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Chico Villela
O tema do eterno retorno é recorrente na história da filosofia. Como se os fenômenos históricos e humanos assumissem o comportamento de cometas, que, periodicamente, perturbam a consciência e a tranqüilidade dos homens. Já para o sábio Karl Marx, cujo pensamento se reafirma com respeitável atualidade a cada passo contemporâneo, a história não se repete a não ser como farsa.
O século XX, a par de seus avanços tecnológicos e científicos acelerados, foi chamado de ‘século do genocídio’, tal a quantidade de ‘limpezas étnicas’ e ‘banhos de sangue’ que tingiram sua história. O século XX assistiu também ao surgimento, consolidação, ascensão e queda de Estados totalitários os mais diversos, a exemplo do III Reich hitlerista e do gigante soviético stalinista, ao lado de sócios menores em favorecimento às elites econômico-financeiras, repressão à dissidência e supressão de liberdades, como a Itália fascista do patético Mussolini e dezenas de aparentados espalhados por todos os cinco continentes, como a maioria dos Estados latino-americanos na década de 1970. Sobre as cinzas da queda dos Estados totalitários, os Estados autodenominados democráticos proclamam-se triunfantes e vencedores.
Com o fim do ‘império dos mil anos’ nazista em 1945 (durou 12) e a criação da Organização do Tratado do Atlântico Norte – Otan, de oposição armada aos países comunistas agrupados no Pacto de Varsóvia, e a derrocada do império soviético ao redor de 1990, alguns caminhos se abriram, e dois deles avultaram como mais prováveis: um mundo multipolar, com potências consagradas ou emergentes, de poderes e vozes repartidos em várias instâncias, ou um mundo dominado por um poder hegemônico, os EUA. A Rússia do inocente Mikhail Gorbatchóv acreditou nos EUA de Clinton e dissolveu rapidamente o Pacto de Varsóvia, aguardando a prometida contrapartida da dissolução da Otan. Ao invés, a Otan colocou-se abertamente a serviço da política externa belicista dos EUA e passou a atrair quase todos os países do antigo Pacto e a apertar o cerco aos grandes eternos inimigos Rússia, China e Irã.
‘Estado Profundo’ & neocons
A subida ao poder dos eleitos (com favorecimento da corte suprema de justiça na primeira e fraudes documentadas nas duas eleições) Richard ‘Dick’ Cheney e George W. Bush firmou em definitivo a orientação, que já se havia estabelecido há cerca de uma década, dos EUA como poder hegemônico mundial único e condutor e impositor das regras da política, das finanças e da guerra. Também abriu as portas e o palco à ação mais publicamente desenvolta do chamado ‘Estado Profundo’, aglomerado de políticos e militares de alta patente, analistas e estrategistas profissionais, representantes das grandes finanças e do ‘complexo industrial-militar’ (na expressão do ex-presidente Eisenhower em 1961), que realmente toma as grandes decisões e conduz o país desde que foi formalmente organizado logo após o fim da II Guerra. O círculo de intelectuais de direita reunidos sob o rótulo neoconservadores ou ‘neocons’, sempre presente na história do país, rapidamente consolidou-se em torno da formulação das políticas desse Estado hegemônico, e anunciou em pouco tempo, com pompa e circunstância, o documento que preconizava um “novo século americano”.
Uma das mais marcantes características do acervo documental e legal produzido pelos neocons é o desprezo pelas leis e práticas já consolidadas e consagradas entre países e organizações. Como fio da política externa, uma nova doutrina substituiu os velhos conceitos de autodeterminação, não-agressão, respeito às leis internacionais e à autoridade da ONU, etc. Criaram-se monstrengos pseudojurídicos como a proposta das ‘guerras preventivas’, agressão a países e poderes que ameaçassem ou remotamente pudessem vir a ameaçar a hegemonia euana, cujos círculos dominantes encarregam-se de enquadrar ‘amigos’ e ‘inimigos’ conforme seus interesses. Outra característica do discurso e da prática dos neocons e do governo que integram é a fabricação da ‘verdade’ com base em ilações, omissões e mentiras. Esta foi a forma encontrada para basear a decisão de invadir o Iraque, tornada modelo: armas de destruição em massa inexistentes, armas químicas e biológicas fantasmas, projeto fictício de enriquecimento de urânio, fotos de satélite montadas. E uma imensa campanha de mídia vendeu a falsidade aos cidadãos.
Dissidente = traidor
Desde os anos 1950 e os albores da Guerra Fria com os soviéticos, as forças armadas dos EUA contam com planos secretos para enfrentar ataques nucleares que pudessem imobilizar o governo e abrir espaços para a quebra das regras civis. Ao lado da constituição do ‘Estado Profundo’ e da construção de bunkers subterrâneos que abrigassem as lideranças a salvo das bombas, os planos secretos reúnem disposições amplas e também ordens designando pessoas que assumiriam as funções do Executivo, sem consulta alguma ao Legislativo e ao Judiciário. Entre seus poderes, podiam (podem) suspender a Constituição, decretar lei marcial, e assumir os poderes legislativos e judiciários, se necessário “pela força das armas”, para assegurar “cooperação” com o “Executivo Unitário”. O Congresso colabora: a sua aprovação no ano passado do Military Comissions Act de 2006 dá ao presidente o poder de declarar qualquer cidadão ‘combatente inimigo’. Amplia-se o leque de aproximações entre o dissidente e o opositor, legítimos em democracias, ao insurgente, inimigo e traidor, e nunca é demais lembrar que a pena para traição nos EUA é a morte.
O pesquisador e ativista Tom Burghardt, editor de “Police State America: U. S. Military ‘Civil Disturbance’ Planning”, resume: “Desde que assumiu, a administração [Cheney-Bush] tem manobrado implacavelmente o poder executivo para a consecução de sua agenda antidemocrática: desde o saque à economia pela ‘desregulamentação’, gastos deficitários maciços e corte de impostos para seus ‘clientes’ corporativos, até o empreendimento de uma guerra preventiva de conquista do Iraque, o ‘Executivo Unitário’ tem sistematicamente feito em frangalhos o sistema constitucional dos EUA de controles e equilíbrio de poderes”.
Army Regulation 500-3
Logo ao assumir, o (vice) presidente Dick Cheney e o secretário de Defesa Donald Rumsfeld, dois antigos e permanentes membros do ‘Estado Profundo’, conduziram estudos de grupos que ergueram ou adaptaram os instrumentos ‘jurídicos e legais’ que construíssem harmonia, no plano interno, com a política de ‘vale tudo’ que passou a vigorar no plano externo. Cerca de dez meses antes de setembro de 2001 e do ‘atentado consentido’ às torres e ao Pentágono, já se havia aperfeiçoado um plano relevante e importante. Nomeado “Army Regulation 500-3, Emergency Employment of Army and Other Resources. Army Continuity of Operations Program’, datado de 19 de janeiro de 2001, alterou similares antigos e reforçou condições para que as forças armadas, conforme cita Burghardt, “pudessem continuar a operar em qualquer situação, inclusive ataque militar, atividades terroristas, e desastres naturais ou provocados pelo homem”. Ao lado de citar posturas anteriores, como ataques químicos, biológicos e nucleares, a doutrina ampliou-se para enfatizar planos de contingência para operar com mais efetividade sobre “distúrbios civis”.
Horas após o ataque às torres e ao Pentágono, em setembro de 2001 (ao qual as poderosas forças de contra-ataque aéreas mais armadas do mundo não reagiram por mais de uma hora), regras e ações previstas no AR 500-3 foram colocadas em operação, pela primeira vez na história do país, e nunca mais foram interrompidas. (Isso mostra que os atentados eram mais que esperados, e já havia uma série de ações em seqüência preparadas.) Ou seja: a partir de então, há cerca de uma centena de membros seniores do ‘governo das sombras’ em operação no país, com chancela oficial do Poder Executivo, tomando e implementando decisões às quais nenhum congressista ou membro do Poder Judiciário tem acesso. Na verdade, é um pouco além: os demais poderes nem sequer foram comunicados da entrada em operação do AR 500-3 em setembro de 2001. Sob Cheney-Bush, constituiu-se um conjunto de instrumentos secretos aterrador, a julgar pelas gotas que às vezes vazam, da parte de militares e autoridades temerosas da extensão do seu arbítrio.
Patriot Act
O consentido (‘false flag’) ataque às torres e ao Pentágono (este, segundo o governo, com um avião, do qual não restou sequer um mísero quilograma de destroços; aliás, um avião sem asas, a julgar pelo buraquinho deixado no edifício), realizado, com cobertura interna, por combatentes sauditas do aliado e milionário saudita então associado da CIA Osama bin Laden, com recursos e apoio logístico trazidos pelo serviço secreto paquistanês, o ISI, também criado e à época manipulado pela CIA, foi o golpe necessário (equivalente ao incêndio do Reichstag alemão) para que os dispositivos pró-fascistas entrassem em ação. Para uso interno, já havia sido elaborada uma lei com centenas de artigos, a Patriot Act, empurrada goela abaixo do Congresso seis semanas depois, com aprovação quase unânime sob pressão da comoção que tomou conta do país, e que aboliu as suas principais conquistas democráticas. (Isso mostra mais uma vez, além das centenas de evidências hoje acumuladas, que os atentados eram esperados.)
Entre outras medidas, criou-se, além dos já fartamente existentes aparatos de repressão, uma estrutura de segurança interna, o Department of Homeland Security, para repressão a ‘terroristas’ e ‘ameaças internas’ à ‘ordem’, com orçamento em 2008 de 52 bilhões de dólares. Para comparação, os cinco maiores orçamentos militares globais do mundo em dólares são: EUA: mais de 1 trilhão no total; China: 65 bilhões; Rússia: 50 bilhões; França: 45 bilhões; e Reino Unido, 43 bilhões. O orçamento militar dos EUA, sozinho, é maior que a soma de todos os orçamentos de todos os países do planeta. Não bastasse isso, a Agência Federal de Gerenciamento de Emergências, Fema, que atende a emergências como acidentes de gravidade, enchentes, terremotos e furacões, catástrofes naturais ou provocadas, etc., passou também a incluir em sua agenda de trabalho ‘perturbações da ordem’, e também militarizou-se, estando hoje submetida à autoridade do Homeland Security. Da mesma forma, a Guarda Nacional de um estado agora pode ser deslocada para qualquer outro estado, sem consulta ao governo local ou aos cidadãos.
As listas
Generalizou-se a violação do sigilo da comunicação e a vigilância intrusa na vida das pessoas; obrigou-se cada biblioteca a informar ao FBI a lista de livros solicitados, regra que vale inclusive para universidades; e criou-se uma ‘lista de inimigos internos’, que, por exemplo, não podem fazer viagens aéreas, e que hoje reúne dezenas de milhares nomes (fala-se em torno de 100 mil), boa parte de dissidentes universitários, pacifistas etc. Listas como esta, típícas de regimes totalitários, têm uma duvidosa virtude: entra-se nelas sem saber, por qualquer razão, mas sair é quase impossível. A pacifista Mary Shaw, ativista contra a pena de morte e a guerra, informou em artigo de 9 de outubro, em TheSmirkingChimp, que a polícia do estado de Maryland havia incluído os nomes e informações pessoais de 53 ativistas pela paz e não-violência nas bases de dados estadual e federal que registra suspeitos de terrorismo. Um comitê do Congresso sensibilizou-se pela questão e vem tentando auxiliar as pessoas a retirar seus nomes da lista.
Em recente artigo, “Fascist America, in 10 easy steps”, publicado em CrazyRichGuy, a pensadora, ensaísta e ativista Naomi Wolf relata um fato que dá a exata dimensão do descritério enlouquecido que preside esses procedimentos em ambientes políticos de supressão de liberdades. “Walter F. Murphy é professor emérito da Universidade Princeton; é um dos mais destacados acadêmicos constitucionais da nação e autor do clássico ‘Democracia Constitucional’. Murphy é também um marine aposentado condecorado, e nem mesmo é especialmente liberal. Mas em 1º de março deste ano, foi-lhe negada uma passagem para Newark, ‘porque eu estava na lista de terroristas’. ‘O sr. participou de alguma passeata pela paz? Nós banimos um monte de pessoas dos vôos por isso’, disse o atendente da empresa aérea. ‘Eu expliquei’, disse Murphy, ‘que eu não só havia participado mas havia, em setembro de 2006, dado uma palestra em Princeton, televisionada e colocada na web, altamente crítica a George Bush por suas muitas violações da Constituição’. ‘É por isso’, disse o atendente.
Aos poucos fecha-se o cerco a jornalistas, professores, pastores, ativistas e dezenas de outros. Extinguiu-se na prática o direito universal do habeas corpus. Na ótica da Patriot Act, uma passeata em prol da paz é ‘terrorista’, já que o país se acha ‘em guerra’; e mesmo uma manifestação que atrapalhe o trânsito pode ser enquadrada como ‘grave perturbação da ordem’. As forças do governo têm autorização para prender qualquer pessoa, em qualquer lugar do mundo (CIA e militares) e também no país, sem nenhuma justificativa, mantê-la presa sem comunicação a familiares ou advogados e sem acusação por tempo indeterminado, e movê-la para qualquer das suas prisões, conhecidas ou secretas, em vários países, ou mesmo alguns navios-prisão, todos esses, locais em que se tortura e assassina com a mais absoluta impunidade, como vem sendo documentado nas prisões da base de Baghram, no Afeganistão, Abu Ghraib, no Iraque, e na infame prisão de segurança máxima de Guantánamo, no extremo oriental de Cuba. Trata-se de um conjunto de disposições fascistas de fazer inveja ao aparelho de terror de um Stalin.
Constituição esfarrapada
Era preciso também preparar o terreno para que as forças militares pudessem operar como tropa de combate no território do país, o que estaria em flagrante violação aos ditames do Posse Comitatus Act, que vigorava desde sua aprovação pelo Congresso em 1878, e que veda a militares participar de qualquer tipo de operação, reservada às forças policiais, realizada no território dos EUA. Em abril de 2002, a administração Cheney-Bush criou o NorthCom, comando militar dedicado a operações nos EUA, em investida contra o Posse Comitatus. Este ano, a partir de 1º de outubro, a Primeira Brigada de Combate, da Terceira Divisão de Infantaria, após 35 meses no Iraque combatendo a resistência dissidente, o que todos sabem o que significa em violência, crimes e ofensa aos direitos humanos, foi trazida aos EUA para colocar-se, sob as ordens do NorthCom, a serviço do Homeland Security. Essa tropa é especializada em patrulhamento de campos de combate, controle de multidões, proteção de comboios, etc.
O jornal Army Times esclarece: “Mas esta nova missão marca a primeira vez que uma unidade ativa recebe uma missão no NorthCom, um comando unificado estabelecido em 2002 para prover comando e controle para esforços de defesa federais internos e coordenar suporte à defesa de autoridades civis. [...] Eles podem ser chamados para colaborar com detenção de civis e controle de multidões, ou para operar em cenários de horror como envenenamentos maciços ou caos em seqüência a ataques químicos, biológicos, radiológicos, nucleares, de explosivos [...]”.
Assim como o Army Regulation 500-3 suspende a vigência da Constituição, a criação do NorthCom e a presença da tropa de repressão revogam o secular Posse Comitatus Act. Nem o Legislativo nem o Judiciário foram consultados. A situação de perda de poder fica patente no recente caso de anexos de diretiva presidencial de segurança nacional e interna. A Casa Branca negou acesso aos seus termos ao deputado Bennie Thompson, presidente do Comitê do Congresso para a Segurança Interna. Para Tom Burghardt, esses fatos acumulados provam que “desde os primeiros momentos em que se instalou no poder, o regime de Bush acha-se envolvido em uma ‘demolição controlada’ da Constituição dos EUA”.
Raízes da crise
Mas o que teme, afinal, o governo e suas forças e organizações armadas com relação ao povo do país? É preciso recuar um pouco, mesmo que de forma sumária, para que se permita uma visão mais abrangente. A atual crise financeira, que abala de forma implacável os mercados mundiais e, com forte ênfase, o mercado dos EUA vem sendo alimentada há tempos com o permanente e crescente endividamento do governo e da população e a exaustão do modelo econômico mundial de troca de mercadorias e bens dos países por dólares e papéis do Tesouro euano. O modelo foi estabelecido em 1971, com o fim do padrão-ouro e a ascensão do dólar como moeda de referência e de comércio.
Enquanto era o ‘guardião armado da democracia’ contra a ameaça anticapitalista soviética, nunca faltou ao país apoio entre os aliados do Ocidente. Ao invés de acumular vantagens com essa situação insólita, mas aceita, de adquirir com papel pintado sem valor real, como ironizou Charles de Gaulle, a produção industrial e de bens de todos os países, não só dos aliados, os EUA reduziram drasticamente o investimento em produção de bens e infra-estrutura e abandonaram-se ao conforto do investimento especulativo. Hoje, a sua produção industrial responde por pífios 10% do PIB. Outra opção falsa, apontada por críticos como o agudo analista e oficial da reserva da Marinha Chalmers Johnson e o economista Dean Baker, foi o ancoramento da produção industrial nas demandas militares, na crença de que sustentariam a presença forte da indústria, mas que termina por retirar recursos de usos socialmente necessários, como produtos para o consumo, e reduzir o crescimento econômico e o emprego.
Dinheiro fácil
Já antes de Cheney-Bush, as empresas de especulação financeira vinham maquinando sucessivas bolhas que, mesmo destinadas a estourar mais à frente, carreavam imensas fortunas aos grandes players do mercado, que, a partir de então, receberam o carinhoso apelido de banksters, misto de banqueiros e gângsters. Com a chegada da fasciodupla em janeiro de 2001, muita coisa mudou. Dispositivos antigos, como o Glass-Seagal Act de 1933, que proibiam, entre outras coisas, que empresas operassem ao mesmo tempo como bancos de investimento e de captação/especulação, foram revogados. Os impostos dos ricos foram reduzidos quase a zero.
Após a explosão da bolha pontocom, criou-se a bolha das hipotecas. Créditos abundantes foram derramados no mercado, não só para carros, consumo etc., mas principalmente para imóveis; proprietários foram convencidos até mesmo a vender suas casas e lançar mão de empréstimos altos para adquirir casas de sonho com preços sempre em ascensão. Também aboliram-se critérios de acesso aos empréstimos: pessoas sem cadastro ou com passado financeiro pouco recomendável igualmente foram contempladas. Os lucros, taxas e juros compensavam a espiral, que, enquanto durou, rendeu sempre muito dinheiro aos grandes players.
Mas o mais grave foi que a desregulação instituída por Cheney-Bush, que estimulou, em palavras cruas, mais banditismo financeiro dos banksters, aliada ao livre fluxo de capitais sem controles nem taxações, imposto ao mundo por agências como o FMI e o Banco Mundial a serviço dos EUA, permitiu a criação contínua de novos instrumentos financeiros, uma sopa de letras em que se embrulhavam junto com produtos financeiros confiáveis desde hipotecas de improvável resgate até papéis sem lastro concreto. Com o estouro, a maioria dos bancos do mundo viu-se com os chamados micos nas mãos, sem condição de saber a sua real situação. O clima de desconfiança que se instalou bloqueou os canais de troca de empréstimos que sempre garantiram os bancos. Nesses mercados, uma vez instalado, o pânico alimenta-se de si mesmo. O bailout de 700 bilhões de dólares que o governo arrancou, sob coação, em segunda votação, de uma Câmara ameaçada com a lei marcial, só servirá para enriquecer mais ainda os banksters já muito ricos e compensar investidores estrangeiros, para evitar que empreendam processos judiciais contra o governo e seus operadores, com destaque para o secretário do Tesouro e eventuais atores do único banco central particular do mundo, o FED.
Dimensões da crise
A isso sobrepõem-se fatos de ação prolongada como a desaceleração da produção real, o deslocamento da capacidade produtiva industrial para países de baixos salários e matérias-primas baratas, o progressivo sucateamento dos meios de produção industrial e sua concentração atualizada apenas no campo da produção de armamentos, o congelamento e a perda do poder de compra dos salários dos trabalhadores por mais de duas décadas, o aumento espantoso da concentração de riqueza (0,1% mais rico tem mais dinheiro que 50% / 1% mais rico tem mais dinheiro que 90% / os 400 mais ricos aumentaram sua fortuna em 670 bilhões sob Cheney-Bush), o assentamento do país sobre o consumo e não sobre a criação de bens e riqueza, a suburbanização maciça baseada na ocupação da terra agricultável e no transporte com derivados de petróleo. Em prazo mais curto, assumem vulto a alta dos juros das hipotecas após períodos de bonança, o súbito drástico aumento do preço do petróleo, a crise da produção de alimentos e o aumento dos seus preços.
Tudo isso posa contra um pano de fundo: governo endividado e sem mais possibilidade de crédito, população endividada num ambiente de quase extinção do crédito, municipalidades e escolas em falência, arrecadação de impostos em queda, milhões de famílias desalojadas de suas casas, cujos preços desabam, criando situações em que o valor da dívida supera esse preço, consumo em queda acelerada, desemprego em ascensão, extinção de áreas tradicionais de produção de bens; enfim, um panorama de terror social num país que gasta em dólares 5 bilhões com seguridade social, 60 bilhões com educação e mais de 1 trilhão (1.000 bilhões) com armamentos, guerras (as duas atuais, mal-sucedidas e fadadas à derrota) e forças armadas. E que deve mais de 10 trilhões, sem nenhuma possibilidade de pagar. A soma das dívidas públicas e privadas do país chega hoje a astronômicos 54 trilhões de dólares, e equivale ao PIB total do planeta.
A dêbacle do mercado de capitais dos EUA, com repercussões mundiais, foi anunciada com meses de antecedência por núcleos de analistas, com destaque para o sempre exato Laboratório Europeu de Antecipação Política – LEAP/E2020. Mas o que assusta mais são os outros prognósticos do LEAP e diversos analistas, a exemplo da falência em cadeia, já iniciada, de boa parte dos fundos de pensão (o que vai retirar de milhões de idosos a sua aposentadoria, já que a maioria depende de fundos particulares), e, principalmente, da falência financeira do governo dos EUA, por volta de fevereiro de 2009, o que deixará milhões de funcionários sem salários e empresas sem serviços ou encomendas e anuncia uma recessão severa no país. O governador da rica Califórnia, o mau ator Schwarzzenegger, acaba (início de outubro de 2008) de pedir 7 bilhões de dólares ao governo federal para pagar policiais, bombeiros e outros trabalhadores.
Campos de concentração
Nesse cenário, em que não é preciso ser analista de fatos futuros para prever manifestações públicas de extrema gravidade, em meio a fome e muito desespero, começa a fazer sentido a movimentação do governo Cheney-Bush para colocar na mesa pública os dispositivos da AR 500-3, com sua suspensão da Constituição, decretação de lei marcial e presença de tropas ferozes nas ruas. E também faz-se clara a sua intenção ao destinar, em 2006, algumas centenas de milhões de dólares à empresa KBR, filial da Hallyburton (ligada a Cheney, da qual foi presidente), para a construção de centenas de ‘centros de detenção provisória’ no país, já operacionais neste fim de 2008, a cargo da Fema. Esse título é um eufemismo para campo de concentração, local no qual se confinam, e se eliminam, dissidentes e manifestantes contrários aos governos e regimes fascistas ao longo da história. (O leitor interessado pode chamar ‘usa concentration camps’ ou ‘rex 84 camps’ no seu buscador.)
O escritor Rand Clifford, em recente artigo em Countercurrents, “America! Be trully afraid”, relata que, em 13 de março de 2008, a Câmara de Representantes realizou sua sexta sessão secreta desde 1812, em que se discutiram (e da qual vazaram) vários temas como, além do previsível colapso da economia (citado para setembro) e das finanças governamentais (anunciada para fevereiro de 2009, o que coincide com a previsão do LEAP), a possibilidade de uma guerra civil no país, a necessidade de prisão de ‘dissidentes’ e seu confinamento em campos de concentração, os cuidados para proteção às vidas de políticos e autoridades e seus familiares, e a união entre EUA, México e Canadá para formação de uma nova entidade política, com nova moeda.
Conforme Clifford, o possível tratamento a ser dado a esses ‘dissidentes’, muitos dos quais sacados das atuais listas, seria sua separação nos dois blocos já organizados nos campos, vermelho e azul. Os prisioneiros destinados ao vermelho seriam sumariamente eliminados como inimigos; os alojados no azul seriam ‘reeducados’ e, possivelmente, usados para trabalho escravo. Antes que se acuse o escritor de delirante, Clifford levanta algumas interrogações, a partir de fatos omitidos pela mídia. O primeiro é a citada presença, anticonstitucional, de tropas militares em ação no país. O segundo é a recomendação que vem sendo feita aos militares que retornam do Iraque para que confisquem armas em suas casas, e os questionários que incluem perguntas como a sua anuência em matar cidadãos, mesmo que amigos ou familiares, em caso de lei marcial declarada no país. Pastores têm sido com freqüência vistos em palestras às tropas, com prédicas que enfatizam a obediência ao governo como norma do soldado.
Resistências
Fica em aberto a qualidade e a dimensão da reação à escalada antidemocrática crescente do regime Cheney-Bush, que ostenta os menores índices de aprovação de um governo na história do país, da ordem de 20%. Os EUA contam com movimentos pacifistas e antiguerra bastante organizados, muitos deles compostos por veteranos de guerras. A imensa quantidade de militares afastados em licença médica vítimas de múltiplas doenças causadas por contaminação por materiais radiativos (depleted uranium-DU) e tóxicos em guerras recentes, que se estima na ordem de 350 mil, além dos mais de 15 mil já mortos, e a existência de milhares de crianças nascidas com deformidades pela contaminação com DU, certamente devem ser fatores de preocupação para os estrategistas que planejam, após matar milhões em guerras fora do país, investir finalmente agora de forma brutal contra seu próprio povo.
O abundante armamento sofisticado e as cerca de 10 mil ogivas nucleares depositadas no país são outro fator complicante. Ingênuo imaginar que as forças de repressão farão passeios agradáveis para prender cidadãos civis e militares sem enfrentar resistências, inda mais num país em que a venda de armas é liberada. E onde recentes alterações de altos comandos nas forças armadas, para abrir espaços e reduzir a oposição a medidas altamente questionáveis, como a ainda provável guerra ao Irã, deixaram transparecer autorizadas vozes discordantes do encaminhamento atual dos fatos políticos e militares.
Mas a insanidade dos neocons e de seus agentes políticos, já exposta ad nauseam, induz temor e reflexão a todos os cidadãos do mundo. O caminho clássico para a criação do Estado fascista já foi trilhado pelo regime Cheney-Bush, como aponta Naomi Wolf ao destacar dez passos: invocar inimigos internos e externos terríveis, difusos e onipresentes; criar um gulag para os dissidentes; desenvolver e disseminar tropas de choque ‘informais’; instalar um sistema de vigilância interna; hostilizar e perseguir grupos de cidadãos; criar ciclos de detenção e soltura; visar pessoas determinadas como alvo e exemplo; controlar e abafar a imprensa; igualar dissidentes e discordantes a traidores e terroristas; suspender a vigência das leis.
Aventuras como esta têm começo sempre conhecido, mas nunca se sabe como podem terminar. Hitler foi induzido ao suicídio no seu bunker. Stalin teve mais sorte: matou milhões e morreu quase velho. Mussolini, candidato a pequeno ditador, como Cheney-Bush, atreveu-se a assassinar centenas de milhares de cidadãos italianos, e terminou pendurado pelos pés, exposto à execração pública. A máquina de guerra euana até hoje funcionou razoavelmente, embora com alguns deslizes como no Vietnã, Iraque e Afeganistão, contra povos e cidadãos de outros países, e hoje acha-se mergulhada numa guerra sem fim. O gesto de ter-se voltado contra o ‘inimigo interno’ talvez cause júbilo entre os combatentes muçulmanos e outros adversários que sonham ver destruído o Grande Satã, e que comemoram o fim do ‘novo século americano’, que durou oito anos.
O novo presidente, qualquer que seja, se assumir, vai encontrar o ‘Estado Profundo’ plenamente instalado, com todos os instrumentos ilegais e de exceção na mão, um aparelho de terror e vigilância a pleno vapor e uma Constituição rota no bolso. A sociedade pensante dos Estados Unidos da América com certeza vai organizar-se rapidamente contra a maior e mais armada máquina de matar da história da humanidade.
- Leia EUA: Rumo ao Estado Fascista (II)
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*mARCIO .R* marciooalemao@hotmail.com Inserido em: 2010-01-30 20:37:30
Países como Espanha, Itália, França, Hungria, Austria, etc elegem atualmente representantes de partidos de cunho fascista, pra um viadinho do terceiro mundo tentar usar o termo "facista" como pejerativo só pq viu na Globo. lol
*Gilson Junior* gj@bol.com.br Inserido em: 2008-10-22 21:14:59
Muito interessante este artigo...Mais ainda, a propaganda do "google" ao final: "saiba como receber em casa o coração sagrado já benta"...:0
*José de Souza Castro* josedesouzacastro@hotmail.com Inserido em: 2008-10-20 20:36:54
Em "Os pontos de inflexão", Chico Villela já havia mostrado como a economia mundial ancorada no dólar dos Estados Unidos estava embicada para o desastre que estamos assistindo agora, e que talvez não seja tão desastroso assim. Pois, como revela nesse artigo, a ameaça é muito maior: o novo Reich que se constrói em território americano. Talvez o atual desastre seja a tábua de salvação, se o mundo despertar do coma induzido em que se encontrava. Um dos passos para a instalação da ditadura americana é bem visível no Brasil, especialmente em Minas Gerais: "controlar e abafar a imprensa". A paranóia anticomunista, que levou a maioria dos países ricos a se submeterem à economia dolarizada, a partir da década de 70, foi substituída pela paranóia antiterrorista, mas os fundamentos são os mesmos e a doença se agrava com o controle da imprensa. Este, no Brasil é um fato; nos Estados Unidos, onde a tradição democrática é muitíssimo maior, está se encaminhando para isso. Vai ser muito interessante acompanhar a história que se inicia agora e que tem lances novos. Não parece ser uma mera repetição do que o mundo já viveu por algumas ocasiões, mesmo que possa vir a lembrar o Apocalipse escrito não muito tempo depois da morte de Jesus. É curioso que esse novo apocalipse esteja sendo escrito na terra que viu nascer a democracia sob as bênçãos do protestantismo.
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