O Brasil quer seu muro da vergonha

Cristina Moreno de Castro
Em 1961, um muro de uns 150 quilômetros foi construído para dividir a Alemanha em duas, a partir de sua capital, Berlim (43 km só na região metropolitana). Foi, durante 28 anos, símbolo da Guerra Fria, tendo causado a morte de pelo menos 80 pessoas que o tentaram atravessar.
Principalmente a partir de 2001, no governo Bush, os Estados Unidos construíram um muro, com mais de 900 quilômetros de extensão, que os separa do México e impede a entrada de imigrantes ilegais em seu país. Impede mais ou menos, já que vários dão um jeito de ultrapassarem esse obstáculo, seja por meio de suborno ou arriscando a própria vida. Vários morreram tentando. Segue sendo um símbolo da separação entre o mundo desenvolvido “do norte” e o mundo subdesenvolvido “de baixo”.
Em 2002, no governo de Ariel SSharon, o muro da Cisjordânia, que deve ter mais de 700 quilômetros, começou a ser construído. Segundo o Tribunal Internacional de Justiça de Haia, o muro é ilegal, ocupa terras palestinas que não fazem parte do território de Israel e isola cerca de 450 mil pessoas. Símbolo de segregação, seus 8 metros de altura impedem a passagem de palestinos para terras israelenses e só motiva eventos sangrentos como o que presenciamos no fim do ano passado.
Há também o muro que divide as duas Coréias, o que divide Marrocos do povo saarauí, vários são os muros da vergonha: concretos, arames farpados e vigilantes de um grupo sobre outro, subalterno, subordinado ao primeiro, econômica, política e/ou socialmente.
Se faltava algo parecido no Brasil, não mais faltará.
Sérgio Cabral (PMDB), governador do Rio de Janeiro, quer construir muros ao redor de 11 favelas do Rio – mais de 11 quilômetros de extensão e três metros de altura de muros, ao custo total de R$ 40 milhões.
Não vou nem entrar no mérito do que poderia ser feito com R$ 40 milhões (só um pouquinho, vai: segundo a Folha de S.Paulo de 2/4, “as construções de uma creche, um hospital e dois centros de integração e cidadania na Rocinha (com restaurante e usina de reciclagem), por meio do Programa de Aceleração do Crescimento, custarão R$ 32 milhões”). O que mais me preocupa é o que há em comum entre todos os muros que iniciam este artigo: eles são símbolo de segregação.
Não fosse assim, como explicar que o maior argumento do governo de Cabral para construir os muros (“Foi idéia minha”, disse o político em entrevista à revista Veja desta semana) seja “conter a expansão das moradias irregulares em áreas de vegetação” e que as favelas escolhidas para esse projeto sejam as que menos crescem na cidade? No morro Dona Marta, onde começam a ser construídos 650 metros de muro, houve redução da ocupação em 0,99%! Eu disse redução.
A reportagem da Folha que citei acima diz que o Instituto Pereira Passos (IPP), órgão municipal, calculou crescimento de 6,88% da área ocupada por favelas no Rio entre 1999 e 2008. No entanto, as favelas escolhidas para o projeto cresceram, somadas, 1,18%.
Por que murá-las, então? E mais: por que murá-las com concretos de três metros de altura (se a idéia é conter a expansão horizontal, um muro de meio metro não resolveria o problema?)?
A escolha dessas 11 favelas – que, repita-se, menos cresceram, segundo órgão do próprio município – não é de todo aleatória: elas estão na zona sul, área nobre do Rio de Janeiro.
Com isso, refuta-se o principal argumento do governador e explicita-se o principal símbolo da muralha de Cabral, tudo na mesma tacada.
Cabral diz, naquela entrevista da Veja, que “a população está adorando as benfeitorias”. Pergunto-me a qual população ele se refere, já que o presidente da Federação das Favelas se disse contra a medida e o presidente da associação de moradores do morro Dona Marta disse que nenhum líder comunitário foi ouvido.
O que ocorre é que estão tornando as favelas brasileiras – que nos renderam o samba, o carnaval, e tudo aquilo que todos já estamos carecas de ouvir nos discursos dos politizados – em guetos.
Antes de solucionar os vários problemas de infraestrutura, escolaridade e domínio do tráfico de drogas nos morros, o governo de Cabral está fechando todo mundo lá dentro, por trás de tijolos insolentes, apartados da sociedade onde o poder do Estado tem (e oferece) mais acesso.
É como disse o Elio Gaspari outro dia: “Quando uma comunidade crê que muros resolvem problemas sociais e urbanos há algo de estranho acontecendo. Sobretudo quando ela é governada por um cidadão que defendeu o aborto como instrumento de política de segurança e classificou a Rocinha como "fábrica de produzir marginal"”.
Há algo muito estranho acontecendo nas nossas favelas. Quem olhará por elas?
04.2009
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*Michelli Soares* monike_nikiti@hotmail.com Inserido em: 2009-06-18 01:21:21
Varios muros foram construidos ao longo da história dividindo povos ( vergonhoso ). Esse dinheiro poderia ser usado em pro dessa população abandonado pelo poder publíco ! Dizem que o poder publíco não chega nas favelas mais quando eles querem eles estão lá COMPRINDO o que eles deveriam fazer sempre . Um muro é uma forma tendenciosa de fugir de uma realidade distinta , tentando esquecer que as favelas existem . Tentar esconder essa realidade não e mostar competÊncia e sim despreparo !
*Robin* robinweb@hotmail.com Inserido em: 2009-05-27 00:52:06
Opinião tendenciosa e totalmente equivocada da Cristina Moreno, tentando comparar os muros do Rio com os da Palestina e os do Mexico. Os muros são para limitar o crescimento das favelas nas areas de mananciais e florestas, coisa que até agora ninguem teve coragem de fazer e não são para dividir classes ou coisas parecidas.
Alem do mais citar a Folha, Elio Gaspari e Veja é o absurdo, esses não são referencia pra nada.
*Cris* tamoscomraiva@hotmail.com Inserido em: 2009-05-07 10:17:59
DIREITOS HUMANOS
ONU questiona o Brasil sobre muro que cerca favela do Rio
DE GENEBRA
A ONU quer explicações do governo brasileiro sobre os muros que estão sendo construídos no Rio de Janeiro para cercar favelas da zona sul da capital. Essa medida é motivo de uma das preocupações levantadas durante a sabatina a que o país começou a ser submetido ontem no Comitê de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais da organização.
A impunidade, a perseguição a ativistas de direitos humanos, a discriminação da mulher e a omissão do governo em episódios de crimes graves foram outros problemas lembrados pelos 18 peritos do comitê.
Um deles, o colombiano Alvaro Tirado Mejia, questionou a construção dos muros em favelas do Rio para conter o avanço de populações de baixa renda, que chamou de "discriminação geográfica". A pergunta ficou sem resposta.
Chefe da delegação brasileira, o ministro Paulo Vannuchi, da Secretaria Especial de Direitos Humanos, prometeu estudar o assunto e consultar o governo do Rio de Janeiro antes de responder hoje à questão, no último dia da sabatina.
No entanto, ele reconheceu que a medida não transmite uma imagem positiva. "Um muro nunca é uma coisa boa", diz Vannuchi.
Outro perito, Ariranga Govindasamy Pillay, se disse "perturbado" com a "cultura da impunidade" que transparece dos relatórios que recebeu do governo e de organizações não governamentais sobre a precariedade do sistema judiciário brasileiro.
As explicações longas e sem dados concretos da delegação brasileira incomodaram alguns membros do comitê da ONU. O mais irritado era o russo Yuri Kolovsov. "Não estamos aqui para ouvir palestras nem aulas de história", afirmou Kolovsov. "Espero que amanhã [hoje] tenhamos respostas mais claras", completou ele.
(MARCELO NINIO)
Folha de S.Paulo, 7/5/2009
*INOCENCIO* inocencio.nunes@bol.com.br Inserido em: 2009-04-24 20:44:12
"De onde menos se espera é que não vem nada mesmo"
Barão de Itararé
*Cris* tamoscomraiva@hotmail.com Inserido em: 2009-04-16 19:11:34
Bom artigo do Clóvis Rossi, sobre isso, hoje. Trechos:
O muro, aí como aqui
PORT OF SPAIN - Saio do Brasil com a polêmica sobre o muro em torno de uma favela carioca comendo solta. Chego a Port of Spain, em Trinidad e Tobago, com a polêmica sobre o muro para esconder uma favela comendo solta. (...)
O "Miami Herald" visitou o muro e reproduziu ontem frase de um dos moradores de Beetham Gardens, a favela que está sendo escondida da vista dos chefes de governo que participarão da Cúpula das Américas, a partir de sexta-feira.
"Em todo lugar a que vou, quando digo que sou de Beetham, sou estigmatizado", reclama Anthony Bailey.
Troque "Beetham" por "Rocinha", "Buraco Quente" ou qualquer outra favela brasileira e seja bem-vindo ao Brasil, estando em Trinidad e Tobago.
O pior de tudo é que os últimos seis anos foram de formidável crescimento econômico para toda a região, possivelmente inédito. Trinidad e Tobago, por exemplo, mal sentiu, até agora, a crise internacional, depois de ter alcançado um índice asiático de crescimento em 2006 por exemplo (12%).
Se ainda assim a pobreza é tanta que é preciso escondê-la, quantos muros mais serão necessários nos anos magros ou de crescimento modesto? (...)
Ele toca num ponto fundamental disso tudo: a ESTIGMATIZAÇÃO dos moradores das favelas muradas.
*PATRICIA GOUTHIER MACEDO* patgouthier@ig.com.br Inserido em: 2009-04-14 18:15:48
Moro na cidade de Belo Horizonte e trabalho no Programa Vila Viva que esta sendo executado no maior Aglomerado de Favelas da cidade, Aglomerado da Serra, onde o Sérgio Cabral esteve em visita junto com o nosso Governador Aécio Neves. Parte da área das favelas deste Aglomerado faz limite com áreas de preservação natural e parques, junto ao pé da Serra do Curral, símbolo da cidade. Nestes trechos, as áreas de preservação estão sendo cercadas com cerca em tela e mourões de concreto, sem muros, deixando inclusive trechos abertos para que a população possa continuar usufruindo destes espaços como já utilizavam, para caminhadas, cachoeiras, preces e orações, etc. A cerca deixa os espaços visíveis, o muro cria espaços fechados que podem gerar outros conflitos sociais, além de impactar negativamente na paisagem. Não vai ser nem o muro, nem a cerca que vai impedir o alastramento das favelas, a presença do Estado nestes locais, envolvendo as comunidades em programas e projetos sociais terá resultado muito mais efetivo do que a alvenaria dos muros.
*Ricardo Oliveira* ribaroli@zipmail.com.br Inserido em: 2009-04-14 16:18:25
A geografia da cidade do Rio de Janeiro merece uma análise especial. A única cidade do mundo com uma floresta urbana. A ocupação desordenada do solo, principalmente nas encostas, não ocorreu apenas com favelas. Condomínios de luxo existem também nas encostas, em áreas irregulares. A maior ocupação se deu com favelas. Umas em encostas, outras em áreas planas. Qual deve ser a função dos muros ? Acredito que seja o de impedir a ocupação em áreas de reservas ambientais. Logo os muros servem para os limites de favelas e condomínios de luxo. O objetivo do muro jamais deve ser o de separar um comunidade pobre de uma rica. Em áreas planas, sem proximidades de reservas ambientais, não há necessidade de muro. Se uma favela se confunde com um bairro urbanizado, não há necessidade de muro. Preservar as encostas, as florestas e a vegetação é também preservar vidas. Os primeiros atingidos pelos deslizamentos são os moradores de encostas. Na maioria das vezes populações carentes. Além de preservar a mata atlântica, o governo do Estado do Rio de Janeiro deve tratar as favelas como bairros. Deve levar à esses moradores as benfeitorias existentes nos bairros.
Vale lembrar que a casa onde moramos, seja uma casa, um condomínio , ou um prédio é cercada com muros. O limite de território é algo muito profundo. Está em todas as culturas. Os muros do Cabral devem , também, proporcionar o título de posse aos moradores dessas comunidades. Assim como condomínios de luxo.
Devemos ficar atentos aos muros. Se o objetivo for segregar, com divisões de classe, a população do Rio não deve aceitá-los.
*Cris* tamoscomraiva@hotmail.com Inserido em: 2009-04-14 09:28:47
Piorou um pouco:
agora não são mais 11 favelas, mas 13.
Pedra Branca e Chácara do Céu, que não estavam no projeto original, foram incluídas.
A construção de muros nas duas e na Rocinha custará -- só nessas três comunidades -- R$ 2.071 por metro quadrado construído.
Para construir o muro da Rocinha, 415 famílias serão *removidas* (114 para apartamentos e 301 receberão indenizações -- de quanto?).
Parece mesmo irremediável.
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff1404200909.htm
*Matheus* matheus.pichonelli@grupofolha.com.br Inserido em: 2009-04-13 13:23:51
É isso mesmo, Cris. Importante pegar esses argumentos e esmiuçar, porque se não o governador dá a sua justificativa, a gente finge que acredita e fica sempre elas por elas.
Bons os exemplos históricos e as citações. A opinião sobre isso pode provocar divisões também, mas fica mais que claro, com o seu texto, que a construção de muros, e os gastos bestas para isso, nunca ajudaram a consertar coisa alguma.
*José de Souza Castro* josedesouzacastro@hotmail.com Inserido em: 2009-04-13 11:16:31
A Folha de S. Paulo publica hoje pesquisa sobre o polêmico muro no Rio. Até o escritor português José Saramago criticou a iniciativa em seu blog, comparando os muros do Rio aos de Berlim e Palestina. Mas, na pesquisa, 47% dos cariocas posicionaram-se a favor da construção dos muros. "Outros 44% declararam-se contrários. Foram feitas 644 entrevistas.
Como a margem de erro da pesquisa -que foi a campo entre os dias 8 e 9 deste mês- é de quatro pontos percentuais, trata-se de um empate técnico. O empate técnico persiste até quando se investiga a opinião apenas de moradores de favelas, com 47% apoiando a iniciativa e 46% contrários", diz o jornal. As pessoas gostam de muros... Em Belo Horizonte, até a década de 1970, o Parque Municipal e o Palácio da Liberdade não tinham grades. O medo gradeou-os. O primeiro, com a justificativa de salvar os patos e cisnes do parque, que estariam sendo roubados à noite. Hoje o parque fecha às 18h e abre às 6 da manhã. O Palácio, para livrar o governador da pressão do povo. Infelizmente, no velório de Tancredo, um pedaço da grade caiu sob o peso da multidão, esmagando meia dúzia de pessoas. Em 1982, a prefeitura inaugurou o Parque das Mangabeiras, com dois acesso vigiados, dando para os bairros nobres das Mangabeiras e da Serra, cobrando ingresso. A cerca excluía os moradores de sete favelas do alto do morro, que para entrar no parque precisavam dar uma longa caminhada e contribuir com uma parcela de seu salário mínimo. Uns 10 anos depois, a esquerda tomou o poder municipal e abriu o "Portão da Cidadania", permitindo o acesso dos moradores. Fez mais: só passou a cobrar ingressos de quem estacionava seus carros no parque. A classe D passou a frequentá-lo. E não há notícias de aumento da depredação, depois que os pobres puderam contemplar de perto o Parque das Mangabeiras, um dos maiores parques urbanos do mundo.
*José de Souza Castro* josedesouzacastro@hotmail.com Inserido em: 2009-04-12 13:22:18
Em que serão diferentes os governadores Sérgio Cabral (PMDB) e Aécio Neves (PSDB) no trato com os favelados e a população mais pobre, em geral, de seus estados? O muro de Cabral diz muito. Vamos ver agora como Aécio vai tratar a invasão de terras na capital mineira. O pároco da Igreja do Carmo, frei Gilvander Moreira, está enviando à imprensa um alerta da Comissão Pastoral da Terra sobre um possível massacre no Céu Azul, região da Pampulha, onde na última quinta-feira mais de 250 famílias de Belo Horizonte, organizadas pelas Brigadas Populares, MST e Fórum de Moradia do Barreiro invadiram um terreno público ocioso do Estado exigindo que ele seja incluído no programa Minha Vida, Minha Casa. "Não existe nenhum programa estadual para diminuir o déficit habitacional em Belo Horizonte", diz o comunicado, favorável à unificação das lutas pelas reformas agrária e urbana. E alerta: tropas de choque da PM, em grande número, foram enviadas ao local e ameaçam retirar as famílias à força, mesmo sem um mandato judicial. A situação é tensa e pode ocorrer um massacre, acrescenta.
*Luciano Viegas* pancrezio@gmail.com Inserido em: 2009-04-12 12:38:35
A parte mais engraçada disso tudo é a declaração dele dizendo que a população está adorando as benfeitorias. Isto só deixa claro para quem o governo governa, que todos nós já sabemos: para quem tem dinheiro.
Não me impressionaria se o próprio governo criasse, após a construção do muro, uma fábrica de escadas do lado de dentro da favela, para pagar a construção do muro à custo da própria população. Fica aí a idéia para algum oportunista...
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