"A Internet rompe, todos os dias, a ordem atual", diz Jesús Gómez

Por  Manoel Fernandes Neto e colaboradores.

O editor da revista baseada na Espanha, La Insignia, conversou por email com a Novae durante a primeira quinzena de abril de 2003. Sem contrariar a lógica das publicações independentes, a revista, criada por um grupo de jornalistas e intelectuais no início do ano 2000, esbanja credibilidade e devoção à livre expressão. Contudo, ainda procura uma forma de remuneração digna que propicie recursos para sua subsistência. "Manter a independência tem um preço muito alto em qualquer meio de comunicação, inclusive na Internet; e, lamentavelmente, nem os leitores, nem os próprios autores, têm consciência da situação geral." , aponta Jesús.

Nesta entrevista, ele falou sobre impérios, utopias, e foi bem crítico com movimentos sociais e a esquerda na história (e com a própria internet). Longe de parecer desanimado com as dificuldades de oferecer ao leitor contemporâneo uma alternativa real de comunicação em relação aos grandes meios, Jésus é consciente das possibilidades que surgem para a sociedade civil planetária. Com ressalvas: "A Internet não substitui o trabalho na rua, nem nas universidades, nem nos parlamentos. De fato, há uma multidão de organizações com forte presença na rede e que, na realidade, não têm nenhuma representatividade social em seus respectivos."

Mas o que de fato diferencia um jovem jornalista, que abre mão de uma vida profissional tranqüila e passiva em um grande meio de comunicação, de outro, que ambicioso e seduzido pela internet dos "lucros fáceis", alimenta o ciclo vicioso da manipulação para formação de uma sociedade acéfala? O que diferencia o ideal do sadismo? A coragem da subserviência?

Tire as suas próprias conclusões.

Como surgiu La Insignia? E com qual objetivo?

Jesús Gómez - "La Insígnia" surgiu no início do ano 2000, quando um pequeno grupo de escritores, tradutores e jornalistas espanhóis decidiram criar um jornal digital independente. A novidade do projeto não consistia tanto na realização de um jornal com essas características, sendo que alguns de nós já tínhamos trabalhado em experiências similares, mas sim na forma de fazê-lo e em seu caráter: tratava-se de realizar um meio de comunicação internacional, em dois idiomas, claramente comprometido com a cultura e os direitos humanos, e sem qualquer outro recurso, a não ser nosso próprio trabalho. Ou seja, um meio sem escravidões externas.

Naquela época, o panorama na Internet era desolador. Por um lado, os grandes meios de comunicação mantinham na rede um bloqueio informativo similar ao do papel. Por outro, a maioria das publicações e sites que se declaravam independentes ou alternativos eram simples correias de transmissão de partidos políticos e organizações sociais. Fazia-se propaganda, não informação; e, em ambos os casos, a partir de modelos de pensamento único. Nesse sentido, nosso objetivo consistia em abrir novas vias e forçar uma mudança de atitudes a partir do rigor jornalístico e da independência de critérios.

Qual o significado da estrela vermelha, símbolo de La Insignia?

Jesús Gómez - Tanto a estrela como o nome do jornal procedem de um longo poema de León Felipe, escrito em plena Guerra Civil espanhola. Partindo de um ponto de vista político, a estrela vermelha é um símbolo que, longe de estar ligado a uma linha concreta dentro da esquerda, tem representado historicamente, e em algum momento, a todas as suas facções. É, portanto, um símbolo que conjuga pluralidade e unidade.

Porém, a decisão pelo nome e pelo símbolo não esteve relacionada com fatores exclusivamente políticos. Bem ao contrário, o fator principal foi o cultural; portanto, o jornalístico: um modelo de pensamento crítico totalmente distante - parafraseando León Felipe - das "insígnias domésticas" das diferentes esquerdas, de suas pequenas máfias, de suas bandeiras, de sua incompreensão da democracia e do sectarismo que, em parte, explicou a derrota da República espanhola e, mais tarde, o naufragar geral da utopia, em todo o mundo.

Em um de seus últimos textos, ao comentar sobre a Internet, você afirma que ela é "um meio que está na boca de todos e que poucos entendem". Poderia nos explicar o que quis dizer com essa afirmação?

Jesús Gómez - A Internet têm suas próprias virtudes e defeitos em relação aos outros meios, como o rádio e a imprensa tradicional. Não somente é um meio diferente, mas, além disso, combina características de todos os demais; e o faz de forma diferenciada, tanto em sua apresentação como na própria lógica que estabelece. Pensar um meio digital como se pensa um meio em papel é um erro. Quase todas as publicações que chegam à Internet - ou que são geradas na própria rede sem considerar esse fato -, fracassam ou ficam condenadas a uma subexistência mais ou menos digna.

É um problema que afeta múltiplos níveis e ambientes. O caso mais chamativo é, sem dúvida alguma, o dos grandes meios de comunicação, cujas edições digitais têm cometido quase todos os erros que se podem cometer neste meio: desde destruir seu próprio mercado publicitário, até limitar-se a derramar suas edições simplórias na rede; desde supervalorizar os aspectos estéticos, a restringir o acesso à informação mediante assinaturas. Pelo caminho, são aproveitados determinados aspectos do jornalismo na Internet para justificar recortes de modelos semelhantes e um processo geral de empobrecimento do jornalista. E, ao final, estão enfrentando uma perda de influência indiscutível, que intentam maquiar com falsas cifras de leitores.

O problema, claro, não afeta unicamente os grandes meios. A rede está cheia de publicações generalizadas, culturais, acadêmicas, etc, que não lêem nada e que não conseguem seus objetivos porque partem de premissas equivocadas. Muitas delas tampouco o conseguiriam, nem o conseguem, em papel, mas em Internet não têm a desculpa - mais que justificada - dos altos custos, dos problemas de distribuição ou, inclusive, o do simples bloqueio político.

Há fatores que devemos ter sempre presentes. A lista é longa, mas eu sublinharia três fatores que estão muito relacionados. Em primeiro lugar, Internet é um meio radicalmente democrático para os que têm a sorte de poder acessar; oferece possibilidades de comunicação nunca vistas até agora, tanto do ponto de vista do leitor "passivo", que se limita a buscar informação, como na própria criação de sites e publicações. Em segundo lugar, tentar manter compartimentos estanques na rede é inútil e contraproducente; neste meio, bem diferença de outros, a colaboração é essencial. E, em terceiro lugar, a Internet está provocando uma verdadeira revolução cultural que, entre outras coisas, têm gerado um novo tipo de cidadão, menos isolado, com mais recursos informativos e, portanto, mais livre, mais exigente.

Qual é o papel da Internet na incrementação de um novo jornalismo livre?

Jesús Gómez - Como qualquer outro instrumento, a Internet pode ter finalidades múltiplas e, inclusive, opostas. Por seu caráter universal, plural e, até certo ponto, barato, é mais difícil que caia em mãos de oligopólios. E, precisamente por isso, os governos dos Estados Unidos e de outros países intentam controlar a rede com normas econômicas que impossibilitem a existência de meios independentes, com leis sobre a propriedade que supõem um atentado à inteligência e, inclusive, com medidas policiais.

Eu dizia, anteriormente, que a rede oferece possibilidades de comunicação impensáveis em outras épocas. Isso é certo tanto no pessoal como no coletivo e, é claro, é certo também em relação à abertura de novos canais jornalísticos. Mas não confundamos liberdade e igualdade. No momento, mil publicações pequenas seguem sem ter nada que se assemelhe ao grau de influência simbólica - de poder social - de um grande meio de comunicação, ainda que, de vez em quando, possam danificar a máquina ou influenciar no processo. Há muitas razões para isso, mas quero lembrar que, no âmbito de nossos países, o acesso à Internet é mínimo, perto de 20% nos melhores casos, e muito inferior na maioria. Falamos de uma rede subdesenvolvida, o que dificulta ainda mais o alcance dos meios independentes.

Temos avançado? Claro que sim. Temos mais informação, mais liberdade, mais ambientes de criação. Mas nós, que pretendemos ir mais além e oferecer alternativas que possam competir realmente com os grandes meios, enfrentamos problemas, muitas vezes, sem salvação. O primeiro, de caráter econômico. Manter a independência tem um preço muito alto em qualquer meio de comunicação, inclusive na Internet; e, lamentavelmente, nem os leitores, nem os próprios autores, têm consciência da situação geral.

Há alguns anos, o lingüista estadunidense Noam Chomsky afirmava que, caso não impedíssemos, a rede terminaria nas mãos das grandes corporações. Como acontece com muitos intelectuais, seu conhecimento deste meio é limitado ou, ao menos, está submetido a uma forte dose de ingenuidade. Essa ameaça existe, sem dúvida, mas também existem outras. Na atualidade temos uma rede que, do ponto de vista das publicações, está não somente dominada por empresas, mas também por partidos políticos e organizações sociais cujo trabalho pode ser excelente em seus respectivos ambientes, mas que costuma ser inútil em termos de informação. Em ambos os casos, trata-se de manipular as pessoas para conseguir determinados fins. E isso, claro, implica em destruir ou limitar o alcance dos projetos independentes.

O império estadunidense é invencível?

Jesús Gómez - Nenhum império é invencível. Mas o problema da humanidade não é, hoje, derrotar a um império para que amanhã nos vejamos diante de outro, igualmente depredador. A queda da União Soviética nos lançou em um dos piores mundos possíveis: um mundo unipolar, sem equilíbrio, e, portanto, destinado ao conflito permanente e a níveis de miséria jamais sofridos até agora. Por isso, é lógico que as pessoas vejam com esperança a possibilidade de que surjam outros pólos de poder, para competir com os Estados Unidos, e limitem ou anulem sua voracidade. Fala-se muito de países como a China ou o bloco da União Européia. Temos que lembrar, porém, que no primeiro dos casos estamos falando de um regime que combina os piores aspectos do capitalismo e do stalinismo, com um forte componente imperialista. E, no segundo, de um bloco organizado a partir de países como a França, cujo exército intervém constantemente na África abaixo do Saara e está implicado em genocídios como o de Ruanda. A razão do equilíbrio é uma boa razão em qualquer aspecto das relações humanas, mas não é uma razão suficiente.

Em minha opinião, nos aproximamos de um momento crítico na história. Se conseguirmos nos dotar de instituições internacionais democráticas, com capacidade e recursos para impor-se às grandes empresas e aos próprios estados nacionais, temos alguma esperança. Se, ao contrário, insistimos no atual modelo de desenvolvimento econômico, de distribuição de renda e de relações políticas, seguiremos afundando até o colapso ecológico ou até um mundo que começa a se parecer, suspeitosamente, com alguns dos pesadelos mais conhecidos da ficção científica.

Nos últimos tempos, temos dado passos positivos. Muitas vezes é citado o caso de instituições supranacionais, como o Tribunal Penal Internacional, que com todos os seus defeitos - e são muitos - constitui, sem dúvida, um salto adiante na história da humanidade. Mas o passo mais importante é o de caráter cultural, a partir da extensão de um novo internacionalismo, que assenta as bases para uma futura soberania universal. Por desgraça, grande parte da esquerda política esteve ausente - e segue ausente - nesse processo. O fator determinante tem sido outro: o compromisso solidário de milhares de cidadãos, em todo o mundo, e a intervenção concreta de pessoas como Baltasar Garzón e Joan Garcés, cujo trabalho, a partir da Espanha, supera o campo estrito do caso Pinochet e a ditadura argentina. Eles nos têm dado o exemplo, entre muitos outros. E uma lição, cada um em seu âmbito, sobre o caminho a seguir.

Em quatro anos de revista como você enxerga o desenvolvimento da Internet como mídia poderosa para integração (e libertação) dos povos?

Jesús Gómez - A Internet tem sido - e será - fundamental no processo que eu comentava antes. Como sempre, a humanidade evolui a partir de seus descobrimentos tecnológicos, que, por sua vez, geram mudanças econômicas e culturais. E, portanto, variações nas estruturas sociais e políticas.

Mas, do meu ponto de vista, algumas questões da Internet foram supervalorizadas, ao mesmo tempo em que elementos importantes são tratados por alto. Coloquemos, por exemplo, o caso dos meios alternativos. No ambiente ibero-americano somos em torno de 800 milhões de pessoas e, contudo, somente existem, até o momento, dois jornais de tais características. Um deles pertence a um partido político, o que obviamente limita sua margem de manobra, anula sua credibilidade e destrói qualquer lampejo de jornalismo independente. O outro é o La Insignia. E, para piorar as coisas, somente o La Insignia têm visão, objetivos e linha editorial claramente internacionais. Como é possível que a proposta informativa, nesse aspecto, em todos os nossos países, seja tão limitada? Eu temo que a resposta a essa pergunta não deixe em bom lugar nem a esquerda política, nem a esquerda social, nem o provinciano e hiper-nacionalista modelo de cultura que as elites latino-americanas têm, historicamente, difundido. Parece-me que aprendemos muito poucas lições do século XX.

Também se costuma sublinhar as possibilidades comunicativas e de integração em termos de movimentos sociais e políticos. É indiscutível que a Internet facilita e cria relações que, de outro modo, não existiriam, mas ela não substitui o trabalho na rua, nem nas universidades, nem nos parlamentos. De fato, há uma multidão de organizações com forte presença na rede e que, na realidade, não têm nenhuma representatividade social em seus respectivos países.

A verdadeira importância deste meio se encontra na ruptura do isolamento das pessoas. Pela primeira vez podemos nos comunicar facilmente - e de forma relativamente barata - com pessoas do mundo inteiro. Pela primeira vez podemos entrar em ambientes de informação muito grandes, que antes estavam vedados. Pela primeira vez podemos romper, inclusive, o monopólio dos meios de comunicação tradicionais. Na Internet é a cidadania quem marca o passo e imprime as mudanças.

Em que medida a Internet pode servir como um instrumento de ruptura da ordem atual?

Jesús Gómez - Antes de tudo, não estamos falando de uma possibilidade, mas de um fato. A Internet rompe, todos os dias, a ordem atual. Por seu caráter radicalmente democrático e internacional, gera modelos de cultura que atentam contra a mal chamada "globalização" neoliberal, cuja essência não podia ser menos globalizadora: começa e termina nos interesses dos países ricos e de suas grandes empresas. O capital pretende nos impor a separação, a desagregação; e não somente entre os povos, mas também dos próprios conhecimentos. Quer impedir a todo custo que tenhamos uma perspectiva total dos problemas, que nos comuniquemos e estabeleçamos laços e estratégias comuns. Somente fala de globalização quando se trata de impor o velho imperialismo ao conjunto do planeta ou de justificar políticas reacionárias em cada país.

A Internet tem se convertido em um dos piores pesadelos desses países e dessas empresas, precisamente porque sua dinâmica impõe outro modelo de globalização. Em alguns aspectos, o neoliberalismo já começou a perder a batalha; em outros, o resultado depende de que saibamos aproveitar as possibilidades.

Pouco antes, vocês efetuaram uma pergunta que considero importante: por que é tão escassa a oferta informativa em nosso campo. A resposta não se encontra na falta de recursos; bem ao contrário, quase todos os projetos que temos existem apesar de suas notórias carências econômicas, de gente, etc. Mas isso tem uma leitura positiva; até agora, os elementos que constituem a revolução cultural da Internet não poderiam ser mais dignos: a solidariedade, a colaboração, a ruptura dos diferentes isolamentos. Há interesses, de todo tipo, decididos a instrumentalizar e domesticar a Internet. Contudo, não vão conseguir enquanto se continue criando revistas, jornais, malas diretas, blogs e foros de debates da melhor qualidade, além de outros produtos afins.

Ainda que o capital - e parte da esquerda política - pretendam acabar com a liberdade deste meio, eles somente têm uma capacidade limitada de controle. Onde antes havia uniformidade (meio, política, etc.) a Internet tem tornado possível a pluralidade. Os alicerces desta ordem racharam por uma questão muito simples: danificamos sua hegemonia cultural. Agora, temos que seguir adiante.

Manoel Fernandes Neto, jornalista, é editor responsável pela revista digital Novae.

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 Publicado em: 2009-04-01 por admin, última modificação em: 2009-08-06 por admin

 

 

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