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EUA: RUMO AO ESTADO FASCISTA (III): BHObama vai à guerra
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 EUA: RUMO AO ESTADO FASCISTA (III)
 
Chico Villela
 
Assiste-se neste início de milênio a vários fatos históricos imbricados que podem definir as feições do futuro próximo para todos os homens. Junto com a mais grave crise da história do capitalismo rola a progressiva submersão do império euamericano e de quase todas as economias desenvolvidas, que poderá desaguar em cenários de horror e repressão ou solidariedade e redenção, ou ao mesmo tempo nos dois, o que parece ser mais possível. A política secular de busca e afirmação de domínio mundial dos EUA, acelerada após a Segunda Guerra com a expansão militar e econômica, e assumida como projeto de hegemonia a qualquer preço após a dissolução da União Soviética, encontrou pela frente em 2008 os muros do derretimento financeiro, da decadência econômica e do endividamento geral e do Estado, aliados a despesas insuportáveis em guerras pantanosas e a perspectiva de uma severa depressão com a sua corte de horrores e mazelas sociais.
 
Em vários artigos nesta NovaE, o foco tem sido mantido nas ilegalidades e inconstitucionalidades do passado (mas não extinto) regime Cheney-Bush e nas dificuldades do governo BHObama de superar a herança sinistra deixada pelos oito anos de seu progressivo caminhar em sendas típicas de regimes fascistas. O artigo da Coluna, 13/2, situa a segunda grande questão (a primeira é a falência do sistema ambiente-infra-estrutura-economia-moeda) cujas lamas chegam agora à Casa Branca e exigem medidas e atitudes novas: a questão dos seqüestros, torturas e assassinatos sistemáticos conduzidos por militares e pela CIA em todo o mundo, nas suas prisões secretas e outras nem tanto. A leitura do texto abre clareza sobre a posição do novo governo quanto à política frente à impunidade dos criminosos: nada de mudança, apenas continuidade.
 
É certo que a eleição de BHObama foi um fato novo e especial; que é um avanço, inimaginável há alguns anos, a presença de um mulato na presidência; que algumas das suas posições sobre problemas internos são mais progressistas que as do antigo regime; etc. O que se contesta é a capacidade de um presidente de alterar algumas regras do jogo que vêm sendo estabelecidas e firmadas há décadas, algumas há mais de meio século, como a busca da hegemonia unipolar e a aplicação desmedida da força militar para a solução de impasses. Além de tudo, destoam de suas palavras até agora seus financiadores, suas escolhas de colaboradores, suas fontes de influência e suas primeiras medidas.
 
Ao eleger ‘Mudança’ como o fulcro de sua propaganda de campanha, o presidente levantou vagas de esperança em seu país e pelo mundo afora, com mídia favorável até com as mais falsas exposições a que se submeteu o candidato. O que se acha em questão, agora que a campanha acabou e é hora de governar, são algumas interrogações que colocam em jogo a dimensão das mudanças pretendidas e a capacidade de seu governo em implementá-las. Há dois aspectos centrais no garimpo das respostas a essas interrogações: a capacidade do novo governo em reorientar decisões e diretrizes geopolíticas e estratégias (moeda e economia virão no próximo texto), e a correspondência entre o alcance de suas medidas e as equipes que vem compondo para levar avante seu plano de governo.
 
A guerra
É sólida a tradição de violência nos EUA; até hoje, é livre a compra de armas em lojas e supermercados; assim, são fenômenos marcadamente euamericanos os serial killers e adolescentes vingadores Terminator. A população carcerária e de condenados, de 2,2 milhões de presos permanentes, 4,1 milhões de presos temporários e 800 mil em liberdade condicional, é a maior do mundo em valor absoluto e em porcentagem da população. A incidência de castigos sobre pretos e pobres hispânicos e brancos revela outra faceta da violência institucionalizada, tanto quanto a carga de penalização severa sobre crimes banais como fumar um cigarro de maconha ou roubar um frango num supermercado.
 
Na história do país, massacres e batalhas sempre foram parte do cenário do desenvolvimento. Os habitantes autóctones, de várias nações indígenas, foram quase todos eliminados a tiros. Durante a Guerra Civil morreram 900 mil. Há registros de ações armadas contra movimentos de trabalhadores; o mais conhecido é o da chacina de Chicago, então maior cidade industrial do país, na repressão a movimento grevista em 1886, o que gerou a consagração da data do primeiro dia de maio como Dia Internacional dos Trabalhadores.
 
No plano externo a ciranda é a mesma. O país sempre alimentou sonhos de domínio, e registros desde 1890 mostram guerras de conquista de territórios; ações armadas em apoio a aliados; ocupação militar de países; intervenções armadas em eleições e momentos decisivos; desmembramento forçado de países e regiões; combate a revoluções progressistas, movimentos populares e guerras de independência; proteção a interesses do país; e participação em golpes de Estado. Os dados são expressivos: no período entre 1890 e 2000, os EUA envolveram-se em 116 operações militares em todo o mundo. Nesse período de 110 anos, o Brasil mandou alguns milhares de soldados para a Itália no final da Segunda Guerra, e esta foi a sua única participação em atividades bélicas. O e-jornal turco ‘sansürsüz’ reivindica a entrada dos EUA no Guinness Book of Records pelo elevado número das suas ações armadas. Talvez o Brasil também mereça verbete no Guinness, na categoria ‘grandes países pacíficos’. 
 
Essas 116 operações militares distribuem-se de forma reveladora no tempo, considerada uma divisão em três grandes períodos: de 1890 à Primeira Guerra, o período entre as duas grandes guerras, e de 1945 até 2000. Até a Primeira Guerra, registram-se 38 operações; entre as duas guerras, 11 operações; e após a Segunda Guerra, 64 operações. A classificação por região mostra a ampliação do alcance das ações militares: no primeiro período, 29 na América Latina e 9 em outros países e regiões, ou seja, os EUA ainda mantinham políticas militares basicamente regionais, com atuação concentrada na América Central e México. Entre as duas guerras, entre 1918 e 1945, são 6 ações na América Latina e 5 no mundo além. A proporção inverte-se e cresce no terceiro período: são 17 ações na América Latina e 47 em outros países.
 
Guerras sempre se acompanham de alguns condicionantes. São financiadas, ou seja, geram lucros.  Estimulam um gênero de desenvolvimento industrial que pode, temporariamente, trazer prosperidade, como ocorreu nos EUA a partir de 1939, ano que pode ser datado como o do fim da grande depressão de 1929. Os EUA emergiram da Segunda Guerra com 50% da produção mundial nas mãos, sem concorrentes imediatos, com a capacidade produtiva intacta, e com a missão de reconstrução do mundo aliado, e também do novo aliado japonês, para opor-se ao inimigo comunista. Reconstruir é investir, aplicar capitais, criar fabricações e indústrias, firmar alianças, vender mercadorias e serviços sem conta, até resultar num novo cenário favorável em que, além do mais, o lucro foi expressivo.
 
Guerras envolvem ganhos de territórios, riquezas e poder. Servem como caminho de solução de problemas políticos. Concentram atenção de povos e nações em torno de suas lideranças ocasionais e fortalecem seu poder de governo. Permitem criar e firmar estruturas de repressão e polícia em nome do combate a inimigos externos e internos. E, como no caso dos EUA, facilitam a lenta e definitiva consolidação de grupos de interesses e de políticas orientadas. Em outros termos, a guerra é sempre um bom negócio, ótimo para os vencedores.
 
A paz impossível
O governo BHObama, cujo titular sabidamente desconhece os meandros das relações internacionais, não tem nenhuma perspectiva de vislumbrar a busca da paz como uma de suas  direções. Qualquer movimento seria rapidamente emperrado por uma realidade avassaladora: a presença das maiores forças armadas da História e do maior orçamento militar do planeta, maior que todos os outros de todos os países somados; a relevância da indústria bélica para a economia do país e a sua influência nas decisões do Estado; a profunda imbricação entre os grandes capitais, principalmente euamericanos, britânicos e árabes, e essa indústria; a existência de um imenso mar de centenas de bases militares em dezenas de países; a articulação íntima dos interesses geopolíticos e estratégicos dos EUA e a ação de suas forças militares, paramilitares e policiais; a dependência irreversível do país da importação de petróleo.
 
A existência de centenas de bases militares levou o analista militar, escritor e oficial da reserva da Marinha Chalmers Johnson à criação da expressão “império de bases” para definir o império euamericano. Segundo Johnson, citando dados oficiais de 2003, em “O império de bases da América”, em www.tomdispatch.com, o Pentágono possui ou aluga 702 bases no exterior em 130 países, e conta com 6.000 bases no país e territórios. No exterior, operam 253 mil tropas originais e 45 mil contratados locais. Mas os números são muito maiores, já que foram omitidas, por exemplo, a maior base do mundo, no Kosovo, e outras em países que devem contar com dezenas, como Afeganistão, Iraque, Israel e Kwait. Em Okinawa, Japão, praticamente uma colônia dos EUA desde 1945, foi citada apenas uma, quando existem mais de dez. Igualmente omitiram-se as instalações na Inglaterra, orçadas em 5 bilhões de dólares. Johnson estima o número total de bases por volta de 1.000. Em alguns casos, são heranças que apenas dissipam recursos, como as incríveis 227 bases na Alemanha, que faziam sentido durante a Guerra Fria e a existência das duas Alemanhas, mas que hoje soam como deslocadas dos verdadeiros teatros de guerra da Ásia, Oriente Médio e outras regiões.
 
A decisão de sair do Iraque é uma decorrência da derrota na guerra, que terminou por fortalecer o arquiinimigo Irã, e uma correção de rumos sobre o que se considera hoje um dos mais crassos erros do regime Cheney-Bush: a invasão do Iraque foi um lance falso no grande xadrez jogado pelas potências. Lembrança: o regime Cheney-Bush concertou, ao fim do seu governo, um acordo com o governo real do Iraque para retirada das tropas das ruas, confinamento de parte nas bases locais, e abandono progressivo e rápido do país por todas as tropas. Os chefes militares de plantão não estão felizes nem contentes.
 
BHObama começou a tentar cumprir sua alegação categórica de campanha, de retirada em 14 meses das tropas. mas teve de reverter; hoje, não se fala mais de prazos curtos nem de retirada total: as alegações falseiam a realidade e apresentam um contingente de 50 mil tropas que permaneceriam no país a título de “treinamento” e “assistência”. É sabido que a maioria dos seus comandantes, inclusive o linha dura David Petraeus, chefe do USCentCom, que cobre a área do Oriente Médio e Ásia Central, é contrário à retirada de um só soldado do Iraque. Isso foi expressado por ele e outros dia 21 de janeiro, um dia após a posse, numa reunião na Casa Branca.
 
Outro nó a ser tentativamente desatado pelo novo governo chama-se Afeganistão, tradicionalmente conhecido como “túmulo de impérios”. Mas a tradição histórica e a realidade atual mostram que se trata de um nó górdio. A lenda vem do oitavo século antes de Cristo, e vale a pena sua citação, pelo seu simbolismo com ecos contemporâneos. O rei da Frígia morreu sem herdeiros, e o Oráculo anunciou que o futuro rei iria chegar à capital num carro de bois. Quem chegou foi um camponês humilde, Górdio, logo coroado. Para marcar o evento, Górdio amarrou o carro a uma coluna no templo de Zeus, com um nó terrível. Seu filho Midas reinou e não deixou herdeiros. O Oráculo anunciou então que quem desfizesse o nó governaria a Ásia Menor. Cinco séculos após, Alexandre, o Grande ouviu a lenda, foi ao templo e, com um golpe de espada, cortou o nó. Alexandre reinou sobre boa parte da Ásia.
 
Mas Alexandre não conseguiu dominar o território do atual Afeganistão. Aliás, até hoje país ou força alguma conseguiu o feito. No século XIX, ingleses enviaram 25 mil homens, todos aniquilados: restaram alguns soldados. A URSS interveio durante dez anos, até 1989, para apoiar um governo progressista que empreendia reformas profundas num dos mais retrógrados e primitivos países. Foi expulsa pela CIA e seus agentes muçulmanos, agenciados pelo serviço secreto paquistanês, ISI, à época operando como servo fiel da CIA. BHObama falou de início em retirar 30 mil homens do Iraque e enviá-los ao país, dobrando o contingente invasor euamericano para 60 mil; os primeiros 17 mil já se mudaram. Está fadado a fracasso; em estimativas da própria CIA e conselheiros do governo, o Afeganistão exige a presença de mais de 600 mil tropas. Menor que o Afeganistão, o Vietnã exigiu 500 mil, com 50 mil mortes de invasores e alguns milhões, da população.
 
Sir Sherard Cowper-Coles, embaixador do Reino Unido no Afeganistão, já enxergou a questão. Ao substituto do embaixador francês, declarou: “As forças estrangeiras estão assegurando a sobrevivência de um regime que colapsaria sem elas. [...] No curto prazo, deveríamos dissuadir os candidatos presidenciais dos EUA de maior envolvimento no Afeganistão. A estratégia americana está fadada ao fracasso”. O brigadeiro Mark Carleton-Smith, supremo comandante militar britânico no país, concorda: “Nós não vamos vencer esta guerra”.
 
O analista russo especializado em guerra e armamento Maxim Kalashnikov, em www.rpmonitor.ru, expõe: “[...] na atmosfera de crise econômica terrível, quando americanos necessitam de recursos para salvar suas hipotecas, bancos e sistemas industriais, quando os EUA não têm dinheiro para renovar sua infra-estrutura nacional (usinas de energia, pontes, sistemas de abastecimento de água, represas e canais, etc.) – enormes recursos serão desperdiçados em função de uma guerra absolutamente sem esperança. Assim, os americanos caíram na mesma armadilha à qual conduziram a URSS anteriormente”.
 
Halford Mackinder, o inventor
Há uma pergunta simples para a qual a resposta jamais pode ser pronunciada, pois desvendaria a verdadeira face da invasão do país pelo antigo regime em 2001: afinal, o que as tropas dos EUA e da Otan estão fazendo lá? A fundamentação do regime Cheney-Bush, as providenciais “guerra ao terror” e a “busca por Osama Bin Laden”, já perderam substância após a constatação de que os movimentos que adotam o terror como tática crescem em todo o mundo na esteira das agressões euamericanas, e também após o lento aflorar da verdadeira história do atentado ‘bandeira falsa’ às torres e ao Pentágono, que vem sendo revelada por centenas de evidências. Uma delas é, aliás, hilária e fruto da afoiteza do regime em lançar as bases da sua futura política, após mais de um ano de preparativos militares e legais: apesar das afirmações de terem sido ‘pegos de surpresa’, e de nem a CIA ter ‘mostrado conhecimento dos movimentos prévios’ dos autores dos atentados, Bush acusou Osama Bin Laden de autoria uma hora apenas após a segunda explosão.
 
A resposta à pergunta nos leva de volta aos séculos XIX e XX, à então poderosa Inglaterra, e à pessoa de sir Halford John Mackinder (1861-1947), criador da Geopolítica e autor de obras como “Ideais Democráticos e Realidade” (1919) e “A Grã-Bretanha e os mares britânicos”. É de Mackinder a concepção de que a Inglaterra, país insular e, até 1945, potência hegemônica, devia voltar-se, entre outros objetivos mundiais, diretamente para a conquista da imensa massa de terra que chamava de Heartland, em especial a sua porção central, inacessível por mar, por conter, desde a Europa até os confins da Rússia e a China, a maior porção de terra e de riquezas do planeta. Rússia e Inglaterra pelejaram durante décadas pelo controle das partes centrais da Ásia, no que se convencionou chamar de Grande Jogo (Great Game). Após 1945 e o esfacelamento do império britânico, os EUA assumiram a condução do Great Game, já então oculto sob a capa da Guerra Fria entre o mundo comunista e o Ocidente. 
 
O Afeganistão, pela sua localização central, foi palco de vários dos movimentos do jogo. O mais relevante para a história recente foi o apoio dado pela União Soviética ao governo afegão que, nas décadas de 1970 e 1980, liderava profunda reformulação nas bases feudais e arcaicas do país, orientando-o numa direção claramente socialista e contemporânea contrária aos milenares donos do poder, da droga e da guerra, os ‘warlords’. Animados e financiados pelo ISI, serviço secreto paquistanês que tocava sob batuta da CIA, milhares de combatentes muçulmanos, entre eles Osama Bin Laden e suas tropas, foram treinados e enviados ao país para combater os invasores soviéticos, que terminaram por retirar-se em 1989, pouco antes da queda do império.
 
Mikhail Gorbatchov, o ingênuo
Data do início da década de 1990 outro fato que viria a definir os rumos do mundo até hoje. Embalado por acordo selado entre Mikhail Gorbatchov e o secretário dos EUA James Baker, o governo russo concordou com a dissolução do Pacto de Varsóvia, força militar comunista que se opunha ao Ocidente, e a retirada das tropas da Alemanha Oriental, sob a promessa dos EUA de não avançar sobre os ex-satélites da Europa Oriental e de respeitar as exigências russas de não-interferência em suas esferas de influência. O que se viu, porém, foi o oposto; hoje, compõem a Otan a Alemanha reunificada, Hungria, Polônia, República Checa, Bulgária, Estônia, Letônia, Lituânia, Romênia, Eslováquia e Eslovênia. Além disso, e fiéis aos conselhos de Mackinder, cuja atualidade é prova da eficácia de suas teorias para o Ocidente, os EUA e os capitais ocidentais passaram a cooptar algumas ex-repúblicas autônomas e outros países da antiga URSS.
 
Por volta de 2004 os EUA já haviam fomentado as chamadas ‘revoluções coloridas’ na Ucrânia, Geórgia, Sérvia, Quirguistão, e movimentos militares separatistas de combatentes muçulmanos em regiões como Chechênia e Daguestão, territórios russos. Ucrânia e Georgia aderiram, por enquanto, ao campo ocidental. Com a Sérvia, aliada estratégica da Rússia, o governo dos EUA, sob ações comandadas pela CIA e com a colaboração de organizações e ONGs como o Peace Corps e outras, estimulou provocações e a partição da antiga Iugoslávia para, ao final, com Clinton, ordenar severos bombardeios contra o país.
 
A criação de um “país” de fancaria, Kosovo, a partir de parte de território sérvio, e comandado pelos chefes do tráfico daquela parte da Europa (que, aliás, financiaram também tropas de combatentes externos enviados em seu auxílio), expõe a nu as opções criminosas embutidas nas políticas do Ocidente. As guerras dos Bálcãs foram lutadas por muitos combatentes muçulmanos sob o controle de alguns dos chefes da guerra contra a Rússia no Afeganistão; o mais destacado,  Osama bin Laden. Outros warlords, como Dawood Ibrahin, traficante internacional de armas e drogas e colaborador estreito do ISI, acusado de mentor dos terríveis atentados em Mumbay que deixaram recentemente cerca de 200 mortos, usaram o farto dinheiro do tráfico de heroína afegã para auxiliar a cobrir os custos das guerras.
 
A ação dos EUA e seus aliados da Otan nos Bálcãs e na Ásia Central expõe um dos pilares da sua estratégia: a divisão de países e povos pelo fomento a movimentos separatistas. Facilita essa atuação a existência de centenas de povos, com línguas e costumes diversos. O antigo lema “Dividir para imperar” continua válido. A guerra atual no Afeganistão só pode ser compreendida a partir dessa ótica de vários povos com línguas diversas, culturas próprias e lealdades difusas. O Taliban e a Al Qaeda realizam separadamente apenas dois dos movimentos em jogo: ‘senhores da guerra’ como Gulbuddin Hekmatiar, ex-primeiro ministro, ex-comunista e líder mujaheedin do grupo paramilitar Hezb-i Islami, assassino frio responsável por milhares de mortes de cidadãos afegãos, e o irmão do presidente, Ahmed Karzai, apontados em relatórios oficiais recentes do governo dos EUA como traficantes, alimentam o jogo de alianças e traições que mantém o país entre os mais miseráveis e atrasados do mundo.
 
Zbigniew Brzezinski, o falcão
Outro dos pilares da ação da aliança ocidental no contexto do Grande Jogo já havia sido aconselhada por Mackinder, ao registrar que a estratégia central da Inglaterra com relação à região devia dirigir-se também para evitar o “pesadelo maior” de alianças regionais entre países e potências. O mais conhecido aprendiz contemporâneo de Mackinder é o estrategista Zbigniew Kasimierz Brzezinski. Polonês de Varsóvia nascido em 1928, é cidadão euamericano, autor de vasta obra e cientista geopolítico. O jornalista Arthur Lepic, em dezembro de 2004, no texto “A monstruosa estratégia para destruir a Rússia”, em www.réseauvoltaire.net, traça um esboço da sua trajetória como estrategista da criação da Comissão Trilateral, animada por David Rockefeller, homem-chave da política externa de sucessivos governos dos EUA, e de sua obsessão em atacar a Rússia.
 
A criação e o treinamento da Al Qaeda e de outros movimentos jihadistas no Afeganistão foi iniciada antes da invasão russa de dezembro de 1979, e não como reação a essa invasão, fato que Brzezinski reconheceu numa entrevista à Nouvel Observateur francesa em 1998:
N.O.: O ex-diretor da CIA, Robert Gates [secretário de Defesa do regime Cheney-Bush, mantido por BHObama], afirma em suas memórias: os serviços secretos norte-americanos começaram a ajudar os combatentes afegãos seis meses antes da intervenção soviética. Nessa época você era o conselheiro do presidente Carter e seu papel foi chave nesse assunto. Confirma-o?
Brzezinski: Sim. [...] a realidade, mantida em segredo até hoje, é muito distinta: foi em 3 de julho de 1979 que o presidente Carter assinou a primeira diretiva sobre a assistência clandestina aos opositores do regime pró-soviético de Cabul. Naquele dia escrevi uma nota ao presidente em que lhe explicava que, na minha opinião, a ajuda provocaria a intervenção dos soviéticos. [...] Não empurramos os russos a intervir, mas conscientemente aumentamos as probabilidades de que o fizessem. [...]
N.O.: Também não lamenta você haver favorecido o fundamentalismo islâmico, ter entregue armas e assessoria a futuros terroristas?
Brzezinski: O que é mais importante aos olhos da história mundial, os talibãs ou a queda do império soviético? Alguns muçulmanos excitados ou a libertação da Europa Central e o fim da Guerra Fria?
 
A resposta às indagações de Brzezinski e o papel dos seus “muçulmanos excitados” são apontados em www.informationclearinghouse.info por Paul Craig Roberts em artigo de dezembro de 2008, em que afirma: “O ataque em Mumbay exigiu muçulmanos radicalizados. Muçulmanos radicalizados resultaram da deposição do governo eleito no Irã [1953] e da imposição do xá; do estacionamento de tropas dos EUA na Arábia Saudita; da invasão e tentativa de ocupação do Afeganistão e do Iraque, com bombardeio de casamentos, funerais e jogos de futebol infantis; da violação pelos EUA das leis internacionais e euamericanas com a tortura de vítimas muçulmanas; da cooptação pelos EUA do Paquistão em sua guerra contra o Taliban; da violação pelos EUA da soberania do Paquistão pela condução de operações militares em território paquistanês, com assassinato de civis; do apoio dos governos dos EUA a Israel na meia centena de limpezas étnicas contra os palestinos em suas terras, cidades e aldeias; pelo assalto cultural dos EUA aos valores muçulmanos; pela compra pelos EUA do governo egípcio para atuar como títere [...]”.
 
Durante a campanha, Brzezinski foi o principal conselheiro para assuntos estratégicos de BHObama, e desempenha no atual governo papel de relevo na orientação geral das posições a serem assumidas. Sua sombra já pode ser sentida nas novas orientações do governo de reaquecer as relações com a Síria e o Irã. Ao contrário da miopia dos neocons do regime Cheney-Bush, Brzezinski enxerga na Síria, aliada atual da Rússia, que mantém uma base naval no país, um colaborador de peso para esfriar a crise permanente no Oriente Médio e expulsar a base russa das águas do Mediterrâneo. Um indício da mudança de pólos de influência sobre as decisões do governo pode ser visto nas nomeações do diretor de Inteligência Nacional, Dennis Blair, e do chefe da CIA, Leon Panetta. Blair, almirante reformado, não tem qualquer experiência em ações de inteligência e contra-inteligência, e Panetta, ex-chefe do staff de Clinton na Casa Branca, também é despreparado para o cargo e a missão.
 
No artigo citado, Arthur Lepic esclarece fatos do interior do governo Carter e aponta o verdadeiro objetivo de Brzezinski, que se delineia como estratégia do governo BHObama: “Ao chegar à Casa Branca, Carter havia afirmado que optaria pelo diálogo com a URSS e guardaria distância com respeito à República Popular da China, mas seu secretário de Estado, Cyrus Vance, enfrentou rapidamente a obsessão anti-russa de Brzezinski, e durante todo o seu mandato Carter teve de esforçar-se para conciliar os antagonismos de sua administração. Quem fazia às vezes de mediador era Richard C. Holbrooke, futuro embaixador dos Estados Unidos na ONU e assessor de John Kerry para política exterior durante sua campanha, junto com Mark Brzezinski, filho de Zbigniew. Segundo Cyrus Vance e outros partidários do diálogo [...] a lógica triangular de cerco só podia conduzir, no melhor dos casos, a um mal-entendido, quando não à guerra”.
 
Essa visão de Brzezinski foi reforçada pelo também falcão Paul Wolfowitz, ex-secretário da Defesa de Bush pai em 1994-1999 e guru de Bush filho e de seu regime. Em seu plano de defesa ‘Defense Planning Guidance’, de 1992, afirmava: “Nosso objetivo principal é prevenir a reemergência de um novo rival, seja no território da antiga União Soviética ou outro lugar, que signifique uma ameaça da ordem da ameaça posta pela União Soviética”.
 
Richard Holbrooke é hoje o enviado especial do Departamento de Estado para Iraque e Afeganistão. Mudam os governantes eleitos, permanecem os homens-chave que ditam as regras. As condenações de Brzezinski aos rumos da política externa do seu país sob Cheney-Bush baseiam-se na sua concepção do Grande Jogo como conquista de aliados de peso contra os inimigos reais, aqueles que podem realmente ameaçar a hegemonia dos EUA no panorama internacional: Rússia, em primeiríssimo plano, e China. Para boa parte dos círculos de analistas conservadores que orbitam agora o governo euamericano, o descalabro neocon produziu retrocessos que devem ser rapidamente recompostos. A questão é que tanto a China quanto a Rússia dedicaram-se a ações estratégicas durante esse período, e os EUA perderam posições importantes para a vitória no (título de livro de Brzezinski) ‘O Grande Tabuleiro de Xadrez’ eurasiano.
 
A China (já) inquieta
A China, de diplomacia silenciosa e eficiente, vem articulando alianças com países produtores de petróleo que raramente freqüentam o noticiário, como Sudão e Nigéria. Assim que assumiu, o atual ditador saudita rei Abdullah contemplou a China com sua primeira visita oficial: a Arábia Saudita fornece a maior parte do petróleo ao país e é seu maior parceiro comercial na região. Cercada por fronteiras terrestres de 14 países, com total de mais de 22 mil km de extensão, a China realiza manobras políticas de extrema cautela. Tem conseguido reduzir as tensões com Taiwan, que exige como parte do seu território, como Hong Kong, de volta ao governo chinês desde 1997. Parte da estratégia euamericana para a China inclui alterar suas relações com aliados como o Paquistão e o Zimbabue, e vizinhos e produtores de petróleo, fato antevisto na recente decisão dos EUA de enviar tropas para Darfur, no Sudão, depor o presidente-ditador, e estreitar as tradicionais relações com Taiwan.
 
Espera-se também que as relações chinesas com países como Coréia do Norte e Mianmar sejam dificultadas, o que compensaria as boas relações existentes hoje entre China e Japão. A CIA deverá dedicar atenção especial ao Tibet, reclamado pela China como parte do seu território, sempre com a ajuda de seu colaborador internacional dalai lama, e à província de  Xinjiang, no norte chinês, onde muçulmanos separatistas uigures lutam contra tropas do país. As suas relações com a Índia, sempre delicadas, deverão deteriorar-se com a ofensiva do governo BHObama, que inclui acordos de aprofundamento da assistência em usos de energia nuclear. O dalai lama tibetano abriga-se na Índia.
 
Conforme o analista de política internacional e ex-diplomata indiano M. K. Badrakumar em Asia Times, o recente editorial do jornal oficial do governo chinês, Diário do Povo, que clamou por uma extensão da missão de Richard Holbrooke também para intervir na questão do território da Cachemira, principal e antigo foco de atrito entre Índia e Paquistão, e pela primeira vez na história recente equiparou o “problema do Afeganistão” ao “problema do Paquistão” e ao “problema entre Índia e Paquistão”, mostra a ansiedade e o desconforto de Pequim com as perspectivas futuras. Também o fornecimento de mísseis ao Paquistão pela China vem forçando a Índia a dedicar-se a sua produção, em esforço para equiparar-se. A China mantém uma base naval em Gwadar, que seria eliminada na hipótese da extensão da guerra total dos EUA ao Paquistão.
 
O arco de crises
Mas os afagos do governo BHObama à Índia deverão ganhar dimensão especial com os planos a respeito do Paquistão, seu inimigo principal. Mais de uma dezena de bombardeios de regiões do norte paquistanês foram realizados após a posse de BHObama. A justificativa apresentada pelas forças aliadas de que combatentes inimigos se abrigam nas regiões tribais da fronteira afegã-paquistanesa vem permitindo uma seqüência de raides aéreos em que morrem sempre muitos civis e poucos militantes armados. Os aliados enfrentam também sérios problemas de abastecimento, principalmente após os combatentes passarem a dedicar atenção às rotas de transporte, como a que sai do porto de Karachi, e aos poucos pontos em que comboios conseguem chegar ao país, como o Passo Khyber, que vêm sendo alvo de sucessivos ataques.
 
Os planos para o Paquistão aproximam perigosamente a região de uma conflagração geral de contornos incontroláveis, dada a existência de grupos armados numerosos e de alas do serviço de inteligência paquistanês - ISI simpáticas a causas muçulmanas. Por deter armas nucleares, uma eventual invasão do país pelas tropas aliadas deverá implicar a destruição do centro de produção de artefatos nucleares e a tentativa de capturar o armamento existente, antes de algum grupo de oposição. E o que transpira das análises e vazamentos de notícias é a divisão do Paquistão em quatro ou cinco ‘países’, na continuidade da aplicação do lema básico de dividir para imperar. Na prática, significará multiplicar por dois o imbroglio górdio afegão. Por mais esperanças que (ainda) suscite em alguns admiradores, BHObama não tem, tudo indica, o perfil de Alexandre, o Grande para desatar nós.
 
Numa visão mais alargada, a extensão da guerra ao Paquistão e a regiões da China, da Rússia e outros países é parte de outra estratégia ocidental que pode ser expressa como a ‘ampliação do arco de crises’, e que opera em conjunto com a da divisão. Busca-se o alargamento da desestabilização contínua de regiões e países para, em seqüência, obter frações simpáticas aos planos do Ocidente e, por isso mesmo, adversárias das posturas das potências regionais. Uma amostra dessa estratégia pode ser vista em ação no Iraque, dividido na prática em três: o norte curdo, o sul xiita e o restante sunita.
 
O Irã é ameaçado pela incorporação ao Azerbaijão da porção norte do seu território, onde vivem milhões de azerbaijanos, e pela criação do Baluchistão, etnia que habita o sudeste iraniano, além de partes de Paquistão e Afeganistão. A visão do regime Cheney-Bush a respeito das divisões e da ampliação do arco de crises mereceu críticas até mesmo de aliados internos, como algo errático; a do novo governo é calculada. Mas, de alguma forma, BHObama trabalha com uma herança pesada, e não pode simplesmente, mesmo que quisesse, o que não é o caso, alterar tudo e atirar um mundo velho pela janela.
 
Em 12 de dezembro de 2004, a analista de política internacional Maravilia Carrasco escrevia em www.réseauvoltaire.net: “A desestabilização da Rússia pela manipulação de tensões políticas entre as populações islâmicas das repúblicas da Federação [Russa] e dos países do Cáucaso e da Ásia Central está na pauta dos círculos hgemônicos do eixo Londres-Washington-Canberra [Austrália] desde a época do governo Jimmy Carter, no qual, sob a inspiração do conselheiro de Segurança Nacional, Zbigniew Brzezinski, e do orientalista britânico Bernard Lewis (autor do conhecido “arco de crises”), a Inteligência anglosaxã manipulou os eventos que desencadearam a invasão soviética ao Afeganistão e a jihad [guerra santa islâmica] entre 1979 e 1989”.
 
A Rússia ameaçada
A Rússia é bastante mais vulnerável que a China (herdeira de uma estrutura monolítica da sua Revolução de 1949) à aplicação dos princípios de Mackinder, Brzezinski e Lewis. É formada por um núcleo central e muitas regiões autônomas, e cercada de países antes membros da União Soviética. Alguns são próximos; outros, francamente adversários. A recente crise entre a Ucrânia, candidata à Otan, e a Rússia a respeito do gás destinado à Europa que transita pelo país, com a Ucrânia em franca chantagem contra os russos, mostrou que o leque de instabilidades hoje está muito próximo do território que o ingênuo Gorbatchov previa como área russa de influência intocável. Assim, foi decisiva, e conferiu novo rumo aos fatos, a resposta russa fulminante à provocação da Georgia e de seu presidente desajustado no ano passado, apoiado e armado pelos EUA e Israel, ao agredir a Ossétia do Sul, matar mais de 2 mil cidadãos, a maioria russos civis e militares, e destruir sua capital, Tskinvali, num gesto que M. K. Badrakumar nomeou em artigo no Asia Times de “o fim da era pós-Guerra Fria”.
 
A Rússia mantém boas relações com muitos vizinhos, anima uma fraca Comunidade de Estados Independentes – CEI, e aplica-se na mais eficaz Organização para a Cooperação de Shangai – SCO, junto com a China e quatro países Stão que reúnem cazaques, uzbeques, tadjiques e quirguizes. Para superar a existência de uma aliança militar regional com outros países também anêmica, deliberou-se recentemente a formação de uma força de ação rápida militar, eficiente e letal, com sede e comando próprios. O fato mostra que a Rússia está atenta ao recado de BHObama, de redução das tropas no Iraque para sua deposição no Afeganistão. Em acertada estocada, negociou com o Quirguistão o fechamento da base aérea euamericana de Manas, vital para as operações que envolvem o norte afegão, em troca de empréstimos, perdões de dívidas e acordos de compras. Mas o governo quirguiz ainda não ordenou o fim da base, talvez numa manobra para, ao mantê-la, receber benesses também dos EUA.
 
Nesse aspecto, o Quirguistão comporta-se como o Azerbaijão e o Uzbequistão, em eterno movimento pendular entre cair nos braços do Ocidente ou cerrar fileiras com seu vizinho poderoso. O governo BHObama vem atiçando o fogo da diplomacia para opor-se à ofensiva russa.
Colhe algumas conquistas; mas, recentemente, equívocos do regime Cheney-Bush levaram ao  estremecimento (sempre fluido, como todos, mas sólido) de relações com o seu mais poderoso aliado na região, a Turquia, membro da Otan. O fortalecimento por Cheney-Bush dos curdos no norte do Iraque fez crescer a ameaça e os assassinatos de militares turcos pela guerrilha curda, e terminou por levar a Turquia à decisão (mantida apesar dos apelos insistentes de Cheney-Bush) de bombardear o norte iraquiano. Numa demonstração de sua importância, BHObama acaba de anunciar uma próxima visita à Turquia, primeiro país de maioria muçulmana a recebê-lo, como foi a Indonésia muçulmana na primeira visita da secretária de Estado Clinton.
 
A guinada turca
Foi amplamente noticiado o choque entre o premiê turco Recep Erdogan e o presidente israelense Shimon Peres na reunião de janeiro passado do Fórum Econômico Mundial em Davos, por críticas ácidas às operações violentas de Israel em Gaza, e que levou Erdogan a abandonar o recinto. Erdogan foi recebido como herói em seu país. Mas o fato mais grave entre todos foi a descoberta de planos e armamento pesado para assassinar armênios ilustres e alguns líderes do governo e  realinhar o país, coordenado por militares golpistas ligados ao partido secularista, que se opõem aos muçulmanos atualmente no poder. São agrupados num núcleo remanescente da Guerra Fria, Ergenekon, de um tempo em que a Otan montou vários núcleos similares na Europa para precaver-se e poder oferecer reação rápida a eventuais ataques soviéticos.
 
Núcleos como este foram exaustivamente usados pela Otan para desestabilizar governos e realizar ações terroristas para inculpar a esquerda, a exemplo da Operação Gládio na Itália (texto II desta série). O analista russo Maxim Kalashnikov aventa a hipótese de apoio dos EUA aos golpistas (e também ao governo, num jogo duplo) ao afirmar em www.rpmonitor.ru: “Transformar a Turquia no mesmo país instável e ‘doente’ que a Ucrânia de hoje é realmente essencial para o ‘Politburo’ de Washington. Se isso acontece, a União Européia pode ser privada dos recursos energéticos da Rússia e outros países ex-soviéticos e se tornará criticamente dependente das possibilidades políticas e militares dos EUA. O fato de que o caso da Ergenekon tenha surgido ao mesmo tempo que a crise do gás [que envolveu Rússia e Ucrânia] não pode ser uma simples coincidência, de acordo com essa lógica”.
 
Na forma em que se põe hoje o Grande Jogo, o pesadelo maior de Mackinder de alianças entre grandes poderes regionais na hinterlândia eurasiana vai se tornando realidade e mecanismo de sua própria defesa. A Turquia foi maltratada pela política para o Oriente Médio do regime Cheney-Bush, pela Otan e a União Européia, que vem recusando a sua admissão como membro, e aspira a uma posição regional que reflita sua importância geoestratégica. Além disso, governos muçulmanos já foram depostos pelos secularistas, e a adesão do país à União Européia tornaria impossível a reedição de golpes contra governos legítimos.
 
Dois fatores a tornam pivô na região: o mando do acesso sobre o Mar Negro, no qual a Rússia funda boa parte da sua frota, e sua posição geográfica de ponto de passagem de oleodutos e gasodutos vitais para o abastecimento energético da Europa. Adicionalmente, Turquia e Irã desenvolvem vários projetos conjuntos, entre eles grandes obras de geração e transmissão de energia elétrica, numa atitude de desafio à imposição de sanções progressivas, lideradas pelos EUA anteriormente, e que tendem a ser reduzidas sob o novo governo, na tentativa de esvaziar a influência russa e trazer o Irã para mais perto do Ocidente.   
 
Os movimentos da Rússia na questão energética são um ponto bastante sensível das preocupações de estrategistas do novo governo BHObama e europeus. Anteriormente, a Rússia havia articulado a Cúpula do Cáspio, que praticamente limitou as decisões conjuntas sobre o uso do seu abundante gás e petróleo aos outros países banhados pelo mar além da Rússia: Irã, Azerbaijão, Casaquistão e Turcmenistão. Num golpe rápido, celebrou um acordo a preços de mercado que garantiu para seus gasodutos toda a produção do território do Turcmenistão, onde se acaba de descobrir mais uma jazida gigantesca.
 
As limitações impostas por esses acordos e movimentos tornaram praticamente inviáveis os planos euamericanos do gasoduto Nabucco, que parte do Azerbaijão, passa pela Georgia e a Turquia e segue para a Europa, dessa forma eliminando a Rússia e reduzindo a sua superioridade como principal fonte de fornecimento de energia à maioria dos países europeus. Também até hoje não se viabilizou o oleogasoduto da empresa Unocal, cujo acordo de construção foi assinado em 2002 pelo governo títere do Afeganistão colocado no poder pelos invasores, e que levaria energia do Cáspio e do Turcmenistão pelo Afeganistão e Paquistão até a Índia.
 
Em “O Grande Jogo geopolítico: Turquia e Rússia movendo-se mais próximas”, publicado no fim de fevereiro passado em www.globalresearch.ca, o analista de questões políticas e energéticas William Engdahl abre com a afirmação: “Apesar dos problemas do rublo e do baixo preço do petróleo em meses recentes para a economia russa, o governo russo vem praticando uma estratégia política externa bastante ativa. Seus elementos focam na contenção da contínua política de cerco de Washington via Otan, com freqüentes e aplicadas iniciativas diplomáticas em sua periferia eurasiana. Tirando vantagem das relações frias entre Washington e a antiga aliada na Otan, Turquia, Moscou convidou o presidente turco Abdullah Gul para uma visita de quatro dias com o fim de discutir um amplo leque de temas de cooperação política e econômica”.
 
A visita, de início classificada como “oficial”, foi elevada pela Rússia à categoria de “visita de Estado”, nível máximo do protocolo. A comitiva, que incluiu os ministros do Exterior, Comércio Exterior e da Energia e muitos empresários, foi também ao Tatarstão, república autônoma russa de população de maioria de origem turca muçulmana. São expressivos os investimentos turcos em áreas como construção civil, e o comércio bilateral, da ordem de 32 bilhões de dólares, em que pesam mais petróleo e gás (80% do consumo turco), faz da Rússia o principal parceiro econômico da Turquia. A Rússia é também o principal destino das exportações turcas, e milhões de turistas russos lotam todo ano as praias e estâncias turcas.
 
A visita ao Tatarstão mostra que as desconfianças de décadas da Rússia (e da URSS) sobre o papel da Turquia na provável desestabilização de regiões próximas à fronteira entre os dois países chegaram ao fim. O clima de cooperação contrasta vivamente com o do período pós-derrocada da URSS, em que a Turquia reviveu o papel de grande inimiga, como no século XIX, e o Mar Negro transformou-se num mar da Otan. Da sua parte, a Rússia vem dando apoio ao plano turco para o  Cáucaso, a Plataforma para Estabilidade e Cooperação, com ênfase na regularização das relações gerais com a Georgia e outros focos de atrito regional. A retribuição da visita por Medvedev e Putin, que deverá dar-se em breve, faz jus ao uso pela imprensa da expressão ‘parceria estratégica’ entre os dois países, até então reservada para as relações entre Ancara e Washington.
 
Um dos temas das conversações teve foco na questão energética. A Rússia, que acaba de construir um gasoduto, Blue Stream, sob o Mar Negro, vem planejando para a região um segundo gasoduto, Blue Stream 2, que passaria pelo território turco em direção à Europa. A Turquia também já deixou claro para a União Européia que o até agora fracassado projeto do gasoduto Nabucco não será viabilizado a não ser que o país seja admitido na UE. Uma concorrência recentemente ganha por consórcio liderado pela Rússia para a construção de uma usina nuclear aguarda aprovação parlamentar.
 
A cartada muçulmana
A visão e as análises do Grande Jogo, com seus atores principais e secundários, que hoje proliferam na midia, têm omitido uma possibilidade que se faz cada vez mais sólida: a emergência de uma força organizada muçulmana, que articule as miríades de grupos e tendências e possa conquistar territórios, talvez a partir da subida ao poder do Taliban no Afeganistão, ou de outros grupos nos territórios do Paquistão, da Índia etc. Fracas, corruptas e pobres repúblicas da Ásia, Ásia Central e arredores da Europa, algumas com preponderância de populações muçulmanas, poderão tornar-se caldo fértil para a solidificação de movimentos armados, de multivariadas colorações ideológicas, mas que fechariam acordo sobre a adesão ao projeto do Grande Califado, que reuniria países, povos e etnias em torno de um renascido império muçulmano.
 
A tese do Grande Califado constitui uma ameaça à Rússia, e, em menor escala, à China, que só tem muçulmanos na sua porção norte, na província de Xinjiang. A Organização da Conferência Islâmica reúne 57 Estados muçulmanos. Na Federação Russa, com 15% de muçulmanos, oito das 21 repúblicas autônomas adotam o Islã como religião oficial: Chechênia, Ossétia do Norte, Daguestão, Adiguéia, Cabardino-Balcária, Carachai-Circássia, Basquíria e Tartária. Os países da Ásia Central têm maioria muçulmana.
 
O uso de combatentes muçulmanos pelos EUA para derrubar o governo socialista do Afeganistão e expulsar os russos que o apoiaram por dez anos parece ter chegado ao seu limite com a queda do Taliban em 2001. A partir desse momento, os EUA, ao estabelecer um governo dependente no Afeganistão e manter o apoio ao ditador Pervez Musharraf no Paquistão, além de invadir o Iraque, fornecer armamento, recursos financeiros e apoio político a Israel, e hostilizar o Irã, passaram a ocupar o lugar reservado ao grande inimigo. Outros fatores viriam somar-se a esses para consolidar essa duvidosa posição: a ampliação esperada da presença no Afeganistão, a perspectiva declarada de invadir e intervir no Paquistão, a permanente estimulação de choques culturais entre os costumes ocidentais e as práticas de populações muçulmanas. Assim, a ação de grupos armados muçulmanos pode vir a ser um fator complicador nas estratégias euamericanas de cercar e vencer Rússia e China.  
 
A ameaça do ‘first strike’
A deposição de um escudo nuclear, com mísseis, radares e anti-mísseis, na República Tcheca e na Polônia, ensaiada pelo regime Cheney-Bush e até agora não negada pelo novo governo, constitui um fator novo na permanente guerra surda e encoberta entre EUA e Rússia. A alegação original de que o escudo seria destinado a precaver a Europa de uma agressão nuclear iraniana não é mais levada a sério. O governo russo vê uma ameaça de primeiro nível, contra a qual o ainda presidente Vladimir Putin havia prometido replicar com instalações equivalentes no encrave de Kaliningrado, no mar Báltico, na sua fronteira sul com a Polônia. 
 
O que a deposição do sistema pelos EUA acarreta é a capacidade ampliada que o Ocidente passa a ter de realizar o primeiro ataque, considerado decisivo nas simulações de conflitos nucleares, nas quais os seus construtores (militares, cientistas, inventores, empresários) vivem mergulhados. A instalação do sistema é o mais claro sinal de que o Grande Jogo revela seu terceiro magno pressuposto: enfraquecer o inimigo em sua economia, provocar corridas de armamentos que engolem recursos, etc., o que, para a Rússia, com o rublo fraco e a renda do petróleo-gás em queda livre, pode ser fatal, dada a deterioração a que vêm sendo submetidos os seus equipamentos de defesa e ataque desde o fim da URSS em 1991. Mas a maior ameaça dos escudos euamericano e russo é que o relógio nuclear avança um bom passo na direção de uma guerra em que não haverá sobreviventes, ou, como dizem cientistas nucleares pacifistas, quem sobreviver irá amaldiçoar o fato de ter sobrevivido.
 
A lamentável presença de Brzezinski, Holbrooke, Gates et caterva no staff do presidente não aponta para iniciativas de paz, mas para o aprofundamento de um cenário de provocações múltiplas e de guerra. Como se sabe que a guerra sempre foi uma excelente saída para crises como a que se vive, detonada por elites dos EUA, é bom pôr as barbas de molho no vinagre com o governo BHObama. Durante a campanha, já próximo do seu desfecho, o falcão e atual vice-presidente Joe Biden  (também obcecado em atacar a Rússia) declarou que BHObama provavelmente teria de tomar atitudes drásticas e impopulares, tanto no país quanto no exterior, nos seus primeiros seis meses de governo. Da mesma maneira que Cheney-Bush, Biden sabe de algo que omite aos simples mortais. Ou sabe que poderão provocar algo, como fez o regime anterior. Dada a trajetória dos sucessivos governos euamericanos e a declaração de Biden, talvez seja mais sensato ainda raspar a barba.
 
 
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Chico Villela é editor e escritor

 
 

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*Luis Gurgel*
gurgel9@gmail.com
Inserido em: 2009-05-01 01:22:42

Muito bom, Chico Villela. Inteligente!
Gostaria de sugerir o blog
http://governo-washington.blogspot.com
Há muitos links preciosos lá, de jornalismo independente. Os artigos 1- Dinastia Bush, 2- Money Control, 7- Monark Financeira, corroboram e ampliam suas informações.
Abraço
 Publicado em: 2009-03-11 por chico, última modificação em: 2009-04-23 por admin

 

 

     

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