Petistas que alimentam Aécio
Cristina Moreno de Castro, do Tamos com Raiva
Os petistas mineiros não devem estar entendendo nada. Reinando há 16 anos na Prefeitura de Belo Horizonte (Patrus Ananias/Célio de Castro/Fernando Pimentel), eles agora vislumbram a possibilidade de votar numa coligação formada por PT, PSB e PSDB – o maior partido de oposição petista em nível nacional.
Apesar de a Executiva Nacional do Partido dos Trabalhadores ter vetado a aliança costurada entre Pimentel e Aécio Neves, o PT de Belo Horizonte aprovou, em 28 último, com votos de 406 delegados, uma moção "de repúdio e indignação" contra a cúpula nacional. No mesmo dia, ficou aprovado o nome de Márcio Lacerda (PSB) como pré-candidato às eleições municipais deste ano.
Para Pimentel, esta é a "vontade da cidade". Ameaça até ir chorar no TSE, embora seu presidente, Marco Aurélio Mello, já tenha adiantado que a questão deverá ser resolvida dentro do próprio partido.
Mas eu acho que o buraco é muito mais embaixo. Não tem nada a ver com as vontades de petistas e – muito menos, falo por mim – de belo-horizontinos. Tem mais a ver com a vontade de Pimentel se eleger governador de Minas em 2010 e (vontade ainda maior) de Aécio se eleger Presidente da República nas próximas eleições.
Quero relembrar um editorial profético feito pelo historiador Ricardo Moura Faria em seu Boletim Mineiro de História, em 08 de agosto de 2007:
Tão logo se começou a falar no Marcos Valério e a oposição começou a pensar no impeachment de Lula, o governador de Minas soltou o brado: "Lula não é Collor!" Qual o significado desse brado? Partindo de um governador que pertence a um partido que era oposição a Lula? Para mim era muito claro naquela época (e continua claro até hoje), que a preocupação de Aécio Neves só podia ser a possibilidade de seus planos irem por água abaixo.
Com efeito, não é segredo para ninguém que os planos do governador mineiro incluem a presidência da república. Em 2010, não antes, nem depois. Toda a trajetória de seu governo em Minas, fartamente propagandeada, corria e ainda corre visando "chegar lá". O impeachment de Lula, em 2005, seria desastroso, daí o brado do governador. Também não é segredo para ninguém a cordialidade do governador mineiro com o prefeito da capital, Pimentel, do PT. Eles trabalham de braços dados, nenhum conflito aparente.
Juntando as peças, para não me alongar muito. Pimentel larga o governo de BH ano que vem. E é candidato certo ao governo do Estado em 2010, quando Aécio estará largando o governo do Estado e preparando-se para a campanha presidencial.
Existe um acordo entre o PT e o PSDB mineiro, só não vê quem não quer: Aécio vai apoiar Pimentel para o governo do Estado e Lula vai apoiar Aécio para a presidência. Já se esqueceram da primeira entrevista do Lula reeleito? Ele disse, alto e bom som que para sua sucessão não haveria a necessidade de se indicar um petista ou alguém da base aliada, pois até mesmo no PSDB havia bons nomes. E citou com todas as letras o nome de Aécio Neves. (...)
Com o apoio de Minas e do "grande eleitor", quem tiraria a vitória de Aécio? Seriam, portanto, mais oito anos sem os paulistas no poder. FHC, Serra, Alckmin agüentariam esperar tanto tempo para se candidatar?
E não me venham falar que Aécio e Serra são do mesmo partido. O PSDB paulista e o mineiro mantém uma relação de cordialidade, mas há limites. Basta ver que o apoio dado pelo governador mineiro ao candidato tucano paulista na eleição presidencial não foi lá essas coisas... E se atentarmos para o que diz o "grande jornal dos mineiros", totalmente mancomunado com o governador, veremos que dos grandes jornais, o que tece críticas mais amenas ao governo federal é ele... Isso não é coincidência, ainda mais se lembrarmos da história deste jornal.
Como vemos hoje, nove meses depois, o professor Ricardo acertou na mosca.
Alguns petistas ainda vão se esquecer de todas as críticas que sempre fizeram – com toda razão – ao PSDB e ao Aécio Neves e vão dizer que essa coalizão é saudável, que condiz com a trajetória de Belo Horizonte, que os dois partidos, pelo menos em Minas, estão caminhando de mãos dadas. Eu, que nem sou petista mas sou mineira há 23 anos, quero discordar. Não acho natural, os dois partidos jamais andaram de mãos dadas antes da eleição de Pimentel e acho hipócrita atrelar o desejo político dos dois pré-candidatos ao Governo e à Presidência ao desejo duvidoso de toda uma população eleitora.
Mais que isso, usando como elo o Márcio Lacerda que, como bem relembra o site da revista Fórum, em 14/03/2008, esteve diretamente envolvido com o mensalão:
Bastava procurar no Google para saber que o nome indicado da inusitada aliança aparece nas primeiras 20 citações sob o chapéu "escândalo do mensalão". Quando o publicitário Marcos Valério leu para os parlamentares, durante a CPI, duas listas de pagamentos feitas por suas empresas, foram "revelados" os nomes das pessoas que sacaram recursos das suas contas em 2003 e 2004. Entre eles está Márcio Lacerda, então secretário-executivo do ministro Ciro Gomes, que teria sacado R$ 457 mil. Na ocasião, Ciro saiu em defesa de seu secretário e disse que houve um equívoco. Mas não teve jeito. Lacerda teve que deixar o cargo. Em nota lacônica, a assessoria do ministro informou: "Para assegurar a normalidade da missão institucional do Ministério da Integração Nacional e compreendendo que estaria em marcha uma tentativa de envolver esta pasta e seu titular no ambiente de escândalo por que passa o país, o senhor Márcio Lacerda solicitou seu afastamento do cargo". Pode ser que Márcio Lacerda tenha sido vítima de mais um linchamento da mídia. Mas também pode ser que não. A novela do "mensalão", como sabemos, está em curso e ainda vai demorar para terminar. O que causa estranheza é que uma passagem relevante como essa não tenha sido sequer citada em nenhum jornal ou site local. (Pedro Venceslau, em artigo publicado também no Boletim Mineiro de História)
Na verdade, isso não me causa qualquer estranheza. Afinal, Márcio é agora candidato de Aécio. E Aécio é sabidamente dado a umas censurazinhas na mídia mineira (ou "influências diretas", pra pegar mais leve).
Quero aproveitar este artigo para lembrar aos 71% dos (involuntariamente) desinformados que aprovaram o governo de Aécio nas últimas pesquisas – e especialmente aos petistas neo-tucanos que por ventura surjam em defesa desta coligação em Beagá – que o que começa em Minas poderá ter sérias conseqüências em todo o Brasil. E que, se Aécio ganhar, muitos de nós perderemos. Vejamos por quê:
Passado
* Como presidente da Câmara dos Deputados, Aécio ajudou a livrar Eurico Miranda de ter seu mandato cassado, embora houvesse provas suficientes nas CPIs do Congresso.
* Também foi ele que criou a tal "verba indenizatória" de R$ 15 mil mensais pagos aos deputados federais, que já custam, cada um, mais de R$ 92 mil por mês ao contribuinte.
* Quando presidente da Caixa Econômica Federal não fez nada para averiguar a denúncia da máfia na Loteria Esportiva, inquérito herdado de gestões passadas.
* A Globo adora Aécio, já que ele pagou sua dívida na compra da Light usando capital da Cemig. Pelo menos, é o que foi divulgado pelo Novo Jornal (e contestado pela assessoria de imprensa da Cemig).
Censuras
* O professor de Ciência Política da UFMG Fernando Massote, que fazia críticas ao governo de Aécio, teve sua última crônica censurada pela direção do Estado de Minas, jornal do grupo Diário Associados, e sua participação semanal na seção Opinião foi encerrada em 2003.
* O jornalista Ugo Braga trabalhava como editor de Economia no Estado de Minas quando publicou, em 15 de setembro de 2003, uma nota sobre o desempenho do governador de Minas. Dizia o seguinte: "o instituto paulista Brasmarket fez pesquisa nacional sobre o desempenho do início de mandato dos 27 governadores. Aécio Neves ficou no antepenúltimo lugar. Ganhou apenas do sergipano João Alves (PFL) e do roraimense Francisco Flamarion (PSL)". Ele foi chamado à sala do diretor de redação, Josemar Gimenez Resende, e, já no dia 16, foi demitido.
* No dia 2 de junho de 2004, o jornalista esportivo Jorge Kajuru cobria o jogo Brasil-Argentina no estádio Mineirão, pela Band, para o programa Esporte Total. No primeiro bloco, ao vivo, ele mostrou que, fora os 42 mil ingressos destinados ao grande público, mais de 10 mil estavam nas mãos de Aécio e de Ricardo Teixeira, presidente da CBF, para serem distribuídos a socialites, empresários, políticos e outros interesses do governador. Depois do intervalo do programa, Jorge foi tirado do ar. E, uma semana depois, no dia 9, Kajuru foi demitido pela Band, depois de 14 meses de trabalho, sem maiores explicações.
Assembléia
* Aécio não domina só a imprensa, mas também seus deputados. Tanto que, em 2003, nenhuma Comissão Parlamentar de Inquérito foi instalada na Assembléia Legislativa de Minas. Foram apresentados 12 pedidos de CPI, principalmente para investigar irregularidades no governo de Minas, mas também para apurar sonegação de ICMS pelas cervejarias. Todos foram engavetados. Para comparar: entre 1998 e 2002, no governo de Itamar Franco, foram instaladas 23 CPIs, com apoio do PSDB e PT.
Pro bolso dos privados
* Em maio de 2004, Aécio lançou um programa de Parceria Público-Privada (PPP), que funcionou mais ou menos assim: o governo (vulgo, os cidadãos) paga os custos, as empresas privadas ganham os lucros e ainda se gera um cabidão de empregos, no caso de grandes obras. Os empresários mineiros desconfiaram da proposta, no caso da construção do novo Centro Administrativo de Minas (ver parte de comentários). Mas uma parceria quase idêntica foi feita entre Aécio e as telefônicas, grandes doadoras em suas campanhas políticas.
Propaganda mentirosa
* Em novembro de 2004, a SMPB, agência de Marcos Valério, que atendia ao governo de Aécio, fez ampla campanha publicitária, para comemorar e divulgar o chamado "déficit zero", segundo o qual Aécio teria quitado todas as dívidas do Estado em apenas dois anos de governo. Acontece que a dívida não foi quitada e, para alguns, pode até ter aumentado. A campanha diz que Aécio conseguiu superávit de R$ 90,7 milhões em 2004. Mas "se esqueceu" de dizer que, no final de 2004, havia déficit de R$ 3,7 bilhões (R$ 2,9 bilhões em 2005), e que a dívida pública evoluiu de R$ 32,9 bilhões em 2002 para R$ 39,7 bilhões em 2005.
A maquiagem também aconteceu na área da Saúde, que teve déficit de R$ 1 bilhão, segundo o Ministério Público divulgou em 2004. A Constituição estabelece investimentos de pelo menos 12% da receita na Saúde. Aécio investiu 4,4% e, por meio de números maquiados, informou ao TCE e aos eleitores que tinha cumprido a meta. Para isso, contabilizou como gastos em serviços de saúde despesas com a erradicação da febre aftosa e outras doenças de animais, exposições agropecuárias, precatórios, construção de praças, locação de serviços de limpeza, material para fazer bloquetes e meio-fio.
Só nos dez primeiros meses do ano, Aécio gastou com publicidade mais de 520% do previsto no orçamento de 2005.
Caixa Dois
* Eis os bens declarados por Aécio à Justiça Eleitoral, em 2006: Aécio Neves da Cunha (PSDB): R$ 831.800,53; Lote 02, quadra 08 - MG = R$ 6.939,73; Ações da empresa Diários Assoc. S/A = R$ 0,09; Ações da Telebrás S/A = R$ 217,26; Banco Itaú S/A - aplicações = R$ 65.714,86; Banco Itaú S/A - c/c = R$ 8.701,80; Banco Itaú S/A - Super PIC = R$ 964,20; Bank Boston - conta corrente = R$ 10.940,44; Dinheiro em espécie = R$ 150.000,00; Dois lotes com 820 m2 - MG = R$ 9.175,62; N. C. Participações Ltda. = R$ 1.000,00; Quotas de capital junto à Im. Participação e Adm. Ltda = R$ 95.137,12; Quotas de capital junto à Nc Part. e Adm. Ltda = R$ 193.459,41; Um apto. na Avenida Epitácio Pessoa, RJ = R$ 109.550,00; Um apto. na Rua Samuel Pereira, MG = R$ 180.000,00. Valor máximo de gastos: R$ 20.000.000,00.
O site Congresso em Foco desqualificou a declaração do governador: "Um apartamento na cobiçadíssima Avenida Epitácio Pessoa, no bairro carioca de Ipanema, aparece na declaração de bens de Aécio com o preço de R$ 109,55 mil. Ele não discrimina o número de dormitórios que tem o imóvel, mas uma rápida pesquisa em classificados de jornal mostra que o dinheiro é pouco até mesmo para comprar um quarto-sala por ali." Além disso, com certeza sua participação na empresa fundada por Chatô não vale só nove centavos. E assim os candidatos já começam a enganar seus eleitores e a justiça...
* Em fevereiro de 2006, a Polícia Federal investigava esquema de Caixa 2, comandado a partir da estatal Furnas Centrais Elétricas, que pode ter beneficiado, em 2002, 156 políticos da base de FHC, com cerca de R$ 40 milhões. Segundo o documento da PF, já confirmado por peritos como autêntico, Aécio teria recebido R$ 5,5 milhões no ano em que se elegeu governador pela primeira vez.
Mensalão tucano
* Segundo a lista de Cláudio Mourão, ex-coordenador financeiro da campanha de Eduardo Azeredo ao governo de Minas, em 98, usada pela Polícia Federal para denunciar o "mensalão tucano" que derrubou o ministro Walfrido Mares Guia, Aécio recebeu R$ 110 mil para se reeleger como deputado federal em 1998.
* Os 15 denunciados no esquema são, com maior ou menor intensidade, aliados do governador tucano Aécio Neves. A começar por seu ex-vice Clésio Andrade.
* Matéria de 6/10/2005, na Folha de S.Paulo: "Os dados do sigilo telefônico investigadas pela CPI dos Correios revelaram 40 telefonemas trocados (34 dados e seis recebidos) em 2002 entre o celular do publicitário Marcos Valério de Souza e um celular registrado em nome do comitê de campanha do então candidato ao governo de Minas Gerais Aécio Neves (PSDB), atual governador do Estado."
***
Esse é o cara com chances reais de chegar à Presidência da República em 2010 – não necessariamente com o aval dos tucanos José Serra e Geraldo Alckmin, mas muito possivelmente com as bênçãos de Lula e do PT mineiro.
Quero voltar um pouco no tempo e mostrar pesquisa do Instituto DataFolha sobre a expectativa de governo Aécio e sua avaliação, pelos eleitores, um ano depois de empossado (ver no blog Tamos com Raiva). O tipo de pesquisa que não é divulgada em Minas. Naquela época, nada havia sido investido em Educação, nada em Segurança, só R$ 1 milhão dos R$ 23 milhões aplicados em estradas vieram das verbas de Aécio, nada tinha sido investido no Instituto da Terra, responsável pela reforma agrária no Estado, e a censura já comia solta, como vimos. De lá para cá, o que mudou, para que a taxa de satisfeitos subisse aos estratosféricos 71% dos mineiros? Certamente, a cobertura acrítica da imprensa não mudou. E a hipocrisia de Fernando Pimentel, tampouco.
05.2008
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Publicado em: 2008-05-04 por admin, última modificação em: 2008-05-05 por cristina |