Hasta luego, tio Briza!
2009-04-11 20:37:30

Por Cândido Grzybowski

O Brasil perdeu um de seus grandes e ilustres filhos, Leonel de Moura Brizola. Figura emblemática, controvertida, deixa um lastro marcante na história de nosso país. Brizola se assemelha a Getúlio Vargas e a João Goulart, de cuja corrente política, o trabalhismo, foi um dos expoentes. Os três, cada um a seu modo, são marcos no difícil parto de um Brasil urbano e moderno, debatendo-se entre a democracia e a ditadura, enfrentando exclusões e privilégios pela afirmação de direitos.

A cidadania – que, entre nós, ainda guarda muito de sua referência primeira, a carteira de trabalho e os direitos que representa – deve muito à liderança e à força política de Brizola e de seus precursores. Não há dúvidas, os processos históricos são complexos e não podem ser reduzidos a individualidades. Mas, como diz Gramsci, alguns e algumas encarnam as tendências de seu tempo e dos grupos sociais com os quais se identificam, dando-lhes voz, brilho, sentimento e vontade personificada. Gostemos ou não, Brizola foi um destes personagens.

 

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Devido à minha idade e por ser gaúcho, de nascimento e no profundo de minha alma, guardo sentimento dúbio, de admiração e de raiva, por Brizola. Mesmo nunca tendo sido minha primeira opção política, tio Briza – é assim que a minha geração do Sul trata Brizola – é como um de meus mestres políticos.

Em 1957, apenas com 12 anos, lá na praça de minha cidade, Erechim, assisti ao primeiro inflamado discurso de Brizola, jovem candidato ao governo do Rio Grande do Sul. Alguns anos antes, na mesma praça – estava então com 9 anos – vi o próprio Getúlio Vargas fazer um discurso em defesa do trigo nacional, pouco tempo antes de seu suicídio. Claro que pouco entendia do que se passava, mas não deixei de vibrar com as pessoas presentes diante dos pregadores do nacionalismo e da justiça social. Brizola venceu a eleição.

Foi com o momento marcante da "Legalidade", em 1961, logo após a renúncia de Jânio Quadros, quando Brizola liderou um movimento de resistência ao golpe militar em curso e pela posse do Jango na Presidência do Brasil, que se deu meu verdadeiro batismo político. Quem viveu aqueles dias no Rio Grande do Sul sabe do que estou falando.

As transmissões radiofônicas de Brizola cimentaram um grande movimento de resistência cívica. Para mim, foi a introdução na grande Política – com P maiúsculo mesmo – para além da disputa de interesses partidários, cargos e verbas. Tratava-se de pensar o Brasil que queríamos, a sociedade que almejávamos construir. E olha que estava num ambiente nada favorável, num seminário capuchinho, dominado por padres com medo de comunistas. Mas nada impedia que as idéias calassem fundo no coração, despertassem paixões, levassem ao engajamento. Esse legado segue comigo até hoje.

Brizola foi figura marcante desde então. Com o golpe militar de 1964, encarnou o inimigo número 1 da ditadura e se refugiou no Uruguai. Mas encarnou também a reconquista da democracia. Não dá para esquecer a memorável eleição de 1982, aqui no Rio de Janeiro, quando Brizola surpreendeu o regime militar ainda vigente e ganhou a disputa do governo do estado.

Sua presença, ao lado de velhas e, sobretudo, novas figuras, como Lula, nas "Diretas Já" é outro momento que marca a cidadania na redemocratização do Brasil. Aí vem o vibrante processo eleitoral de 1989. Brizola, todo o establishment político e muitos pelo Brasil afora se surpreenderam com o desempenho do militante operário. Lula só iria ganhar em 2002.

A relação entre Brizola e Lula, entre PDT e PT, entre a velha e a nova escola de política e cidadania, não foram fáceis, mas construtivas. O que mais se destacou na atuação de Brizola foi o seu lado ousado e de ruptura, com coragem de denunciar o que considerava incorreto. Mesmo na ruptura com Lula, agora no fim, tais traços estiveram presentes.

Pessoalmente, guardo de Brizola a visão de um estadista, com capacidade de ser precursor de muitas coisas. Por exemplo, foi Brizola quem primeiro enfrentou a desigualdade educacional, expressão de nossa enorme desigualdade social. Para Brizola, escola pública básica sempre foi expressão de cidadania, de um valor republicano fundamental.

No meu tempo de jovem, no Rio Grande do Sul, todo o interior foi povoado pelas "Brizoletas", escolas primárias (na época as cinco primeiras séries escolares), com um impacto visível. Afinal, se o Rio Grande do Sul ostenta níveis educacionais mais igualitários e elevados, em média, do que o restante do Brasil, isto se deve, entre outras coisas, às cerca de 2 mil "Brizoletas" construídas então, pelo que me consta.

Talvez os Cieps, uma nova edição do projeto educacional de Brizola, desta vez para o Rio de Janeiro, não tenham causado o mesmo impacto, mas são um traço a destacar no governante e líder político que nos deixa. Afinal, a universalização da educação pública de qualidade é ainda um nó não resolvido entre nós.

Lembro do Brizola como alguém associado à reforma agrária, também. Nos anos 1960, falava-se muito das Ligas Camponesas, no Nordeste. No Rio Grande do Sul, surgiram as primeiras ocupações do que, 20 anos mais tarde, viria a se tornar o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra.

Personalidade forte, pouco afeita a aceitar ser desafiada, Brizola marcou uma geração. Mesmo discordando de seus métodos e formas de fazer política, deixou uma lição a passar às gerações futuras. Brizola nos ensinou que vale a pena lutar. Obrigado.

Cândido Grzybowski é sociólogo, diretor do Ibase

2004
 







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