Escravos do racismo
Cristina Moreno de Castro, do Tamos com Raiva
Há exatamente 120 anos, também num 13 de maio, em 1888, foi assinada a Lei Áurea – um marco da conquista dos negros no Brasil. Uma das leis mais curtas já feitas no país, com apenas dois artigos, ela estabelecia que:
Art. 1º É declarada extinta desde a data desta Lei a escravidão no Brasil; Art. 2º Revogam-se as disposições em contrário.
O que a gente aprende na escola lembra um pouco os contos de fadas que líamos na infância: uma linda princesa chamada Isabel, aproveitando a ausência de seu pai, assina uma lei que viria a libertar milhões de negros da escravidão.
Só que, de acordo com historiadores mais recentes, não foi bem assim.
A prática da alforria já vinha se fortalecendo desde pelo menos 1850, quando outra lei, mais importante, impediu o tráfico de escravos. O movimento abolicionista crescia, a pressão de toda a sociedade – inclusive dos próprios negros – aumentava junto, muitas das alforrias foram compradas pelos escravos.
A lei Áurea foi, sim, importante, mas não foi definidora de uma ação. Foi, antes, o reflexo de um movimento social mais amplo, que já estava em seu limite. Segundo estimativas da capitania de Minas Gerais – que, à época, em pleno circuito do ouro, era a mais populosa, mais rica e importante do país –, havia 130 mil forros e descendentes de primeira geração de ex-escravos, 110 mil escravos e 80 mil brancos. O negro teve um papel fundamental em sua própria libertação, tanto nessa época como em todos os movimentos que vieram antes e viriam a seguir.
Excluir os negros de sua luta pela liberdade, colocando-os na História como figuras passivas, à mercê de uma princesa feiosa, faz parte do preconceito que perdura até os dias de hoje.
Na escola, nos ensinaram que, libertados da função de escravos, os negros ficaram desestruturados e desprotegidos, invadiram cortiços, formaram favelas – que explicariam sua posição de minoria política até hoje.
Mas, para os novos historiadores, eles já estavam integrados à sociedade, partícipes ativos de um movimento social amplo, desde muito tempo. Quando veio a lei Áurea, eram pobres, pois sim. Mas eram politicamente engajados, tinham apoio uns dos outros para adquirir a alforria, eram integrados social e culturalmente. O que os teria impedido de prosperar, como os brancos pobres, de ter participação ativa na nova República que viria a partir de 1889?
Só o racismo.
Não é à toa que a lei da época impedia que ex-escravos votassem. Eles não tinham vez nem voz. Mesmo quando foram liberados para votar, em 1934, eram sutilmente impedidos de participar na política por meio de vias tortas. É que, na época da lei Áurea, quase 100% dos negros eram analfabetos. E os analfabetos só puderam votar a partir da nova Constituição, de 1988. Ou seja, exatamente cem anos depois da lei Áurea.
O resultado é o seguinte:
- De cada dez brasileiros pobres, seis são negros;
- A mortalidade infantil é 60 por cento superior entre as crianças negras;
- Uma negra, pobre, nordestina, moradora da área rural ganha, hoje, em média, um terço do que ganha um cidadão branco;
- No Brasil, os negros são quase três vezes mais atingidos pela insegurança alimentar do que os brancos;
- Entre os 10% mais ricos apenas 18% são negros (pardos ou pretos). Já na parcela dos 10% mais pobres, 71% são negros;
- 19% dos negros e 11% dos pardos ou mulatos já se sentiram discriminados por causa da cor em alguma situação relacionada ao trabalho;
- 37% dos negros e 25% dos pardos ou mulatos afirmam que se sentiram discriminados ao procurar por trabalho, e citam a rejeição pura e simples, o fato de a vaga ser destinada a pessoas de uma determinada cor e a obrigatoriedade de declarar a cor no momento de preenchimento de ficha;
- 24% dos pardos e mulatos e 14% dos negros afirmam ter sido vítimas de piadas ou insultos no trabalho em virtude da cor;
- 9% dos negros foram acusados de roubo ou reclamam de serem vistos como ladrões;
- 13% dos negros não se sentem ou sentiram aceitos no grupo ou turma de trabalho;
- Os negros, que têm rendimentos, em média, de R$ 390,90, recebem em média 46% a menos do que os brancos, que ganham, em média, R$ 718,50 por mês. Já os pardos (rendimento médio de R$ 441,50) ganham 39% a menos do que os brancos. Essa diferença é verificada em todos os segmentos passíveis de análise, sem que importe a ocupação, o setor de atividade, a escolaridade ou as horas trabalhadas: os brancos ganham sempre mais do que negros e pardos;
- Apenas 3,5% dos executivos das maiores empresas brasileiras são negros. As negras não chegam a 0,5%. Mas a população brasileira tem 49,5% de negros...
Apesar de todos esses dados – e muitos outros –, ainda tem gente com coragem de dizer que não há racismo no Brasil. Ele é velado, no país do Carnaval.
Nos Estados Unidos, onde ele era explícito e, até 1960, os negros não podiam votar por lei (além de ter que ceder o banco do ônibus para os brancos e tudo o mais), só agora um candidato negro terá reais chances de chegar à presidência. E justo ele, Barack Obama, não se comporta como um defensor da igualdade racial, mas como um político "universalista".
Mas já será um avanço. Uma profecia de Monteiro Lobato, autor de "O Presidente Negro", que poderá se concretizar muito antes do previsto pelo romancista para o ano de 2228. Mas, ainda, 120 anos depois do fim legal da escravidão no Brasil.
E aqui, quando teremos nosso presidente negro e iguais oportunidades para negros e brancos?
--------------------------------------------------------- Consultas: - ComCiência - Estudos afro-asiáticos - Folha de S.Paulo - Fundação Cultural Palmares - DataFolha - IBGE - IBOPE - Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Veja que atitudes vêm sendo tomadas por Lula para conter o racismo) - Senado.gov.br
* Pintura de Lívio de Morais (África)
05.2008
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*JAGUNMADEE* Jagunmadee@gmail.com Inserido em: 2009-04-23 12:17:50
Acessei o site por acaso, estava procurando noticias sobre a discussão no STJ, li os artigos e adorei, desde já quero parabenizar os responsáveis pelo site, sou militante desta causa, a nossa dificuldade e não ter identidade, ainda somos um país semicolonial, um abraço, fui
Visite:www.omadee.blogspot.com
jagunmadee.
*Cris* tamoscomraiva@hotmail.com Inserido em: 2008-11-18 20:34:22
Um novo texto da NovaE traz mais dados para sua divulgação, Alex (e extrema atenção de todos nós, interessados nessa questão): http://www.novae.inf.br/site/modules.php?name=Conteudo&pid=1118
*Cris* tamoscomraiva@hotmail.com Inserido em: 2008-11-17 11:27:25
Oi Alex, tudo bem?
Pela primeira vez, coloquei todos os links para as fontes ao final desse artigo, em vez de linká-los dentro do próprio texto.
Já recebi reclamações anteriores sobre isso, mas ainda não tive tempo de arrumar.
De todo modo, os links das fontes já caem direto nos textos com os números usados por mim no artigo, ok?
Qualquer dúvida, me diga.
Abraços,
*Alex Castro* alexandre@sobresites.com Inserido em: 2008-11-14 19:17:27
Oi Cristina. Adorei o artigo, falo muito sobre raça no meu blog, mas fica difícil de usar esses seus números sem ter a fonte. Você os tirou de onde? Abraços, Alex http://www.interney.net/blogs/lll?cat=2280
*Cris* tamoscomraiva@hotmail.com Inserido em: 2008-10-15 15:51:30
Mais:
"Estudo da UFRJ revela que mulheres negras morrem mais de aborto que as brancas
Isabela Vieira
Repórter da Agência Brasil
Rio de Janeiro - As mortes decorrentes de abortos clandestinos vitimam mais mulheres pretas e pardas que mulheres brancas, no Brasil. Estudo divulgado hoje (15) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), feita com os dados mais recentes do Ministério da Saúde, revela que das 565 vítimas de aborto entre 1999 e 2005, 50,6% eram mulheres pretas e pardas.
A pesquisa da UFRJ mostra também que, embora os homens brancos ainda sejam as maiores vítimas do HIV/Aids, no período estudado, a doença avançou mais (44,1%) entre as mulheres pretas e pardas, contra 27,7% entre as brancas, 20,4% entre os homens pretos e pardos e 0,07% entre os brancos.
De acordo com o coordenador do estudo, Marcelo Paixão, os dados refletem a falta de acesso a políticas públicas. “A exposição a esse contágio está incidindo de forma desigual nesse grupo, provavelmente, relacionado às baixas condições econômicas e de acesso a informações, inclusive, de tratamento da doença, que é gratuito”, lembrou.
A publicação da UFRJ mostra também que a população preta e parda, em geral, é a mais afetada por doenças ligadas à pobreza como a malária, hanseníase e leishmaniose. E, ao contrário de todos os outros segmentos, os homens pretos e pardos têm nos fatores externos, como a violência, a principal causa de morte."
*Cris* tamoscomraiva@hotmail.com Inserido em: 2008-10-15 15:48:00
Informação publicada na Agência Brasil, hoje, complemento ao artigo:
"Pesquisa mostra que negros são maiores vítimas de doenças da pobreza
- Isabela Vieira (Repórter da Agência Brasil)
Rio de Janeiro - Os brasileiros pretos ou pardos são as maiores vítimas de doenças ligadas a condição de vida precária, chamadas também de doenças da pobreza. A informação consta do Relatório Anual das Desigualdades Raciais do Brasil, divulgado há pouco pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com base na Pnad 2007 e nas informações mais recentes do Ministério da Saúde.
A pesquisa mostra que os pretos e pardos são a maioria absoluta dos mortos por malária (60,6%), por hanseníase (58,3%), por leishimaniose (58,1%), por esquistossomose (55,5%) e por diarréia (50%).
De acordo com o coordenador do estudo, professor Marcelo Paixão, a incidência dessas doenças na população preta e parda comprova a desigualdade no acesso a serviços básicos. “Significa que vivem em condições, principalmente os locais de moradia mas também os demais padrões, que os levam a um nível de exposição a doenças típicas da falta de saneamento básico e de vacinação, por exemplo. Enfim, daqueles que têm as piores condições econômicas”."
*Manoel Fernandes Neto * news@novae.inf.br Inserido em: 2008-05-13 21:57:40
Oi Castro...
Você tem razão...
Já mudei aqui também...
abs
*José de Souza Castro* josedesouzacastro@hotmail.com Inserido em: 2008-05-13 21:23:45
Cristina, acho que Ronaldo se refere a "coloridos e desbotados" que você usou no fim do seu artigo, talvez influenciada pelo inglês colored (negro) e pelo desejo de não repetir a palavra negro na mesma frase. Desbotados, acho que ninguém duvida, somos nós os tidos como brancos (no meu caso, mais manga rosa, embora bisneto de mulato). Ele viu, talvez, na expressão coloridos, uma manifestação de racismo. Lá no Tamos com raiva, já mudei, para não tirar o foco do seu artigo, que é a exposição do racismo que temos no Brasil e que, enquanto não for encarado de frente - como os negros nos Estados Unidos conseguiram que fosse, depois de muita luta - não será exterminado (o racismo, não os negros, como no livro de Monteiro Lobato - que talvez por isso é acusado de racismo, vê se pode...). Talvez seja melhor você mudar aqui também, para evitar outros equívocos. E bom trabalho aí na Bahia, onde nós, os desbotados, somos a minoria.
*Cristina Moreno de Castro* tamoscomraiva@hotmail.com Inserido em: 2008-05-13 20:02:59
Oi Ronaldo!
Acho que simplifiquei ao reduzir o problema dos negros somente ao racismo, mesmo. Se foi esta a impressão que passei, fique aqui a correção. A questão é mais complexa. Mas é que esta era a evidência que queria passar no meu texto, mais pela irritação de ver tantos outros autores ignorando a existência de racismo no Brasil.
As fontes de todas as estatísticas estão devidamente listadas no final do texto, com links que remetem diretamente às publicações e pesquisas que li.
Por fim, qual comentário racista ?!
Rodrigo: não acredito em raças cientificamente falando, com toda a precisão matemática que espera do meu artigo. Parti da premissa das raças políticas, que são evidentes em nossa sociedade. Apesar de evidentes, são imprecisas (no sentido de critérios objetivos, estatísticas, etc).
Abraço e obrigada pelos comentários.
*Ronaldo* ronaldonovaes@gmail.com Inserido em: 2008-05-13 17:37:11
Concordo que haja racismo no Brasil. Um dos piores do mundo! Pois não é um racismo explícito que se possa denunciar, mas implícito, velado e arraigado em nossa cultura.
Discordo quando a autora do texto diz que os negros só não se enriqueceram por conta do racismo. Acho este comentário simplista e redutivo.
A autora também deixa de fazer menção a compra de escravos pelos próprios negros alforriados - ex-escravos que mantinham outros negros como escravos! Além disso, não cita as fontes das diversas estatísticas que utiliza em seu artigo.
Pra terminar, encerra o artigo com um infeliz comentário racista.
*Rodrigo* abc@abcd.com.br Inserido em: 2008-05-13 15:58:59
Quando é dito no texto que a lei de impedimento do tráfico foi mais importante do que a que pôs fim a escravidão, é preciso que se exponha os critérios para essa escala de importância. Da maneira que está escrito, é uma colocação vazia.
Essas estatísticas que dividem a população em branca e negra também são imprecisas, pois não existe definição do que seja um negro ou um branco. Não existe uma distinção objetiva entre ambos.
Ainda, é preciso que se levem em conta os fatores econômicos que diferenciam os negros e brancos quanto à remuneração. Os negros foram inseridos na camada mais pobre da sociedade e isso se reflete ainda hoje nas oportunidades que recebem, contribuindo para que sejam observadas as diferenças citadas, o que não caracteriza racismo propriamente.
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