Não devemos deixar Herzog em paz
2009-04-11 21:03:08

Por Manoel Fernandes Neto

"Hoje gostaria apenas de um ombro amigo, de um colo de mulher para poder chorar. Choraria todas as mágoas, dúvidas, frustrações, impossibilidades, o desejo obscuro de morte. Choraria toda a minha dor, a dor de muitos, da minha gente querida. Choraria por ti. Choraria tão sinceramente, tão despreocupadamente, sem esconder as fraquezas que tenho, minhas emoções vacilantes.

As lágrimas que embaciariam meus olhos, desfocando o mundo, me deixariam ainda mais triste, mais comovido, e assim choraria deveras, até o fim. Hoje gostaria apenas de um ombro amigo, de um colo de mulher para poder chorar. Chorar tão alegremente, que ao fim só restasse o sorriso do menino que fui, do menino que ainda sou." (Guilherme Azevedo)

 

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(In)úteis
Quem acompanha essa coluna (minha esposa e minha filha, com certeza) pôde imaginar que eu estava debruçado sobre o livro Dossiê Herzog, de Fernando Jordão, Global Editora, desde o domingo (17/10), quando as "supostas" fotos do jornalista Vladimir Herzog foram divulgadas pelo Correio Braziliense.

Li a obra em 1984, quando começava a compreender do que era feito o nosso país - bem diferente daquilo que eu, ainda, encontrava na TV e nos jornais. Naquela ocasião, saía às ruas e pedia eleições diretas, que só foram acontecer cinco anos depois, o que me mostrou que o Brasil vivia o descompasso entre o que clamava, como vontade da sociedade, e o que recebia, como capricho da chamada elite. E assim aceitamos o colégio eleitoral, choramos o Tancredo como "o salvador martirizado" e nos conformamos, como ovelhinhas, com o Sarney. E aquilo que tinha começado com a gente na rua, de camiseta amarela, anuviava as nossas mentes de geração inocente in)útil.

Alegoria e dor
Confesso que há tempos tinha decidido não mais escrever sobre uma ditadura que não vivi "na pele", mas (pior?) que conviveu comigo em um misto de frustração - por não ter colaborado com a luta - e alívio - por tomar consciência política em um momento em que já era permitido ocupar as praças, mesmo somente de uma maneira alegórica.

Não senti as dores dos perseguidos. Não fui torturado, humilhado, investigado, grampeado. Não perdi membros da família, não senti a "saudade" que sentem os exilados. Lia e relia sobre todas essas histórias em uma descoberta inédita - que estava fazendo como "ser político" - com os olhos marejados, o peito revoltado e o senso de justiça à flor da pele. Sentimentos tardios que foram sendo frustrados conforme os personagens desses livros-reportagens tornavam-se reais e voltavam à pauta com a democratização: em conchavos, esquecimentos, incongruências, incoerências, negociatas. Tudo pelo "bem da nação".

"Assassinar" para o nosso bem
Felizmente, quando a morte nos leva da Terra, tempo e espaço se eternizam naquilo que éramos no último segundo. Desta forma, deixando de lado esta minha fuga proposital em relação a esses temas, e empurrado pelos fatos atuais, o Dossiê Herzog entrou na pauta para esta coluna.

A obra, só possível de ser adquirida em bons sebos, é documento definitivo em relação ao episódio. Escrita somente quatro anos depois do assassinato do jornalista, é uma narrativa atual, real, como se nossos entes queridos saíssem de casa pela manhã e nunca mais retornassem. O sofrimento dos amigos e confidentes de Herzog, a farsa dos militares e os últimos momentos do então diretor da TV Cultura nos são apresentados com crueza e impiedade em nossa mesa de jantar. Clarice, a esposa, nos emociona particularmente, nos mostra como uma realidade pode nos invadir a qualquer momento e despedaçar a nossa "vida classe média":

"A gente estava tão calmo que o Vlado levantou de manhã cedinho e eu nem saí da cama. Eu nem fui fazer café pra ele. Eu devia ter levantado, devia ter feito café, devia ter levado ele de carro até lá. E eu nem levantei para dizer até logo."

O livro do Jordão tem o prodígio de tornar atual - quanto mais suas páginas vão amarelando na estante - a força de uma catarse coletiva para uma resistência perene: um choque elétrico em nossa consciência política

Tudo é muito demorado no Brasil. Nossas feridas são curadas de acordo com a vontade da parcela que detém o poder político e empresarial, junto com os meios de comunicação, independente dos fatos; independente das dores. Nosso progresso, como sociedade madura e consciente, é baseado em uma falsa exigência da "governabilidade". A elite, apoiada por essa mesma classe média, determina, com seu projeto de país, o que podemos ou não podemos ser, ter, fazer e conhecer.

Por este motivo, é necessário "matarmos" todos os dias o Herzog, por mais que isso seja dolorido; por mais que amigos e parentes queiram o contrário. Devemos manter vivos em nosso âmago valores como a indignação, o inconformismo e a insubmissão em relação aos poderes constituídos, sejam eles de esquerda, de centro ou de direita. Mesmo que as lembranças ainda sejam recentes; mesmo que magoemos a Clarice:

"Eles sentaram e não falaram nada, só repetiram que as coisas se complicaram (...)."

O livro do Jordão tem o prodígio de tornar atual - quanto mais suas páginas vão amarelando na estante - a força de uma catarse coletiva para uma resistência perene: um choque elétrico em nossa consciência política, condicionada e fragilizada pelo domínio de meios de comunicação que transformam tudo em peças descartáveis e consumíveis, onde Vladimir Herzog é somente linha direta com uma audiência de 30 pontos e bons patrocinadores; parte de um arquivo; ou um personagem distante, não real. Como tantos outros, que são encontrados em valas e armazenados em geladeiras: corriqueiros, "distantes", banais.

"Eles não me deixaram ver o corpo direito, a gente não conseguia entrar. Houve inclusive uma versão segundo a qual uma das pessoas que participaram da lavagem do Vlado procurou o Rabino, desesperado, porque não conseguia dormir direito. Ele teria dito que Vlado estava muito arrebentado."

"Herzogs" pobres e pretos
"Matar" o Herzog também nos leva ao debate sobre o que vem ocorrendo com mórbida naturalidade em nossa sociedade. Debate no qual Novae também entrou, com diversos artigos.

Convido Chico Villela, arrais da nossa revista, militante de esquerda nos anos de chumbo, que levanta a questão do esquecimento dos "Herzogs" da periferia:

"Em quase todas as cadeias deste país os pobres e os pretos e os deserdados continuam sendo torturados. A tortura acabou pra classe média que se meteu a querer brigar. Pra maioria, é pau puro. Cadê a imprensa? Vem de Herzog cada vez que se fala em tortura. Pra quê? Pra mostrar que a tortura é uma mancha que o "retorno à democracia" extinguiu? Que agora somos "civilizados"? Que o passado ficou na lembrança, tanto quanto os torturadores, que foram anistiados num 'grande abraço fraterno e brasileiro'? Ora, grande imprensa..."

De fato, Chico não se engana. Voz insuspeita, nosso arrais confirma dados assustadores. Milhares de pessoas são mortas todos os dias em delegacias do país. Basta um pouco de paciência para construir um outro dossiê.

Miguel do Rosário, outro arrais da Novae, classifica como chocante qualquer episódio gerado pela violência, mas ressalta que a tortura e o assassinato a "sangue frio" continuam sendo praticados hoje pelas polícias estaduais:

"O povão continua sendo vítima da brutalidade dos tigres de farda. Aqui no Rio, onde moro, está assumindo ares de genocídio. O policial mata, depois planta uma trouxinha de maconha no cadáver, e os jornais exibem as fotos de um jovem pobre, preto, dizendo que mais um traficante foi morto."

Mais grave, reflete também Miguel: "Na falta de justiça, os pobres no Rio estão pegando em armas e contra-atacando. Está morrendo muito PM também." Dentro de sua característica, Miguel do Rosário decreta: "Devia haver intervenção federal no Rio para impedir que a matança continue."

Setenta vezes sete
Perdoar jamais deve ser confundido com submissão; perdoar significa que somos capazes de compreender o primitivismo, a "doença" de certos seres; sem mágoas que nos aprisionam em sentimentos de vingança. Perdoar não significa entregar a outra face, de forma literal; mas encarar, com racionalidade, o compromisso que temos em lutar pelas lembranças e pela ressurreição da memória: uma face necessária para a libertação. O livro de Jordão deve estar nas estantes de todas as pessoas que ainda acreditam na liberdade; deve ser estudado por nossos jovens em nossas escolas públicas e particulares; deve ser disciplina acadêmica. Dossiê Herzog, com todas as suas dores, nos auxilia a perdoar e progredir.

Manoel Fernandes Neto é editor da NovaE

2004







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