Em cartaz, o movimento sindical e popular
2009-04-11 21:17:22

Por Antonio José Marques

Movimentos sindicais, populares e políticos sempre tiveram o cartaz como instrumento básico de comunicação com a população. Ficaram na memória de antigos militantes inúmeras imagens que povoaram esse universo. No início da década de 1970, era comum ver crianças colecionarem álbuns de figurinhas que prometiam brindes-surpresa para quem achasse a figurinha premiada. Muitas vezes, em vez de um esperado jogo de dominó, o prêmio era um cartaz grande e colorido do general Emílio Garrastazu Médici, presidente do país. Eram tempos de "Brasil: ame-o ou deixe-o", da ditadura militar e do culto às personalidades do regime. Muitos daqueles colecionadores mirins só ficaram sabendo anos depois quem foi Médici. Na mesma época, nas grandes cidades espalhavam-se cartazes produzidos por órgãos policiais onde se lia "terroristas assassinos procurados" com fotos de militantes que combatiam o regime instalado. Cartazes enormes, de cor amarela, com fotos em preto-e-branco, incentivando a delação de inimigos da ditadura.

Com a entrada em cena do movimento sindical no fim da mesma década, outros cartazes passaram a ser produzidos. Reproduziam imagens do movimento operário do início do século XX, principalmente de anarquistas e relacionadas à Revolução Russa, além de convocações para assembléias e manifestações, como as comemorações do 1º de maio. Reivindicações de categorias também passaram a ser estampadas em cartazes, acompanhadas de ilustrações e personagens que circulavam na imprensa sindical, como João Ferrador, desenhado pelos cartunistas Laerte, Vargas e Cleiton para os metalúrgicos de São Bernardo do Campo, e a Graúna, personagem criada por Henfil, com sua frase emblemática "Tô vendo uma esperança!". Em 1979, o artista gráfico Elifas Andreato criou o cartaz "Precisa-se" para a arrecadar fundos aos comitês de trabalhadores desempregados. Milhares foram vendidos em todo Brasil. Anos depois, em 1985, outra ilustração foi usada nos cartazes da campanha pela redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais. "Para viver melhor" era a frase que acompanhava a ilustração do artista Paulo Monteiro no cartaz que percorreu todo o Brasil divulgando a reivindicação do movimento sindical.

Instrumentos de denúncia

Enquanto o Brasil urbano utilizava os cartazes como instrumentos de divulgação de suas reivindicações e mobilizações, o Brasil rural usava-os como instrumentos de denúncia. Na década de 1980, centenas de trabalhadores rurais foram assassinados em todo o Brasil na luta pela terra. Os cartazes, em vez de trazerem as fotografias dos assassinos procurados, traziam as fotografias dos sindicalistas mortos, como se os vivos invocassem proteção por meio das denúncias. Poucos assassinos foram julgados e condenados. Um dos primeiros sindicalistas mortos por pistoleiros foi Wilson Pinheiro, assassinado com tiros nas costas em 21 de julho de 1980 na sede do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasiléia, no Acre, enquanto assistia à televisão. O sindicato fez cartaz denunciando seu assassinato e o Partido dos Trabalhadores prestou-lhe uma homenagem dando o seu nome à fundação de estudos e pesquisas do partido. Poucos anos depois, em 12 de agosto de 1983, foi assassinada em Alagoa Grande, na Paraíba, Margarida Maria Alves, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais. É atribuída a Margarida a frase "é melhor morrer na luta que morrer de fome", e ela lutou muito pelos direitos de trabalhadores e trabalhadoras do campo, como registro em carteira, férias, 13o salário e jornada de oito horas. Centenas de ações tramitaram na Justiça do Trabalho da Paraíba contra usineiros, despertando o ódio de muitos e provocando seu assassinato com um tiro no rosto em frente à sua casa. Os pistoleiros sumiram, e o provável mandante, depois de sucessivos adiamentos, foi julgado apenas em 2002, sendo absolvido. Até hoje, a fotografia de Margarida é reproduzida em cartazes relacionados à luta dos trabalhadores do campo e das mulheres.

Outros trabalhadores rurais, sindicalistas e militantes ligados à luta pela terra foram assassinados e suas mortes denunciadas em cartazes: Nativo da Natividade, em Goiás; Sebastião Lan, no Rio de Janeiro; padre Josimo e Paulo Fonteles, no Pará; Roseli Salete, no RioGrande do Sul. No meio de tantos assassinatos, o de maior repercussão foi o do seringueiro e ambientalista Chico Mendes, morto em 22 de dezembro de 1988, em Xapuri, no Acre. Chico Mendes era presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri e membro do Conselho Nacional dos Seringueiros. Sua luta em defesa dos seringueiros e da Amazônia teve repercussão nacional e internacional, e ele recebeu inúmeros prêmios como uma das pessoas que mais se destacavam na defesa da ecologia. Entre as principais propostas de Chico Mendes estava a criação da União dos Povos da Floresta, que unia interesses dos índios, seringueiros e trabalhadores rurais para a preservação da floresta, criação de reservas extrativistas, reforma agrária e desenvolvimento sustentável.

Imagens do Brasil e do mundo

Os cartazes usados como instrumentos de denúncia, como no massacre de Corumbiara, em Rondônia, no ano de 1995, quando dezenas de trabalhadores foram mortos, feridos ou desapareceram, também mostram movimentos que apontam a esperança. É caso do Grito da Terra Brasil, movimento iniciado em 1994, reunindo dezenas de entidades vinculadas à questão do campo. O Grito, além de realizar manifestações de caráter reivindicativo em todo o Brasil ainda hoje, também quer despertar a simpatia da sociedade. A versão urbana do Grito da Terra Brasil é o Grito dos Excluídos, que acontece todo mês de setembro e que luta contra os efeitos econômicos da globalização, o pagamento da dívida externa, a falta de investimentos nas áreas sociais, o desemprego, a fome, a corrupção e a impunidade.

Em 1999, o Grito dos Excluídos foi estendido para a América Latina e o Caribe, com manifestações em todo o continente. Se, na década de 1980, a solidariedade internacional era expressa por meio de cartazes com repúdios à ditadura chilena e aos assassinatos de sindicalistas na Colômbia e com apoios à Frente Farabundo Marti, em El Salvador, e à Revolução Sandinista, na Nicarágua, agora os cartazes expressam o repúdio à Área de Livre Comércio das Américas (Alca) e à globalização. Mas essa mesma globalização ampliou a solidariedade internacional. Cartazes divulgando a luta pela independência de Timor Leste, campanhas de solidariedade ao povo palestino e contra a guerra no Iraque passaram a circular no meio sindical.

 

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Expressões de movimentos

Além dessa solidariedade internacional com perspectivas ampliadas, lutas e campanhas anteriormente consideradas específicas assumiram um caráter geral, como, por exemplo, o movimento de mulheres, a questão racial e o trabalho infantil. O movimento de mulheres é um dos maiores produtores de cartazes do movimento sindical e popular. O Dia Internacional da Mulher, 8 de março, passou a ser comemorado no Brasil no fim da década de 1970, ao mesmo tempo em que surgia o novo sindicalismo, o movimento contra a carestia e outros movimentos populares. As mulheres estiveram à frente de muitos desses movimentos, principalmente contra a carestia e no movimento de saúde. No âmbito sindical, as dirigentes discutiam a remuneração desigual entre homens e mulheres na execução das mesmas funções, a saúde da mulher, o direito a creche, a participação das mulheres nas instâncias de representação sindical e, mais tarde, a descriminalização do aborto e o assédio sexual. Atualmente, todas as centrais sindicais brasileiras têm secretarias ou diretorias da mulher trabalhadora. A luta de Margarida Maria Alves não foi em vão, movimentos de mulheres paraibanas sempre estiveram entre os mais organizados no Brasil. A Marcha Mundial das Mulheres contra a fome, a pobreza e a violência sexista se transformou no Brasil na Marcha das Margaridas, e o que era para ser uma mobilização nacional das trabalhadoras rurais acabou se transformando, na edição 2003, numa mobilização de todas as mulheres brasileiras.

Na mesma linha de mobilização pelos direitos das mulheres estão as lutas contra o trabalho infantil e a discriminação racial. Milhares de crianças de todas as idades são obrigadas a trabalhar todos os dias, muitas em serviços perigosos, insalubres e degradantes à dignidade humana. No campo, elas estão na lavoura de sisal e nas carvoarias; na cidade, estão no comércio ambulante e muitas vezes são empurradas para a prostituição. O Estatuto da Criança e do Adolescente, promulgado em 1993, não tem sido devidamente aplicado para a resolução dos problemas que afligem as crianças, como a violência e o abandono a que estão submetidas nos grandes centros urbanos. O cartaz é um dos meios adotados para denunciar essas questões e mobilizar a sociedade na defesa das crianças e no combate ao trabalho infantil. Também o combate a todas as formas de discriminação, entre elas a racial, tem no cartaz um eficiente meio de divulgação. As comemorações pelos 300 anos da morte de Zumbi, líder do Quilombo dos Palmares, realizadas em meados de 1990, impulsionaram essas lutas e incrementaram no âmbito sindical as comissões contra a discriminação racial. Na mesma época, foi criado o Instituto Sindical Interamericano pela Igualdade Racial (Inspir), com a presença de todas as centrais sindicais brasileiras e com o apoio do movimento sindical internacional.

Memórias de movimentos e pessoas

A característica mais comum nos cartazes comentados até o momento é a predominância de ilustrações e reproduções fotográficas. As imagens e os textos se complementam para a sensibilização do espectador. Busca-se não apenas a sua participação num ato específico, mas o seu envolvimento com uma causa. Algumas campanhas nacionais conjunturais, como de reajustes salariais e em defesa da previdência pública, também trabalham nessa perspectiva. A fotografia de um idoso chorando durante uma manifestação, usada em vários cartazes e em outras publicações relacionadas à previdência social e à aposentadoria, é comovente, uma mensagem direta e certeira.

Os cartazes convocatórios têm predominância de texto e o objetivo é o chamamento à participação. O cartaz elaborado pela Comissão Nacional Pró-CUT para a convocação do Dia Nacional de Luta em 1o de outubro de 1981 faz esse convite e traz as principais reivindicações dos trabalhadores. Essa comissão, eleita na Conferência Nacional da Classe Trabalhadora (Conclat), realizada em agosto de 1981, na Praia Grande (SP), era composta por todas as correntes de pensamento que atuavam no movimento sindical, à exceção das entidades sindicais comprometidas com o regime militar. Esse foi o primeiro ato nacionalmente unificado organizado pelo movimento sindical brasileiro contra a ditadura. Com a fundação da Central Única dos Trabalhadores (CUT) em 1983 e, posteriormente, a criação de outras centrais sindicais, o movimento sindical atingiu um novo patamar. Greves gerais aconteceram em 1986, 1987, 1989, 1991 e 1996. Em todas elas, os cartazes convocavam à greve e traziam as reivindicações dos trabalhadores. Os dias nacionais de lutas e mobilizações também convocados por meio de cartazes têm essas mesmas características, a exposição sucinta das reivindicações.

Cartazes têm um valor informativo imediato e, muitas vezes, se transformam em ícones de um período, de uma entidade, de um movimento. Por isso, também existe o seu valor histórico, pois é uma imagem que preserva a memória dos movimentos sindicais e populares. Essa memória se faz presente em cartazes que comemoram, por exemplo, os 40 anos de uma greve de químicos em São Miguel Paulista (SP) e que relembram o metalúrgico Santo Dias ou homenageiam o dirigente sindical Ferreirinha. A greve em São Miguel foi na Nitroquímica e mobilizou todo um bairro de São Paulo. Permanece na memória de químicos aposentados como uma das principais lutas da categoria. Santo Dias era membro da oposição metalúrgica de São Paulo e da pastoral operária quando foi assassinado pela polícia em frente a uma fábrica, no dia 30 de outubro de 1979, durante uma greve dosmetalúrgicos. Ferreirinha também era metalúrgico e secretário de Relações Internacionais da Confederação Nacional dos Metalúrgicos da CUT quando morreu em 2001, no Rio de Janeiro. Começou suas atividades sindicais e políticas ainda jovem em Santa Catarina e foi presidente da Juventude Operária Católica (JOC) na década de 1960. Militou na resistência à ditadura e, por isso, teve de buscar asilo no exterior. Foi da direção nacional da CUT, onde impulsionou discussões sobre tecnologia e automação e de combate à discriminação racial.

Fonte de pesquisa

Pesquisadores em geral não costumam usar os cartazes como fontes de pesquisa. Acostumados às publicações e aos documentos textuais, esquecem-se desses materiais iconográficos, cheios de signos capazes de condensar épocas e situações específicas. Todavia, o produtor do cartaz deve respeitar normas na sua composição, como a data completa, o local de produção, o nome do produtor, do artista que fez a ilustração, do fotógrafo, do fato representado e outras informações que permitam sua identificação, classificação e organização em qualquer época. Fazendo isso, ele mudará esta situação, colocando o cartaz em destaque, contribuindo para preservar a memória sindical e popular brasileira.

Mais informações: cedoc@cut.org.br

Antonio José Marques é Cientista político e social e especialista em organização de arquivos; coordenador do Centro de Documentação e Memória Sindical da Central Única dos Trabalhadores

Fotos: Roberto Parizoti, sobre material de arquivo da CUT.

Publicado originalmente na Democracia Viva

2004
 







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*Arthur Niculitcheff*
Inserido em: 2009-05-12 19:40:31

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