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Por que chora o Fernando Pimentel?
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José de Souza Castro, do Tamos com Raiva

Os jornais de hoje informam que o prefeito de Belo Horizonte, Fernando Pimentel, do PT, chorou ao discursar durante o lançamento do programa de governo de seu candidato a prefeito, o empresário Márcio Lacerda, do PSB. Não devia ter chorado, pois a seu lado estava outro apoiador do candidato "socialista", o governador Aécio Neves, do PSDB, que prometera para os próximos dois anos investir na capital mineira R$ 1,5 bilhão. Talvez, quem devesse chorar são os 8 mil funcionários aposentados da prefeitura.

Pois no programa de Márcio Lacerda está plantada a semente de algo que já afeta milhares de funcionários do governo de Minas que se aposentaram com a promessa de que receberiam os mesmos salários dos funcionários da ativa. Era uma promessa feita pelo candidato de oposição ao governo de Minas, em 1982, Tancredo Neves. Ele cumpriu a promessa e os governos que o sucederam a respeitaram, até que o neto Aécio Neves deixou os aposentados na mão, com o seu afamado "choque de gestão". Há seis anos eles praticamente não tiveram reajuste em suas aposentadorias, enquanto os funcionários da ativa se mostram satisfeitos – até eles também se aposentarem...

Márcio Lacerda planta sua semente na área de saúde, exatamente aquela em que os funcionários mais fazem greves, são os mais reivindicativos e trazem mais problemas à população, quando param de trabalhar ou trabalham mal. O que diz o programa dele, para resolver o problema? "Tendo como foco a melhoria da gestão do sistema e a excelência na prestação de serviços, Marcio lançou a idéia do programa Bom de Serviço, que premiará com pagamento extra os profissionais e funcionários que atingirem metas de bom atendimento previamente acordadas para os seus postos e centros de saúde".

Ou seja, o candidato apoiado pelo governador e pelo prefeito e por uma dúzia de partidos introduz no funcionalismo municipal o choque de gestão, começando pela área de saúde. O programa Bom de Serviço vai se encarregar de melhorar os salários do pessoal da ativa – e os aposentados que se danem!

E eles nem poderão reclamar com o presidente Lula, que também apóia Márcio Lacerda. Pois o presidente da República vem também tratando os aposentados pelo INSS a pão dormido, a menos que o aposentado faça parte daquela grande e vitoriosa parcela dos que ganham um salário mínimo de aposentadoria. Já os outros... Quem se aposentou há sete anos recebendo nove salários mínimos, embolsa hoje pouco mais de quatro. Mas já foi pior. Estudo do IPEA, de 2006, revela que, em relação à média 1991-1995, os benefícios do INSS como proporção do PIB passaram de 4,5% para 7,6%, em 2005. No governo Lula, a conta cresceu mais de um ponto percentual, até meados de 2006, principalmente por conta do aumento real de mais de 10% do Salário Mínimo naquele ano, quando cerca de 1/3 dos aposentados do INSS recebiam um salário mínimo e, assim, um aumento real de 10% do SM equivaleria a um aumento real de 3% a 4% da despesa previdenciária.

Bem, então, os funcionários aposentados do Estado e da PBH têm uma esperança pela frente: mais e mais aumento do salário mínimo, para que não passem fome e possam satisfazer outras necessidades básicas para sua sobrevivência.

Mas, por que Fernando Pimentel chorou? Aécio Neves, perguntado por repórteres, foi quem esclareceu: a culpa é de um "setor da Direção Nacional [do PT], um pouco mais míope, um pouco mais imediatista", conforme relato do jornal "Hoje em Dia".

O jornal "O Tempo", que abriu sua matéria dizendo que Pimentel estava em prantos, mais adiante informou:

Ao discursar, Pimentel se emocionou ao lembrar que vai deixar a administração e disse que paga um preço caro por ter construído uma aliança com o governador, que é de um partido historicamente rival do PT. "Nós todos estamos reunidos aqui em nome do interesse do povo da cidade de Belo Horizonte. Foi por isso que caminhamos juntos e pagamos o preço que temos pago, vocês todos sabem, por esta caminhada".

Como todo bom mineiro, Aécio Neves tratou de desconversar, mas prometeu ao candidato de Fernando Pimentel: "Você terá, pelos próximos dois anos, o maior volume de investimentos do governo do Estado que Belo Horizonte já teve em toda a sua história. Esses recursos estão no nosso orçamento".

Será interessante ver o que vai acontecer com esses recursos que já estão no orçamento do Estado, se a eleita for, por exemplo, a candidata do PCdoB, Jô Moraes, que tem a apoiá-la na campanha um dos homens mais ricos de Minas, o vice-presidente da República José Alencar.

Jô Moraes, que começou embalada nas pesquisas, mas perdeu posição para Márcio Lacerda depois do início do programa eleitoral em rádios e tevês, tenta junto ao Tribunal Regional Eleitoral conter a avassaladora vantagem do concorrente. Informa "O Tempo", hoje:

O advogado do PCdoB Luiz Gustavo Scarpelli impetrou, ontem, mais quatro processos no Tribunal Regional Eleitoral e fez denúncia no Ministério Público Eleitoral contra a chapa da aliança, formada por PSB e PT. Com esses processos, o partido da candidata Jô Moraes já contabiliza 19 ações no TRE contra Marcio Lacerda, referentes a irregularidades nas propagandas eleitorais. Nas outras 15, a legenda pede a suspensão da participação de Aécio Neves (PSDB) nos programas de rádio e televisão de Lacerda, justificando que o governador é de um partido que não está coligado à chapa.

Nas ações de ontem, Scarpelli condena o uso da "máquina pública". "Todos trazem graves e relevantes fatos que são irregulares, haja visto o uso escancarado e vergonhoso da máquina pública e o abuso de poder político. O candidato tem gravado programas eleitorais nas dependências de órgãos públicos. Ele recebe, nesses programas, depoimento de apoio às sua propostas por parte de servidores públicos que ali se encontram, no horário de serviço, na frente de munícipes e nas dependências desses órgãos. A lei veda expressamente a realização de campanha eleitoral em bens de uso comum".


De acordo com o jornal, Jô Moraes comparou ontem a campanha de Márcio Lacerda às propagandas de cerveja, e explicou: "Se você escutar muitas vezes o nome de uma cerveja, ela fica gravada na memória. O mesmo acontece na eleição. Se alguém escutar 23 vezes ao dia o nome de um candidato, vai ficar no consciente. Espero que na eleição as pessoas votem conscientemente".

Não sei se a candidata comunista diria a mesma coisa se a situação fosse inversa: ela com quase 12 minutos de propaganda eleitoral gratuita e o adversário com um minuto e meio; ela com 23 inserções ao longo do dia e Lacerda com apenas três.

Jô Moraes reclama, mas não perde o bom humor. Mas, pensando bem, não deveria ser o contrário? Jô Moraes chorando e Pimentel gargalhando?

09.2008

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 Publicado em: 2008-09-19 por csouza, última modificação em: 2008-09-19 por csouza

 

 

     

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