um mundo multipolar.
A China tem reservas de cerca de 2 trilhões de dólares, boa parte em títulos do Tesouro dos EUA, e vem sustando a compra desses títulos, ou seja, reduzindo o financiamento ao governo BHObama, e praticamente abandonou as transações em dólares, e vem dando preferência a uma pequena cesta de moedas com o seu yuan, o euro e o yen japonês. Foi por medida similar, a de converter suas reservas de 20 bilhões de dólares em euros e só aceitar pagamento de seu petróleo nessa moeda, que Saddam Hussein caiu em desgraça. Mas a China não é o anêmico Iraque.
Fantasmas de guerra civil
A macropolítica do capital financeiro de deslocamento da capacidade produtiva industrial para países periféricos ou de baixa remuneração, como México e China, enfraqueceu a economia real e afetou a oferta de emprego. Os salários reais vêm perdendo poder de compra há mais de vinte anos. A insensibilidade dos banksters e seus altos executivos ao embolsar privadamente milhões do dinheiro público entregue pelo governo a título de bônus e recompensas vem contribuindo para um clima de pré-guerra civil, em que já se registraram agressões de cidadãos armados a moradias desses milionários. Um dado sobressai e sobressalta: não se encontra com facilidade munição à venda, e os fabricantes não dão conta do crescimento da demanda. Nunca se vendeu tanta munição quanto agora, o que induz maus presságios.
O aumento firme da taxa de desemprego, a perda crescente de suas residências por milhões de famílias que vêem suas dívidas ultrapassarem os valores dos imóveis, o crescimento das filas que demandam alimentação de caridade, a ruína financeira que atinge cada vez maiores fatias dos milhões de aposentados que vêem suas poupanças de toda uma vida serem atiradas pela janela com a inadimplência’ dos fundos de pensão, o fechamento alarmante de postos de trabalho em pequenas comunidades, a insolvência em cadeia de municipalidades e escolas públicas e de quase todos os estados, tudo isso prenuncia climas propícios a sublevações civis e abalos da ordem pública. O Senado acaba de rejeitar um pacote de auxílio aos compradores de residências em dificuldades, mas, ao mesmo tempo, aprovou mais de uma vez algumas centenas de bilhões aos bancos e verbas suplementares de cerca de 200 bilhões para as guerras do Iraque e Af-Pak. Medidas como estas são gasolina em fogo.
É exemplar a situação da Califórnia: acaba de pedir 23 bilhões ao governo para honrar sus contas, mesmo sendo o estado mais rico, com 15% do PIB dos EUA; se fosse um país, seria a sétima economia do mundo, maior que a do Brasil. É recorde o número de suicidas que levam consigo famílias inteiras e até vizinhos; muitos deles são militares retornados de guerras recentes que não encontram mais espaço na vida social nem se encontram consigo mesmos num país conflagrado. Crescem as manifestações públicas de xenofobia; estrangeiros são excelente bode expiatório em ocasiões de crise.
Heranças fascistas
Da sua parte, o governo dispõe de uma estrutura interna fascista, herdada do regime Cheney-Bush, que permanece intocada. Os 600 ‘campos de detenção provisória’ (campos de concentração) construídos pelo regime acham-se prontos para recolher ‘perturbadores da ordem’. O Departamento de Segurança Interna (Homeland Security) continua aplicando seus métodos antidemocráticos de perseguição a dissidentes e pacifistas, proibição de deslocamento pelo país a mais de 100 mil cidadãos, controle pelos agentes da movimentação e da vida civil dos cidadãos, e um vasto etcétera.
A invasão da privacidade dos cidadãos de todas as formas continua a ser trabalho privativo da Agência de Segurança Nacional (NSA), apesar dos processos na Justiça de organizações públicas contrárias à ilegalidade à qual o governo BHObama dá continuidade. Em recente defesa da sua posição, o Departamento de Justiça (DoJ) do novo governo apelou para o argumento fascista da “imunidade soberana” do Estado e do ‘direito à manutenção do segredo’: inacreditavelmente, o DoJ baseou-se na arquifascista ‘Lei Patriota’ de 2001, que continua em vigor, matriz de todas as arbitrariedades internas da era Cheney-Bush. A par disso, as medidas anticonstitucionais de deposição de tropas militares para ação de polícia no território somam-se à crescente presença de tropas de mercenários nas ruas do país, em reforço à ação policial.
Como durante o regime Cheney-Bush, o país continua vivendo jurídica e oficialmente em ‘estado de emergência’, situação que se mantém pela ausência de apetite político do governo em abrir mais um flanco de luta pelo encerramento da anomalia e pela paralela inapetência do Congresso em exercer seus poderes constitucionais. Compete ao Congresso ratificar ou fazer cessar os efeitos do estado de emergência anualmente, o que não se faz desde a sua decretação em 2002. É como se a herança do discricionário regime anterior tivesse sido tão bem urdida que não teria deixado ao sucessor outra opção que não fosse a continuidade dessas políticas antidemocráticas e contrárias à Constituição. Esse verdadeiro nó atado pelo regime transparece com clareza nas questões da tortura e dos crimes de guerra, talvez a mais insolúvel encruzilhada do novo governo.
Tortura e crimes de guerra
Aqui se revela em toda profundidade a incapacidade aguda de ação do governo BHObama, dada sua composição por forças diversas comprometidas com políticas de teor e formato fascista. Há duas faces da questão: a tortura é crime pelas leis do país, e é crime contra a humanidade perante leis e convenções internacionais. Ora, se o regime aprovou a sua prática; emitiu documentos de autorização; instalou centros especializados, conhecidos e documentados (Guantánamo, o iraquiano Abu Ghraib, o afegão Baghram) e secretos, até mesmo em países a Europa; torturou até a morte centenas de detentos; envolveu milhares de funcionários na ação ou na sua administração; realizou ações de assassinato de dissidentes e de rapto e entrega de prisioneiros a governos que sabidamente torturam e assassinam seus adversários; então, os responsáveis pelo regime e os executores das suas ordens devem responder por crimes contra a humanidade perante as leis do país e as leis e convenções internacionais.
O precedente do Tribunal de Nuremberg, que julgou e executou os principais chefes do regime nazista, permanece como assombração perante os chefes do regime Cheney-Bush. Em Nuremberg, consagrou-se a jurisprudência que nega aos envolvidos em crimes contra a humanidade a absolvição sob a alegação de que estariam “cumprindo ordens”, ou seja, tanto os mandantes quanto os executores são abrangidos pelo braço da lei. É aqui que reside a grande dor-de-cabeça de BHObama, e é também aqui que se explica sua resistência em levar a investigação e julgamento tanto os chefes do governo quanto os seus cúmplices.
Até agora, o máximo a que o governo chegou foi liberar quatro memorandos do regime anterior em que se discutiram e liberaram práticas de tortura. BHObama já declarou com ênfase que não irá perseguir nem mandantes nem executores, o que poderia gerar rebelião entre os quadros da CIA, por exemplo, principal agência implicada na execução dos crimes. Para o presidente, a crise obriga olhar na direção do futuro, e a necessária “união” para enfrentá-la não comporta revisões, como a da tortura, que fatalmente criarão forças em oposição. A divulgação de milhares de fotos de tortura, requerida na Justiça pela União pelas Liberdades Civis na América com base na lei de liberdade de informação, vem sendo protelada pelo governo em nome de "ameaça às tropas em retaliação" e "implicações à segurança nacional". Além disso, a extensão e abertura da questão, se for profunda, poderá terminar por implicar pessoas da própria administração. ,
Pode até ser que, internamente, essa tentativa do governo de abafar e esquecer tenha algum sucesso, já que beneficia inclusive seus adversários do partido republicano. Mas os desdobramentos internacionais da questão escapam das mãos do governo. Vários países, como Espanha, França, Bélgica, Alemanha e Reino Unido, são signatários de convenções sobre crimes contra a humanidade e do Tribunal Penal Internacional, e, em decorrência, assumem o direito de prender e processar ou extraditar pessoas de qualquer país que cometam tais crimes.
O episódio da retenção de Pinochet por mais de um ano em Londres por ação do juiz espanhol Baltazar Garzón ainda está vivo na memória. É por essa mesma razão, por exemplo, que o ex-secretário de Defesa Donald Rumsfeld e muitos outros ex-altos funcionários do regime não mais viajam ao exterior. A Fundação para Crimes de Guerra de Blair já coletou expressiva documentação suficiente para iniciar procedimentos legais contra o ex-primeiro ministro. Corre uma ação em tribunais britânicos que envolve um cidadão torturado em Guantánamo, e o mesmo Garzón já iniciou procedimento investigatório a respeito das práticas de tortura do regime.
Envolvimento de BHObama
Mas a extensão da dor-de-cabeça de BHObama vai mais além. Como presidente e sucessor de um governo acusado de crimes de guerra, perante os olhos da comunidade internacional de juristas é seu dever investigar e levar a julgamento os mandantes e os executores dos crimes. Seria inadmissível que os julgadores de Nuremberg não aplicassem a si mesmos os critérios que os autorizaram a julgar e enforcar nazistas após a guerra. Oficiais japoneses foram julgados e fuzilados por crimes de guerra que incluíam, com grande peso, o uso da técnica de tortura de afogamento, aprovada pelo regime.
As leis internacionais sobre crimes de guerra e contra a humanidade não dão direito a BHObama de omitir-se, e sua omissão o tornará também responsável pelos crimes. Afora isso, as tergiversações de BHObama nessa questão têm incendiado ambos os lados do combate, tanto no país quanto no exterior, o que vem causando prejuízos acumulados à imagem de ‘democrata’ do presidente e do país. Como informa o analista brasileiro Pepe Escobar em www.asiatimes.com, o prof. Manfred Novak, principal investigador de tortura do Conselho de Direitos Humanos da ONU, é claro: “A decisão do presidente Barack Obama de não levar aos tribunais os agentes da CIA que usaram práticas de interrogatório questionáveis viola a lei internacional”. É um campo em que nada pesam sua simpatia e seu charme alimentados pela mídia complacente.
Nessa questão, talvez nem o Mestre Tranca Ruas das Sete Encruzilhadas dê outro jeito que não seja abrir obrigatoriamente as investigações. O precedente da falsificação dos resultados pela “comissão” que investigou os atentados de 2001 deveria oferecer a BHObama alguma indicação para a instalação da “sua” comissão de investigação sobre tortura, com participação do Congresso, o que facilitaria ainda mais sua manipulação. Somada a essa situação adversa ao presidente, corre por tribunais e meios jurídicos internacionais a intenção de levar a dupla Cheney-Bush ao banco dos réus pela guerra de agressão contra um país (Iraque), considerada desde Nuremberg o maior dos crimes de guerra, já que embute toda a gama de crimes menores capitulados nas leis.
ENCRUZILHADAS EXTERNAS
O Great Game
A expressão Great Game (Grande Jogo) aplica-se à luta secular pela conquista ou o controle da vasta região que liga a Europa à Ásia, a Heartland (aqui, Hinterlândia), o coração da chamada Eurásia, que envolve o miolo da mais vasta e rica extensão de terra do planeta, e que jaz nas mãos de governos orientais e da Rússia, os donos da terra, ameaçados pelos poderes marítimos. Ao menos esta encruzilhada dispensa alguma iniciativa de criação do governo BHObama: é secular para o Ocidente. Mas o controle da riqueza em energia da região da Ásia Central e vizinhas, como o Oriente Médio, é vital também para a permanência do cadente dólar como moeda de referência no mundo, e isso concerne ao governo BHObama.
Verdade que certas políticas, anteriores mesmo ao regime Cheney-Bush, continuam em prática; são bases permanentes da atuação do império no jogo. Entre elas situa-se a desestabilização de governos e países, com ênfase hoje nas anteriores repúblicas da órbita soviética, que privilegiam o fomento a agitações e manifestações ‘populares’ dirigidas e pagas que, se foram revertidas por exemplo no Uzbequistão, no Tibet, no Líbano e em Burma, chegaram a bom termo – para o Ocidente – na Ucrânia e na Georgia. Mais recentemente, houve uma tentativa similar após a vitória dos comunistas nas eleições em Moldova, que em nada resultou, mas que torna o país em outro foco permanente de provocações em fronteira estratégica da Rússia, já em seus domínios.
Mas as diferenças já estabelecidas entre políticas anteriores e a atual mostram que o país move-se hoje, não só nas bases tradicionais de seus permanentes interesses estratégicos e de predomínio mundial, mas também mediante jogadas ensaiadas em nome de concepções geopolíticas mais conseqüentes além da limitada visão dos desastrados genocidas neocons que empalmaram e inspiraram o regime. A marcante diferença entre o Great Game original e o do século XXI é a presença de novos atores como a China, e, em menor escala, Irã, Índia, Paquistão e Casaquistão. Mantém-se o objetivo de controle e mando sobre os vitais recursos e as fontes de energia da região, mas agora as movimentações imperiais ganham refinamento e complexidade.
Relações Rússia-EUA
Os governos de EUA e Rússia acham-se (achavam-se, ao menos) empenhados num amplo movimento de reaproximação, do qual o principal item é o restabelecimento de conversações sobre redução dos estoques de armas nucleares. A medida interessa aos EUA na medida em que o exemplo das duas grandes potências, e dos outros países detentores de armas nucleares que os seguirão, será um reforço válido aos esforços de contenção da proliferação nuclear. Embora sentada à mesa das conversações, a medida não interessa à Rússia, que no momento abriga poderosa e avançada indústria de armamento e inicia ambicioso programa de alguns anos de modernização de suas forças.
Mas, hoje, a Rússia talvez não disponha de condições para equiparar-se de imediato aos EUA em armamento convencional avançado e está defasada do grau de pesquisa e aperfeiçoamento euamericano em armas nucleares táticas, químicas, biológicas, bacteriológicas, psicológicas, eletromagnéticas, cyberespaciais, sonoras, climáticas e outras. Entre as outras destacam-se estranhezas como as instalações do HAARP no Alasca, que opera sob segredo militar, dedicadas entre outras coisas a pesquisas de concentração de feixes de energia na ionosfera e sua transferência para pontos isolados do planeta. Suspeita-se de sua ação em certas emergências e catástrofes “naturais”.
As relações entre Rússia e EUA azedaram de novo e de vez há cerca de duas semanas; muitas forças no governo BHObama e na Europa opõem-se ao mútuo entendimento. A denúncia e expulsão recente de dois embaixadores russos na Otan sob alegação de ‘espionagem’ comprometeram as previstas conversações Rússia-Otan no dia 19 de maio. A reação russa traduziu-se em termos nada diplomáticos: o fato é “provocação desqualificada” e “ação ultrajante”.
O mesmo efeito têm atualmente os exercícios da Otan (duração de 27 dias) na Georgia, sobre os quais o presidente Medvedev acusou o braço armado da aliança ocidental de querer rearmar a Georgia, cujo governo pró-ocidental causou a grave crise de agosto de 2008 ao destruir a capital da Ossétia do Sul e motivar uma resposta armada fulminante de cinco dias das forças armadas russas. Recentemente, em medida preventiva, a Rússia assinou acordos de cinco anos para cobertura militar com os recém-proclamados novos países da Ossétia do Sul e da Abkhasia, ex-territórios da Geórgia. O que dá direito à Rússia de parcela maior ainda do Mar Negro, vital para seu sistema de defesa e para sua colaboração com a Turquia.
Talvez a Rússia recue da sua oferta de livre trânsito por seu território às tropas e comboios de suprimentos e armamento da Otan e dos EUA destinados ao Afeganistão. O governo e a diplomacia russa conhecem bastante as opiniões e ações do conselheiro Brzezinski para precaver-se contra armadilhas em nome do restabelecimento de boas relações entre os países. BHObama não pode dispensar a colaboração russa em dezenas de assuntos de peso, mas também não consegue harmonizar seu balaio de gatos político e militar em torno de posições de consenso. Mais tarefa para o Mestre Tranca Ruas.
Atoleiro iraquiano, impasse iraniano
A posição dos EUA no Iraque acha-se enfraquecida. Embora o regime Cheney-Bush tenha celebrado uma relativa pacificação e redução de mortes como resultado do aumento de tropas, o “surge” bushiano, a verdade é que muitos grupos dissidentes só foram neutralizados com a recriação do movimento paramilitar sunita Sahwa (Despertar), surgido em 1919 para opor-se ao governo títere instalado pelos ingleses. Cem mil cidadãos ou insurgentes sunitas concordaram em reagrupar-se e colaborar com os invasores na manutenção da ordem e no combate a forças como a Al Qaeda (sempre suspeita de integrar essenciais ‘assets’ da CIA) em troca de salários e de maior presença e força nos seus territórios, vilas e cidades no país. Com a anunciada saída do país de parte das tropas euamericanas, o governo xiita sentiu-se ameaçado e passou a reprimir o Sahwa, prendendo, neutralizando e assassinando líderes.
A intenção do governo de integrar 20 mil sunitas do Sahwa aos quadros regulares de polícia e exército deixa um vácuo preocupante de 80 mil homens sem salários, armados e experientes em combate, e pouco simpáticos aos xiitas do governo. A gravíssima situação social e humanitária no país, com cerca de 1,3 milhão de mortos e ao redor de 5 milhões de exilados internos e externos, milhões de viúvas e muitos órfãos, a sobrevivência quase impossível, contaminação ambiental das águas e solos e cultivos, e também por radiação originada de queima do urânio empobrecido que reveste ogivas e cabeças de projéteis, tudo isso promete ser lenha em fogueira. Já se acha comprometido o cronograma do governo BHObama de retirada das tropas. A saída das tropas dos territórios urbanos, cidades e vilas, prevista para fins de julho, já foi negada pelos falcões que controlam o comando militar regional. Do mesmo modo, 50 mil tropas serão mantidas, quaisquer que sejam as opções, a título de “assessoria e treinamento”.
Outra encruzilhada na região é representada pelo Irã, ao qual os EUA acenam com “novo início de relações” (Brzezinski), mas continuam mantendo as sanções econômicas e financeiras e proclamando sua “opção militar sempre em cima da mesa” (Clinton). Dilacerado entre as forças favoráveis internas e externas, entre as quais avulta Israel nas mãos da extrema-direita, o governo BHObama mostra-se incapaz de avançar nas boas intenções de aproximação e se perde em avanços e recuos que apenas irritam mais ainda os aiatolás do Irã. A primeira escolha de BHObama ao início da formação de seu governo foi seu chefe de staff da Casa Branca, o judeu e sionista radical Rahm Emmanuel.
A nova frente de guerra
Ao ser atendido em sua orientação a assessores para um redesenho do papel dos EUA na guerra do Afeganistão, BHObama encalacrou-se com algo que pode significar o mais importante fator externo de definição do futuro do país. Os guerreiros frios que o cercam, quase todos militares remanescentes da era Cheney-Bush, e poucos anteriores com forte acento na era belicista de Bill Clinton, traçaram o esboço da reforma com base em dois pilares. O primeiro prevê aumento das tropas no Afeganistão e forte presença de milhares de agentes civis, para tentar superar a exclusiva presença militar.
É tentadora a comparação com as tentativas de ganhar “corações e mentes” durante a guerra do Vietnã. Com isso, tenta-se superar a improvisação de tropas levando bíblias na língua pashtun (etnia predominante no Taleban: 13 milhões no Paquistão e 28 milhões no Afeganistão) a povoados e distribuindo viagra a velhos líderes tribais com várias esposas. O outro pilar é a ampliação do teatro da guerra ao território do Paquistão. Em dialeto pentagonês, trata-se do cenário de guerra Af-Pak, a partir de agora um só amálgama.
O governo BHObama vai ampliar a guerra a outras regiões do Paquistão além das áreas tribais situadas dos dois lados da fronteira entre os dois países, que continua bombardeando com ‘drones’, aviões sem piloto que têm matado um número mínimo de combatentes e milhares de civis. Ataques aéreos há dias mataram de uma vez mais de 130 civis no Afeganistão, a maioria de mulheres e crianças como sempre, sendo treze da família de um voluntário do Crescente Vermelho, análogo oriental da Cruz Vermelha, que morreu também, na maior chacina desde a invasão em 2001, um recorde incômodo para o democrata BHObama.
Desta vez, as ‘autoridades invasoras’ não puderam negar os fatos nem instaurar ‘rigorosos inquéritos’: moradores sobreviventes levaram à capital da província de Farah dois reboques puxados por tratores repletos de corpos e pedaços de corpos, e 2 mil cidadãos marcharam até o palácio do governo gritando “Morte à América!”. (Mas o porta-voz do Pentágono achou espaço para declarar, sem qualquer constrangimento, que o Taleban havia eliminado pessoas para “reforçar” a acusação contra os invasores.)
Ao invés de levar democracia e desenvolvimento, como afirmam as mídias e a propaganda do governo, os EUA dotaram o Afeganistão e o norte do Paquistão de uma amostra do seu secular açougue em escala industrial. E tornaram-se ao mesmo tempo os melhores recrutadores de combatentes para o Taleban e outros grupos. Derrotado e enfraquecido na invasão de 2001 e apeado do poder, o Taleban hoje domina mais da metade do território.
Boa parcela do desejo da população de se ver livre dos invasores advém desses assassinatos indiscriminados de civis, e a expectativa é de que o aumento de tropas pretendido pelo governo BHObama só vá piorar a situação. Além de pedidos e rogos dos governos afegão e paquistanês para a interrupção dos bombardeios aéreos, analistas militares vêm alertando o governo de que as bombas estão tendo o efeito inverso ao pretendido. Entre essas vozes destaca-se a de David Kilcullen, especialista em contrainsurgência e arquiteto do aumento de tropas no Iraque. Segundo Kilcullen, desde 2006 os ataques com drones eliminaram 14 líderes da Al Qaeda e 700 civis (os números reais são superlativamente maiores, mas o reconhecimento por um agente oficial da proporção de 14 combatentes para 700 civis é suficiente confissão de crime de guerra).
A ampliação do teatro da guerra ao Paquistão poderá causar reações severas de grupos de combatentes islâmicos, de alas militares do governo e das muitas etnias que habitam o território. As crises humanitárias também são agravante: cerca de 500 mil pessoas fugiram há pouco do vale Swat, no Paquistão, na presença de combates entre o exército do país e o Taleban, que permanece na região; já há cerca de 1 milhão de refugiados.
Baluchistão
Um possível aliado dos EUA nessa investida poderia ser a etnia baluche, cerca de 35 milhões de pessoas, que ocupa metade do território do Paquistão (60% da etnia), e 10% do Afeganistão (25%) e do Irã (15%), o chamado Baluchistão, povo sem Estado. Outras etnias da região contam com minorias de baluches étnicos entre suas populações. Os baluches ressentem-se da pouca atenção que lhe dedica o governo central do Paquistão, que se apossa dos rendimentos das suas riquezas e pouco retribui à população. O Taleban também cresce entre os baluches. A criação do Estado do Baluchistão já era prevista no novo mapa da região que circulou em 2002 nos meios militares euamericanos e da Otan.
Os planos militares incluem a citada continuidade dos ataques às áreas de fronteira e operações e bombardeios na região de Quetta, capital do Baluchistão paquistanês. A grande quantidade de grupos armados entre a população baluche pode dar origem a variados desdobramentos pró e contra os invasores; as repercussões são imprevisíveis. Mas sabe-se que os baluches não serão alheios a acenos de independência, aspiração arcaica também de várias etnias da região, a exemplo dos pashtun, base do Taleban, num cenário de guerras permanentes.
Um pilar da estratégia dos marítimos, a extensão do arco de crises, ganha sua realização plena com a divisão do Paquistão, o que neutraliza estratégias da sua aliada China. Resta ver como reagirá a tudo isso a única organização realmente articulada do país, as suas forças armadas. Ou como reagirão setores como partes do Inter-Services Intelligence, o ISI, que participou desde a origem, ao lado da CIA e do MI6 britânico, da formação dos grupos de combate islâmicos que expulsaram os russos em 1989, e que ainda hoje mantêm relações com os insurgentes.
Um Baluchistão com Estado contribuirá também para desestabilizar o Irã. Um dos resultados poderá ser o desalojamento dos chineses da cidade portuária e dos grandes negócios de Gwadar, situada na região baluche, ao sul do Paquistão, no Oceano Índico. Gwadar é terminal de ambicioso superprojeto de integração de vias de transporte e pólos de exportação/importação, e capitais e empresas chineses dominam a cena e o porto. Os baluches encaram os chineses como aliados do governo central, e, em razão disso, muitos chineses têm sido assassinados.
Avisos e recados
Em longa entrevista a www.asiatimes.com, Owais Ahmad Ghani, colaborador leal do ex-presidente general Pervez Musharraf, governador da Província de Fronteira Norte-Oeste, território dos pashtun com forte presença do Taleban em armas, e também ex-governador bem-sucedido do Baluchistão paquistanês, deixou lições às quais BHObama deveria prestar atenção para evitar mais encruzilhadas. Ao analista Syed Saleem Shahzad, Ghani expôs que a simples presença dos invasores é razão para o Taleban proclamar uma guerra santa (jihad). Há duas batalhas: uma, no campo das idéias, e outra com armas, e a do campo das idéias é preponderante e superior à armada. Ghani discutiu a questão com lideranças dos EUA e esclareceu que o caminho escolhido para o Afeganistão levaria à derrota por privilegiar o campo das armas e abandonar o campo político; a questão na região é essencialmente política.
Ghani afirma que o erro está sendo repetido no Paquistão, há anos, e pergunta sobre os sete anos de guerra no Afeganistão: A segurança aumentou? Obteve-se estabilidade política? Houve desenvolvimento socioeconômico? A resposta geral é não. Outro fator apontado por Ghani é que durante séculos os poderes foram divididos entre os governos e os chefes de tribos e warlords, e agora surgiu, após a expulsão dos russos, um terceiro poder, os grupos armados de combatentes islâmicos, que se opõem à presença dos invasores e não atendem a controle, nem dos governos, nem de muitos chefes tribais. Além do novo poder, renova-se a presença de um fator antigo e altamente complicante: o narcotráfico.
Drogas e poder
Na visão de Ghani, enviado pelo governo Musharraf em 2004 aos EUA para transmitir mensagens ao governo, o Afeganistão é hoje um narcoEstado. Antes de 2001, o Taleban no poder havia conseguido reduzir a quase zero a produção da papoula, matéria-prima de ópio e heroína. Com a presença dos invasores, a produção voltou e já superou recordes anteriores, e o Afeganistão fornece hoje mais de 90% dessas drogas ao mundo, num negócio que movimenta estimados 40 bilhões de dólares ao ano, dos quais um décimo fica no país. Drogas compõem hoje mais da metade do PIB afegão. Num ambiente assim, é natural que bandidos se misturem a warlords e combatentes, e as separação entre categorias e grupos vai-se fazendo difícil.
Como pano de fundo, um governo fraco, corrupto e ineficaz, incapaz de prover segurança sequer ao seu presidente, e baseado em forças da Aliança do Norte, adversária do Taleban e dona do governo e de parte do tráfico. Como informa o repórter Patrick Cockburn, em www.informationclearinghouse.info, repetindo palavras do general Aminullah Amarkhail, um cargo de chefe da polícia em províncias de fronteira chega a custar cerca de 150 mil dólares, uma pechincha perante o quanto o chefe poderá ganhar com tráfico e contrabando, por exemplo. Amarkhail foi comandante das forças de segurança do aeroporto de Kabul e prendeu mais de cem traficantes de heroína. Ao prender um dia uma rica senhora e apreender sua heroína que seria levada a Dubai, foi ameaçado por ela, e duas horas depois foi destituído do cargo por ordem direta do ministro do Interior. É nessa realidade que BHObama pretende aumentar as suas tropas.
Alianças com warlords afegãos costumam explicar parte desse crescimento, além de a CIA tradicionalmente obter dinheiro extra para suas ‘covert operations’ do tráfico de drogas em todo o mundo, a exemplo do Kosovo, outro narcoEstado implantado pelas armas ocidentais e desde a origem nas mãos de traficantes. Combatentes também são acusados de obter fundos para seus suprimentos com as drogas. Notícias recentes dão conta da tentativa de trazer para o governo Karzai as forças de Gulbuddin Hekmatiar, hoje aliado ao Taleban e um dos mais poderosos warlords do país. Enfraquece-se o Taleban, mas o governo ganha um aliado que nada deve em crimes, perversidade e ilegalidades nem mesmo aos radicais do Taleban.
O curioso é que Hekmatiar está na lista de terroristas procurados pelos EUA, ou seja, pode ser ‘inimigo’ para o governo BHObama e ‘amigo’ para as tropas invasoras do governo BHObama. O fato deixa a nu as encruzilhadas do governo numa guerra sem sentido, que só adquire significado com as teorias de falcões como Brzezinski. Nesse momento, o combate ao narcotráfico e a busca de uma situação de paz e diálogo não interessa às forças em choque no país e a parcelas dos vizinhos. E as forças do Taleban ligadas aos pashtuns do Paquistão, além das afegãs, também são alimentadas por dinheiro e recursos vindos do Afeganistão: dispõem de salários, armas convencionais, munição farta, veículos leves, comunicação por satélite, etc., embora haja fontes mais fortes de recursos, árabes do petróleo e outros interesses difusos.
Velhas mentiras
Vozes como a de Ghani ressaltam aspectos dos quais a imprensa euamericana pouco fala, como a ausência de ameaça real ao Paquistão a partir das forças combatentes, ao contrário da pregação da secretária de Estado Hillary Clinton, que trombeteia que “o Taleban coloca uma ameaça existencial à sobrevivência do Paquistão”. A soma dos habitantes das províncias de Punjab e Sind atinge 85% da população, e o Taleban não tem a menor expressão ali. A manifestação da secretária lembra as “armas de destruição em massa” e as “alianças com a Al Qaeda” de Saddam Hussein na visão falsificada do regime Cheney-Bush e de seus ecos como Tony Blair.
Ao contrário, o Paquistão tem 170 milhões de habitantes e o sexto exército do planeta, com 550 mil tropas, armas modernas e artefatos nucleares, equipamentos de última geração, treinamento etc., capaz de sustentar guerras contra a Índia. O Taleban agrupa um máximo de 15 mil combatentes. Mas os imperativos geopolíticos contra russos e chineses dos falcões como Brzezinski e seus mandantes da Trilateral implicam transformar o Paquistão, com apoio da mídia ecoante, em um país à mercê de um inimigo terrível e invadi-lo com tropas dos EUA e da Otan. O inimigo terrível não tem tropas em quantidade mínima, força aérea, tanques e veículos blindados, mísseis, navios de guerra. Curiosamente, não se fala mais da também temível Al Qaeda, com seus estimados 400 combatentes, temporariamente evaporada.
Ursos siberianos e pandas
A China é a única economia forte que hoje pode flutuar no mar da crise econômico-financeira com suas reservas de 2 trilhões de dólares e a terceira posição entre as primeiras economias. A Rússia enfrenta grave repercussão da crise mundial e vem perdendo reservas e receitas em razão da queda internacional dos preços do petróleo/gás, mas permanece como potência energética, ao contrário dos EUA, dependentes de importações. O Casaquistão tem posição geográfica central na Eurásia, território imenso de 2,7 milhões de km2, riquezas em energia e minerais como urânio, e passa também pela crise da época, o que o torna alvo preferencial de esforços de alianças e negócios por vários países e corporações empresariais. O Turcmenistão, país neutro em que se acaba de descobrir novas gigantescas jazidas de gás, é um dos cinco países banhados pelo Mar Cáspio (com Rússia, Azerbaijão, Casaquistão e Irã), região rica em petróleo e gás e potencial fornecedora à Europa.
O analista e ex-diplomata indiano M. K. Bhadrakumar, em www.asiatimes.com, afirma que a China, como a primeira grande economia a recobrar-se da crise, tem papel crucial na liderança da economia mundial e na da Ásia Central em particular. Além dos já destinados 25 bilhões de dólares à Rússia, em troca de fornecimento de petróleo e gás por 20 anos e da construção de gasoduto de mais de 1 mil km até complexo petroquímico próximo à sua fronteira norte chinesa, irá repassar 10 bilhões de dólares ao Casaquistão, também em troca de futuros fornecimentos de energia. Para Bhadrakumar, “Podemos estar vendo sinais de uma alteração sísmica na geopolítica da Ásia Central. A região enfrenta uma situação econômica séria, e instintivamente olha para a China como auxílio para uma saída. Isso dá à China grande oportunidade para colocar a região sob suas asas. As implicações são fundas para os concorrentes à energia do Cáspio”.
É forte e sintomática a aproximação entre Rússia e China, inclusive no plano militar. Assim como um dos pontos da estratégia de Brzezinski é investir contra a Organização de Cooperação de Shangai (SCO: Rússia, China, Casaquistão, Uzbequistão, Quirguistão e Tadjiquistão), a tendência dos seus membros é fortalecê-la e reforçar o papel da CSTO, acordo militar de defesa mútua que engloba Rússia, Belarus, Armênia e os outros membros da SCO menos a China. A próxima reunião da CSTO em julho irá votar a proposta da criação de força de reação rápida de 60 mil tropas, que se equipara à sua similar da Otan e será sediada na Rússia. A proposta já foi aprovada em encontro prévio recente, e agora irá a endosso coletivo. A Rússia planeja aumentar o número de tropas e aviões na sua base do Quirguistão. Uma ampla movimentação diplomática e militar acha-se em curso, e o Quirguistão, que tem fronteira coma a China, é peça pequena mas valiosa do Grande Jogo.
A aproximação militar entre as poderosas Rússia e China também se encontra em pauta. Em recente visita a Moscou, os ministros da Defesa dos países da CSTO ouviram do presidente Medvedev: “Sobretudo, a região na qual a SCO opera é complexa, e nós temos de levar em conta a realidade que nos circunda, e a necessidade para nossos países de coordenar esforços conjuntos numa ampla gama de assuntos, inclusive segurança e capacidade de defesa de nossos países em bases coletivas”. Pouco antes, Medvedev havia recebido em audiência os ministros chineses do Exterior, Yang Jiechi, e da Defesa, Liang Guanglie. Rússia e China devem realizar neste ano previstas 25 operações conjuntas de suas forças armadas.
Ao longo da história, as forças terrestres na Hinterlândia têm sido superiores às ocidentais, que levam vantagem no campo marítimo, como ocorre hoje com Estados Unidos. A extensão da guerra ao Paquistão encontra a região articulada e coesa, apesar das intermináveis oscilações de Azerbaijão e Uzbequistão. Uma diferença entre os donos dos territórios da Hinterlândia e os marítimos reside na causa da paz e da colaboração. Os países e povos da Hinterlândia têm sólidas razões para união em empreendimentos e atividades complementares em economia, acordos de trocas e escambos vantajosos para todos, e os poderes marítimos por enquanto têm a oferecer negócios com suas corporações, mas num ambiente de guerra. A diferença é que a Otan é ou força externa ou invasora, e os povos da Hinterlândia vivem e lutam em seu solo.
Nabucco e Corrente Sul
Uma das faces da campanha contra a Rússia foca a questão-chave da energia e da sua distribuição. Boa parte da Europa acha-se empenhada em reduzir sua dependência, principalmente de gás, das fontes russas. As jazidas de gás/petróleo do mar Cáspio ainda não tiveram iniciada sua exploração completa, mas países vizinhos produtores vêm sendo assediados para tornarem-se fornecedores além da Rússia, Mas, mesmo com sua concordância eventual, já que em momentos de crise todos ficam mais abertos a propostas financeiras vantajosas, resta o impasse da ausência de oleodutos e gasodutos para a distribuição. A Rússia comanda a maior parte da rede de distribuição da região, e lançou-se na sua ampliação com duas propostas estratégicas, Corrente Norte e Corrente Sul.
O oleogasoduto Corrente Norte levará energia da Rússia por sob o mar Báltico diretamente para a Alemanha e países vizinhos, sem necessidade de passagem pela rede que cruza a Ucrânia, que hoje é aliada do Ocidente e vem dificultando artificialmente a solução de impasses e criando alguns novos. A Ucrânia, ex-membro da URSS, detém a segunda rede de distribuição do mundo. O Corrente Sul ligará Rússia e Itália passando por Bulgária, conforme a concepção original. Mas exigências búlgaras de posse do trecho em seu território adiaram os entendimentos, dado que a Gazprom, monopólio russo da energia, não abre mão do seu controle. A Rússia cogita substituir a Bulgária pela Romênia, por exemplo. O Corrente Sul chega ao continente europeu diretamente, passando sob o mar Negro. Ambos os gasodutos partem da Rússia e sujeitam-se ao seu controle.
O oleogasoduto Nabucco (homenagem à opera de Verdi), alternativa estimulada pelos EUA que o governo BHObama encampa, sai da região do Cáspio e passa pela Turquia, e de lá por vários países chega à Áustria, ponto de estocagem e distribuição a países europeus. O não passa pelo território russo nem dependeria em tese do seu fornecimento. Ambos os novos gasodutos russos acham-se em estado adiantado de construção, sendo o projeto Corrente Norte dirigido pelo ex-premiê alemão Gerhard Schröeder, mas o Nabucco patina numa situação de indefinição. A questão pendente são as garantias de fornecimento pelos países produtores, que decorre da incerteza que a política imperial estabelece, e das incertezas e impasses que se criam nos países produtores pequenos e mais pobres.
Os EUA e a União Européia empreendem atualmente ampla ofensiva junto a esses países para fechar contratos futuros que abasteçam o Nabucco, de 3.300 km de extensão, previsto (se começar agora) para inauguração em 2014. Junto a esses esforços, a Otan tenta celebrar acordos de cooperação militar, fazendo vista grossa (sob pressão dos EUA) às ofertas de ajuda da SCO ou da CSTO. O gás e o petróleo do Irã são itens importantes da nova agenda de BHObama para o país. Mas Rússia e China também estão ativas, e os EUA perderam preciosos tempo e terreno com as maquinações mal planejadas e contraproducentes do regime Cheney-Bush. Um exemplo foi a provocação contra a Rússia, estimulada pelos EUA e Israel, que levou a Georgia à sua aventura malsucedida em agosto do ano passado e mostrou a fragilidade do país para sediar a passagem do oleogasoduto importante que liga Baku (capital do Azerbaijão) a Tbilisi (capital da Geórgia) e chega a Ceyhan, na Turquia. A posição geográfica de Azerbaijão, Georgia e Turquia é relevante para os projetos de transporte de energia na região do Cáspio.
Há menos de um ano, a Cúpula do Cáspio, que reuniu os cinco países produtores, estabeleceu ciclos de conversações para a destinação da produção, ouvidos todos os membros do grupo, o que inclui a Rússia. A encruzilhada do governo BHObama é difícil, e tende a ser drástica se acordos russos de compra de energia para seus oleodutos e gasodutos com países produtores forem respeitados e as negociações de volumes e preços se completarem. Os países produzem mas ressentem-se da falta de condições para o transporte, o que os torna aliados naturais e fornecedores da vizinha Rússia, mas planejam diversificar suas potencialidades e capacidades, para não depender da infra-estrutura russa indefinidamente.
Realinhamentos
Realinhamento é um termo ameno para o jogo que se processa hoje, na verdade uma recomposição estratégica global de forças. Dois trunfos contra a China foram perdidos pelo Ocidente: o Japão, que vem estreitando laços com a China e para o qual uma situação de crise chinesa não seria bem-vinda, e Taiwan, em que a retórica antichinesa vem cedendo lugar a colaboração depois que os radicais perderam as eleições. O Paquistão dividido privará a China de um aliado de peso e deixará o terreno livre para a Índia, que vem acenando com simpatias para com os ocidentais. O historiador Webster Tarpley afirma que o cerco que vem sendo empreendido à África, inclusive com a criação do comando africano das forças armadas euamericanas, visa retirar o petróleo e matérias-primas africanos da órbita da China e jogá-la contra a Rússia, em luta pelo petróleo da Sibéria. Para Tarpley, a questão Sudão, Darfur etc. não tem nada de humanitária: o Sudão fornece 7% do petróleo da China.
O grande oceano das variáveis desconhecidas e dos acontecimentos imprevistos é mais vasto, no entanto, que as frágeis coordenadas do mundo contemporâneo. É voz corrente entre analistas que a política de Brzezinski et caterva de neutralização de Rússia e China deixa margem à ocorrência de cenários de guerra nuclear. Numa situação global de crise como a atual, qualquer pequena chama caminha para grandes incêndios. A encruzilhada-mãe do governo BHObama é a mesma do país – o abandono das políticas de guerra e o reerguimento socioeconômico em ambiente de paz. Talvez nem mesmo o Mestre Tranca Ruas das Sete Encruzilhadas dê conta da tarefa.
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*Luiz A ntonio Gurgel* gurgel9!gmail.com Inserido em: 2009-05-19 01:43:30
Parabéns, Chico Villela.
Gostaria de acrescentar às suas idéias, o conteúdo de
http://governo-washington.blogspot.com e www.gulliver1001.bravehost.com
Com certeza poderão ampliar ainda mais sua perspicácia.
Abraço.
Luiz Gurgel (Sorocaba/SP)
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