Um "socialista" na prefeitura de BH?

José de Souza Castro, do Tamos com Raiva

"A eleição de Lacerda é certa em Belo Horizonte". Essa afirmação foi feita nesta segunda-feira, um dia depois da escolha do empresário Márcio Araújo de Lacerda na convenção do PSB municipal, pelo jornalista Ricardo Noblat, em seu blog. "Aécio foi obrigado a engolir o apoio informal do PSDB ao candidato que ele mesmo escolhera de comum acordo com o prefeito Fernando Pimentel, do PT", acrescentou o ex-comentarista político do Jornal do Brasil, na década de 1980. Noblat tem fama de acertar em algumas de suas previsões, como na eleição de Tancredo Neves para o governo de Minas (conto a história no livro "Sucursal das Incertezas"), e tratei de fazer um perfil do futuro prefeito, tão pouco conhecido de todos nós eleitores.

Uma semana antes, outro arguto observador da política mineira, o jornalista Acílio Lara Resende, havia escrito em seu artigo semanal no jornal "O Tempo": "O socialista Márcio Lacerda". Estranhei, e ele perguntou: "Como devo chamar o candidato do PSB?". Respondi que podia chamá-lo de tudo, menos de socialista. O Márcio Lacerda que eu conhecia era um empresário bem-sucedido pelo menos até a privatização do Sistema Telebrás e que, antes de ser nomeado secretário do Desenvolvimento Econômico, pelo governador mineiro, em abril do ano passado, foi assessor na área de tecnologia e desenvolvimento regional da Fiemg. Era tão "socialista" quanto o ex-presidente da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais, Stefan Salej, que disputou nas últimas eleições uma vaga na Câmara dos Deputados, pelo PSB mineiro.

Salej estreava na política depois de passar anos se declarando homem da direita, e não se elegeu. Lacerda está estreando e vamos ver se será eleito, concorrendo com tarimbados políticos, entre eles a deputada federal Jô Moraes (PC do B) e o ex-deputado federal comunista Sérgio Miranda (PDT, ex-PC do B). É possível que durante a campanha ele se apresente não como empresário mas como ex-guerrilheiro, como o atual prefeito Fernando Pimentel. Ao que se diz, os dois foram companheiros de prisão em Juiz de Fora nos anos de chumbo.

Bem, mas só fiquei sabendo disso hoje, ao tentar conhecer melhor Márcio de Araújo Lacerda, o candidato do PSB e de mais 12 partidos (PT, PTB, PV, PMN, PP, PR, PSL, PT do B, PRP, PSC, PTN e PSDC), além do apoio informal do PSDB e do PPS e do apoio declarado no dia da convenção de Lula e Aécio. Provavelmente, não poderá contar com a presença, no palanque, do ex-prefeito Célio de Castro, eleito pelo PSB por duas vezes e que no segundo mandato adoeceu e se exonerou, deixando o cargo para o vice Fernando Pimentel, do PT.

Lacerda, o empresário

A Batik Equipamentos, uma das empresas do Grupo Partcon, de Márcio Lacerda, foi vendida em junho de 1999 à americana Lucent Technologies. Ao longo de 20 anos, a Batik havia desenvolvido em Belo Horizonte avançadas centrais de comutação usadas pelas empresas telefônicas estatais. A empresa foi lucrativa até 1997, ano em que o grupo de Lacerda faturou cerca de R$ 300 milhões. No ano seguinte, porém, por causa da privatização do Sistema Telebrás, a receita líquida caiu e o balanço registrou prejuízo de R$ 2,9 milhões.

Esse problema já havia sido previsto, em dezembro de 1997, por Márcio Lacerda. Em entrevista ao Indústria de Minas, jornal mensal da Fiemg, ele disse que a globalização estava levando rapidamente à concentração de empresas, de mercados e de clientes. E que as estrangeiras que comprassem as telefônicas brasileiras dariam preferência aos fornecedores de seus próprios países.

Por causa da privatização promovida por Fernando Henrique Cardoso, a Lucent, que tem acesso à tecnologia desenvolvida pelo Bell Labs, dos Estados Unidos, e que faturava mais de US$ 40 bilhões em 90 países, preparou-se para ser fornecedor preferencial das ex-estatais. Em poucos meses, comprou 15 empresas brasileiras, investiu US$ 145 milhões, dos quais US$ 45 milhões para comprar a Batik e a Zetax Tecnologia. Em 2006, se fundiu com a francesa Alcatel, formando o Grupo Alcatel Lucent, com sede em Paris, que faturou no ano passado 17,8 bilhões de euros em mais de 130 países. Não dava mesmo para a Batik concorrer com uma gigante dessas.

Márcio Lacerda nunca informou quanto embolsou com a venda da empresa, mas não parou de trabalhar, agora no serviço público.

Na lista do Mensalão

Desatento, eu não prestei mais atenção em Márcio Lacerda. Mas em 2005, durante o escândalo do Mensalão, soube que ele era secretário-executivo do Ministério da Integração Nacional. É que o publicitário Marcos Valério Fernandes de Souza leu para os parlamentares, durante a CPI do Mensalão, duas listas de pagamentos feitas por suas empresas. Entre os que teriam sacado recursos das suas contas em 2003 e 2004, conforme noticiou a imprensa, estava o nome de Márcio Lacerda, que teria embolsado R$ 457 mil do esquema engendrado pelo dono das agências DNA e SMP&B desde o governo Eduardo Azeredo, do PSDB, em Minas Gerais.

O ministro Ciro Gomes saiu em defesa de seu tesoureiro da campanha de 2002, mas não teve jeito. No começo de agosto de 2005, sua assessoria divulgou nota à imprensa informando: "Para assegurar a normalidade da missão institucional do Ministério da Integração Nacional e compreendendo que estaria em marcha uma tentativa de envolver esta pasta e seu titular no ambiente de escândalo por que passa o país, o sr. Márcio Lacerda solicitou seu afastamento do cargo".

Em 31 de março de 2006, ao deixar o ministério, Ciro Gomes fez questão de desagravar Márcio Lacerda.

"A Polícia Federal e a CMPI dos Correios comprovaram o que eu já afirmara, em nota pública, no dia 2 de agosto do ano passado: o senhor Márcio Lacerda é inocente das acusações que lhe foram assacadas", disse. Ciro exibiu à imprensa documentos extraídos da CMPI nos quais está escrito que Lacerda não recebeu qualquer dinheiro do empresário Marcos Valério. E mostrou, também, documento da Polícia Federal declarando que nada consta contra ele.

Um mês depois, o substituto de Ciro Gomes, ministro Pedro Brito, convidou Lacerda para reassumir o cargo, e ele recusou.

Curiosamente, no dia 20 de abril passado, o dono do jornal O Tempo, Vittorio Medioli, que por 16 anos foi deputado federal pelo PSDB mineiro, publicou artigo desancando Ciro Gomes e Márcio Lacerda. O motivo foi uma declaração do ex-governador do Ceará, em 20 de março. Ciro Gomes defendeu a aliança PT/PSDB e criticou os contrários, dizendo: "Aqui o que eu vejo é que a escória da política não tem espaço. A hegemonia moral e intelectual que preside esse movimento que Minas está fazendo é tão eloqüente e importante que a escória da política deve estar apavorada com isso".

Escreveu Medioli, em resposta:

Ciro abriu assim as comportas da insolência, mais uma vez, contra os que não aprovam a aliança PT/PSDB, aliança em volta de seu pupilo e ex-secretário Márcio Lacerda para prefeito de Belo Horizonte. (...)

Não sei que "intelectualidade" pode se ajoelhar a uma fórmula sem propostas, sem programas, sem meta diferente que o poder pessoal de algumas pessoas diretas, beneficiárias desse acordo.

Ciro provavelmente tem algo a ganhar também, mas não o revela. O ex-governador se agita para defender a escolha de seu pupilo Marcio de Lacerda, ex-tesoureiro de sua campanha, ex-secretário executivo de seu ministério e titular (segundo a "Folha de S.Paulo") de 82% das doações para a campanha presidencial de Ciro em 2002.

Ainda principal articulador da transposição do São Francisco que assalta a região mais pobre de Minas em suas parcas reservas para o futuro. E por falar de "moral", ingrediente que Ciro usa como se fosse sua exclusividade, Marcos Valério declarou, e nunca desmentiu ter entregado a Lacerda R$ 1 milhão para cobrir dívidas de campanha de Ciro.

Ciro, na época, afirmou que processaria Marcos Valério por essa infâmia. Ele o fez? Mesmo com isso consegue enxergar uma "hegemonia moral" ao lado de seu pupilo, como se fosse hegemonia quem conspira contra seu próprio Estado, e uma "escória da política" que se opõe.


Não sei se o dono do jornal continua pensando a mesma coisa que escreveu há pouco mais de dois meses, porque pensamento de político e tão instável quanto as nuvens.

Lacerda, o secretário de Aécio

Só voltei a ter notícia dele no dia 12 de abril de 2007, quando Aécio Neves anunciou que Lacerda seria o novo secretário de Estado de Desenvolvimento Econômico. Ele substituiu o secretário Wilson Brumer, que um mês antes havia sido nomeado coordenador do recém-criado Grupo Estratégico de Fomento (GEF). Um dos últimos atos de Brumer na secretaria foi a assinatura, com a Alstom, de um protocolo de intenções para instalação de uma unidade em Belo Horizonte, com investimentos previstos de R$ 40 milhões em três anos. "O fato de a Alstom chegar ao Estado com a proposta de atuar na área ambiental é significativo. Prova que existe demanda e que as empresas com potencial poluidor estão cada vez mais interessadas em sustentar seus negócios sem agressões ao meio ambiente", afirmou Brumer, na ocasião.

Somente mais de um ano depois a Alstom entrou para valer no noticiário, por outros motivos... Curiosamente, a Alstom é um spin-off da Alcatel. Até 1995, o grupo francês se chamava Alcatel Alsthon, quando os acionistas decidiram separar as empresas por ramos de atividade, criando a Alsthon, que, pelas últimas notícias, se especializou em corromper políticos para ganhar concorrências públicas no Brasil e em vários outros países ao redor do mundo.

A assessoria de imprensa de Aécio Neves distribuiu no dia em que o anúncio foi feito, um breve currículo de Márcio Lacerda: "É mineiro, nascido em Leopoldina, e tem vasta experiência na área empresarial, com destaque no setor de tecnologia. Na área pública, ele atuou até recentemente como secretário executivo do Ministério da Integração Nacional, sob o comando do então ministro Ciro Gomes". Acrescentou que ele "é graduado em Administração de Empresas, pela UFMG; empresário do setor de telecomunicações, desempenhou atividades executivas no Brasil e no exterior; foi sócio-proprietário da empresa de tecnologia em telecomunicações Batik, vendida para o grupo Lucent; foi secretário-executivo do Ministério da Integração Nacional (2003-2005); foi assessor na área de tecnologia e desenvolvimento regional da Fiemg".

Lacerda, o "bravo guerrilheiro"

Resolvi hoje fazer uma pesquisa no Google e descobri, para minha grande surpresa, o seguinte, a respeito do futuro prefeito de Belo Horizonte, segundo a previsão de Noblat:

Não é um nome conhecido, mas está em um cargo com bastante visibilidade. Por fim, a cereja do bolo: tem um passado de militância de esquerda – foi quadro da ALN, a mitológica organização de Carlos Marighella. (Pedro Venceslau, no Portal Imprensa, em 13/2/2008)

Márcio Lacerda foi um bravo da guerrilha urbana em Minas, do grupo Corrente, ligado à ALN (Ação Libertadora Nacional) de Carlos Marighella. Depois de muita tortura e vários anos de prisão, com a anistia, engenheiro, tornou-se empresário bem sucedido em informática, instalação de redes, etc. ("Correio de Sergipe", em 4/8/2005)

Vivendo e aprendendo. Um conhecido jornalista mineiro a quem recorri para me informar, pois durante anos ele teve Márcio Lacerda como uma das suas fontes, me revelou o alcance da minha ignorância. Ele disse que o atual prefeito Fernando Pimentel costuma dizer que o candidato foi seu companheiro de cela no quartel do exército em Juiz de Fora. Pode ser lenda. Uma pesquisa mostrou que nenhum dos dois participou da Guerrilha do Caparão, em 1996 e 1997, cujos presos ficaram em Juiz de Fora.

Até as eleições, talvez descubramos mais alguma coisa desse "socialista ex-guerrilheiro" do grupo de Carlos Marighella. Como se lembram, foram integrantes da Aliança Libertadora Nacional (ALN) e do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8) que, em 4 de setembro de 1969, seqüestram o embaixador norte-americano Charles Elbrick que acabou sendo trocado por 15 presos políticos que se refugiaram no México. Entre os 15, não estavam Fernando Pimentel e Márcio Lacerda. Nenhum dos dois é citado nos artigos a respeito, em minha pesquisa.

Mas eu fico pensando o que seria hoje no governo Lula o principal líder da ALN, Carlos Marighella, se ele não tivesse sido morto durante uma emboscada comandada pelo delegado Sérgio Paranhos Fleury, na Alameda Casa Branca, em São Paulo.

07.2008

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 Publicado em: 2008-07-01 por cristina, última modificação em: 2009-03-01 por csouza

 

 

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