A despedida e a despedida de Aécio Neves
José de Souza Castro
Em seu segundo ano de governo, em 1992, Hélio Garcia conseguiu reunir em Ouro Preto, no dia 21 de abril, dez governadores e o ministro da Economia, Marcílio Marques Moreira. No ano anterior, o governador não havia distribuído medalhas da Inconfidência, mas, desta vez, já de olho na presidência da República, foram agraciadas 243 pessoas, das quais 76 não se deram ao trabalho de comparecer à solenidade, para receber aquela que seria a mais importante comenda mineira, criada em 1952 pelo então governador Juscelino Kubitschek.
No último dia 21, o governador Aécio Neves, que fez um discurso de despedida, pois daí a um ano já teria deixado o governo para ser candidato a alguma outra coisa – ele não disse a quê; eu também não digo, pois, como ele, não sei para que Aécio serve realmente ao país. Para abrilhantar a festa, seriam agraciadas 236 pessoas. Alguém sabe quantas foram a Ouro Preto para receber a medalha das mãos de nosso governador?
Está aí uma outra coisa que ignoro. Ao contrário de 1992, eu não estava em Ouro Preto para fazer a contagem e nenhum outro repórter se deu a esse trabalho. Se tivesse ido lá, coisa da qual nem cogitei, provavelmente eu seria uma daquelas centenas de pessoas barradas pelos cordões da Polícia Militar e teria que ver de longe, sem chances de fazer uma contagem minimamente confiável. Porém, suspeito que vai ser uma trabalheira, para os encarregados de entregar os penduricalhos, encontrar nos próximos anos os agraciados faltosos.
Quando governadores mineiros, um após outro, saem por aí distribuindo medalhas da Inconfidência por motivos nada relacionados com os ideais de Tiradentes, eles esperavam o quê? O que imaginava Aécio Neves ao pendurar uma medalha no peito dos estilistas Ronaldo Fraga, Renato Loureiro e Terezinha Santos, do padeiro francês Olivier Anquier, da viúva de Roberto Marinho, a socialite carioca Lily Marinho?
Nenhuma surpresa, portanto, que a comenda imaginada por JK não valha hoje o metal com que é confeccionada. Alguns, porém, podem se surpreender com a falta de prestígio do próprio governador.
Os repórteres que foram cobrir o evento tiveram dificuldade para achar alguém que, ao ser entrevistado, pudesse fazer a diferença. Os ministros Juca Ferreira (Cultura) e José Pimentel (Previdência Social)? O embaixador dos Estados Unidos, Cliffod Sobel? Ou o da França, Antoine Pouillieute? As cantoras Bibi Ferreira e Fafá de Belém? O máximo que se podia dizer é que eles estiveram presentes e receberam medalhas.
E não era só a fracassada Inconfidência Mineira que era lembrada neste dia em Ouro Preto. Também há 220 anos, realizava-se na França uma vitoriosa revolução, e a antiga capital mineira foi escolhida para o lançamento, no mesmo evento, do Ano da França no Brasil. Era esperada a ministra da Cultura da França, Christine Albanel, mas ela deu o bolo, bem como o ex-presidente Valéry Giscard d'Estaing.
Cordão de isolamento
Com tantas ausências, imagino que Aécio Neves, em algum momento, pensou em repreender seus auxiliares que mandaram a PM manter distantes da Praça Tiradentes os manifestantes contra seu governo. Pelo menos haveria gente na praça, a lembrar tempos mais gloriosos da solenidade, na ditadura militar, quando opositores buscavam o clima de liberdade de Ouro Preto para se manifestar.
O tema da solenidade, neste ano, era “Liberdade, ainda que tardia”. No ano passado foi criado em Belo Horizonte o Fórum Sindical Social que havia programado um ato público contra o governo estadual, no dia 21 de abril. Inspirados pelo tema “Com Aécio, Minas não respira liberdade”, sindicalistas e representantes de entidades sociais embarcaram num comboio de 21 ônibus rumo à antiga capital.
No trajeto de 95 quilômetros até Ouro Preto, os passageiros puderam antever o que enfrentariam no fim da viagem. Um deles, o deputado estadual Carlin Moura (PCdoB), disse ao blog Os Amigos do Presidente Lula: "Foi o maior cordão de isolamento da história. Todos os movimento sociais e até os moradores foram impedidos de participar da festa. Foram três barreiras, com várias vistorias, tudo para não chegarmos a tempo".
A manifestação teve que ser realizada após a solenidade, a cerca de 300 metros da Praça Tiradentes. Um dos sindicalistas, Tiago Santana Cassiano, do Sintel-MG, lamentou a ação repressora da PM: "Liberdade, igualdade e fraternidade ficou só no discurso".
Cordão dos puxa-sacos
No entanto, outros puderam se manifestar livremente. Repórteres observaram na Praça Tiradentes dezenas de militantes do PSDB com uma fita azul no pulso (o salvo-conduto para passar pelo cordão policial) e portando bandeiras e faixas de apoio ao governador. Leu Paulo Peixoto, da Agência Folha, numa das faixas: "Surge o clamor - Aécio presidente". E uma faixa da Força Sindical não deixava por menos: "Deu certo em Minas, vai dar certo para o Brasil - Aécio presidente".
Eduardo Kattah, da Agência Estado, diz que foi permitida a passagem de uma claque do PMDB Jovem, com camisetas de Hélio Costa, pré-candidato a governador. Segundo o repórter, “o resultado foi uma pequena plateia na praça, composta pela estrutura do evento e cercada por um forte aparato policial”.
Sob qualquer ângulo que se examine o evento, foi um fracasso, embora os organizadores tivessem se esforçado, ao contratar o ator Marcello Antony para declamar trechos do poema Romanceiro da Inconfidência, de Cecília Meireles, e o grupo Ponto de Partida e o cantor Milton Nascimento para encerrarem a solenidade com canções inspiradas no tema liberdade.
Candidato a quê?
Aécio Neves não contribuiu para livrar o evento da pasmaceira, ao fazer um discurso cheio de platitudes, como:
- Ao presidir, pela última vez, esta celebração em que reverenciamos os valores herdados dos nossos antepassados, o faço com a mesma emoção e o mesmo sentimento com que compartilhei, pela primeira vez, com os mineiros, a liturgia desta cerimônia.
- Procurei, a cada segundo dos últimos anos, honrar a nossa bandeira, a bandeira sob a qual nos reunimos aqui hoje.
- É hora de reunirmos a nação inteira para a tarefa de promover as mudanças corajosas que a realidade exige. Essa tarefa ainda se encontra inconclusa.
O prefeito de Ouro Preto, jornalista Ângelo Oswaldo (PMDB), discursou antecipando-se à campanha eleitoral, lançando o governador como candidato a presidente da República e dizendo que os "ventos da mineiridade são favoráveis" a Aécio em 2010, ano em que serão comemorados o centenário de nascimento de Tancredo Neves, os 50 anos da inauguração de Brasília por Juscelino Kubitschek e os 25 anos da redemocratização, "liderada por Tancredo".
Ah, bom...
Antes de concluir, lembro um artigo intitulado “Aécio celebra Tiradentes como se fosse D. Maria, a Louca”, publicado pelo blog Os Amigos do Presidente Lula, que termina assim: “Pelo pouco comparecimento de governadores e lideranças de peso de outros estados e partidos, tudo indica que Serra está se consolidando como presidenciável tucano, e sobrará para Aécio a candidatura ao senado”.
Na verdade, esse 21 de abril talvez seja para Aécio tão amargo como aquele 21 de abril em que morreu o avô sem ter sido empossado presidente da República, cargo para o qual fora eleito indiretamente. Talvez tivesse sido melhor se o governador tivesse feito como em 21 de abril de 2006, quando trocou Tiradentes por JK, indo comemorar a data em Diamantina, para reverenciar a memória da mais conhecida personalidade local, o presidente Juscelino Kubitscheck (1902-1976).
Esse nome, pelo menos, medalhas à parte, traz bons presságios.
04.2009
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*Gabriel Sousa Marques de Azevedo* gabriel.cheval@gmail.com Inserido em: 2009-05-05 13:44:29
Parece que estou tomando gosto em responder aos artigos do jornalista José de Castro...
Embora esteja, até hoje, aguardando a resposta à minha tréplica sobre o artigo anterior publicado por ele, não posso deixar de comentar o seu novo artigo sobre o 21 de abril, em Ouro Preto.
Diferentemente dele, que informa não ter estado lá e estar usando como fontes blogs do PT e do PCdoB, informo que estive lá e já manifestei meu ponto de vista sobre o evento nos posts que fiz no Ninho Tucano: http://ninhotucano.wordpress.com/2009/04/22/eterna-inconfidencia/
Há algum tempo atrás, escrevi um artigo apontando erros de informação em texto publicado anteriormente pelo José de Castro sobre o Ministério Público. Ele teve a gentileza de me responder, reconhecendo que havia cometido alguns equívocos e registrando o fato de eu pertencer ao PSDB.
Imagino que o fato de pertencer à Juventude do PSDB faz com que José de Castro coloque sob suspeição a minha opinião e as informações que eu possa ter para partilhar, embora eu confesse que não entendo porque a minha opinião, por eu ser do PSDB, possa ser vista como parcial e as dos militantes do PT e do PCdoB possam ser consideradas “isentas”, verdadeiras, não exageradas...
Digamos, em respeito à pluralidade, que as opiniões, tão díspares, possam ser consideradas complementares.
Mas voltando ao evento do 21 de abril, vou dividir com vocês a brincadeira que ouvi de um amigo que cursa jornalismo comigo, dias antes do evento. Comentávamos sobre a repercussão de alguns temas na internet e ele “cantou” como seria a cobertura do dia 21 de abril nos blogs da oposição.
- Se as manifestações da oposição acontecessem, como acontecem todos os anos na praça, as matérias seriam “Aécio é vaiado no seu último 21 de abril”. Como esse ano, as entidades de oposição decidiram convocar uma manifestação para um evento paralelo em outro local, próximo à Praça Tiradentes, aonde ocorria o evento oficial (no link HTTP://www.diap.org.br/index.php/agencia-diap/8701-forum-sindical-prepara-primeiro-ato-contra-aecio-em-ouro-preto), a notícia vai ser “Aécio barra manifestantes”.
- Se Aécio fugir da rotina das solenidades anteriores em que nunca foi convidada nenhuma autoridade de fora do Estado que não estivesse sendo condecorada e convidar personalidades políticas de destaque nacional para participar da festa, a manchete vai ser: “Aécio usa cerimônia pública para projeção pessoal”.
- Se fizer o que é feito todo ano e restringir os convites às personalidades condecoradas vão dizer: “Festa de Aécio é esvaziada”.
Ou seja, se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. Nesse caso, não ia ter jeito. Aécio apanha em qualquer hipótese.
Há sete anos Aécio preside as mesmas cerimônias em Ouro Preto. Por que ninguém nunca reclamou das cerimônias serem esvaziadas? Porque ninguém nunca reclamou da segurança?
Será 2010 que faz as coisas serem vistas de forma tão diferente?
Houve segurança em Ouro Preto? Claro que houve.
Houve revista em ônibus? Todo ano tem.
A presença diplomática na cidade durante dois dias exigiu um esquema de segurança mais atento? Claro que sim...
O que ninguém conta é que a segurança foi igual a que foi feita no ano em que Lula foi a Ouro Preto. Por que ninguém fala dos protestos dos moradores naquele ano contra o rigor da segurança do Presidente?
E em 2004, quando a Presidência da República organizou um evento de caráter diplomático em Ouro Preto? Pro que ninguém fala do Exército e da Aeronáutica ocupando a cidade para garantir a segurança do Lula e das delegações estrangeiras? E os manifestantes barrados? Veja o que diz o site Mídia Independente: HTTP://brasil.indymedia.org/media/2004/12/298691.mp3
Reclamam que o PSDB fez o que fazemos todos os anos: organizamos um grupo para irmos a Ouro Preto. Somos, todos os anos, apenas uma grupo que marca presença na praça como diversos outros manifestantes.
Nunca vi ninguém reclamar dos eventos em que o Presidente Lula vai e onde só é autorizada a entrada de grupos com botons de identificação fornecidos pelo PT. Em Montes Claros, no evento da SUDENE, só teve acesso quem recebeu, de madrugada, os botons distribuídos pelo PT. Ou alguém acha que as manifestações nos eventos em que o Presidente Lula está são espontâneas?
Será que o jornalista José de Castro viu essas observações nos sites e blogs que considera como fontes isentas para formar suas opiniões?
Reconheço no José de Castro um homem inteligente e respeito seu interesse por Minas e suas opiniões, por mais diferentes que sejam das minhas. Por isso registro a minha surpresa com a deselegância pessoal do seu texto quando, para atingir não no plano político, mas pessoal, o governador Aécio, ele diz que o governador deveria ter transferido a cerimônia de 21 de abril para Diamantina, terra de JK, já que falar de Tancredo, nessa data, dá azar.
E disse mais, disse que esse 21 de abril talvez seja para Aécio tão amargo quanto aquele 21 de abril em que morreu o seu avô.
Sem comentários.
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